começa a ser muito pronunciada a separação entre o empenho, o esforço, o saber e o sucesso. Um trajecto de esforço na aquisição de conhecimento já não garante coisa alguma em termos de ascensão social nem de obtenção de reconhecimento nem de durabilidade da expectativa de recompensa. Ao invés, a preguiça, a ignorância a esperteza saloia em circunstâncias felizes permitem obter êxitos demasiado visíveis. O exemplo de cima pode assim começar a frutificar. Poderemos ter uma geração inteira que vendo caminhos mais curtos que o esforço honesto de aquisição de conhecimento e da sua aplicação em trabalho íntegro, toma deliberada e decididamente os atalhos.
Não existindo a expectativa de correlação certa entre esforço e sucesso a busca da alternativa será iluminada pela badalhoquice. Até aqui as duas formas tinham coexistido de forma relativamente pacifíca. Não obstante, parece que a solução de troca tintas ganha vantagem relativa mas significativa sobre a outra forma de sobrevivência.
domingo, fevereiro 03, 2008
terça-feira, janeiro 29, 2008
A solução óbvia
Frequentemente somos surpreendidos com algumas bizarrias de uma coisa fascinante denominada código do proecesso penal. Aquele documento que descreve a forma como se deve administrar e conduzie a justiça depois de tipificados os crimes no código penal. Aqui fica a minha modesta contribuição. Na investigação do crime de corrupção activa a escuta telefónica é válida se um juiz de instrução a autorizar e, claro está, verificar pista a pista as gravações decorrentes da diligência. Excepto se por força de outra diligência imperativa e inadiável o juiz de instrução tiver de fazer uma verificação alietória das pistas o que poderá fazer desde que o ano seja bissexto ou tenha chuvido mais do que 2 mm por metro quadrado durante seis meses consecutivos ou oito meses intervalados na comarca onde o inquérito está sediado. O ónus da demonstração do carácter inadiavel ou imperetível de diligência alternativa fica ao critério do tribunal da relação sendo que o tribunal da relação tem doze dias úteis para se pronunciar a contar da data de entrada do requerimento de parte ou do ministério público desde que não tenham decorrido mais de sete dias sobre o conhecimento da diligência por parte de quem de direito, ou desde que a maré esteja em praia mar ou a lua em quarto crescente. Em todo o caso prevalece sobre estas regras o entendimento do Supremo em jurisprudência desde que seja elaborada durante o mês de Maio ou durante as festas das colheitas de Almodovar no caso da comarca ser a sul de Coimbra ou das festas de Nossa Senhora da Conceição do Mogadouro se a Comarca ficar a este de Aveiro. Prevalencendo naturalmente a este respeito a interpretação autêntica emanada da Universidade de Coimbra, desde que não seja aduzida reclamação ao tribunal constitucional quando Marte se encontrar na segunda casa de Saturno. Faz-se excepção também se uma das partes for notificada por oficial de diligências que tenha medida de sapato inferior a 35 ou cujo segundo casamento esteja em processo de divórcio, sendo que a excepção carece da cosimultaniedade do pagamento de uma estampilha fiscal autênticada pela segunda secção da fazenda de Figueiró dos Vinhos.
domingo, janeiro 27, 2008
da melhoria geral da qualidade
Uma coisa é certa, a qualidade geral dos sites, quer do ponto de vista estético, quer da sua operabilidade melhorou muitissimo com o governo Sócrates. Hoje podemos marcar consultas pela Net, pagar o imposto automóvel pela Net, pedir uma certidão narrativa completa de nascimento (uma coisa absolutamente fascinante...) pela Net, registar uma empresa completa pela Net, parece que já se pode mudar a residência pela Net, pode-se encomendar alfaces pela Net, pode-se ler o diário do governo pela Net, pode-se fazer a inscrição para o exame de terça feira pela Net, pode-se lançar a nota do exame de terça feira pela Net, pode-se fazer um blog com as coisas notáveis e cruciais da vida da flora intestinal de cada um, pode-se entrar no programa novas oportunidades pela Net, pode-se receber a conta do gás pela Net e pela Via CTT, pode-se pagar afactura da água pela Net. E nós portugueses aparentemente utilizamos bastante a Net. Gostamos da Net. O governo electrónico é um sucesso. Indiscutível. E, qualquer dia o Governo lançará ou mandará lançar um facebook ou outra rede social qualquer para mostrarmos as fotos da visita da tia Genoveva ou a ida à Disnelilândia de Paris ou as férias em Porto Galinha. Admira-me como ainda existam pessoas fisicamente. Literalmente.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
terça-feira, janeiro 01, 2008
sábado, dezembro 29, 2007
domingo, dezembro 23, 2007
Momento de Balanço
Julgo que tenho sido um razoável professor de gestão e de comportamento organizacional (nome pós moderno para psicologia aplicada ao que se passa dentro das empresas). Nos últimos tempos, contudo, sinto-me siderado pela minha incompetência. Numa rápida volta pelas livrarias, à procura de presentes não sei bem para quem, uma vez que uma pessoa até se pode sentir insultada quando lhe dão um livro, em vez de um frasco que custa no máximo quatrocentos paus dos antigos a produzir mas que depois quando se lhe junta um nome assim pró Dolce e Gabbana passa a ter de se expender sessenta ou setenta euros... mas dizia eu numa voltita às livrarias fui, inevitavelmente, dar também uma vista de olhos pela secção de gestão economia e ofícios correlativos. E, fiquei aterrado. Cuidava eu que saber qualquer coisa de análise financeira, mais de uns pózinhos pós modernos de psicologia social sob a forma de "segmentação de mercados" e os pês do posicionamento mais umas contas de estatística e investigação operacional e de estratégia mais dois dedos de conversa sobre motivação humana e a coisa safavasse.
Apanhei logo no focinho com "o que podemos aprender com os gansos". Os gansos? mas logo ao lado lá estavam eles, "os três porquinhos gestores"e o "sindrome do macho alfa". Pensava eu que era tudo pelas analogias do reino animal quando vi "o peixe que não quis evoluir" e sem paragem "o que podem ensinar os elefantes"e, claro está "um pavão na terra dos pinguins" tudo, quem sabe, incluido na "selva empresarial".
Passei à secção da gestão mística e secreta. Com "o poder de uma hora",o que faremos com duas? "a magia da estratégia", "os oito hábitos", "os sete poderes", "estratégia oceano azul", "re-imagine", "a chave do sucesso", "como ser brilhante" , "10 segredos simples". Seguia-se o menos homérico "Qualquer um consegue" e a necessidade de "gestores não mba's" escondidos na "a caixa dos tesouros"? Fiquei a saber que "talento não é tudo", que há também uma "inteligência moral", disseminadas n' "as leis não escritas"? pelo "o economista disfarçado"... que vai "de bom a excelente" e logo sem retomar o fôlego "de excelente a lider". Estive tentado com o "invista e fique rico", uma vez que investir e ficar pobre parece ser o caminho dos bancos ultimamente. Desconfiei fortemente do "winners never cheat" e desisti n'"o kama sutra dos negócios"....
Fiquei seriamente consternado e preocupado. Nada disto consta de Bolonha. Portanto será necessário um curso inteiro de gestão e mais dois ou três anos a ler estes estimulantes livros. Eu pelo menos fiquei a ver que ainda há vagas na secção do que podemos aprender com as salamandras, com o rinoceronte, com o coliforme fecal entre outros.
Apanhei logo no focinho com "o que podemos aprender com os gansos". Os gansos? mas logo ao lado lá estavam eles, "os três porquinhos gestores"e o "sindrome do macho alfa". Pensava eu que era tudo pelas analogias do reino animal quando vi "o peixe que não quis evoluir" e sem paragem "o que podem ensinar os elefantes"e, claro está "um pavão na terra dos pinguins" tudo, quem sabe, incluido na "selva empresarial".
Passei à secção da gestão mística e secreta. Com "o poder de uma hora",o que faremos com duas? "a magia da estratégia", "os oito hábitos", "os sete poderes", "estratégia oceano azul", "re-imagine", "a chave do sucesso", "como ser brilhante" , "10 segredos simples". Seguia-se o menos homérico "Qualquer um consegue" e a necessidade de "gestores não mba's" escondidos na "a caixa dos tesouros"? Fiquei a saber que "talento não é tudo", que há também uma "inteligência moral", disseminadas n' "as leis não escritas"? pelo "o economista disfarçado"... que vai "de bom a excelente" e logo sem retomar o fôlego "de excelente a lider". Estive tentado com o "invista e fique rico", uma vez que investir e ficar pobre parece ser o caminho dos bancos ultimamente. Desconfiei fortemente do "winners never cheat" e desisti n'"o kama sutra dos negócios"....
Fiquei seriamente consternado e preocupado. Nada disto consta de Bolonha. Portanto será necessário um curso inteiro de gestão e mais dois ou três anos a ler estes estimulantes livros. Eu pelo menos fiquei a ver que ainda há vagas na secção do que podemos aprender com as salamandras, com o rinoceronte, com o coliforme fecal entre outros.
domingo, dezembro 16, 2007
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Conto de Natal
Olhou para o parapeito da janela onde dois pombos se entretinham a esconder da chuva. Lá fora fazia um vento frio e a humidade entrava pelos ossos adentro. Na prateleira da esquerda estava depositado o correio por abrir da ultima semana. Nem sequer a carta com a ameaça de corte da electricidade por falta de pagamento lhe tinha despertado curiosidade. Na parede em frente pendiam desalinhadas duas fotos dos seis netos. Da estante, junto à porta da sala, tinham caído meia dúzia de livros, que se espalharam pelo chão afora até à mesinha onde jazia um computador velho cheio de pó. A casa, já tinha conhecido melhores dias, estava agora sempre numa semi penumbra. Uma espécie de nevoeiro que parecia reter memórias de outrora. O homem continuou a olhar para o parapeito, de onde já tinham desaparecido os pombos. Estava congelado no tempo, perdido na perscrutação de lembranças que não pareciam ser nem boas nem más. A face estava como tudo o resto naquela casa. Sem cor, sem emoção e sem sentido. Jazia junto ao pé direito, calçado com uma chinela velha, um papel que parecia ser de análises ao sangue. Uma carta, na mão direita estava há largos minutos na iminência de cair para o chão abandonada na inutilidade das novidades que jão não importavam. Aparentemente as metastases tinham alastrado ao fígado. Finalmente. Pouco depois o homem sentara-se junto à mesinha onde jazia o velho computador e onde estavam as pastas com os exames médicos e os prospectos do lar de terceira idade que prometia uma velhice com "tranquilidade e qualidade". Tinha feito as contas e os filhos teriam de entrar com mais de metade do pagamento. A pensão de reforma de director do laboratório de qualidade não chegava para a mensalidade e todo o PPR seria para a entrada inicial. O fee. Além disso ainda era preciso suportar uma parte das despesas de saúde que o seguro já não cobria. Esgotara-se. Nem um terço da despesa da farmácia e da radioterapia. Esperava que pelo menos o seguro ainda cobrisse a operação à catarata da vista direita. Tinha feito as contas e concluira, com óbvia racionalidade, que o mais vantajoso para todos seria o seu desaparecimento. Os filhos mal conseguiam aguentar os pagamentos das mensalidades dos colégios dos netos, as fardas, as aulas de natação, os computadores, os softwares e o diabo que hoje tudo se paga como resgate do rei. A ordem natural da vida deveria ser o avô a ajudar e não a tornar-se num peso inútil. Um empecilho que se mija e gasta uma fortuna em fraldas. Abriu o estojo que estava na cómoda. Retirou a arma. Verificou o carregador e meteu uma bala na câmara. Puxou a culatra atrás e ouviu a bala a entrar no cano. Encostou a boca do cano à têmpora direita e premiu o gatilho. Clic. Clic. Clic. Clic. Clic. Foda-se. O cabrão do marroquino tinha-o aldrabado. Tinha trocado o ouro e um relógio de marca pela beretta. Tinha sido enganado. A puta da arma fabricada na China não chegava nem para um disparo singelo e redentor. Foda-se.
sábado, novembro 24, 2007
Por acaso
ou sem causalidade assinalável, devo confessar que não devo ler o mais recente livro do José Santos nem do Sousa Tavares. Também não tenciono ler a crónica do Pulido Valente em que, aparentemente, desconsidera forte e feio os dois escribas. Devo ainda informar que nunca li nenhum livro do Valente. Tal como devo informar que nunca li nenhum livro dos outros dois. Não planeio manter esta determinação para o resto da vida. Pode bem ser que um dia destes leia alguma coisa destas personagens. De resto penso que estas decisões pouco ou nada contribuam para a minha tensão arterial nem para a degradação ecológica do planeta. Um dia, incenerados, todos seremos devidamente esquecidos.
terça-feira, novembro 20, 2007
Outra área
de grande qualidade é o fornecimento de água no concelho de Cascais. Nos últimos dois meses já me calharam pelo menos seis interrupções de fornecimento... fico muito feliz porque a coisa é privada e portanto estou certo que os cortes são devidamente programados....
Ultimamente
tenho apanhado em pleno focinho com a lógica que nos invade um pouco por todo o lado. Paga-se menos por cada hora de trabalho e paga-se ao fim de alguns meses. Em breve, poderemos ser todos homens e mulheres a dias, numa qualquer actividade, sendo que todas as actividades se assemelharão quanto aos termos de pagamento. Podemos mesmo organizar um banco de tempo... hoje mudamos as velas numa oficina automóvel, amanhã damos formação em programação, depois de amanhã atendemos chamadas num call center, na semana seguinte podemos, quem sabe, ser auxiliares de cuidados paliativos...
O que me diverte mais é que no meio deste movimento, aparentemente inexorável, nos solicitam papelada que prova a preocupação com a qualidade do serviço...
O que me diverte mais é que no meio deste movimento, aparentemente inexorável, nos solicitam papelada que prova a preocupação com a qualidade do serviço...
segunda-feira, novembro 05, 2007
A missiva
Ora no dealbar do segundo ciclo do ensino básico na escola EB+2/3/1,65+NO+ER+ES ou coisa parecida de Carcavelos fomos (criançada e pais) recebidos pelo "gerente do projecto pedagógico" ou melhor pelo "grande timoneiro do projecto educativo" que entre outras coisas nos seduziu com o cuidado colocado no refeitório e na excelência da comidinha prás nossas crianças... aliás, já no dia da cerimónia de recepção ficou ali logo patente a excelência do pequeno lanche que a malta tinha direito enquanto os pais se reuniam pela primeira vez com os(as) diretores(as) de turma. Não só a comida parecia um festim como era quase luxuriante visualmente entre papaias, mangas, uvas, kiwis, melancias e melõe e saladinhas de pinhão e eu sei lá que mais...
Tudo devidamente enquadrado por nutricionistas que, ali logo e sem aviso prévio, fomos notificados, era inovação de relevo daquela equipa dirigente e daquela escola aspirante a subir fartos degraus nos rankings. Comida saudável, fresca, de frescos devida e cuidadosamente confeccionada por pessoal carinhoso e avós de outras crianças, selo de qualidade que tranquiliza qualquer pai que já foi neto. Ponto final. Parágrafo, senhores ouvintes.
Posteriormente, reforçava-se a atenção e preocupação com os estouvados infantes, pois nem sequer sopinha de legumes e fruta abocanhavam na cantina e iam directamente ao bar cultivar o colesterol em pizzas e cachorros pelo que os pais deveriam estar atentos. Isto e novo aviso de piolhos à solta era o saliente e sublinhado na segunda reunião de pais.
Hoje, foi reposta a normalidade. Veio missiva afiançando que a avó principal se tinha reformado, de modos que a Direcção Geral Regional do Ensino Básico de Lisboa e do não menos imponente Vale do Tejo, competentíssima para o assunto tinha adjudicado o fornecimento da paparoca a uma dessas empresas de catering que, porventura, terá sobrevivido à sanha da ASAE. Ignora-se o que terá acontecido às restantes avós da cantina e às benditas técnicas de nutricionismo....
Uma coisa é certa, o projecto pedagógico sofreu rombo assinalável, o nutricionismo nem se fala, e agora a comida da cantina é pré fabricada e refrigerada e requentada numa promiscuidade de óleos e sebos e margarinas e ranço, os frescos liofilizaram-se (com sorte) e o equilíbrio de ácidos e proteínas e hidratos foi chão que deu uvas...
Tudo devidamente enquadrado por nutricionistas que, ali logo e sem aviso prévio, fomos notificados, era inovação de relevo daquela equipa dirigente e daquela escola aspirante a subir fartos degraus nos rankings. Comida saudável, fresca, de frescos devida e cuidadosamente confeccionada por pessoal carinhoso e avós de outras crianças, selo de qualidade que tranquiliza qualquer pai que já foi neto. Ponto final. Parágrafo, senhores ouvintes.
Posteriormente, reforçava-se a atenção e preocupação com os estouvados infantes, pois nem sequer sopinha de legumes e fruta abocanhavam na cantina e iam directamente ao bar cultivar o colesterol em pizzas e cachorros pelo que os pais deveriam estar atentos. Isto e novo aviso de piolhos à solta era o saliente e sublinhado na segunda reunião de pais.
Hoje, foi reposta a normalidade. Veio missiva afiançando que a avó principal se tinha reformado, de modos que a Direcção Geral Regional do Ensino Básico de Lisboa e do não menos imponente Vale do Tejo, competentíssima para o assunto tinha adjudicado o fornecimento da paparoca a uma dessas empresas de catering que, porventura, terá sobrevivido à sanha da ASAE. Ignora-se o que terá acontecido às restantes avós da cantina e às benditas técnicas de nutricionismo....
Uma coisa é certa, o projecto pedagógico sofreu rombo assinalável, o nutricionismo nem se fala, e agora a comida da cantina é pré fabricada e refrigerada e requentada numa promiscuidade de óleos e sebos e margarinas e ranço, os frescos liofilizaram-se (com sorte) e o equilíbrio de ácidos e proteínas e hidratos foi chão que deu uvas...
segunda-feira, outubro 29, 2007
O teste de matemática
Hoje o garoto mais velho, no quinto ano, teve o primeiro teste de matemática. Ainda não sei o que aconteceu, mas duvido que lhe tenha corrido mal (temos um negócio de jogos prá playstationportable dependente de 95% pra cima a ciências português e matemática). No fim de semana fez uma série de exercícios (fichas na moderna terminologia....) e amanhava a coisa com limpeza. De qualquer modo tive oportunidade de ler com mais atenção o manual. E tinha lá umas páginas sobre a calculadora. Por exemplo como carregar na tecla On.
Não sei se por iniciativa da professora, se por causa do projecto pedagógico da escola ou se por outra razão qualquer, o meu filho ainda não tocou nessa maravilha da técnica, de modos que a tabuada, o conjunto dos números naturais e o conjunto dos números inteiros, os números decimais, o eixo do xis, as operações de seriação de maiores e menores e igualdades e as operações artiméticas básicas ainda são manipulados por ele (e pelos colegas) à força de pensar e usar o cérebro, sem recurso à magnifica calculadora.
Tanto melhor. As páginas que li são absolutamente surrealistas. Eu só conheci uma calculadora no primeiro ano da faculdade e mesmo assim a sua utilização só começou a sério no terceiro ano, num tempo em que os cursos tinham cinco... deverei pedir indemnização ao ministério? Por sofrimento atroz e desnecessário? Ou devo ficar feliz por o meu filho não ter ainda travado conhecimento com os pedófilos intelectuais que conceberam as "abencerragens" que vêm naquele manual?
Não sei se por iniciativa da professora, se por causa do projecto pedagógico da escola ou se por outra razão qualquer, o meu filho ainda não tocou nessa maravilha da técnica, de modos que a tabuada, o conjunto dos números naturais e o conjunto dos números inteiros, os números decimais, o eixo do xis, as operações de seriação de maiores e menores e igualdades e as operações artiméticas básicas ainda são manipulados por ele (e pelos colegas) à força de pensar e usar o cérebro, sem recurso à magnifica calculadora.
Tanto melhor. As páginas que li são absolutamente surrealistas. Eu só conheci uma calculadora no primeiro ano da faculdade e mesmo assim a sua utilização só começou a sério no terceiro ano, num tempo em que os cursos tinham cinco... deverei pedir indemnização ao ministério? Por sofrimento atroz e desnecessário? Ou devo ficar feliz por o meu filho não ter ainda travado conhecimento com os pedófilos intelectuais que conceberam as "abencerragens" que vêm naquele manual?
sábado, outubro 20, 2007
Então agora que o íamos promover é que se vai embora?
Um dos problemas mais fascinantes da moderna vida organizacional consiste na determinação do “valor” dos recursos humanos. Valor do desempenho, valor potencial do seu desenvolvimento. A forma como procuramos determinar esses valores é, em si mesma, outra coisa fascinante. Claro que poderíamos dizer que os rituais de “avaliação de desempenho” são, apenas, mais uma forma de protecção que encontrámos para evitar ter conversas normais e vulgares, com os que nos rodeiam, por forma a estabelecermos relacionamentos satisfatórios, simples, eficazes e produtivos. Mas não. Parecemos preferir evitar completamente enfrentar o “outro”, mormente em aspectos em que a dissensão pode emergir, com todo o cortejo de coisas desagradáveis e viscosas, como emoções, que daí, em geral, advêm.
Através de esquemas, sofisticadíssimos, determinamos em “score cards” complicadíssimos a “importância” para a organização de cada um dos seus recursos humanos. Há uns anos, um amigo meu tendo ficado furioso com a sua avaliação de desempenho, numa multinacional, ameaçou sair, tendo os “scores” sido, assaz rapidamente, “reavaliados”. Tinham sido, oportunamente, descobertos erros na primeira avaliação talvez, e quem sabe, porventura, relacionados com a “descoberta” facultada pelo meu amigo que o irmão era chefe de gabinete de um ministro particularmente essencial para a vida da multinacional. (Esta história, apesar do que possam pensar, não se desenrolou em Portugal, não é portanto, necessário tentarem adivinhar quem é o meu amigo...).
O valor das pessoas, é assim de geometria variável, aumentado com circunstâncias e coincidências como a anterior e baixando quando a saída das pessoas parece inevitável ou desejável. Se as pessoas saem por sua iniciativa, parece existir um fenómeno de rejeição sentido por quem fica, traduzido num processo de dissonância cognitiva, que só pode ser resolvido pela desvalorização da pessoa que sai, ao fim ao cabo um inútil ou um “desgraçado” a quem só já mantínhamos por mera caridade. Se a pessoa que sai era importante para a organização trata-se, adicionalmente, de um “mal agradecido” a quem estávamos à beirinha de promover a director geral de sistemas transversais, e que afinal saiu como um “traidor” por vezes sem “escrúpulos”...
Sempre achei extraordinários os diálogos de separação, quer nas relações pessoais quer nas relações de trabalho.
Curiosamente, nos últimos tempos o valor das pessoas não está associado ao seu passado. O valor da pessoa não apresenta correlação com os desempenhos anteriores mas sim com uma noção de “potencial”. Com esta subtil transformação de sentido, quase podemos dizer que poderemos eliminar as avaliações de desempenho, processos caros e demorados que ainda por cima geram expectativas, irrealistas por certo, às pessoas que são avaliadas de modo positivo. Reenquadrando tudo no “potencial”, fazemos depender do futuro, sempre deslizante, uma opinião sobre o valor de qualquer pessoa. Poderemos sempre argumentar que ainda não “vimos” nada de extraordinário, colocando, sistematicamente, tudo em questão, nomeadamente gerando na pessoa uma angústia sempre renovável pela necessidade de “provar” de novo e sempre no futuro o que vale, o que, mormente em contextos voláteis com os do presente, se torna um exercício de aceitação da incerteza e de insegurança verdadeiramente notável. Isto tem a vantagem de desgastar bastante as pessoas cujo património de vida, de experiência e de bom trabalho numa qualquer organização será sempre desvalorizado e sem relevo.
Criam-se organizações sem memória, sem lealdades nem cumplicidades duradouras entre os seus habitantes, mas a quem será, necessariamente, exigida uma dedicação e comprometimento organizacional unilaterais. É talvez por isso que a muitos de nós, pensando nas relações e “contratos psicológicos” de trabalho com algumas organizações, ocorre a memória da figura imortalizada pelo Bordalo Pinheiro.
©José Manuel Fonseca
Através de esquemas, sofisticadíssimos, determinamos em “score cards” complicadíssimos a “importância” para a organização de cada um dos seus recursos humanos. Há uns anos, um amigo meu tendo ficado furioso com a sua avaliação de desempenho, numa multinacional, ameaçou sair, tendo os “scores” sido, assaz rapidamente, “reavaliados”. Tinham sido, oportunamente, descobertos erros na primeira avaliação talvez, e quem sabe, porventura, relacionados com a “descoberta” facultada pelo meu amigo que o irmão era chefe de gabinete de um ministro particularmente essencial para a vida da multinacional. (Esta história, apesar do que possam pensar, não se desenrolou em Portugal, não é portanto, necessário tentarem adivinhar quem é o meu amigo...).
O valor das pessoas, é assim de geometria variável, aumentado com circunstâncias e coincidências como a anterior e baixando quando a saída das pessoas parece inevitável ou desejável. Se as pessoas saem por sua iniciativa, parece existir um fenómeno de rejeição sentido por quem fica, traduzido num processo de dissonância cognitiva, que só pode ser resolvido pela desvalorização da pessoa que sai, ao fim ao cabo um inútil ou um “desgraçado” a quem só já mantínhamos por mera caridade. Se a pessoa que sai era importante para a organização trata-se, adicionalmente, de um “mal agradecido” a quem estávamos à beirinha de promover a director geral de sistemas transversais, e que afinal saiu como um “traidor” por vezes sem “escrúpulos”...
Sempre achei extraordinários os diálogos de separação, quer nas relações pessoais quer nas relações de trabalho.
Curiosamente, nos últimos tempos o valor das pessoas não está associado ao seu passado. O valor da pessoa não apresenta correlação com os desempenhos anteriores mas sim com uma noção de “potencial”. Com esta subtil transformação de sentido, quase podemos dizer que poderemos eliminar as avaliações de desempenho, processos caros e demorados que ainda por cima geram expectativas, irrealistas por certo, às pessoas que são avaliadas de modo positivo. Reenquadrando tudo no “potencial”, fazemos depender do futuro, sempre deslizante, uma opinião sobre o valor de qualquer pessoa. Poderemos sempre argumentar que ainda não “vimos” nada de extraordinário, colocando, sistematicamente, tudo em questão, nomeadamente gerando na pessoa uma angústia sempre renovável pela necessidade de “provar” de novo e sempre no futuro o que vale, o que, mormente em contextos voláteis com os do presente, se torna um exercício de aceitação da incerteza e de insegurança verdadeiramente notável. Isto tem a vantagem de desgastar bastante as pessoas cujo património de vida, de experiência e de bom trabalho numa qualquer organização será sempre desvalorizado e sem relevo.
Criam-se organizações sem memória, sem lealdades nem cumplicidades duradouras entre os seus habitantes, mas a quem será, necessariamente, exigida uma dedicação e comprometimento organizacional unilaterais. É talvez por isso que a muitos de nós, pensando nas relações e “contratos psicológicos” de trabalho com algumas organizações, ocorre a memória da figura imortalizada pelo Bordalo Pinheiro.
©José Manuel Fonseca
segunda-feira, outubro 08, 2007
Entretanto
e continando no fascinante e difícil mundo dos projectos e percursos educativos, esta semana na actividade de estudo acompanhado cá de casa descobrimos coisas fabulosas. Confrontando dois livros de História para o primeiro ciclo, ficamos a saber que:
- num livro os Romanos estiveram por aqui cerca de 700 anos noutro estiveram mais de 400 anos....
- num livro o Conde D. Henrique morreu quando o D.Afonso Henriques tinha três anos enquanto para o outro livro já tinha quatro anos
- num livro a batalha de Covadonga foi em 718 noutro foi em 722
- num livro D. Afonso Henriques conquistou Beja noutro foi o D. Sancho II
O livro solo é uma coisa corporativa, passadista, gera menos emprego, menos lucros, menos impostos. Mas os livros à molhada podiam disfarçar mais....
- num livro os Romanos estiveram por aqui cerca de 700 anos noutro estiveram mais de 400 anos....
- num livro o Conde D. Henrique morreu quando o D.Afonso Henriques tinha três anos enquanto para o outro livro já tinha quatro anos
- num livro a batalha de Covadonga foi em 718 noutro foi em 722
- num livro D. Afonso Henriques conquistou Beja noutro foi o D. Sancho II
O livro solo é uma coisa corporativa, passadista, gera menos emprego, menos lucros, menos impostos. Mas os livros à molhada podiam disfarçar mais....
sábado, setembro 29, 2007
projecto educativo
aqui há uns tempos dei-me ao trabalho de ver leis e estatutos do ensino. Descobri que a palavra instrução era maldita. Que a palavra ensinar também não era grande coisa. Que disciplina ou o acto de disciplinar eram malditos, que aprender era um processo complicadissimo.....
Ontem participei pela primeira vez numa reunião de encarregados de educação na escola EBD+S2+3+ES+PL+EP ou coisa parecida...
Eram os pais dos miúdos do 5 ano que pela primeira vez estão na escola secundária de carcavelos. A dada altura porque houve uns qui pro quo entre um dos garotos de dez anos e outros de treze (os calmeirões a quem estão a rebentar as borbulhas e se estão a acomodar a outros fluidos...) e porque os de dez anos já descobriram que se podem baldar da fila da cantina e ir ao bar comprar cachorros e pizzas, e porque há um muro de onde podem cair dois metros, um dos pais, que já levava uma listagem de crianças com nomes números e origens anteriores para recolher emails e telefones dos outros pais por via de esperar ser eleito o representanto dos encarregados de educação daquela turma.... um aprendiz de político portanto (que naturalmente acabou eleito para se representar a si próprio no que bem entender...), inquiriu se poderiam os pais assistir aos almoços. Dado o adiantado da hora e porque o meu cérebro já tinha desligado imaginei logo este voluntarismo a causar uma desnecessária dose de sofrimento psicológico e físico ao filho dele.... levando umas rodas de calduços ou outras coisas ainda mais humilhantes e dolorosas....
É fabuloso como os pais e mães não se recordam como era quando andavam por ali.... e como era humilhante e embrarçoso ter a famelga no espaço em que agente circulava com os amigos....
Depois fiquei a saber que no processo de avaliação, o "saber estar", os tpc's, os trabalhos adicionais e voluntários (como colorir os distritos de Portugal em três cores diferentes...), as fichas dos livros principais, as fichas dos livros adicionais, as fichas fotocopiadas na escola contam mais que os testes....
Como se trata do futuro dos meus estou a aprender a exercer o direito de tar calado... tava com vontade de dizer que no décimo segundo tem um exame que conta tudo para seguir em frente sem ser para engenharia do turismo rural nas Berlengas na Universidade Independente mas calei-me, sem dizer também que "saber estar" devia ser o mínimo exigível e que contar trinta por cento para a nota final só porque não guincham como macacos não cospem no chão como o resto dos tugas não os ajudará quando tiverem de disputar empregos com engenheiros de Bengala ou de outro sítio qualquer na India ou na China que preenchem desde há vinte anos todas as vagas do mestrado de matemática de Harvard e as vagas dos odutoramentos em Economia de Stanford..... mas resolvi aconselhar o meu a portar-se bem nas aulas e fazer todos os trabalhos idiotas ou inteligentes que lhe apareçam pela frente com o irreparável argumento que ele, tal como o pai e o avô e o bisavô e os demais concidadãos tem acesso normal a idiotas e imbecis tal como às moscas.....
Entretanto outro episódio interessante tinha sido o da funcionária responsável pelos balneários do ginásio que tinha arrancado miúdas dos chuveiros onde algumas delas se tinham juntado aos pares para pouparem tempo no duche a seguir à ginástica e chegarema tempo ou à fila de almoço ou à próxima aula.... esta briosa funcionária terá berrado com as miúdas de dez anos e dado uns encontrões e puxões às miúdas acusando-as de coisas que as miúdas não conseguiram compreender bem mas que as deixou aterradas.... apreendeu os cartões das miúdas e entregou-os à directora de turma...
Aparentemente a mulher vê lésbicas em todo o lado, possuirá a missão na Terra de impedir mais a proliferação dessa maldição... pior, parece que nunca existiu semelhante regra que impedisse os miúdos de tomarem banho aos pares aos magotes ou sózinhos....
Ilustrativo do que é o funcionalismo público ainda entre nós, é que a cara da directora de turma espelhava bastante indignação com isto, mas uma certa dose de impotência conformada sobre o que se deveria fazer à senhora funcionária, ignorando se o conselho executivo tinha tomado alguma iniciativa como falar com a mulher e dizer-lhe que crianças de dez anos não são já totalmente experientes nos domínios da volúpia e da depravação moral que ela parece temer e que a acção dela pode causar mais mal que bem ao seu Santo Graal.... ou quem sabe, não perdendo tanto tempo mandar dois berros à mulher.... mas não....dá para entender que a mulher está lá desde a fundação da escola e que os professores pelo contrário estão mais numa plataforma giratória e logística de distribuição pelo que ela vai lá ficar....
enfim, mais uns avisos porque aprareceram piolhos no oitavo ano, já há horários de oficinas, os pais devem escrever na caderneta as alergias e os problemas auditivos e a coisa passou mais ou menos sem que o Rousseau se sentisse desafiado ....
Ontem participei pela primeira vez numa reunião de encarregados de educação na escola EBD+S2+3+ES+PL+EP ou coisa parecida...
Eram os pais dos miúdos do 5 ano que pela primeira vez estão na escola secundária de carcavelos. A dada altura porque houve uns qui pro quo entre um dos garotos de dez anos e outros de treze (os calmeirões a quem estão a rebentar as borbulhas e se estão a acomodar a outros fluidos...) e porque os de dez anos já descobriram que se podem baldar da fila da cantina e ir ao bar comprar cachorros e pizzas, e porque há um muro de onde podem cair dois metros, um dos pais, que já levava uma listagem de crianças com nomes números e origens anteriores para recolher emails e telefones dos outros pais por via de esperar ser eleito o representanto dos encarregados de educação daquela turma.... um aprendiz de político portanto (que naturalmente acabou eleito para se representar a si próprio no que bem entender...), inquiriu se poderiam os pais assistir aos almoços. Dado o adiantado da hora e porque o meu cérebro já tinha desligado imaginei logo este voluntarismo a causar uma desnecessária dose de sofrimento psicológico e físico ao filho dele.... levando umas rodas de calduços ou outras coisas ainda mais humilhantes e dolorosas....
É fabuloso como os pais e mães não se recordam como era quando andavam por ali.... e como era humilhante e embrarçoso ter a famelga no espaço em que agente circulava com os amigos....
Depois fiquei a saber que no processo de avaliação, o "saber estar", os tpc's, os trabalhos adicionais e voluntários (como colorir os distritos de Portugal em três cores diferentes...), as fichas dos livros principais, as fichas dos livros adicionais, as fichas fotocopiadas na escola contam mais que os testes....
Como se trata do futuro dos meus estou a aprender a exercer o direito de tar calado... tava com vontade de dizer que no décimo segundo tem um exame que conta tudo para seguir em frente sem ser para engenharia do turismo rural nas Berlengas na Universidade Independente mas calei-me, sem dizer também que "saber estar" devia ser o mínimo exigível e que contar trinta por cento para a nota final só porque não guincham como macacos não cospem no chão como o resto dos tugas não os ajudará quando tiverem de disputar empregos com engenheiros de Bengala ou de outro sítio qualquer na India ou na China que preenchem desde há vinte anos todas as vagas do mestrado de matemática de Harvard e as vagas dos odutoramentos em Economia de Stanford..... mas resolvi aconselhar o meu a portar-se bem nas aulas e fazer todos os trabalhos idiotas ou inteligentes que lhe apareçam pela frente com o irreparável argumento que ele, tal como o pai e o avô e o bisavô e os demais concidadãos tem acesso normal a idiotas e imbecis tal como às moscas.....
Entretanto outro episódio interessante tinha sido o da funcionária responsável pelos balneários do ginásio que tinha arrancado miúdas dos chuveiros onde algumas delas se tinham juntado aos pares para pouparem tempo no duche a seguir à ginástica e chegarema tempo ou à fila de almoço ou à próxima aula.... esta briosa funcionária terá berrado com as miúdas de dez anos e dado uns encontrões e puxões às miúdas acusando-as de coisas que as miúdas não conseguiram compreender bem mas que as deixou aterradas.... apreendeu os cartões das miúdas e entregou-os à directora de turma...
Aparentemente a mulher vê lésbicas em todo o lado, possuirá a missão na Terra de impedir mais a proliferação dessa maldição... pior, parece que nunca existiu semelhante regra que impedisse os miúdos de tomarem banho aos pares aos magotes ou sózinhos....
Ilustrativo do que é o funcionalismo público ainda entre nós, é que a cara da directora de turma espelhava bastante indignação com isto, mas uma certa dose de impotência conformada sobre o que se deveria fazer à senhora funcionária, ignorando se o conselho executivo tinha tomado alguma iniciativa como falar com a mulher e dizer-lhe que crianças de dez anos não são já totalmente experientes nos domínios da volúpia e da depravação moral que ela parece temer e que a acção dela pode causar mais mal que bem ao seu Santo Graal.... ou quem sabe, não perdendo tanto tempo mandar dois berros à mulher.... mas não....dá para entender que a mulher está lá desde a fundação da escola e que os professores pelo contrário estão mais numa plataforma giratória e logística de distribuição pelo que ela vai lá ficar....
enfim, mais uns avisos porque aprareceram piolhos no oitavo ano, já há horários de oficinas, os pais devem escrever na caderneta as alergias e os problemas auditivos e a coisa passou mais ou menos sem que o Rousseau se sentisse desafiado ....
segunda-feira, setembro 17, 2007
O ritual
de autoflagelação que foi imposto hoje a um colega meu pareceu-me demasiado cruel para ser verdade. Hoje percebi o que devem ter sido os tempos da China de Mao no tempo da Revolução Cultural. Não se faz aquilo a uma pessoa com sessenta e cinco anos. Inacreditável. O que poderá legitimar uma aleivosia daquelas? Um dia talvez consiga entender o que será a puta da compaixão para um que tem sempre na boca a beatitude de um catolicismo que deve ser de uma versão anterior ao Velho Testamento.
quinta-feira, setembro 13, 2007
De facto
na hora da separação, confesso que com alguma acrimónia, agastado e desencantado, fico perplexo com o que se vai passando na Instituição onde exerci durante nove anos, o melhor que soube e pude, funções de docente, embora aparentemente com algum mérito.....
Mas fico sobretudo atarantado com o facto de na única instituição, que conheço a nível do globo todo, onde o decisor máximo (senão único) tem mais de noventa anos!!! e, em face de decisões já incompreensíveis e inverosímeis, todos os demais decisores ou "responsáveis" fingirem que nada se passa, que não é nada com eles. Que no meio do faz de conta o dinheirinho ao fim do mês não lhes falte.
Eu é que confesso, a uns dias de comemorar o aniversário do meu enfarte....., prefiro não arriscar outro....
Mas fico sobretudo atarantado com o facto de na única instituição, que conheço a nível do globo todo, onde o decisor máximo (senão único) tem mais de noventa anos!!! e, em face de decisões já incompreensíveis e inverosímeis, todos os demais decisores ou "responsáveis" fingirem que nada se passa, que não é nada com eles. Que no meio do faz de conta o dinheirinho ao fim do mês não lhes falte.
Eu é que confesso, a uns dias de comemorar o aniversário do meu enfarte....., prefiro não arriscar outro....
sexta-feira, agosto 10, 2007
Eventualmente
um dia deste talvez venha a compreender esta coisa pós moderna da "governância" nas empresas. Para já, à pala deste conceito, um pouco por todo o mundo cresceram como hidras os orgão de controlo decisão execução planeamento supervisão...
Uma excelente desculpa para os salários e indmnizações e compensações e bónus absolutamente extraordinários e pouco católicos e pouco calvinistas.
O show particular dado nos últimos meses pela rapaziada do BCP, embora um pouco forçado pelo "outsider" Berardo, que parece ter mesmo particular prazer em ser inconveniente, é uma delícia.
Claor está a figura dos accionistas é verdadeiramente fabulosa. Parece ser necessário gostar de ser otário.
Uma excelente desculpa para os salários e indmnizações e compensações e bónus absolutamente extraordinários e pouco católicos e pouco calvinistas.
O show particular dado nos últimos meses pela rapaziada do BCP, embora um pouco forçado pelo "outsider" Berardo, que parece ter mesmo particular prazer em ser inconveniente, é uma delícia.
Claor está a figura dos accionistas é verdadeiramente fabulosa. Parece ser necessário gostar de ser otário.
terça-feira, julho 17, 2007
Hard Line
A concretização do negócio da compra da Chrysler pela Cerberus parece simbolizar o triunfo da visão “hard line” em Gestão. Isto é, o abandono do pós modernismo que atribuía misteriosos good will a empresas cujos activos cresciam, as despesas explodiam e as vendas eram pouco mais que anedóticas, mas as acções subiam de modo consistente e incompreensível para aqueles que foram formados na escola da análise fundamental e que nunca tinham sido seduzidos pelos head and shoulders dos programas tipo MetaStock. O crash da “economia da bolha” terminou com esses delírios. De volta ao mundo real, a aterragem da Banca, entre outros, foi dolorosa. Hoje, a exigência de resultados palpáveis, i.e. mensuráveis em dinheiro é um must. Voltámos mesmo à sabedoria mais “ancestral” de um marketing em que dos quatro pês, só o pê do preço é que é mágico porque gera cash inflow. Todos os outros representam dinheiro a sair...
A Cerberus é uma private equity com uma, aparente, estratégia de portfolio de base financeira pura e dura. Embora se consultarmos o seu website sejamos presenteados com uma linguagem mais tranquilizadora e com uma aparente vocação industrial, o carácter do negócio parece ser bem mais simples. Comprar empresas falidas e produzir um turnaround rápido e eventualmente doloroso mas eficaz. Depois a empresa pode ser recolocada no mercado para venda. A Cerberus mereceu alguma atenção, recentemente, porque segundo a Business Week comprou nos últimos tempos empresas em valor superior a dez biliões de dólares.
Em boa verdade o fenómeno não é novo. A Omnicom , a Cendant , a LVHM, são apenas alguns exemplos de empresas cuja vocação financeira aparece aliada à vocação de gestão de marcas para segmentos ou actividades específicas. Mas a base financeira é inequívoca. A exigência de rendibilidade mínima de x% por ano é imperativa. Estas empresas, algumas cotadas na bolsa outras completamente privadas, utilizam métodos de portfolio para avaliar o sucesso dos posicionamentos das empresas que titulam e, em geral, são constituídas por meia dúzia de especialistas com formação em finanças. Uma das coisas curiosas sobre estas empresas é que toda a gente é vice presidente, mas basicamente vice presidente de si próprio...
Quem sabe, este será o modelo de gestão de futuro reservado ao ocidente. Massas monetárias geridas por magos financeiros sem espírito empreendedor nem interesse pela inovação, muito menos pelos produtos e serviços, nem pelos clientes ou colaboradores, mas que garantem rendibilidades interessantes aos participantes privados/accionistas/obrigacionistas. Sob o guarda-chuva protector de marcas telúricas, criadas para que os consumidores estabeleçam relações de lealdade para além da materialidade dos produtos, numa verdadeira dimensão e domínio de transcendência, (com as quais a própria Igreja aprenderá), com produções totalmente deslocalizadas, com I&D deslocalizadas, com serviços administrativos deslocalizados, com assistência técnica e call-centers deslocalizados. Tudo a caminho das actuais periferias, permanecendo nos centros, eventualmente, apenas as private equities que gerem estas verdadeiras networks de actividades e processos como puzzles organizacionais descartáveis e efémeros e que em gestão de modo entusiasmado se tipificam como loose couplings.
Entre nós, esta visão pura e dura, assente na separação clara entre propriedade e gestão, com a gestão contratada sem eufemismos para gerar efectivo e inequívoco valor para o detentor do capital não colhe muitos adeptos. Entre nós, além dos colaboradores e dos clientes são ainda claramente preteridos os accionistas em favor dos gestores de circunstância.
Possivelmente esta visão é um bocado “dantesca” e manifestamente exagerada. Não obstante tem algumas “virtualidades” como costumam dizer algumas pessoas em politiquês. Nomeadamente, e, como membros da private equity deste país, a de permitir perguntar se existirá algum inconveniente em proceder ao outsourcing de governação desde Bangalore...
©José Manuel Fonseca
A Cerberus é uma private equity com uma, aparente, estratégia de portfolio de base financeira pura e dura. Embora se consultarmos o seu website sejamos presenteados com uma linguagem mais tranquilizadora e com uma aparente vocação industrial, o carácter do negócio parece ser bem mais simples. Comprar empresas falidas e produzir um turnaround rápido e eventualmente doloroso mas eficaz. Depois a empresa pode ser recolocada no mercado para venda. A Cerberus mereceu alguma atenção, recentemente, porque segundo a Business Week comprou nos últimos tempos empresas em valor superior a dez biliões de dólares.
Em boa verdade o fenómeno não é novo. A Omnicom , a Cendant , a LVHM, são apenas alguns exemplos de empresas cuja vocação financeira aparece aliada à vocação de gestão de marcas para segmentos ou actividades específicas. Mas a base financeira é inequívoca. A exigência de rendibilidade mínima de x% por ano é imperativa. Estas empresas, algumas cotadas na bolsa outras completamente privadas, utilizam métodos de portfolio para avaliar o sucesso dos posicionamentos das empresas que titulam e, em geral, são constituídas por meia dúzia de especialistas com formação em finanças. Uma das coisas curiosas sobre estas empresas é que toda a gente é vice presidente, mas basicamente vice presidente de si próprio...
Quem sabe, este será o modelo de gestão de futuro reservado ao ocidente. Massas monetárias geridas por magos financeiros sem espírito empreendedor nem interesse pela inovação, muito menos pelos produtos e serviços, nem pelos clientes ou colaboradores, mas que garantem rendibilidades interessantes aos participantes privados/accionistas/obrigacionistas. Sob o guarda-chuva protector de marcas telúricas, criadas para que os consumidores estabeleçam relações de lealdade para além da materialidade dos produtos, numa verdadeira dimensão e domínio de transcendência, (com as quais a própria Igreja aprenderá), com produções totalmente deslocalizadas, com I&D deslocalizadas, com serviços administrativos deslocalizados, com assistência técnica e call-centers deslocalizados. Tudo a caminho das actuais periferias, permanecendo nos centros, eventualmente, apenas as private equities que gerem estas verdadeiras networks de actividades e processos como puzzles organizacionais descartáveis e efémeros e que em gestão de modo entusiasmado se tipificam como loose couplings.
Entre nós, esta visão pura e dura, assente na separação clara entre propriedade e gestão, com a gestão contratada sem eufemismos para gerar efectivo e inequívoco valor para o detentor do capital não colhe muitos adeptos. Entre nós, além dos colaboradores e dos clientes são ainda claramente preteridos os accionistas em favor dos gestores de circunstância.
Possivelmente esta visão é um bocado “dantesca” e manifestamente exagerada. Não obstante tem algumas “virtualidades” como costumam dizer algumas pessoas em politiquês. Nomeadamente, e, como membros da private equity deste país, a de permitir perguntar se existirá algum inconveniente em proceder ao outsourcing de governação desde Bangalore...
©José Manuel Fonseca
terça-feira, julho 10, 2007
A retórica
Hoje em dia, somos bafejados pela afortunada aparição de produtos que nos oferecem quase tudo o que um cidadão da pós modernidade necessita para ser completamente feliz e integrado na sociedade e nos seus grupos. Objectos híbridos e minúsculos que nos permitem telefonar, ver filmes, assistir em directo à novela das sete, das nove, das dez e, quem sabe, mesmo e inclusive, a das onze, para além, de armazenarem as fotos dos casamentos, baptizados, festas realizadas em todo o hemisfério norte, mais os vídeos do National Geographic ou de todas as séries de conselhos práticos do it yourself do Turquemenistão, mais a nossa agenda com dezoito níveis de alarmes, para nunca esquecermos o dia em que se comemora o aniversário da primeira vez que comprámos uma garrafa de azeite no supermercado com aquela que viria a ser a nossa mulher (uma coisa que os homens tem particular tendência a não recordarem e que está na origem dos divórcios), armazenar os álbuns de músicas da nossa juventude, ter online os conselhos úteis para nos relembrarmos do que se espera de nós numa entrevista de emprego mesmo com tutorial de ensaio final, ligação automática de hora a hora ao centro de domótica lá de casa para sabermos da evolução do stock de alho francês na prateleira da esquerda do frigorífico, ligação contínua ao GPS localizado no telemóvel dos nossos filhos e com os mapas de Azeitão e Ullapool, marcação automática de consultas de reiki, monitor cardíaco, consulta de saldos do cartão de débito, planeamento fiscal...
No marketing, há muito que se fala de uma dimensão mental dos produtos. Para alem do produto em si mesmo (as suas características físicas, a electrónica ou a química da coisa, as dimensões, resistências, energias), e do produto “estendido”, com as suas assistências pós venda, garantias, peças de substituição e acessórios, há aquilo que cada um “vê” no produto. E, com correcta identificação dos segmentos de mercado e das idiossincrasias de cada um, pode-se “desenhar” a politica de comunicação adequada à motivação da acção de compra por parte de pessoas convencidas ou persuadidas que irão adquirir, por exemplo, através de um mero leitor de mp3, a entrada para a galeria dos famosos, senão do país, pelo menos do salão de cabeleireiro da paróquia. A posse dos produtos, já nem sequer estamos a falar de utilização, porque a utilização é por vezes bastante complexa e incerta, está associada, a significados que transcendem as suas características funcionais e reais. Neste sentido, assistimos à explosão da dimensão “retórica” dos produtos. À construção de mensagens que nos transportam para universos paralelos e fabulosos de fantasias mais ou menos benignas, se, nos deslocarmos a um qualquer estabelecimento e adquirirmos um magnifico e extraordinariamente exotérico seguro de acidentes pessoais ou automóvel...
No meio deste mundo admiravelmente novo emergem palavras que comportam ressonâncias arcanas e mágicas como Customer Satisfaction! Em qualquer universidade que se preze, mormente já em Bolonha, a litania da satisfação do cliente deve ser administrada como um mantra. Embora na próxima revisão da coisa se deva, quem sabe, ensinar aos alunos os simples sistemas de equações de trinta e quatro variáveis necessários para descodificar os planos de tarifários das operadoras de telecomunicações...
E, é difícil não sermos contagiados por este verdadeiro vírus da felicidade, quando passados os dois anos de garantia do produto, é mais barato comprar um produto novo que mandar reparar o antigo, sendo que o novo produto já tem mais cem milhões de pixels que o antigo, ou as rpm mais que triplicaram entretanto, ou quando, ainda dentro da garantia, apenas passados dois ou três meses de espera nos devolvem o produto completamente novo e com um chip de cem “menréis” devidamente reparado na Lapónia Oriental...
Eu confesso que, enquanto aguardo a realização do sonho de um vida inteira, de ter um telemóvel que me permita ver em cinemascope o último episódio da novela das seis, não me importava de possuir produtos que simplesmente funcionassem...
©José Manuel Fonseca
No marketing, há muito que se fala de uma dimensão mental dos produtos. Para alem do produto em si mesmo (as suas características físicas, a electrónica ou a química da coisa, as dimensões, resistências, energias), e do produto “estendido”, com as suas assistências pós venda, garantias, peças de substituição e acessórios, há aquilo que cada um “vê” no produto. E, com correcta identificação dos segmentos de mercado e das idiossincrasias de cada um, pode-se “desenhar” a politica de comunicação adequada à motivação da acção de compra por parte de pessoas convencidas ou persuadidas que irão adquirir, por exemplo, através de um mero leitor de mp3, a entrada para a galeria dos famosos, senão do país, pelo menos do salão de cabeleireiro da paróquia. A posse dos produtos, já nem sequer estamos a falar de utilização, porque a utilização é por vezes bastante complexa e incerta, está associada, a significados que transcendem as suas características funcionais e reais. Neste sentido, assistimos à explosão da dimensão “retórica” dos produtos. À construção de mensagens que nos transportam para universos paralelos e fabulosos de fantasias mais ou menos benignas, se, nos deslocarmos a um qualquer estabelecimento e adquirirmos um magnifico e extraordinariamente exotérico seguro de acidentes pessoais ou automóvel...
No meio deste mundo admiravelmente novo emergem palavras que comportam ressonâncias arcanas e mágicas como Customer Satisfaction! Em qualquer universidade que se preze, mormente já em Bolonha, a litania da satisfação do cliente deve ser administrada como um mantra. Embora na próxima revisão da coisa se deva, quem sabe, ensinar aos alunos os simples sistemas de equações de trinta e quatro variáveis necessários para descodificar os planos de tarifários das operadoras de telecomunicações...
E, é difícil não sermos contagiados por este verdadeiro vírus da felicidade, quando passados os dois anos de garantia do produto, é mais barato comprar um produto novo que mandar reparar o antigo, sendo que o novo produto já tem mais cem milhões de pixels que o antigo, ou as rpm mais que triplicaram entretanto, ou quando, ainda dentro da garantia, apenas passados dois ou três meses de espera nos devolvem o produto completamente novo e com um chip de cem “menréis” devidamente reparado na Lapónia Oriental...
Eu confesso que, enquanto aguardo a realização do sonho de um vida inteira, de ter um telemóvel que me permita ver em cinemascope o último episódio da novela das seis, não me importava de possuir produtos que simplesmente funcionassem...
©José Manuel Fonseca
segunda-feira, julho 02, 2007
A Não Comunicação
Todos os dias inventamos coisas novas e sofisticadas para evitar falarmos uns com os outros olhando-nos de frente. Parece um paradoxo na era dos telemóveis cada vez mais sofisticados e dos milhões de esseêmeesses que se trocam, dos emails, da internet 2.0 com comentários online e fóruns para tudo e para nada....
Pois é. Mas, não obstante tanta fartura e variedade, fazemos cada vez mais esforço para nos evitarmos. Claro que é impossível não comunicar como sustentou o Paul Watzlawick em divertidos, e por vezes inquietantes livros, mas nós persistimos em inventar formas de não comunicar. Sobretudo de não conversar. Simplesmente conversar sobre as coisas e sobre os problemas. Não senhora. Fazemos logo uma reunião, ou várias, com actas. E anexos. Tudo o que evite ter de enfrentar o problema e o possa reduzir a coisas que se possam arrumar em procedimentos. Idealmente desenhamos mais um belíssimo sistema de gestão documental.
E regulamentos. Regras, normas. Abstractas, impessoais. Protectoras. Aqui há uns anos, entrei numa sala de aula que tinha um aviso seco, frio e formal. “É proibido utilizar telemóveis durante os exames”. Pensei imediatamente que os alunos tinham dado algum passo em frente nas técnicas de copianço. Que algures no bar da faculdade uns comparsas de livros abertos estavam a enviar por sms as respostas ao exame. Ou que por auriculares minúsculos e disfarçados pelos cabelos e perucas recebiam as respostas vírgula a vírgula. Mas não. Não era por causa desses manhosos. Tinha acontecido que um assistente de direito, durante uma prova, se entretivera a ditar umas minutas de cartas e outras importantes deliberações, à secretaria. Que no escritório tomava notas, de forma, quiçá, pouco diligente, porque o assistente berrava desalmado e insultava a dita secretaria que possuiria apenas uma escassa percentagem do cérebro, para além de moral sexual duvidosa...
Claro que até à sexagésima fila da sala de exame (que possuía apenas dez filas...) a rapaziada teve dificuldade em se concentrar, não conseguiu responder às perguntas, agitou-se, mas evitou chamar a atenção do assistente que, já se sabe, tem a faca e o queijo senão na mão pelo menos à mão de semear. E, depois, claro está, pela calada fez queixinhas ao director da faculdade. O assunto mereceu superior consideração e, em lugar de se chamar o assistente e de lhe pedir encarecidamente que não repetisse a façanha, ou, quem sabe, perguntar-lhe se era assim um imbecil de modo consistente ou tinha sido meramente episódico o fenómeno. Não senhora. Fez-se uma regra abstracta, pública, dirigida a todos, mesmo os noventa e nove por cento dos que nunca lhes tinha passado pela cabeça serem tão idiotas. Com essa regra, insultou-se a inteligência de muitos mas, poupou-se a alguém um confronto que eventualmente poderia ser penoso e comportar angústias ou mesmo medos.
Na área da gestão de carreiras, de atribuição de recompensas, de promoções, de avaliação de desempenho também se observa este esforço insano para evitar a comunicação face a face. Evitar confrontarmo-nos com o “outro”. Temos arranjado múltiplos sistemas de pontos e critérios e ponderadores para reafirmar e sublinhar o que toda a gente sabe à partida. Mas que aparece disfarçado em fórmulas, para que não sejamos forçados a explicar as escolhas, que toda a gente sabe que já estavam feitas mas que deste modo realmente “científico” ninguém tem de argumentar.
Um dos sintomas de esquizofrenia organizacional consiste no avolumar destes procedimentos que nos protegem das ansiedades da vulgar conversa e da descoberta que o outro é um ser muito razoável e até simpático...
© José Manuel Fonseca
Pois é. Mas, não obstante tanta fartura e variedade, fazemos cada vez mais esforço para nos evitarmos. Claro que é impossível não comunicar como sustentou o Paul Watzlawick em divertidos, e por vezes inquietantes livros, mas nós persistimos em inventar formas de não comunicar. Sobretudo de não conversar. Simplesmente conversar sobre as coisas e sobre os problemas. Não senhora. Fazemos logo uma reunião, ou várias, com actas. E anexos. Tudo o que evite ter de enfrentar o problema e o possa reduzir a coisas que se possam arrumar em procedimentos. Idealmente desenhamos mais um belíssimo sistema de gestão documental.
E regulamentos. Regras, normas. Abstractas, impessoais. Protectoras. Aqui há uns anos, entrei numa sala de aula que tinha um aviso seco, frio e formal. “É proibido utilizar telemóveis durante os exames”. Pensei imediatamente que os alunos tinham dado algum passo em frente nas técnicas de copianço. Que algures no bar da faculdade uns comparsas de livros abertos estavam a enviar por sms as respostas ao exame. Ou que por auriculares minúsculos e disfarçados pelos cabelos e perucas recebiam as respostas vírgula a vírgula. Mas não. Não era por causa desses manhosos. Tinha acontecido que um assistente de direito, durante uma prova, se entretivera a ditar umas minutas de cartas e outras importantes deliberações, à secretaria. Que no escritório tomava notas, de forma, quiçá, pouco diligente, porque o assistente berrava desalmado e insultava a dita secretaria que possuiria apenas uma escassa percentagem do cérebro, para além de moral sexual duvidosa...
Claro que até à sexagésima fila da sala de exame (que possuía apenas dez filas...) a rapaziada teve dificuldade em se concentrar, não conseguiu responder às perguntas, agitou-se, mas evitou chamar a atenção do assistente que, já se sabe, tem a faca e o queijo senão na mão pelo menos à mão de semear. E, depois, claro está, pela calada fez queixinhas ao director da faculdade. O assunto mereceu superior consideração e, em lugar de se chamar o assistente e de lhe pedir encarecidamente que não repetisse a façanha, ou, quem sabe, perguntar-lhe se era assim um imbecil de modo consistente ou tinha sido meramente episódico o fenómeno. Não senhora. Fez-se uma regra abstracta, pública, dirigida a todos, mesmo os noventa e nove por cento dos que nunca lhes tinha passado pela cabeça serem tão idiotas. Com essa regra, insultou-se a inteligência de muitos mas, poupou-se a alguém um confronto que eventualmente poderia ser penoso e comportar angústias ou mesmo medos.
Na área da gestão de carreiras, de atribuição de recompensas, de promoções, de avaliação de desempenho também se observa este esforço insano para evitar a comunicação face a face. Evitar confrontarmo-nos com o “outro”. Temos arranjado múltiplos sistemas de pontos e critérios e ponderadores para reafirmar e sublinhar o que toda a gente sabe à partida. Mas que aparece disfarçado em fórmulas, para que não sejamos forçados a explicar as escolhas, que toda a gente sabe que já estavam feitas mas que deste modo realmente “científico” ninguém tem de argumentar.
Um dos sintomas de esquizofrenia organizacional consiste no avolumar destes procedimentos que nos protegem das ansiedades da vulgar conversa e da descoberta que o outro é um ser muito razoável e até simpático...
© José Manuel Fonseca
O Plano de Negócios
Parece que nos encaminhamos para a “empresarialização” das escolas públicas. Aparentemente, as escolas primárias e secundárias terão de encontrar “unidades de negócio” alternativas como forma de financiamento das suas actividades escolares e da renovação das suas instalações e equipamentos. Os professores, para além das aulas propriamente ditas, poderão ter de se preocupar com a “rentabilização” dos espaços e equipamentos. Talvez num futuro não muito distante possam também “rentabilizar” os recursos humanos, quem sabe através de inovadoras actividades de fabrico de croquetes, serviços de catering, de karaoke e de jongleurs...
No fundo nada que não ocorra já em muitos estabelecimentos por esse pais fora. Há, contudo, uma diferença entre poderem recorrer ao aluguer de espaços ao fim de semana, como forma de arredondarem os parcos orçamentos, e a “necessidade”, ou imperativo, de se preocuparem com a “rentabilização” dos recursos tornando-se mais especializados em eventos e tendo deliberadamente de concorrer com empresas vocacionadas para essa actividade. Supõe-se que, apesar desta descoberta sociológica do fascinante mundo empresarial, os professores, quem sabe alguns deles ao menos, continuem a ter como missão ensinar os alunos.
Mas, nesta onda e na trajectória, podemos ir bem mais longe. Rapidamente poderemos assistir a aproximações de marcas e empresas que poderão oferecer patrocínios apelativos. A troco da visibilidade de cartazes no interior, ou para o exterior, das escolas, as instituições poderão ter chamadas de telemóvel mais baratas, vouchers de desconto no Feira Nova, quem sabe poderão receber computadores portáteis, a troco de visionamento de publicidade nas salas de aula, poderão receber material multimédia, a troco de corners temporários poderão receber equipamentos de educação física dignos de ginásios de topo, a troco de stands permanentes e alternativas ao bar e à papelaria, podem-se assinar contratos mais completos de apoio. Daqui a presenças na sala de aula no tempo lectivo é um curto passo. E porque não manuais escolares patrocinados por marcas de chocolates, yogurtes ou de roupa cool?
O projecto educativo do ciclo da água pode ser substituído pelo importante ciclo de fabrico de ténis em qualquer sweat shop na Ásia. A circulação do sangue nos seres humanos pode ser vista em cd rom em casa e na sala de aula pode ser substituída pelo ciclo de fabrico de hambúrgueres de uma qualquer marca de franchise. Os projectos de “investigação” criadores de “competências” poderão ser apenas formas de arranjar ainda mais dinheiro para as escolas. Por exemplo, e sabiamente contornando as leis de trabalho infantil, podem-se instruir os miúdos para recolherem inquéritos de mercado preenchidos pelos alunos e famílias, e por transeuntes nas bombas de gasolina ou nos centros comerciais. Promovendo ainda uma política activa de “estágios” dos alunos no sector da macdonaldização de empregos para adolescentes. Tudo isto resultando em sérios incrementos da capacidade de interacção social dos alunos e de fortíssimo reforço da “empregabilidade” da população escolar.
Tudo isto me parece bastante legítimo e lógico. Pelo menos numa sociedade em que a preparação das crianças para a vida passe a enquadrar a preparação para os actos de consumo. Poderemos finalmente reduzirmo-nos ao momento de consumo. Sem passado e sem futuro.
© José Manuel Fonseca
No fundo nada que não ocorra já em muitos estabelecimentos por esse pais fora. Há, contudo, uma diferença entre poderem recorrer ao aluguer de espaços ao fim de semana, como forma de arredondarem os parcos orçamentos, e a “necessidade”, ou imperativo, de se preocuparem com a “rentabilização” dos recursos tornando-se mais especializados em eventos e tendo deliberadamente de concorrer com empresas vocacionadas para essa actividade. Supõe-se que, apesar desta descoberta sociológica do fascinante mundo empresarial, os professores, quem sabe alguns deles ao menos, continuem a ter como missão ensinar os alunos.
Mas, nesta onda e na trajectória, podemos ir bem mais longe. Rapidamente poderemos assistir a aproximações de marcas e empresas que poderão oferecer patrocínios apelativos. A troco da visibilidade de cartazes no interior, ou para o exterior, das escolas, as instituições poderão ter chamadas de telemóvel mais baratas, vouchers de desconto no Feira Nova, quem sabe poderão receber computadores portáteis, a troco de visionamento de publicidade nas salas de aula, poderão receber material multimédia, a troco de corners temporários poderão receber equipamentos de educação física dignos de ginásios de topo, a troco de stands permanentes e alternativas ao bar e à papelaria, podem-se assinar contratos mais completos de apoio. Daqui a presenças na sala de aula no tempo lectivo é um curto passo. E porque não manuais escolares patrocinados por marcas de chocolates, yogurtes ou de roupa cool?
O projecto educativo do ciclo da água pode ser substituído pelo importante ciclo de fabrico de ténis em qualquer sweat shop na Ásia. A circulação do sangue nos seres humanos pode ser vista em cd rom em casa e na sala de aula pode ser substituída pelo ciclo de fabrico de hambúrgueres de uma qualquer marca de franchise. Os projectos de “investigação” criadores de “competências” poderão ser apenas formas de arranjar ainda mais dinheiro para as escolas. Por exemplo, e sabiamente contornando as leis de trabalho infantil, podem-se instruir os miúdos para recolherem inquéritos de mercado preenchidos pelos alunos e famílias, e por transeuntes nas bombas de gasolina ou nos centros comerciais. Promovendo ainda uma política activa de “estágios” dos alunos no sector da macdonaldização de empregos para adolescentes. Tudo isto resultando em sérios incrementos da capacidade de interacção social dos alunos e de fortíssimo reforço da “empregabilidade” da população escolar.
Tudo isto me parece bastante legítimo e lógico. Pelo menos numa sociedade em que a preparação das crianças para a vida passe a enquadrar a preparação para os actos de consumo. Poderemos finalmente reduzirmo-nos ao momento de consumo. Sem passado e sem futuro.
© José Manuel Fonseca
quarta-feira, junho 20, 2007
Tradição
Existe um sitio onde aqueles que podem mandar o fazem com particular, e tradicional, desconsideração dos demais. Neste periodo antes das férias estivais torna-se mais saliente esta tradição de aviltamento da dignidade dos outros. Existem populações inteirinhas que aguardam ansiosas o descortinar se continuarão a constituir fauna da Instituição no ano lectivo seguinte. Eu, por mim, admiro profundamente os seres titânicos que títulam, deste modo soberano, a vida dos outros. E, claro está não há míngua de criaturas que esperam venerandas a suprema e sábia decisão sobre o seu direito à vidinha e à sopinha. Há, claro está, também os mal agradecios, os mal formados que já preparam o processozinho em tribunal...
Os que mandam, entretanto, não comunicam uns com os outros pelo que de vez em quando saem "novidades" e contra novidades num circuito particularmente esquizofrénico. É um sitio onde a teoria do double bind do Bateson ganha um significado novo. Dir-seia mesmo uma banalização assinalável.
O que seria da nossa vida sem aquela grande inovação das gargalhadas enlatadas.
Os que mandam, entretanto, não comunicam uns com os outros pelo que de vez em quando saem "novidades" e contra novidades num circuito particularmente esquizofrénico. É um sitio onde a teoria do double bind do Bateson ganha um significado novo. Dir-seia mesmo uma banalização assinalável.
O que seria da nossa vida sem aquela grande inovação das gargalhadas enlatadas.
segunda-feira, junho 11, 2007
e todos comeram dos restos do banquete...
ainda há dias tive de comparecer numa daquelas sessões de fustigação que se constituem rituais de sofrimento desnecessário... finalmente compareceu o senhor morgado que informou a plebe que há restos de comida para todos os que decidirem passar da penhora do ser para o rastejar definitivo e sem eufemismos....
não faltou quem ficasse venerando e agradecido...eu por mim sempre pensei que o feudalismo era coisa dos livros de história mas afinal é de beija mão e genuflexão bem vivinha da silva....
não faltou quem ficasse venerando e agradecido...eu por mim sempre pensei que o feudalismo era coisa dos livros de história mas afinal é de beija mão e genuflexão bem vivinha da silva....
segunda-feira, maio 14, 2007
Agora que se aproxima o Exam...
retorna o famoso Dicionário de Economia e Gestão para candidatos à McKinsey*
* com o patrocínio do Domestos III sabor a Maracujá e sobre o livro do Economist Guide To Management Ideas do genial Tim Hindle
* com o patrocínio do Domestos III sabor a Maracujá e sobre o livro do Economist Guide To Management Ideas do genial Tim Hindle
ETA Zurich 13:42
É aparentemente difícil aceitar que a jornada não possui destino final que possamos conhecer antecipadamente. Que a cada manobra, criamos colectivamente infinitas possibilidades de portos ou apeadeiros finais sem que se vislumbre qualquer deles. Aparentemente, não concebemos que o prazer está na jornada e não na chegada. Porventura, o que nos resta tem então a ver com a qualidade da participação na viagem, e não com a possibilidade de melhorar o planeamento da rota.
E Deus? Perguntam algumas pessoas de vez em quando. Bom, há lugar para Deus. Não o Deus das cartas e rotas pré-definidas e totalitariamente acabadas. Mas o Deus da possibilidade e da escolha de viajar.
E Deus? Perguntam algumas pessoas de vez em quando. Bom, há lugar para Deus. Não o Deus das cartas e rotas pré-definidas e totalitariamente acabadas. Mas o Deus da possibilidade e da escolha de viajar.
quinta-feira, maio 10, 2007
Normalidade
Não sei se já repararam mas todos temos acesso a uma distribuição normal de moscas...
Isto é, por um lado não há maneira de evitar que os ricos tenham acesso gratuito à sua dose de moscas, mas por outro lado, os ricos por mais que se esforcem não consegue monopolizar as moscas todas para si. É uma coisa que dificilmente os próceres da economia mais fundamental terão oportunidade de privatizar.
De igual modo quando fenecemos todos temos igual direito a apodrecer e a uma dose razoável de vermes que tomam por pitéu o invólucro em que circulamos na nossa existência ...e não há maneira de alguns de nós cheirarem a Channel 5 depois de bater a bota....
é reconfortante...
Isto é, por um lado não há maneira de evitar que os ricos tenham acesso gratuito à sua dose de moscas, mas por outro lado, os ricos por mais que se esforcem não consegue monopolizar as moscas todas para si. É uma coisa que dificilmente os próceres da economia mais fundamental terão oportunidade de privatizar.
De igual modo quando fenecemos todos temos igual direito a apodrecer e a uma dose razoável de vermes que tomam por pitéu o invólucro em que circulamos na nossa existência ...e não há maneira de alguns de nós cheirarem a Channel 5 depois de bater a bota....
é reconfortante...
sábado, maio 05, 2007
A Injunção
Um dos problemas mais dramáticos que enfrentamos é o risco enorme que corremos de ser felizes. De modo que, por todo o lado, se observa um esforço titânico para minorar significativamente esse horizonte. Por vezes, este esforço, chega ao nível de assinalável profissionalismo. Mas são ainda poucos os que obedecem ao imperativo de um esforço continuado e sistemático de vigilância. A maior parte de nós é pouco diligente na redução desse risco.
segunda-feira, abril 30, 2007
É compreensível
mas nunca deixa de ser triste, quando um mancebo pensa que Roma passou a pagar a miseráveis delatores.
sexta-feira, abril 27, 2007
O momento
À escala do tempo atómico, a pequena perturbação introduzida pelos recentes acontecimentos políticos não será registada por nenhum observador galáctico. Infelizmente, tratamos de assuntos menores e com figurantes de opereta numa companhia que já se arrasta penosamente por feiras de província. Não obstante, para aqueles mais motivados para assuntos de intendência, a coisa é séria. Mas, bem vistas as coisas, a sucessão será uma questão de zapping. Em breve, a estes pantomineiros seguir-se-ão outros de igual qualidade, e, a encenação será de novo facilitada pela fraca audiência cuja exigência é apenas que as pipocas estejam quentes.
O Dia de Todas as Excitações - O tribuno
É para dias como o de hoje que este blogue existe. Dias ímpares na tugalândia. Dias em que nos aproximamos do céu. Não o céu dos poetas, mas um proxy. O céu dos figurões. Alguém sentirá, ou está já a sentir, o inebriente caminhar nas nuvens. Elevado ao clube dos eleitos. Não pelo voto dos energúmenos mas pela escolha dos seus pares. Em circunstâncias destas, é sabido que a visão se torna em farsight, o ouvido médio passa a sintonizar música celestial. O cérebro sofre mutações e convulsões. O Ser cresce mesmo alguns centímetros. Relativizam-se as coisas espúrias. Estas alvas e castas figuras elevam-se acima do Monte Olimpo e revela-se-lhes em toda a sua beleza o segredo da vida politica. É a verdadeira ascensão ao grau trinta e oito do segredo dos pedreiros livres. Para nós que ficamos cá em baixo, a olhar o vazio e os, ocasionais, pontos brilhantes, quais estrelas cadentes, só nos resta tomar como nosso o êxtase alheio....na certeza que amanhã, ou quiçá depois de amanhã, uma vez que mais uma vez temos a hipótese de resgatar a nossa impotência numa vitória efémera de futebol, poderemos voltar ao quotidiano mais descolorido mas perene e certo. Menos excitante, mas conhecido, menos desafiante , mas para o qual já construimos variadíssimos mecanismos de defesa.
e não é que somos de novo favorecidos pela bondade do tribuno em perder tempo connosco?! Bem haja.
e não é que somos de novo favorecidos pela bondade do tribuno em perder tempo connosco?! Bem haja.
terça-feira, abril 24, 2007
Reposta a estabilidade
está quase reposta a normalidade certificada. O túnel abre ao público e aos veículos. O Portas voltou ao PP. O Pinto da Costa lançou um livro. O Isaltino não se demite. A Universidade (?!) Independente será substituida por outra sendo a primeira fechada num acto digno da proposição sublinhada pelo Watzlawick. Se cumple pero no se hace.
terça-feira, abril 17, 2007
de uma vez por todas
Ontem decorreu mais um debate sobre temas de importância crucial. Mais uma uma vez se apelou a que se resolvessem questões de uma vez por todas. Mais um exercício inútil de retórica, que nunca acabará nem de uma vez por todas...
sexta-feira, abril 13, 2007
Coito Interruptus
Uma das consequências do fenómeno Independente e diplomas sem livros de termos foi a questão da pressão a que alegadamente foram sujeitos os querubins, perdão, os directores de alguns meios de comunicação. Ficámos a saber que houve pressão mas não foram condicionados. Estamos mais tranquilos. Portanto o acto não foi levado até ao fim. Nenhum dos cidadãos corre o risco de emprenhar.
terça-feira, abril 10, 2007
O fio de prumo
O meu pai um dia, a propósito de um comentário meu, virou-se para mim e disse-me que eu nunca deveria alugar o meu cérebro a ideias de outros nem fazer trespasse da minha dignidade por dinheiro algum. Na altura, era eu estudante universitário, ficaram-me retidas as metáforas. E, claro está o sentido da coisa. Hoje, eu próprio começo a ser questionado pelos meus filhos, estando na altura de lhes começar a transmitir valores à medida que a atenção deles se desloca, por vezes...., do gameboy para o que acontece na sociedade à volta deles. Claro que já se falou do diploma mais famoso deste país. E claro está que eu recomendo vivamente que se esforcem e dignifiquem a sua vida com a progressão das suas aprendizagens. Claro está que não me mostro excessivamente entusiasmado quando me dizem que foram os melhores da turma, e digo sempre que a mim e à mãe basta que se tenham esforçado honesta e diligentemente. Os resultados acontecem com naturalidade como resultado do esforço e da honestidade, que não é preciso ser sempre o melhor em tudo nem em nada. Claro está que mais cedo ou mais tarde me podem perguntar se no final isso é assim tão importante e mesmo necessário. Claro está que nessa altura se calhar me posso lembrar doutra vez em que o meu pai me disse que apesar de ser perfeitamente possível viver como uma puta (e ele sempre se referia àqueles e àquelas que vendiam outras coisas que não a carne...) mas que no fim da vida quando olhamos para trás poderemos sentir vergonha ou orgulho ou alívio ou satisfação. Tudo dependia do que queriamos sentir quando estivessemos na vêspera do fim. Pode ser divertido ser capa de revista cor de rosa ou mesmo cor de merda mas deve ser fodido passar a vida a esconder os fantasmas no armário.
quinta-feira, abril 05, 2007
O lodaçal e a porcalhota
Nos últimos dias temos assistido a uma novela deveras hilariante. A intriga, a trama é excelente. Os personagens também são óptimos. E quase todos os dias há uma pequena variação que mantém a tensão e a possibilidade de surpresa e reviravolta.
Já mete dó a involuntária participação do senhor ministro da Ciência em figuração, que é de facto incómoda, no papel de ceguinho. Tem de conseguir um equilíbrio de trapezista. Não enterrar mais o chefe no lodaçal da coisa e tentar sair ileso da dita cuja. Quadrar círculos foi sempre coisa delicada. O chefe por enquanto reservado aparecerá no final como herdeiro da fortuna da tia Genoveva ou como detentor do genuíno coelho da cartola. Lugar maldito parece ser o de reitor. Finalmente terá sido ocupado por um cavalheiro doutorado embora ainda na semana passada. A lista de ex alunos da bendita universidade é notável. A lista de ex professores aparentemente também. Igualmente notável a lista de doutores da mula ruça que eventualmente terão, pelo menos, acabado o liceu mas que foram ou serão potenciais vice reitores quando não mesmo reitores da coisa.
No meio desta ópera bufa é bem possível que a audiência comece a suspeitar que a Universitas é afinal um local de comédia e de gajos cuja característica estatística mais saliente é que dão peidos e arrotos. Pelo menos assim parece. E não há maneira de alguém contrariar a flatulência...
Convinha manter o carnaval quotidiano mas, quiçá, evitar descer já para a porcalhota assim de modo tão abrupto.
Já mete dó a involuntária participação do senhor ministro da Ciência em figuração, que é de facto incómoda, no papel de ceguinho. Tem de conseguir um equilíbrio de trapezista. Não enterrar mais o chefe no lodaçal da coisa e tentar sair ileso da dita cuja. Quadrar círculos foi sempre coisa delicada. O chefe por enquanto reservado aparecerá no final como herdeiro da fortuna da tia Genoveva ou como detentor do genuíno coelho da cartola. Lugar maldito parece ser o de reitor. Finalmente terá sido ocupado por um cavalheiro doutorado embora ainda na semana passada. A lista de ex alunos da bendita universidade é notável. A lista de ex professores aparentemente também. Igualmente notável a lista de doutores da mula ruça que eventualmente terão, pelo menos, acabado o liceu mas que foram ou serão potenciais vice reitores quando não mesmo reitores da coisa.
No meio desta ópera bufa é bem possível que a audiência comece a suspeitar que a Universitas é afinal um local de comédia e de gajos cuja característica estatística mais saliente é que dão peidos e arrotos. Pelo menos assim parece. E não há maneira de alguém contrariar a flatulência...
Convinha manter o carnaval quotidiano mas, quiçá, evitar descer já para a porcalhota assim de modo tão abrupto.
domingo, março 18, 2007
A ascensão do irrelevante fútil
Fascinante o número de objectos que adquirimos e as suas propriedades mágicas. Há tempos tive de trocar a pilha num relógio. Aparentemente o dito tinha de ser enviado para longe por forma a que pessoal especializado procedesse à troca da pilha repondo a "estanquicidade" da caixa, possibilitando de "novo" que o relógio mergulhasse a 200 metros de profundidade. Toda esta operação custava o suficiente para adquirir dois ou três relógios novos e demorava pelo menos umas semanas... Em alternativa gastava uma quantia insignificante e fazia logo ali, no relojoeiro, a troca da pilha e o relógio continuava a dar horas...
Ora como nunca o bendito relógio mergulhara a "200 metros".... a coisa ficou logo ali resolvida....
Depois, olho em redor e tenho forma de arquivar a história de vida da população inteirinha do hemisfério norte. Mais as fotografias das respectivas famílias nos últimos seis séculos e os videos das festas de anos e de Natal. Possuo numa única divisão da casa mais capacidade de armazenamento de informação que o governo norte americano dispôs na década de sessenta no período do psicopata que comandou o FBI...
toda esta capacidade de armazenamento de informação jaz por aqui e por ali...
presumivelmente nunda darei uso (ou bom uso) a tantos teras de capacidade, mas parece haver um conforto em tanta redundância e tanto excesso....
Ora como nunca o bendito relógio mergulhara a "200 metros".... a coisa ficou logo ali resolvida....
Depois, olho em redor e tenho forma de arquivar a história de vida da população inteirinha do hemisfério norte. Mais as fotografias das respectivas famílias nos últimos seis séculos e os videos das festas de anos e de Natal. Possuo numa única divisão da casa mais capacidade de armazenamento de informação que o governo norte americano dispôs na década de sessenta no período do psicopata que comandou o FBI...
toda esta capacidade de armazenamento de informação jaz por aqui e por ali...
presumivelmente nunda darei uso (ou bom uso) a tantos teras de capacidade, mas parece haver um conforto em tanta redundância e tanto excesso....
quinta-feira, março 15, 2007
As Classes e a falta de classe
Ainda hoje um amigo meu me chamou a atenção para as classes na nossa sociedade e para a fraca mobilidade social. Existem, para mim, pelo menos duas classes. Uma que parece estar vacinada à partida e por definição. Estas pessoas por natureza e com naturalidade circulam entre ocupações e postos independentemente da sua competência ou vocação. Estas pessoas possuem uma espécie de direito natural a ganhar uma remuneração pela simples razão que existem e ocupam espaço físico e temporal. Reajem muito mal às manifestações de terceiros pela mesma sinecura que parecem possuir sem necessidade de justificação.
Ainda esta semana fui muito desagradavelmente surpreendido por uma destas criaturas. Aparentemente, eu, membro inequívoco da outra classe, a que tem de se penitenciar e pedir desculpa por existir e por usufruir de um income em troco do seu trabalho, portanto uma classe que tem de expiar uma "culpa cristã" sem hipótese de redenção, fui amavelmente aconselhado a sacrificar-me pela "Instituição" em que ocasionalmente a criatura desempenha magnificas funções. Mais, estaria eu em débito irresolúvel e perene por a "Instituição" me ter "aceite de volta" quando há algum tempo eu miseravelmente trai a "confiança" depositada em mim e saí. O facto de por defeito ou por mérito ficar sempre entre os melhores avaliados na bendita "instituição" de ter um passado na dita, parece não contar. O tempo é, assim, sempre o presente e o potencial no futuro. Mas, para a outra classe, a das criaturas, nem sequer existe essa dimensão de tempo. São imortais. São verdadeiros titãs e seres arcanos. Na feira de carcavelos podem-se comprar em bonequinhos. Sem classe nenhuma.
Ainda esta semana fui muito desagradavelmente surpreendido por uma destas criaturas. Aparentemente, eu, membro inequívoco da outra classe, a que tem de se penitenciar e pedir desculpa por existir e por usufruir de um income em troco do seu trabalho, portanto uma classe que tem de expiar uma "culpa cristã" sem hipótese de redenção, fui amavelmente aconselhado a sacrificar-me pela "Instituição" em que ocasionalmente a criatura desempenha magnificas funções. Mais, estaria eu em débito irresolúvel e perene por a "Instituição" me ter "aceite de volta" quando há algum tempo eu miseravelmente trai a "confiança" depositada em mim e saí. O facto de por defeito ou por mérito ficar sempre entre os melhores avaliados na bendita "instituição" de ter um passado na dita, parece não contar. O tempo é, assim, sempre o presente e o potencial no futuro. Mas, para a outra classe, a das criaturas, nem sequer existe essa dimensão de tempo. São imortais. São verdadeiros titãs e seres arcanos. Na feira de carcavelos podem-se comprar em bonequinhos. Sem classe nenhuma.
segunda-feira, março 12, 2007
A ilusão
uma das coisas que me interessa, é a criação de realidades imaginária, através das quais as pessoas racionalizam o que lhes acontece no quotidiano, e as ameaças que sentem advir de uma realidade fragmentada, imprevisível e sem vinculação aparente entre as coisas. O post anterior ilustra os rituais de "qualidade" que nos atormentam mas que diligentemente e sem sentido crítico (só às escondidas e com pessoas de confiança ou em voz baixinha...) deixamos correr sem questionar da irracionalidade da liturgia e da litania e, sobretudo sem perguntar onde está a qualidade que era suposto resultar disto tudo. Mas, noutras áreas de sofrimento humano também nos deixamos ir atrás de realidades virtuais. Outra palavra mágica é a "mudança". Porquê? porque sim. Basicamente toda a gente sabe que tem de mudar. Porquê e para quê aparentemente ninguém sabe a não ser que mobilize como justificação outras abstracções. A eficiência. O progresso. A modernidade. A sobrevivência. Como se medem estas coisas? Como se evidenciam? Ninguém parece saber ou concordar....
sexta-feira, março 09, 2007
Psicopatia Geral
De vez em quando meto-me em sarilhos. Quer isto dizer que de vez em quando meto-me no meio de processos e projectos com chancela de qualidade e subsidiados pela União Europeia através de uma qualquer das suas incontáveis directorias e subdirectorias e agências e comissões e grupos e comités ou outra qualquer designação. Nas duas últimas semanas tive de dar uma formação (um dia inteirinho) a dois grupos de seres humanos. Em negociação e aspectos associados com a persuasão e vendas e compras de utensílios domésticos ou maquinaria e alfaias agrícolas.
No início da sessão distribuí um questionário de avaliação de conhecimentos que se repetia no fim da sessão. É, naturalmente, suposto que uma atenta análise comparativa entre os dois questionários assinale, evidencie, demonstre uma evolução durante o dia, mercê da excepcional formação "recebida"... é, portanto, suposto que a formação ilumine as almas e o caminho teleológico daquelas pessoas que sem, aquela formação em concreto, teriam como destino, eventualmente, o negrume do falhanço social económico familiar e pessoal. Através de múltiplas sessões de formação como aquela, e da óbvia evidência da progressão, as pessoas resgatam-se do desespero. Qualificam-se. Elevam-se.
Claro que além deste questionário há ainda mais papelada para preencher. Utilíssima. O formador, será julgado pelos formandos. Pode-se dar o caso do formador não possuir qualidades suficientes para ajudar, no processo de elevação ao nirvana, daquelas pessoas. O formador também deve preencher uma folhinha por cada formando. Pode-se dar o caso do formando não vislumbrar a genialidade do sistema e de não ser merecedor da participação nestes benfazejos cursos e processos. Há ainda as folhas de presenças, as folhas de sumário por sessão, as folhas de objectivos por sessão, o plano da sessão propriamento dito e as folhas de incidentes e anomalias e não conformidades, bem como o relatório final.
Dúvido, claro está, que algum destes inquéritos passados em milhares de formações não demonstre que os formandos melhoraram imenso (num único dia...), que os formadores não sejam todos quase semi deuses, e que os formandos não tenham demonstrado enorme empenho, dedicação, atenção, vontade de aprender e particpação construtiva.
Claro está, uma parte substantiva da sessão de formação é gasta a preencher esta papelada que no final será inspeccionada e terá de bater a bota com a perdigota...
No início da sessão distribuí um questionário de avaliação de conhecimentos que se repetia no fim da sessão. É, naturalmente, suposto que uma atenta análise comparativa entre os dois questionários assinale, evidencie, demonstre uma evolução durante o dia, mercê da excepcional formação "recebida"... é, portanto, suposto que a formação ilumine as almas e o caminho teleológico daquelas pessoas que sem, aquela formação em concreto, teriam como destino, eventualmente, o negrume do falhanço social económico familiar e pessoal. Através de múltiplas sessões de formação como aquela, e da óbvia evidência da progressão, as pessoas resgatam-se do desespero. Qualificam-se. Elevam-se.
Claro que além deste questionário há ainda mais papelada para preencher. Utilíssima. O formador, será julgado pelos formandos. Pode-se dar o caso do formador não possuir qualidades suficientes para ajudar, no processo de elevação ao nirvana, daquelas pessoas. O formador também deve preencher uma folhinha por cada formando. Pode-se dar o caso do formando não vislumbrar a genialidade do sistema e de não ser merecedor da participação nestes benfazejos cursos e processos. Há ainda as folhas de presenças, as folhas de sumário por sessão, as folhas de objectivos por sessão, o plano da sessão propriamento dito e as folhas de incidentes e anomalias e não conformidades, bem como o relatório final.
Dúvido, claro está, que algum destes inquéritos passados em milhares de formações não demonstre que os formandos melhoraram imenso (num único dia...), que os formadores não sejam todos quase semi deuses, e que os formandos não tenham demonstrado enorme empenho, dedicação, atenção, vontade de aprender e particpação construtiva.
Claro está, uma parte substantiva da sessão de formação é gasta a preencher esta papelada que no final será inspeccionada e terá de bater a bota com a perdigota...
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Prazer
Estou neste preciso momento a assistir à defesa de uma monografia de mestrado por uma pessoa que orientei. E há momentos, como docentes, em que sentimos um certo orgulho. Este é um deles. É clarissímo que o candidato nada me deve em termos da excelência da defesa que está a produzir. Nem sequer em termos do trabalho que apresenta, embora o tenha elaborado no quadro de teorias e métodos que eu subscrevo e de que até possuo laivos de autoria, mas no fundo isso é irrelevante.
Eu estou apenas orgulhoso de ter podido ajudar e estar associado ao seu trabalho. É raro ver um professor agradecer aos alunos que teve o simples facto de o terem sido. É o que eu pretendo fazer quando chegar a minha vez de falar.
Eu estou apenas orgulhoso de ter podido ajudar e estar associado ao seu trabalho. É raro ver um professor agradecer aos alunos que teve o simples facto de o terem sido. É o que eu pretendo fazer quando chegar a minha vez de falar.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Surrealismo e infelicidade
lá terá de ser...pode bem caracterizar a atitude e a emoção que me assalta neste momento. Estou no meio duma "infindável" reunião cujo horizonte se espraia se estende se expande até pelo menos ao meio dia e meia... nesta reunião estão contidas as razões pelas quais a Europa está a perder todo o balanço em relação à China e aos Estados Unidos...
É, claro está, uma reunião cheia de "boas vontades" e, em que um conjuto absolutamente irrepreensível (e absurdo...e claustrofóbico) de procedimentos pretende substituir o "mercado". O que se traduz numa retórica absolutamente inenarrável de paternalismos e presunções e água benta...
Isto tudo, tem tendência a produzir "realidades" que batem certinho no universo fictício da "papelada", que helás, agora já é digital.
É, claro está, uma reunião cheia de "boas vontades" e, em que um conjuto absolutamente irrepreensível (e absurdo...e claustrofóbico) de procedimentos pretende substituir o "mercado". O que se traduz numa retórica absolutamente inenarrável de paternalismos e presunções e água benta...
Isto tudo, tem tendência a produzir "realidades" que batem certinho no universo fictício da "papelada", que helás, agora já é digital.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Carnaval
No meu outro blogue em que um dos motes é que neste país é carnaval todos os dias, vai sendo difícil arranjar posts que se distingam da banalização do carnaval quotidiano em que vivemos. Todos os dias há desfiles em múltiplos e variados locais e momentos e com personagens inusitadas ou habituais. Só que já são tantos e ao mesmo tempo que é impossível manter um registo de todos.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
A propósito
da onda de excitação que invade uma certa, ou melhor, certos extractos da intelligentsia lusa, à esquerda ou à direita com a eleição de figurantes das peças de teatro já executadas, também tenho um pequeno contibuto. Não que seja especialista na coisa. Nem por sombras. E fico mesmo quase constrangido perante gente que deve ter lido o Pascoaes, mais o Pessoa, o Vieira, o Mattoso, o Lourenço, o Cortesão, o António José, ou pelo menos a monografia do Miguel Real.
Eu confesso desde já que dei uma vista de olhos. Mas foi de vistas curtas. E, estou seguro, que deve haver aqueles que foram ainda mais dentro da problemática e tem o António Quadros e o Pinharanda Gomes. Eu, por mim, já saber enunciar estes heróis do Joachim dei Fiori é um monumental achievment.
Mas regressando ao Salazar. Parece que o homem teve inúmeras virtudes e pairou acima da carne do pecado e da tentação. Quase um santo, que nos deixou largamente abastecidos de poupanças, economias de uma vida de asceta que impôs com grande gosto aos demais sem cuidar de lhes escutar preferências ou opiniões. Foi, isso é certo, um grande gestor das invejazinhas entre os industriais e banqueiros. Esse mérito ninguém o pode retirar. Dividir para reinar é um truque de prestigitador bastante conhecido qualquer manual de estratégia do it youself nos diz isso. Mas entre o enunciar e o fazer há um mundo de obstáculos. Que o nosso herói foi ultrapassando até à malograda queda e metafórica cadeira. O nosso herói foi um magnifico gestor da adrenalina nacional, da seiva da lusitaniedade, a invejazinha que nos corrói. Sempre desejámos ao "outro" que amouchasse com o focinho no chão como nós. E isso parece que o psicólogo Salazar compreendeu muito bem. Tanto melhor. Venham mais beatos como ele. Mantenham o aeroporto aberto.
Eu confesso desde já que dei uma vista de olhos. Mas foi de vistas curtas. E, estou seguro, que deve haver aqueles que foram ainda mais dentro da problemática e tem o António Quadros e o Pinharanda Gomes. Eu, por mim, já saber enunciar estes heróis do Joachim dei Fiori é um monumental achievment.
Mas regressando ao Salazar. Parece que o homem teve inúmeras virtudes e pairou acima da carne do pecado e da tentação. Quase um santo, que nos deixou largamente abastecidos de poupanças, economias de uma vida de asceta que impôs com grande gosto aos demais sem cuidar de lhes escutar preferências ou opiniões. Foi, isso é certo, um grande gestor das invejazinhas entre os industriais e banqueiros. Esse mérito ninguém o pode retirar. Dividir para reinar é um truque de prestigitador bastante conhecido qualquer manual de estratégia do it youself nos diz isso. Mas entre o enunciar e o fazer há um mundo de obstáculos. Que o nosso herói foi ultrapassando até à malograda queda e metafórica cadeira. O nosso herói foi um magnifico gestor da adrenalina nacional, da seiva da lusitaniedade, a invejazinha que nos corrói. Sempre desejámos ao "outro" que amouchasse com o focinho no chão como nós. E isso parece que o psicólogo Salazar compreendeu muito bem. Tanto melhor. Venham mais beatos como ele. Mantenham o aeroporto aberto.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Tem dias
em que é muito difícil fingir que somos idiotas e que acreditamos nas peças de teatro em que, segundo o Goffman, participamos na nossa vida social. Alguém me devia ter avisado que à medida que se vai envelhecendo estes papéis que temos de desempenhar são, crescentemente, cansativos e monótonos.
A natureza humana e a sua condição são bem mais simples que o que parecem. Qualquer observador distraído ao fim de algumas repetições começa a notar regularidades. Ter de fingir que se acredita que um qualquer figurante da peça em representação está preocupadissímo com os seus concidadãos começa a requerer uma dose de energia que já não está à mão de semear. A dramaturgia é, afinal, muito mais pobre do que se supunha. Os encenadores são medíocres, os actores bastante amadores e a cenografia está a cair aos pedaços. Fingir que se leva isto mesmo a sério é o diabo. Eu confesso que me é penoso. Tem momentos em que nem sei como é que ainda não me desmancho a rir incontrolavelmente.
A natureza humana e a sua condição são bem mais simples que o que parecem. Qualquer observador distraído ao fim de algumas repetições começa a notar regularidades. Ter de fingir que se acredita que um qualquer figurante da peça em representação está preocupadissímo com os seus concidadãos começa a requerer uma dose de energia que já não está à mão de semear. A dramaturgia é, afinal, muito mais pobre do que se supunha. Os encenadores são medíocres, os actores bastante amadores e a cenografia está a cair aos pedaços. Fingir que se leva isto mesmo a sério é o diabo. Eu confesso que me é penoso. Tem momentos em que nem sei como é que ainda não me desmancho a rir incontrolavelmente.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
O meu pai
faria hoje 76 anos. E faz, hoje. exactamente nove meses que ele morreu. Era a pessoa mais generosa que eu conheci, tinha um sentido de humor terrível e paradoxal, uma parte do qual consegui herdar. A generosidade e a capacidade de perdoar é que não herdei. Uma vez, tinha eu uns quinze anos, a caminho do monte no Alentejo, parou o carro saiu e mandou-me fechar os olhos, perguntou-me o que é que eu via. Nada. Pois é isso mesmo que vais herdar de mim, vou dar-te o que puder em vida, mas não esperes grandes heranças. Deu-me um mundo em vida. Outra vez, já eu era adulto e pai, pergutou-me se eu ficava aborrecido com o facto de ele dar dinheiro a pessoas da família e a amigos ou pessoas que simplesmente precisavam de ajuda. Como se eu tivesse direito a reclamar ou tivesse o direito de realmente ficar aborrecido. Fiquei um pouco embaraçado e sem saber o que dizer. Que o dinheiro era dele, que eu não tinha nada a ver com isso. Mas ele fitou-me e voltou à carga. Apeteceu-me abraça-lo e dizer que era um pai sem igual. Mas um gajo nestas ocasiões mantêm sempre a puta da compustura e voltei a dizer-lhe as mesmas merdas que já tinha dito. Podia ter-lhe dito que raramente se conhecem pessoas como ele, com capacidade de olhar realmente para o "outro" e para o compreender sem julgar, que ele encarava as dificuldades da vida com resignação mas sempre rindo-se na cara da adversidade, o que nos dava um suplemento de coragem.
As memórias já vão sendo mais doces, embora me custe ainda escrever sobre ele. Lembro-me de um dia chegar a casa e ele estar com o neto, o meu filho mais velho, sentados no chão da sala reordenando por cores os cd's que estavam espalhados num mar... devo ter ficado embasbacado e chateado, eles olharam pra mim encolheram os ombros e continuaram...
Nunca lhe ouvi nenhuma recriminação aos muitos que se aproveitaram da generosidade dele nunca devolvendo empréstimos. Nunca lhe ouvi expectativa de reconhecimento ou de agradecimento de terceiros. Fazia porque achava que devia fazer. Dava porque achava que devia dar e sempre sem expectativa que alguém sequer viesse agradecer. Nunca aguardou louvor. Pediu-me, quando me tornei adulto, que não me vendesse. Foi quando me contou a história do meu avô, o pai dele, e me relembrou episódios da vida dele. Não aceitar dinheiro que não tem o nosso nome. Não trocar por dinheiro a nossa dignidade, a nossa consciência a nossa alma. Obrigado pai por me teres ensinado que há um conforto gigantesco em podermos olhar os outros nos olhos, podermos circular por aí de queixo levantado mesmo que a roupa que podemos vestir já não estejam na moda e o orçamento seja curto para parecermos o que nunca fomos.
Gostaria apenas de vir a ser, para os meus filhos, um bocadinho daquilo que ele foi para mim. Se isso acontecer terei sido um ser humano decente. Ele era excepcional. E eu tenho muitas saudades dele.
As memórias já vão sendo mais doces, embora me custe ainda escrever sobre ele. Lembro-me de um dia chegar a casa e ele estar com o neto, o meu filho mais velho, sentados no chão da sala reordenando por cores os cd's que estavam espalhados num mar... devo ter ficado embasbacado e chateado, eles olharam pra mim encolheram os ombros e continuaram...
Nunca lhe ouvi nenhuma recriminação aos muitos que se aproveitaram da generosidade dele nunca devolvendo empréstimos. Nunca lhe ouvi expectativa de reconhecimento ou de agradecimento de terceiros. Fazia porque achava que devia fazer. Dava porque achava que devia dar e sempre sem expectativa que alguém sequer viesse agradecer. Nunca aguardou louvor. Pediu-me, quando me tornei adulto, que não me vendesse. Foi quando me contou a história do meu avô, o pai dele, e me relembrou episódios da vida dele. Não aceitar dinheiro que não tem o nosso nome. Não trocar por dinheiro a nossa dignidade, a nossa consciência a nossa alma. Obrigado pai por me teres ensinado que há um conforto gigantesco em podermos olhar os outros nos olhos, podermos circular por aí de queixo levantado mesmo que a roupa que podemos vestir já não estejam na moda e o orçamento seja curto para parecermos o que nunca fomos.
Gostaria apenas de vir a ser, para os meus filhos, um bocadinho daquilo que ele foi para mim. Se isso acontecer terei sido um ser humano decente. Ele era excepcional. E eu tenho muitas saudades dele.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (12)
Nick Quase Sem Cabeça
A maior parte de nós consegue passar pela vida balbuciando escassas centenas de vocábulos. Não necessitamos de articular mais do que umas dúzias de frases para nos fazermos entender. Com ou sem inovações bizarras no domínio da semântica e da sintaxe, o país “real” sobrevive magnificamente com recurso a um léxico reduzido. Gente famosa ou gente com aspiração à fama entendem-se às mil maravilhas nestes códigos simples. Se o leitor ou leitora deseja dominar esta linguagem basta-lhe adquirir algumas revistas e frequentar salões de cabeleireiro. De facto a coisa é indolor. Não requer, sequer, muitos neurónios funcionais.
O mundo, por outro lado, acomodou-se a esta existência. A sociedade não é, realmente, feita de instituições, de processos ou de sistemas. Luhmann estava profundamente equivocado. O “tecido” que serve de base à sociedade são os “eventos”. Podem ser “escândalos”, “casos”, “doenças”, quaisquer “dificuldades” ou “aspirações” menores ou maiores das pessoas “que são faladas e fotografadas”.
A sociedade é, realmente, um continuum de descontinuidades. Aparentemente, todos os eventos são, por natureza, singulares. Não existem conexões entre eles. Constituem um borbulhar aleatório e espontâneo. O “próximo” episódio simplesmente toma o seu espaço na arena social substituindo o escândalo anterior. Não há memória. São eventos singelos sem relação e não existe a possibilidade de aprendizagem. Nada é legado ou transmitido. Numa sociedade sem aprendizagem e sem memória em que não há legados, não há tempo, apenas coisas que se sucedem umas após as outras. Numa sociedade em que não há tempo, há apenas caras que se tornam iguais, gestos iguais, pessoas que se repetem como clones. Nesta sociedade, precisamos de poucas palavras para nos entendermos.
É o triunfo final do solipsismo, o tempo é aqui e agora e só eu existo. Sem estes “eventos” não existe vida. Nem imprensa. Nem politica, nem políticos nem jornalistas. No limite trata-se de estar num determinado espaço e tempo e produzir uma ou outra afirmação sobre os benefícios do botox ou da última cirurgia plástica às mamas que alguém fez ou pensa fazer. Ou sobre o que comeu fulano ou fulana. Ou sobre a atribuição de recursos para uma obra. Ou sobre a instalação de uma empresa num concelho. Ou sobre uma pessoa que morreu porque demoraram sete horas a transportá-lo para um hospital. Ou sobre uma criança, mais uma, que era queimada com cigarros por um “pai” psicopata. Ou um futebolista que estava bêbado mas a lei foi aplicada na versão suave porque sim. Uma hora depois, estas coisas pereceram, e foram substituídas por novas afirmações sobre outras coisas quaisquer. O período de vida útil de um “evento” é inferior ao de um iogurte. É também, o triunfo final do nihilismo. Tudo se torna igual e equivalente. Muito embora não seja realmente verdade, parece que todos poderemos aceder a tudo. Todos podemos ser famosos. Esta é a suprema ilusão de uma sociedade sem memória e sem tempo. Parece. Tudo parece. Pouca coisa é.
© José Manuel Fonseca
A maior parte de nós consegue passar pela vida balbuciando escassas centenas de vocábulos. Não necessitamos de articular mais do que umas dúzias de frases para nos fazermos entender. Com ou sem inovações bizarras no domínio da semântica e da sintaxe, o país “real” sobrevive magnificamente com recurso a um léxico reduzido. Gente famosa ou gente com aspiração à fama entendem-se às mil maravilhas nestes códigos simples. Se o leitor ou leitora deseja dominar esta linguagem basta-lhe adquirir algumas revistas e frequentar salões de cabeleireiro. De facto a coisa é indolor. Não requer, sequer, muitos neurónios funcionais.
O mundo, por outro lado, acomodou-se a esta existência. A sociedade não é, realmente, feita de instituições, de processos ou de sistemas. Luhmann estava profundamente equivocado. O “tecido” que serve de base à sociedade são os “eventos”. Podem ser “escândalos”, “casos”, “doenças”, quaisquer “dificuldades” ou “aspirações” menores ou maiores das pessoas “que são faladas e fotografadas”.
A sociedade é, realmente, um continuum de descontinuidades. Aparentemente, todos os eventos são, por natureza, singulares. Não existem conexões entre eles. Constituem um borbulhar aleatório e espontâneo. O “próximo” episódio simplesmente toma o seu espaço na arena social substituindo o escândalo anterior. Não há memória. São eventos singelos sem relação e não existe a possibilidade de aprendizagem. Nada é legado ou transmitido. Numa sociedade sem aprendizagem e sem memória em que não há legados, não há tempo, apenas coisas que se sucedem umas após as outras. Numa sociedade em que não há tempo, há apenas caras que se tornam iguais, gestos iguais, pessoas que se repetem como clones. Nesta sociedade, precisamos de poucas palavras para nos entendermos.
É o triunfo final do solipsismo, o tempo é aqui e agora e só eu existo. Sem estes “eventos” não existe vida. Nem imprensa. Nem politica, nem políticos nem jornalistas. No limite trata-se de estar num determinado espaço e tempo e produzir uma ou outra afirmação sobre os benefícios do botox ou da última cirurgia plástica às mamas que alguém fez ou pensa fazer. Ou sobre o que comeu fulano ou fulana. Ou sobre a atribuição de recursos para uma obra. Ou sobre a instalação de uma empresa num concelho. Ou sobre uma pessoa que morreu porque demoraram sete horas a transportá-lo para um hospital. Ou sobre uma criança, mais uma, que era queimada com cigarros por um “pai” psicopata. Ou um futebolista que estava bêbado mas a lei foi aplicada na versão suave porque sim. Uma hora depois, estas coisas pereceram, e foram substituídas por novas afirmações sobre outras coisas quaisquer. O período de vida útil de um “evento” é inferior ao de um iogurte. É também, o triunfo final do nihilismo. Tudo se torna igual e equivalente. Muito embora não seja realmente verdade, parece que todos poderemos aceder a tudo. Todos podemos ser famosos. Esta é a suprema ilusão de uma sociedade sem memória e sem tempo. Parece. Tudo parece. Pouca coisa é.
© José Manuel Fonseca
sábado, fevereiro 10, 2007
O Retorno
Daqui a algumas horas (dia e meio...) regresso à minha actividade de iluminar as almas que se me apresentam sequiosas de aprender as mágicas.... adiante...regresso, portanto, à actividade docente. Ironicamente, é uma espécie de restart, porque foi justamente no arranque do semestre anterior, perante uma turma a quem fiz a apresentação da cadeira, que me começou a dar aquilo que mais tarde aprendi ser um enfarte agudo do miocárdio. Portanto, após seis meses de multiplas aprendizagens sobre problemas coronários, antiagregantes plaquetários, vasodilatadores, tensões arteriais, necroses, escleroses e outros interessantes assuntos, eis que, de novo, e já no entusiasmante contexto da interpretação nacional do sistema de Bolonha, volto a comparecer perante uma mole humana para dizer coisas inteligentes e inteligiveis. Enfim, melhores dias virão.
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