quarta-feira, abril 27, 2011
segunda-feira, abril 18, 2011
sexta-feira, abril 15, 2011
as fronteiras que marcamos
no meio da tragédia do tsunami e da central nuclear que colapsa os desalojados encontram-se em situações provisórias num qualquer ginásio de escola ou espaço semelhante, mas repare-se como "constroem" uma "fortaleza" de intimidade que marca o seu espaço! o seu território a sua privacidade o seu castelo a sua fronteira...
esta fronteira é essencial para que a ansiedade se reduza para que a narrativa brutalmente interrompida tenho uma hipótese de voltar a uma geometria mais segura mais próxima de uma regularidade sana...
entre outras consequências desta nossa necessidade de fronteiras de espaço de tempo e de propósito para quem vive em organizações fica-se a saber que Bion tinha razão ... e que o "open space" é óptimo para a direcção financeira e uma parvoíce para quem tem de gramar com a "insegurança" de não poder levar uns cartões e construir uma barreira protectora mesmo que frágil...
segunda-feira, abril 11, 2011
segunda-feira, março 28, 2011
o recauchutar dos discursos ou a dissolução das ideologias
vivemos épocas de admirável reciclagem ideológica. Nunca terá sido tão verdadeiro o aforismo que faz lei no mundo, sempre exemplar, do futebol. Aquilo que hoje é verdade amanhã é mentira. E, não me refiro primordialmente ao aumenta impostos não aumenta impostos que corre nestes dias como panaceia ou como falta de espinha e negação do se disse ou não disse. Faltar à verdade ou mentir é uma coisa trivial entre os políticos ao sabor das circunstâncias. E as circunstâncias, hoje, ditam paladares amargos que todos temos de engolir como óleo de fígado de bacalhau. Eu essas coisas já dou de barato. O que me deixa verdadeiramente encantado é mais fundo. Ou não.
Mas se vos recordais, aqui há uns anos/meses quase todos clamavam (políticos de todos os quadrantes, banqueiros, nobres e altruístas membros dos diversos compromissos com e por Portugal, jornalistas, opinadores, comentadores de opinadores e por aí adiante que a fauna é vasta e isto não é uma apreciação às últimas evolução darwinianas) que existiam essas coisas chamadas empresas estratégicas e uns fascinantes centros de decisão nacionais de que seria pecado inominável abrir mão.
Agora, em face das mãos, pés, cabeças, e outros apêndices de significação freudiana mais profunda, correrem riscos sérios todos parecem dispostos a vender os anéis. O que parece mesmo estar em questão é quantos anéis há, se estão penhorados ou não, se chegam, se os credores os apreciarão.
O que há míngua é dos apêndices que serão salvos pela vendas dos anéis mais propriamente dos apêndices que a literatura e o saber consuetudinário consagrou como símbolos da coragem e da dignidade (e que embora resultem duma certa visão marialva são, ainda assim, genericamente aceites como metáfora da coisa). Portanto, tomates.
No vai e vem das vagas e da espuma, já nem se percebe bem o pastelão ideológico servido por todos. Os discursos misturam-se num ruído indistrinçável. As soluções propostas são gongóricas, fantasiosas, florentinas, idiotas, tipo one size fits all amplificadas pela gritaria.
No final, os mais frágeis da sociedade lixar-se-ão como de costume. A delícia, é que o número dos frágeis cresce de modo alarmante. E quando a fragilidade lhe bater à porta? não será tarde demais para fazer ouvir a voz e participar no debate, ou melhor exigir o debate?
Mas se vos recordais, aqui há uns anos/meses quase todos clamavam (políticos de todos os quadrantes, banqueiros, nobres e altruístas membros dos diversos compromissos com e por Portugal, jornalistas, opinadores, comentadores de opinadores e por aí adiante que a fauna é vasta e isto não é uma apreciação às últimas evolução darwinianas) que existiam essas coisas chamadas empresas estratégicas e uns fascinantes centros de decisão nacionais de que seria pecado inominável abrir mão.
Agora, em face das mãos, pés, cabeças, e outros apêndices de significação freudiana mais profunda, correrem riscos sérios todos parecem dispostos a vender os anéis. O que parece mesmo estar em questão é quantos anéis há, se estão penhorados ou não, se chegam, se os credores os apreciarão.
O que há míngua é dos apêndices que serão salvos pela vendas dos anéis mais propriamente dos apêndices que a literatura e o saber consuetudinário consagrou como símbolos da coragem e da dignidade (e que embora resultem duma certa visão marialva são, ainda assim, genericamente aceites como metáfora da coisa). Portanto, tomates.
No vai e vem das vagas e da espuma, já nem se percebe bem o pastelão ideológico servido por todos. Os discursos misturam-se num ruído indistrinçável. As soluções propostas são gongóricas, fantasiosas, florentinas, idiotas, tipo one size fits all amplificadas pela gritaria.
No final, os mais frágeis da sociedade lixar-se-ão como de costume. A delícia, é que o número dos frágeis cresce de modo alarmante. E quando a fragilidade lhe bater à porta? não será tarde demais para fazer ouvir a voz e participar no debate, ou melhor exigir o debate?
quarta-feira, março 23, 2011
expectativas e incentivos
quer venha o FMI ou outra qualquer forma de supervisão dos meninos mal comportados, verificar a instalação de regras leoninas e draconianas do ponto de vista da legislação laboral e da carga fiscal, assistiremos à explosão da economia subterrânea. O ser humano foi e será um ser adaptativo e criativo. É a vida.
E quem sabe alguma coisa de cultura dos autóctones sabe que a ausência de clamor, de revolta, de escândalo, não significa outra coisa para além de que a chusma encontrou uma alternativa aceitável à degradação da dignidade e, em lugar de por uma vez se erguer e afirmar a existência de espinha dorsal, preferiu, again and again, o esquemazinho, a aldrabilhazinha com robalos, chernes ou carapaus alimados conforme a posição social do verme.
E quem sabe alguma coisa de cultura dos autóctones sabe que a ausência de clamor, de revolta, de escândalo, não significa outra coisa para além de que a chusma encontrou uma alternativa aceitável à degradação da dignidade e, em lugar de por uma vez se erguer e afirmar a existência de espinha dorsal, preferiu, again and again, o esquemazinho, a aldrabilhazinha com robalos, chernes ou carapaus alimados conforme a posição social do verme.
terça-feira, março 22, 2011
Manifesto Irrealista por um País Respirável e quiçá Decente
Nesta hora em que se aproxima mais uma escolha daqueles que nos vão lixar o futuro a troco de notoriedade, de empregos porreiros no day after, mais uma volta no carrossel, permitam-me pelo menos que grite, com compostura e procurando não incomodar ninguém em particular, o meu nojo por tudo isto. Isto sendo a situação para a qual por omissão também contribuí.
Mas desta vez eu não me vou calar. Eu quero olhar os meus filhos nos olhos podendo dizer-lhes que me ergui da dormência e do comodismo e do torpor. Que pelo menos gritei contra este estado insuportável de coisas.
1. Quero um país em que as pessoas sejam tratadas com com consideração, urbanidade e dignidade que são direitos naturais e básicos dos cidadãos, independentemente do seu género, raça, credo, orientação sexual, filiação política, idade, opções clubísticas, posição social e nível de habilitações literárias;
2. Um país em que se faça o máximo para que todos tenham à partida condições semelhantes e que depois progridam apenas com base no mérito, competência e esforço honesto
3. Um país em que cunhas, feudos, compadrios, injustiças, nepotismos, discriminações, negligências e falta de profissionalismo sejam censuradas e punidas sem piedade e sem o beneplácito corporativo e cúmplice de ordens de associações de amigos de "no fundo é boa pessoa" "amigo do seu amigo"...
4. Um país em que não se aceite como argumento desculpablizador a evidência estatística que todos fazem qualquer coisa de negligente, de ilegal, de laxista, de trafulhice, ou que explorar lacunas das normas e das leis é uma coisa habitual normal e louvável
5. Um país em que não se atribuam culpas a terceiros por coisas que estavam sob a nossa alçada e responsabilidade, e em que as pessoas não se apropriem do mérito de terceiros como vulgares proxenetas
6. Um país em que as crianças no ensino básico (e nos restantes) não sejam denominadas de "arguidos" em "processos" disciplinares, em que os pais sejam chamados à responsabilidade e em que para professores vão apenas aqueles com efectiva vocação, em que as crianças sejam tratadas com disciplina, mas desafiadas e estimuladas em lugar de compactadas na mais opressiva dormência e paternalismo tentando infatilizá-las e torná-las nuns idiotas sem capacidade crítica através de repetições infindáveis de coisas tão básicas que os miúdos sentem o cérebro a mirrar apenas porque as disciplinas foram criadas para empregar gente que devia procurar emprego noutro sítio
7. Um país em que não se subsidiem as intenções mas os resultados, não se subsidiem os "amigos" e "contribuintes" para o "partido", mas o sucesso, a criação de emprego digno e o respeito pelo meio ambiente, a criação de produtos inovadores de qualidade e que respeitem os consumidores e que tentem atingir mercados amplos, um país em que o Estado não represente sete sextos da vida, e em que alguém que inicie uma actividade não seja imediatamente expulso com pedidos de luvas e chantageado com contribuições para o partido...
8. Um país em que a lei seja apenas ....aplicada....
9. Um país em que alguém que aceite ou solicite ou dê luvas, um suborno, uma prenda, uma compensação pelo cumprimento do seu dever seja tratado como um bacilo de Koch
10. Um país em que ao lado do indispensável sucesso económico seja mais valorizada a cultura a capacidade de escolha crítica de discussão e participação cívica
11. Um país que agradeça aos seus velhos o esforço que expenderam independentemente da notoriedade da contribuição e que os ampare na velhice com a dignidade que antigamente se atribuía aos anciãos, procurando que essa seja a idade de ouro
Mas desta vez eu não me vou calar. Eu quero olhar os meus filhos nos olhos podendo dizer-lhes que me ergui da dormência e do comodismo e do torpor. Que pelo menos gritei contra este estado insuportável de coisas.
1. Quero um país em que as pessoas sejam tratadas com com consideração, urbanidade e dignidade que são direitos naturais e básicos dos cidadãos, independentemente do seu género, raça, credo, orientação sexual, filiação política, idade, opções clubísticas, posição social e nível de habilitações literárias;
2. Um país em que se faça o máximo para que todos tenham à partida condições semelhantes e que depois progridam apenas com base no mérito, competência e esforço honesto
3. Um país em que cunhas, feudos, compadrios, injustiças, nepotismos, discriminações, negligências e falta de profissionalismo sejam censuradas e punidas sem piedade e sem o beneplácito corporativo e cúmplice de ordens de associações de amigos de "no fundo é boa pessoa" "amigo do seu amigo"...
4. Um país em que não se aceite como argumento desculpablizador a evidência estatística que todos fazem qualquer coisa de negligente, de ilegal, de laxista, de trafulhice, ou que explorar lacunas das normas e das leis é uma coisa habitual normal e louvável
5. Um país em que não se atribuam culpas a terceiros por coisas que estavam sob a nossa alçada e responsabilidade, e em que as pessoas não se apropriem do mérito de terceiros como vulgares proxenetas
6. Um país em que as crianças no ensino básico (e nos restantes) não sejam denominadas de "arguidos" em "processos" disciplinares, em que os pais sejam chamados à responsabilidade e em que para professores vão apenas aqueles com efectiva vocação, em que as crianças sejam tratadas com disciplina, mas desafiadas e estimuladas em lugar de compactadas na mais opressiva dormência e paternalismo tentando infatilizá-las e torná-las nuns idiotas sem capacidade crítica através de repetições infindáveis de coisas tão básicas que os miúdos sentem o cérebro a mirrar apenas porque as disciplinas foram criadas para empregar gente que devia procurar emprego noutro sítio
7. Um país em que não se subsidiem as intenções mas os resultados, não se subsidiem os "amigos" e "contribuintes" para o "partido", mas o sucesso, a criação de emprego digno e o respeito pelo meio ambiente, a criação de produtos inovadores de qualidade e que respeitem os consumidores e que tentem atingir mercados amplos, um país em que o Estado não represente sete sextos da vida, e em que alguém que inicie uma actividade não seja imediatamente expulso com pedidos de luvas e chantageado com contribuições para o partido...
8. Um país em que a lei seja apenas ....aplicada....
9. Um país em que alguém que aceite ou solicite ou dê luvas, um suborno, uma prenda, uma compensação pelo cumprimento do seu dever seja tratado como um bacilo de Koch
10. Um país em que ao lado do indispensável sucesso económico seja mais valorizada a cultura a capacidade de escolha crítica de discussão e participação cívica
11. Um país que agradeça aos seus velhos o esforço que expenderam independentemente da notoriedade da contribuição e que os ampare na velhice com a dignidade que antigamente se atribuía aos anciãos, procurando que essa seja a idade de ouro
domingo, março 06, 2011
no dia 12
em boa verdade a coisa é anárquica. Comme il faut. É bem possível que toda a qualidade de oportunistas apareçam. Mesmo alguns abortos sem cabelo e neo nazis sem escrúpulos. É bem possível que apareça gente idiota que a única coisa que pretende é armar confusão. O terreno é d'ailleurs propício. Gente que pretende instrumentalizar a coisa não faltará. Gente que se colará a um protesto inédito. Que procurará dividendos. Tudo isso é quase "natural".
Eu vou porque quer ir a um sitio onde outras pessoas querem dizer Basta! Chega! Precisamos de gente sã, honesta, normal, tolerante. Precisamos de mudar. Precisamos de tentar melhorar isto e construir um futuro melhor para as gerações que aí vêm. Mudar de rumo. Mudar de agulha. Mudar de actores. Chega de escroques. Chega de corruptelas. Basta de esquemas. Basta de argumentos miseráveis de "se não for eu algum outro fará".
É possível que o "sistema" se sinta ameaçado. Uma parte dos sistema grita histérico com fantasmas de totalitarismo. Agita-os. Mas, totalitarismo é a asfixia e claustrofobia actuais. O "vê lá não te prejudiques" que premeia a cumplicidade com a mediocridade, enquanto esmaga a honestidade. Com a promoção de incompetentes amigos. E o aviltamento da competência que não se verga.
Eu vou porque é altura de dizer pelo menos fui à rua tentar melhorar a qualidade do ar que se respira . Que é irrespirável. Eu vou pelos meus filhos.
Eu vou porque quer ir a um sitio onde outras pessoas querem dizer Basta! Chega! Precisamos de gente sã, honesta, normal, tolerante. Precisamos de mudar. Precisamos de tentar melhorar isto e construir um futuro melhor para as gerações que aí vêm. Mudar de rumo. Mudar de agulha. Mudar de actores. Chega de escroques. Chega de corruptelas. Basta de esquemas. Basta de argumentos miseráveis de "se não for eu algum outro fará".
É possível que o "sistema" se sinta ameaçado. Uma parte dos sistema grita histérico com fantasmas de totalitarismo. Agita-os. Mas, totalitarismo é a asfixia e claustrofobia actuais. O "vê lá não te prejudiques" que premeia a cumplicidade com a mediocridade, enquanto esmaga a honestidade. Com a promoção de incompetentes amigos. E o aviltamento da competência que não se verga.
Eu vou porque é altura de dizer pelo menos fui à rua tentar melhorar a qualidade do ar que se respira . Que é irrespirável. Eu vou pelos meus filhos.
terça-feira, março 01, 2011
a densidade do irrelevante e a ascensão do insignificante
É verdaderamente atroz a quantidade de tempo e de recursos que se perdem, se desperdiçam, em processos que mais não fazem do que sublinhar o que toda gente já sabe. Ou de dar uma expressão matemática ao óbvio ululante. Ou pior. De tentar criar uma realidade cor de rosa, mascarada em que reafirmamos as ilusões bondosas e perigosas em que queremos ou gostaríamos de viver. E o bizarro é que muitas vezes chamamos a isto "processos de certificação de qualidade" ou de "avaliação" ou de "programação e aferição". Ou de outro nome pomposo qualquer. Ao mesmo tempo, a quantidade de informação que procuramos passar aos alunos subiu acima do suportável. Ele são papers, videos, artigos, livros, sebentas. Uma boa parte das vezes todo este conjunto de materiais prolonga ou amplifica ou sedimenta os anteriores defeitos. Isto é, fala de coisas que não existe e que na "opinião" de alguém, contudo e não obstante, deveria existir.
Ao mesmo tempo os miúdos adquirem conhecimentos por métodos não certificáveis mas úteis. E criam coisas fabulosas mas não enquadradas nos programas quadrados e maçadores e do século dezoito.
É cansativo.
Ao mesmo tempo os miúdos adquirem conhecimentos por métodos não certificáveis mas úteis. E criam coisas fabulosas mas não enquadradas nos programas quadrados e maçadores e do século dezoito.
É cansativo.
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
O ponto de quebra
"Tenho aqui a justificação que trouxe da consulta médica, dou-a a si ou entrego-a nos Recursos Humanos?"
pausa... olhar pretensamente indiferente e distraído ... e depois...
"ahh... não sei ... o "meu pessoal" não vai a consultas nem médicos ..."
surpresa ....
"bom, eu não sei sobre o resto das pessoas mas eu tenho de controlar os meus diabetes e ser seguida regularmente"
....
noutro sitio do planeta....
Uma mulher prepara-se para sair uma hora depois do horário regular, são sete da tarde, vai ainda tentar buscar um dos filhos ... à saída o chefe interpela-a...
"então vai tirar a tarde livre?"
noutro local do sistema solar ...
"Então tem aí o relatório que lhe pedi?"
"Não chefe este fim de semana não tive hipótese. O miúdo adoeceu e passámos quase todo o sábado no hospital e depois sabe como é no domingo a mãe ficou a cuidar dele e eu tive de levar a garota às aulas de natação..."
"Isso é muito mau. E inconveniente. Agora tenho de aparecer ao director e justificar-me e sabe como ele detesta estes atrasos. E eu também."
Um dia esta gente que aguenta, come, cala, suporta, engole, morde os lábios, quebra. E quebra por dentro. Quebra contra si mesma. E aqueles pequenos e médios e medíocres ditadores locais que participam nesta dança um dia quebram porque chega a sua vez.
E quebrar este círculo vicioso é bem mais fácil que parece.
pausa... olhar pretensamente indiferente e distraído ... e depois...
"ahh... não sei ... o "meu pessoal" não vai a consultas nem médicos ..."
surpresa ....
"bom, eu não sei sobre o resto das pessoas mas eu tenho de controlar os meus diabetes e ser seguida regularmente"
....
noutro sitio do planeta....
Uma mulher prepara-se para sair uma hora depois do horário regular, são sete da tarde, vai ainda tentar buscar um dos filhos ... à saída o chefe interpela-a...
"então vai tirar a tarde livre?"
noutro local do sistema solar ...
"Então tem aí o relatório que lhe pedi?"
"Não chefe este fim de semana não tive hipótese. O miúdo adoeceu e passámos quase todo o sábado no hospital e depois sabe como é no domingo a mãe ficou a cuidar dele e eu tive de levar a garota às aulas de natação..."
"Isso é muito mau. E inconveniente. Agora tenho de aparecer ao director e justificar-me e sabe como ele detesta estes atrasos. E eu também."
Um dia esta gente que aguenta, come, cala, suporta, engole, morde os lábios, quebra. E quebra por dentro. Quebra contra si mesma. E aqueles pequenos e médios e medíocres ditadores locais que participam nesta dança um dia quebram porque chega a sua vez.
E quebrar este círculo vicioso é bem mais fácil que parece.
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
hoje provavelmente dei a melhor aula da minha vida
e o que mais me contenta é que tenho a impressão de ter tocado a alma de dois ou três alunos(as) ...
foi o mais perto que estive, na minha existência, da magia, por um instante caminhei no cosmos...
há dias em que vale a pena estar vivo
foi o mais perto que estive, na minha existência, da magia, por um instante caminhei no cosmos...
há dias em que vale a pena estar vivo
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
Hoje
o meu pai faria 80 anos. O que eu dava para poder estar com ele e para ele poder ver os netos em que florescem os valores que lhe eram tão queridos. Ou só para ele poder contar pela enésima vez uma qualquer história em que nos escancarávamos todos a rir. Ou só para estarmos. Porra que a dor nunca passa.
quarta-feira, janeiro 26, 2011
O uso de palavras
eu confesso que nestes tempos pós modernos relativistas fico fascinado pelo uso de determinados substantivos, adjectivos e adverbios que "entram" em uso sem que sejam objecto de escrutínio adequado sobre o seu significado e sobre o uso sintático apropriado. Estou aqui numa aula em que os alunos falam de uma palavra na moda. A "sustentabilidade" é uma das palavras sacro santas neste tempo.
Um dos argumentos é o da poupança energética e preservação dos recursos naturais. Mas com o preço do petróleo e da electricidade em escalada que outra alternativa existe senão gerar e procurar poupanças? O argumento do meio ambiente nomeadamente da qualidade do ar. Mas com o ar que respiramos, ide a Pequim... que alternativa senão melhorar o ar senão morremos todos com cancro nos pulmões? E o argumento da substituição do plástico por papel? E a redução de custos porque plástico é petróleo...
E a desmaterialização das facturas e comunicações dos Bancos e Utilities que manda por mail com assinatura digital a conta para pagar que o cliente imprime por conta dele....
E o argumento de que a retórica é pop e cool e permite fornecer bons argumentos de venda que funcionam junto de algumas tribos mais "concerned".
Claro que isto é tudo cinismo meu.
Um dos argumentos é o da poupança energética e preservação dos recursos naturais. Mas com o preço do petróleo e da electricidade em escalada que outra alternativa existe senão gerar e procurar poupanças? O argumento do meio ambiente nomeadamente da qualidade do ar. Mas com o ar que respiramos, ide a Pequim... que alternativa senão melhorar o ar senão morremos todos com cancro nos pulmões? E o argumento da substituição do plástico por papel? E a redução de custos porque plástico é petróleo...
E a desmaterialização das facturas e comunicações dos Bancos e Utilities que manda por mail com assinatura digital a conta para pagar que o cliente imprime por conta dele....
E o argumento de que a retórica é pop e cool e permite fornecer bons argumentos de venda que funcionam junto de algumas tribos mais "concerned".
Claro que isto é tudo cinismo meu.
quinta-feira, janeiro 13, 2011
Acostumamo-nos às tragédias
Terramotos, cheias, fogos, deslizamentos de terras, enxurradas, tsunamis. Parecem eventos quotidianos. De tal modo que ainda não exclamámos a nossa surpresa e lamento pelas vítimas de uma qualquer catástrofe na Austrália, eis que o Brasil nos manda péssimas notícias, que rapidamente são ultrapassadas por outro terramoto que faz notícia pela violência e número de mortos. E vamos ficando insensíveis. É apenas mais um episódio na longa história dos desafios à resistência humana. Entretanto as vítimas vão ficando esquecidas, como no Haiti, onde a desgraça se prolonga até se tornar um hábito. Uma "normalidade". Ao fim ao cabo não foi connosco. Nunca é connosco. Até ao dia.
Nestes momentos revela-se o melhor e o pior de nós. Há uns anos, em plena época de incêndios, andei pelo país com uns bombeiros. No Gavião fiquei impressionado por chefes de bombeiros que choravam, um bombeiro que gritava a sua raiva porque ao mesmo tempo que tentava em vão salvar uma casa e era acusado de inépcia por uma turba impotente, ululante e em busca de um bode expiatório à mão, a sua própria casa era consumida pelas chamas. Horas depois apareciam negociantes de forragens e rações para "ajudar" a alimentar o gado que ficara sem pastagens. O preço por grama "oferecido" era semelhante ao do quilo de garoupa.
Nestes momentos revela-se o melhor e o pior de nós. Há uns anos, em plena época de incêndios, andei pelo país com uns bombeiros. No Gavião fiquei impressionado por chefes de bombeiros que choravam, um bombeiro que gritava a sua raiva porque ao mesmo tempo que tentava em vão salvar uma casa e era acusado de inépcia por uma turba impotente, ululante e em busca de um bode expiatório à mão, a sua própria casa era consumida pelas chamas. Horas depois apareciam negociantes de forragens e rações para "ajudar" a alimentar o gado que ficara sem pastagens. O preço por grama "oferecido" era semelhante ao do quilo de garoupa.
quarta-feira, dezembro 15, 2010
Ah o Natal
essa época em que se montam tendas para distribuir comida quente aos sem abrigos entretanto arrebanhados um pouco por todo o lado e entrevistados à força enquanto se debatem com uma espinha do bacalhau, forçados a agradecer a caridade de circunstância, em que se vê pela ducentésima sexagésima oitava vez o "Sózinho em casa 4", em que os diversos familiares insistem para que abocanhemos e deglutamos o sêxtuplo do que é necessário, em que outras famílias insistem em que brindemos com um daqueles whiskys de qualidade duvidosa parecidos com soda cáustica e que deixam o estômago ácido durante seis dias, em que levamos no focinho com gente apressada cheia de sacos e pisadelas e caneladas se porventura tivermos a bela ideia de comprar na antevêspera o que deveríamos ter cuidado de comprar no mês de Setembro, em que se recebem magnificas quantidades de inutilidades devidamente embrulhadas em papéis e laçarotes que transbordam os contentores do lixo durante seis dias misturados com os restos de toda a sorte de comidas libertando odores abundantes de azedo. Ah o Natal essa época de fraternidade e boa vontade em que as famílias vão visitar em breves momentos os parentes depositados nos lares e caves e anexos de garagens, em que os velhos são abandonados nos hospitais pra não atrapalharem as consoadas...
eu adora as férias da Páscoa
eu adora as férias da Páscoa
sexta-feira, novembro 19, 2010
Grande Maçada
o que é aborrecido, nos dias que correm, não é que as pessoas sejam o que sempre foram. Independentemente do género, do upbringing, das habilitações literárias, somos o que somos. E nunca fomos grande coisa. E, ainda bem. Seres perfeitos seriam ainda uma maçada maior.
Mas o que aborrece tanta gente, hoje, é que o escrutínio voluntário ou involuntário, a que nos sujeitamos e por maioria de razão afecta as "figuras públicas", revela-nos despidos. E de repente gente que nos ensinou a falar português na televisão, com ares e modos particularmente afectados e pomposos, é escutada ao telemóvel a falar como uma vulgar cabeleireria de bairro fala da concorrente da esquina da rua. O que aborrece esta gente é que é cada vez mais difícil parecer o que nunca se chegou a ser. Nem se pode ser.
Mas o que aborrece tanta gente, hoje, é que o escrutínio voluntário ou involuntário, a que nos sujeitamos e por maioria de razão afecta as "figuras públicas", revela-nos despidos. E de repente gente que nos ensinou a falar português na televisão, com ares e modos particularmente afectados e pomposos, é escutada ao telemóvel a falar como uma vulgar cabeleireria de bairro fala da concorrente da esquina da rua. O que aborrece esta gente é que é cada vez mais difícil parecer o que nunca se chegou a ser. Nem se pode ser.
sexta-feira, outubro 22, 2010
Expectativas e Incentivos
Esta semana que passou fartei-me de repetir ad nauseam esta asserção. Gente que me parece em perpétuo tirocínio olha-me de maneiras diferentes mas estereotipadas. Uns acham simplório em demasia que a Economia e o Comportamento humano se unam de forma tão óbvia. Outros não acham nada, aguardam apenas que chegue o fim da aula. Outros não fazem a mínima ideia do que diabo se está a falar, e a que raio de propósito vem esta história das pessoas desenvolverem expectativas e reagirem a incentivos. Mantenho, claro está, a secreta esperança que alguns alcancem a coisa...
Os exemplos ilustrativos são abundantes. Mas o que importa é que as minhas expectativas são tão baixas que poucos incentivos possuo para fazer alguma coisa...
Os exemplos ilustrativos são abundantes. Mas o que importa é que as minhas expectativas são tão baixas que poucos incentivos possuo para fazer alguma coisa...
terça-feira, outubro 05, 2010
Subversão
é colocar a questão sobre porque é que "temos de ser mais competitivos", porque é que "temos de crescer os negócios senão somos expulsos do mercado", porque é que "temos de nos reinventar e mudar constantemente antes que outros o façam por nós", porque é que "temos de doar a alma, o sangue, a inteligência e as tripas". Colocar estas questões é um pecado capital aos olhos daqueles que definem a doutrina dominante do optimismo institucional, do pensamento positivo, do "é preciso mandar vibrações positivas para o Universo". Claro está todas estas teorias são formidavelmente úteis num contexto de crise e de desemprego que atinge já não só os pouco qualificados. São úteis para os que partem renovarem a esperança na possibilidade de "regressar à luta", como uma "oportunidade de relançar a carreira em novos trajectos de desafio pessoal" e são úteis para os que ficam com carga de trabalho a triplicar aceitarem com bonomia a sua nova situação de escravos até um dia que a grande lotaria da competitividade os escolha como novos excedentários e supérfluos.
Claro está, gera orfãos de pais ausentes, e acéfalos jogadores de actividades online que decorrem aqui e agora e não têm nem história nem futuro. Apenas disponibilidade para automatizar algumas competências que farão excelentes operadores de sistemas homem máquina no futuro. Vivemos disconectados da realidade, uns dos outros, em sofrimento que acreditamos ser mitigado por uma realidade virtual que nos é concedida em doses de choque na empresa pelos "motivational speakers", pelo "team building", e, na vida em geral pelos programas da Oprah... ou pela Julia Pinheiro....
Sempre à espera do euromilhões ou de poder aliviar a alma no facebook enquanto o euromilhões não chega...
subversão é perguntar porquê e para quê?
Claro está, a cedência perante a ideologia, conduz a dias que começam às seis da manhã e acabam às onze da noite e em que é esperado que as pessoas demonstrem energia, entusiasmo, fé e determinação em participar na mágica criação de um mundo admirável e azulíssimo, postecipando, de modo calvinista, alguma vã esperança de reconhecimento e recompensa. Porque, o tempo é único e só conta o agora. O passado não nos concede créditos e o futuro exigem a permanente demonstração que nele caberemos. Para quê?
Claro está, gera orfãos de pais ausentes, e acéfalos jogadores de actividades online que decorrem aqui e agora e não têm nem história nem futuro. Apenas disponibilidade para automatizar algumas competências que farão excelentes operadores de sistemas homem máquina no futuro. Vivemos disconectados da realidade, uns dos outros, em sofrimento que acreditamos ser mitigado por uma realidade virtual que nos é concedida em doses de choque na empresa pelos "motivational speakers", pelo "team building", e, na vida em geral pelos programas da Oprah... ou pela Julia Pinheiro....
Sempre à espera do euromilhões ou de poder aliviar a alma no facebook enquanto o euromilhões não chega...
subversão é perguntar porquê e para quê?
segunda-feira, setembro 27, 2010
O mundo fascinante da Justiça
Hoje deveria ter testemunhado num processo de difamação. Ou crime sinónimo, que eu sou iletrado em matérias conexas com o código penal. Uma velhacariazita cometida por um ser com a valia de um coliforme fecal, mas adiante...
A coisa decorreria no novíssimo campus da Justiça da Expo. Começou com uma experiência que não contava que era a da "revista" e detecção de metais, o que motivava uma fila considerável, pelos visto nem eu nem os outros participantes que se distribuiriam pelos diversos andares do edifício. Da próxima vez vou procurar chegar de véspera porque existia um segurança para revistar sacos e passar o detector de metais. Isso, e um convívio inesperado com diversos extractos sociais. Alguns dos presentes na fila tinham um ar de quem estariam no sítio certo até por antecipação...
Debelado o primeiro obstáculo, tomado o elevador chega-se a um átrio onde várias "oficiais de diligências" (será assim que se denominam as pessoas que se certificam que arguidos e testemunhas e demandantes e demandados estão presentes?) berravam nomes de pessoas com ar aborrecido porque os advogados(as) assinalavam a presença das pessoas na fila "lá em baixo". Quiçá, na convocatória se pudesse, à semelhança do jejum para as análises, referenciar a necessidade de vir uma horas antes. Havia duas salas de audiência pelo que, confesso, desenvolvi alguma estranheza pelo número de processos referenciados no prefixo das "chamadas". Pareciam-me processos a mais para alocar em dois espaços a não ser que a justiça portuguesa funcionasse em multiverso ou em regime mais prosaico de time-sharing. Indicaram-nos uma sala para esperar e ficámos a saber que havia "overbooking"... para a mesma sala existiam três "julgamentos e uma sentença" tudo das 14 às 17! Isto parece ser um procedimento de investigação operacional que visa uma espécie de minimax... se faltarem num julgamento avançam logo mais uma meia dúzia deles e a utilização da capacidade infra-estrutural é sempre máxima...
A maçada é que se o nosso é rateado para último e nos outros ninguém faltar, o nosso não se realiza. E, portanto fica logo remarcado ou então fica adiado sine die. Ou coisa parecida que como isto é sobre Justiça seria grosseria não meter um latinório algures pelo meio.... Foi o nosso caso. Três horas depois fomos convidados a regressar um dia destes. Fora um político a comunicar teria dito "quando for adequado"....
Enfim, uma dezena de pessoas deixaram de criar valor para o accionista, nem para si próprios, e nada avançou no bendito processo. Um dia interessante e uma experiência que engrandeceu qualquer coisa mas que agora não me ocorre...
A coisa decorreria no novíssimo campus da Justiça da Expo. Começou com uma experiência que não contava que era a da "revista" e detecção de metais, o que motivava uma fila considerável, pelos visto nem eu nem os outros participantes que se distribuiriam pelos diversos andares do edifício. Da próxima vez vou procurar chegar de véspera porque existia um segurança para revistar sacos e passar o detector de metais. Isso, e um convívio inesperado com diversos extractos sociais. Alguns dos presentes na fila tinham um ar de quem estariam no sítio certo até por antecipação...
Debelado o primeiro obstáculo, tomado o elevador chega-se a um átrio onde várias "oficiais de diligências" (será assim que se denominam as pessoas que se certificam que arguidos e testemunhas e demandantes e demandados estão presentes?) berravam nomes de pessoas com ar aborrecido porque os advogados(as) assinalavam a presença das pessoas na fila "lá em baixo". Quiçá, na convocatória se pudesse, à semelhança do jejum para as análises, referenciar a necessidade de vir uma horas antes. Havia duas salas de audiência pelo que, confesso, desenvolvi alguma estranheza pelo número de processos referenciados no prefixo das "chamadas". Pareciam-me processos a mais para alocar em dois espaços a não ser que a justiça portuguesa funcionasse em multiverso ou em regime mais prosaico de time-sharing. Indicaram-nos uma sala para esperar e ficámos a saber que havia "overbooking"... para a mesma sala existiam três "julgamentos e uma sentença" tudo das 14 às 17! Isto parece ser um procedimento de investigação operacional que visa uma espécie de minimax... se faltarem num julgamento avançam logo mais uma meia dúzia deles e a utilização da capacidade infra-estrutural é sempre máxima...
A maçada é que se o nosso é rateado para último e nos outros ninguém faltar, o nosso não se realiza. E, portanto fica logo remarcado ou então fica adiado sine die. Ou coisa parecida que como isto é sobre Justiça seria grosseria não meter um latinório algures pelo meio.... Foi o nosso caso. Três horas depois fomos convidados a regressar um dia destes. Fora um político a comunicar teria dito "quando for adequado"....
Enfim, uma dezena de pessoas deixaram de criar valor para o accionista, nem para si próprios, e nada avançou no bendito processo. Um dia interessante e uma experiência que engrandeceu qualquer coisa mas que agora não me ocorre...
o mundo fascinante das pessoas que existem e ocupam dimensões do espaço tempo
Confesso que por vezes fico fascinado com as noticias de alguns jornais e revistas e onlines. Presumo que tais noticias interessam sobremaneira a muita gente, senão seria incompreensível a "economia" dos títulos. A encriptação dos títulos revela que os códigos são partilhados por muita gente. "Fulano diverte-se no Manta Beach". "Cícrana pretende voltar a apaixonar-se". "Beltrana foi vista com um novo acompanhante".
Nas mais das vezes (para não dizer quase todas) não faço a mínima ideia sobre quem são e o que fazem estas personagens. Presumo que ou são apresentadores de televisão (um conceito lato que compreende toda a sorte de idiotices e exibições boçais de ignorância em estado bruto) ou "actores" de novelas ou gente que gravita à volta dos programas em que a miudagem exibe a aspiração, legítima, de ser apenas famoso e existir no espaço e tempo sem mais nenhuma exigência de participação social.
Mas parece existir uma legitimidade conferida pela legião de admiradores e consumidores do merchandising anexo a tais personagens. Que alguém fique satisfeito por saber que fulano foi à disneyland de Paris é uma prova que o Darwin não tinha razão. Houve um inflexão, a derivada é negativa e, em breve, só existirão seres cujo cérebro mirrou.
Nas mais das vezes (para não dizer quase todas) não faço a mínima ideia sobre quem são e o que fazem estas personagens. Presumo que ou são apresentadores de televisão (um conceito lato que compreende toda a sorte de idiotices e exibições boçais de ignorância em estado bruto) ou "actores" de novelas ou gente que gravita à volta dos programas em que a miudagem exibe a aspiração, legítima, de ser apenas famoso e existir no espaço e tempo sem mais nenhuma exigência de participação social.
Mas parece existir uma legitimidade conferida pela legião de admiradores e consumidores do merchandising anexo a tais personagens. Que alguém fique satisfeito por saber que fulano foi à disneyland de Paris é uma prova que o Darwin não tinha razão. Houve um inflexão, a derivada é negativa e, em breve, só existirão seres cujo cérebro mirrou.
quinta-feira, julho 01, 2010
A felicidade
Uma das coisas mais interessantes da nossa vida é o encontro com pessoas que "sabem" como nos devíamos sentir nesta ou naquela circunstância. A experiência é nossa, o sentimento momentâneo também, o que nos vai nos intestinos, nas vísceras, na alma, no coração é indubitavelmente nosso. Nas mais das vezes demoramos o nosso tempo a perceber o que nos está a suceder. Em muitas ocasiões não encontramos palavras para traduzir para terceiros o que nos passa pela cabeça. Mas há sempre quem ache, às vezes porque leu algures, o que nós "deveríamos" estar a pensar ou a achar ou a sentir naquele preciso momento.
terça-feira, abril 06, 2010
sexta-feira, março 19, 2010
Dia do Pai
Não me preparaste para isto. Sempre ouvi dizer que o tempo apaga a dor. Que a relativiza. Que nos adoça a memória. Que nos envolve com o consolo das coisas boas que nos aconteceram. Afinal era mentira pai. Já te foste há quase quatro anos e a dor não passa de modo algum. E, tem momentos em que precisava tanto do teu conselho.
quarta-feira, março 10, 2010
of Strategy, Intended and Emergent
Nas mais das vezes procuramos comida quando temos fome.
Por vezes, contudo, o avistamento de comida suscita em nós um apetite que não tinhamos antes do estímulo.
Por vezes, contudo, o avistamento de comida suscita em nós um apetite que não tinhamos antes do estímulo.
terça-feira, março 02, 2010
A métrica
hoje recebi mais uma comunicação para proceder a mais uma mensuração de coisas incomensuráveis. Na ausência de escalas aferidas para os fenómenos, cada um utiliza a escala que alguém, em posição de poder, estatuiu como a que efectivamente caracteriza de modo "científico" o fenómeno em apeço. O bendito fenómeno, é ele próprio difícil de parametrizar nem que seja de modo meramente semântico, o que já não seria de somenos. Portanto criemos, então, mais uma realidade virtual, faz de conta, que ocupará uns largos dossiers de capa dura emprateleirados de modo ordenado e quiçá cromático para tornar o mundo perfeito e às bolinhas. Um dia destes, pessoas com ar austero e eventualmente composto e com roupas adequadas olharão com ar inteligente para os dossiers. Abrirão alguns, folheando com concentração e olhar penetrante o conteúdo das folhas. Concluirão que a constante de lambda ainda não corre perigo.
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
A relativização das coisas

ainda há dias o meu mais novo se meteu em sarilhos na escola por causa do gesto em apreço....
as consequências na escola não se sabem ainda, (o "porcesso dsiciplinar" corre os seus trâmites ....e as perguntas, da minuta, pareciam da Judiciária do Burkina Fasu...) em casa, não obstante, as consequências foram aborrecidas para ele. Considerámos que não existiam lenitivos paliativos, alibis, desculpas que mitigassem o gesto dele.
A reacção dele foi a uma injustiça, pelo menos na perspectiva dele (e se há coisa que ele tem apurada é um sentido de moral e justiça...). E, entre nós que ninguém nos ouve, o gesto dele foi irreflectido, indesculpável, mas...
mas lá está, se ele vir esta foto (que eu vou mostrar....) como é que da próxima vez ele vai aceitar a punição agravada que sofreu em casa? sabendo que este senhor foi primeiro ministro e sabendo que é de boas familias e que é de excelente e fino trato e colher de prata e berço doiro e assim?
Esforço assinalável
As televisões "generalistas" (em particular as privadas) tentam recuperar audiências que credibilizem a diligência dos rapazes e raparigas que tentam vender segundos de inserções de anúncios. A coisa não está famosa. O "target" que interessa, entre os 14 e os 35, parece alheado das benditas televisões. As novelas não recolhem muita aderência destes ingratos que nos breves instantes em que olham o ecrã passam ao American Dad, Family Guy, e demais séries da Fox. Mas as "generalistas" não desistiram e vai daí tiveram uma ideia genial. E notavelmente original. Séries com vampiros e inocentes jovenzinhas, presumivelmente virgens. Todos os ingredientes para estimular os misoginos de mais de sessenta anos, reformados e viúvos. Dificilmente gente que irá ao Starbucks ou comprar ténis da Nike. O mundo anda confuso.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
faltam quinze minutos
e já há gente com o olhar vazio, os sacos e mochilas arrumadas, o cérebro desligado, o enfando evidente. Entraram dez minutos mais tarde. Pelo meio, um tipo esbraceja, provoca, estimula, conta histórias e estórias, apresenta argumentos e contra argumentos, mostra alguns das dezenas de slides que preparou para serem apelativos, informativos, rigorosos, sumarentos. Utilizam-se todas as técnicas retóricas e comunicacionais possíveis. Pausas dramáticas. Anedotas. Olhares inquisidores. Dilemas. Paradoxos. Ensaiam-se reportórios inteiros de expressões facias. Introduzem-se limites novos na linguagem corporal e na relação com o espaço circundante. Faz-se, portanto, trinta por uma linha.
Para quê? Mais valia ter posto a circular um papel para saber quem é que quer apenas outro pedaço de papel que certifique as "competências" adquiridas. O conhecimento é uma maçada. A vida não está para curiosidades intelectuais. Estamos todos a caminhar em direcção a lado nenhum. Estamos todos desorientados embora afivelemos um ar sério, composto seguro e sensato. Participamos todos neste extraordinário processo de fingimento e de construção de uma realidade virtual em papel de cenário que se desfaz ao primeiro sopro de uma leve brisa. E certificamo-nos mutuamente.E melhoramos continua e determinadamente a utilização do papel de cenário. Alguns excedem-se na mestria do cenário propriamente dito. Mas isto tudo é cansativo.
Para quê? Mais valia ter posto a circular um papel para saber quem é que quer apenas outro pedaço de papel que certifique as "competências" adquiridas. O conhecimento é uma maçada. A vida não está para curiosidades intelectuais. Estamos todos a caminhar em direcção a lado nenhum. Estamos todos desorientados embora afivelemos um ar sério, composto seguro e sensato. Participamos todos neste extraordinário processo de fingimento e de construção de uma realidade virtual em papel de cenário que se desfaz ao primeiro sopro de uma leve brisa. E certificamo-nos mutuamente.E melhoramos continua e determinadamente a utilização do papel de cenário. Alguns excedem-se na mestria do cenário propriamente dito. Mas isto tudo é cansativo.
sábado, dezembro 19, 2009
segunda-feira, julho 13, 2009
o Mecanismo
felizmente para o funcionamento da sociedade, e para a ausência de motins e suicídios em massa, existem mecanismos que regulam a pressão..... o pré aviso das inspecções e auditorias de qualidade é um e o outro permite a renovação semanal da esperança de fuga à realidade.... o euromilhões
terça-feira, julho 07, 2009
o Mercado
Um dia, quem sabe no tempo dos meus netos, talvez se venha a conhecer entre nós uma Economia aberta e, na qual, o mercado poderá, finalmente, funcionar.
Para já, as expectativas são poucas ou nenhumas de que tal venha a ser verdade. Mas, se formos optimistas, podemos sempre acreditar em fadas dos dentes. Esta curiosa, e imemorial, aliança entre plutocracia e oligarquia parece ser o beco em que as democracias desembocaram e todos parecem satisfeitos. Tanto melhor.
O recente episódio da Media Capital é apenas borbulhagem e espuma de Verão. De facto. Se alguém estivesse efectivamente interessado num mercado livre e aberto já se teria manifestado contra as acções douradas que há por aí. E, elas existem em papel ou em espírito. Mais, nunca se observou alguém, no "arco da governação", ser frontal e abertamente contra essas ‘golden shares'. Ou de outras cores, que não há míngua de ‘shares' laranjas ou rosadas. Com ou sem verdade e políticas de verdade. Ninguém vai dizer nos olhos dos portugueses que vai acabar com essas manobras. Porque só se acabam com transparência. Mas até Setembro aposto dobrado contra singelo que ninguém em boa verdade virá aí dizer que acaba com a coisa. E promove a ética. Temos portanto reunidas as condições para que tudo continue igual. E, de cada vez que cair na rua um episódio, muita gente fingirá surpresa espanto e escândalo. E virá bater no peito. Mas o mercado livre e aberto e respirável não virá. Pântano?
Entre nós as boas ideias nunca são filhas de pai incógnito. Nem de mãe. Mas quando dão raia são inevitabilidades da herança. Como argumento é monótono e aliena eleitores. Depois aborrecem-se com os abstencionistas.
Da mesma sorte de assuntos, constitui a preocupação com o endividamento. Todos os governos utilizaram profusamente a técnica de desorçamentação, e, todos têm mandado (com ou sem dourados retóricos) as empresas alegadamente "privadas" e cotadas em Nova Iorque, endividarem-se e produzirem dívida garantida pelo Estado mas que, convenientemente, não está presente nas operações de cosmética estatística e contabilística com que nos atiram rácios de qualquer coisa sobre o PIB. Nesta área da mascarada temos já doutorados e pós doutorados em fila de espera. É uma vocação magnífica que temos tido desde há muito. A construção de fachadas e a mentira. Agora parece que há outra. Mais uma menos uma. Já se perdeu a aritmética da coisa. Aliás a mentira já nem é novidade que escandalize. É apenas uma constante da equação. Se calhar os exames de matemática ficam fáceis por causa disso mesmo. Existem já tantas constantes que já nem se vislumbram as variáveis.
E, fica sempre bem apresentar um ar de sentido de Estado e falar do futuro dos "nossos" filhos. Que, coitados, vão arcar com a dívida e com os "benefícios". Com a dívida seguramente que os benditos benefícios de estádios do Euro, dos submarinos, da décima quinta travessia Lisboa - Porto em auto-estrada, do TGV entre Faro e Huelva (lembram-se?), dos F16 encaixotados (ou já saíram dos caixotes?), são difíceis de lucubrar.
Ouvi dizer que querem libertar a sociedade do Estado. Cuidado, não vá a "sociedade" não querer a liberdade. Se quisesse já se teria manifestado. Talvez não com a veemência das ruas de Teerão onde há de facto gente que quer ser livre. Mas com um assomo de dignidade. Já se teria dado a exprimir. Contra as ‘golden shares'. Por exemplo. De há muito que a "sociedade" se acostumou a este estado de coisas.
Aceitamos já tudo. Segundo alguns chegámos já ao fundo. Gestos no parlamento. Elegância sublime do presidente da assembleia geral do meu clube, partilhando connosco o estado dos intestinos dele. Enfim. Mas não chegámos ao fundo. Há sempre a possibilidade de descer uma restroescavadora e continuar a aprofundar o buraco. Quiçá um dia atingimos petróleo. Mas não há crise. Em Setembro poderemos mudar. Pelo menos de mentirosos.
publicado no Diário Económico
Para já, as expectativas são poucas ou nenhumas de que tal venha a ser verdade. Mas, se formos optimistas, podemos sempre acreditar em fadas dos dentes. Esta curiosa, e imemorial, aliança entre plutocracia e oligarquia parece ser o beco em que as democracias desembocaram e todos parecem satisfeitos. Tanto melhor.
O recente episódio da Media Capital é apenas borbulhagem e espuma de Verão. De facto. Se alguém estivesse efectivamente interessado num mercado livre e aberto já se teria manifestado contra as acções douradas que há por aí. E, elas existem em papel ou em espírito. Mais, nunca se observou alguém, no "arco da governação", ser frontal e abertamente contra essas ‘golden shares'. Ou de outras cores, que não há míngua de ‘shares' laranjas ou rosadas. Com ou sem verdade e políticas de verdade. Ninguém vai dizer nos olhos dos portugueses que vai acabar com essas manobras. Porque só se acabam com transparência. Mas até Setembro aposto dobrado contra singelo que ninguém em boa verdade virá aí dizer que acaba com a coisa. E promove a ética. Temos portanto reunidas as condições para que tudo continue igual. E, de cada vez que cair na rua um episódio, muita gente fingirá surpresa espanto e escândalo. E virá bater no peito. Mas o mercado livre e aberto e respirável não virá. Pântano?
Entre nós as boas ideias nunca são filhas de pai incógnito. Nem de mãe. Mas quando dão raia são inevitabilidades da herança. Como argumento é monótono e aliena eleitores. Depois aborrecem-se com os abstencionistas.
Da mesma sorte de assuntos, constitui a preocupação com o endividamento. Todos os governos utilizaram profusamente a técnica de desorçamentação, e, todos têm mandado (com ou sem dourados retóricos) as empresas alegadamente "privadas" e cotadas em Nova Iorque, endividarem-se e produzirem dívida garantida pelo Estado mas que, convenientemente, não está presente nas operações de cosmética estatística e contabilística com que nos atiram rácios de qualquer coisa sobre o PIB. Nesta área da mascarada temos já doutorados e pós doutorados em fila de espera. É uma vocação magnífica que temos tido desde há muito. A construção de fachadas e a mentira. Agora parece que há outra. Mais uma menos uma. Já se perdeu a aritmética da coisa. Aliás a mentira já nem é novidade que escandalize. É apenas uma constante da equação. Se calhar os exames de matemática ficam fáceis por causa disso mesmo. Existem já tantas constantes que já nem se vislumbram as variáveis.
E, fica sempre bem apresentar um ar de sentido de Estado e falar do futuro dos "nossos" filhos. Que, coitados, vão arcar com a dívida e com os "benefícios". Com a dívida seguramente que os benditos benefícios de estádios do Euro, dos submarinos, da décima quinta travessia Lisboa - Porto em auto-estrada, do TGV entre Faro e Huelva (lembram-se?), dos F16 encaixotados (ou já saíram dos caixotes?), são difíceis de lucubrar.
Ouvi dizer que querem libertar a sociedade do Estado. Cuidado, não vá a "sociedade" não querer a liberdade. Se quisesse já se teria manifestado. Talvez não com a veemência das ruas de Teerão onde há de facto gente que quer ser livre. Mas com um assomo de dignidade. Já se teria dado a exprimir. Contra as ‘golden shares'. Por exemplo. De há muito que a "sociedade" se acostumou a este estado de coisas.
Aceitamos já tudo. Segundo alguns chegámos já ao fundo. Gestos no parlamento. Elegância sublime do presidente da assembleia geral do meu clube, partilhando connosco o estado dos intestinos dele. Enfim. Mas não chegámos ao fundo. Há sempre a possibilidade de descer uma restroescavadora e continuar a aprofundar o buraco. Quiçá um dia atingimos petróleo. Mas não há crise. Em Setembro poderemos mudar. Pelo menos de mentirosos.
publicado no Diário Económico
sábado, maio 09, 2009
teleologia
Uma das coisas mais recorrentes nas minhas aulas, mormente por parte de alunos mais velhos e mais “batidos”, é a irrupção de comentários sobre a distância, quando não mesmo a oposição, entre os “modelos” académicos e a “prática” nas empresas.
Esta "esquizofrenia" é tanto maior quanto mais nos aproximemos de posições mais pós-modernas que salientem o "valor do capital humano", ou da "gestão dos activos imateriais como a lealdade dos clientes", ou dos "novos modelos de lideranças transformacionais". Às vezes a coisa começa se por acaso se fala do ‘paper' do Coase sobre porque é que há empresas e não só mercados, que lhe deu o prémio Nobel. Daí à pergunta para que é que queremos, hoje, empresas pode ser um ápice. Em princípio, as empresas são a mais eficiente maneira de produzirmos produtos escrutinados no mercado, e cujo "comportamento" agregado gera riqueza para todos.
Não obstante esta conhecida litania, os meus alunos salientam crescentemente a distância que vai dos sucessos estrondosos que são enunciados e anunciados em todas as operações de fusões e aquisições, pelo menos a ter em conta o que consta, habitualmente, dos comunicados para as "cêémevêémes" e para a imprensa especializada, e as vivências dos que ficam na "nova empresa" após o emagrecimento das estruturas e obtenção de sinergias. E, que por vezes se traduzem em bizarrias de termos directores de primeira linha que ganham menos que os seus subordinados que tinham na empresa anterior um regime mais vantajoso do ponto de vista da política de remunerações, passando toda a gente a fingir que isso realmente não é importante na vontade indómita de todos em fazer da fusão uma equação em que 1+1 é superior a dois, não fora aquele maçador ‘complot' de condições subjectivas e imprevisíveis que veio a produzir o 1,87 final...
E que dizer do contraste entre a extraordinária bondade da transformação de custos fixos em custos variáveis, que nos motiva a enviar para ‘outsourcing' tudo o que não faz parte do ‘core business', sendo que a dada altura já ninguém sabe muito bem qual era o ‘core' e já se confunde o ‘business'. Por exemplo, a assistência ao cliente que é subcontratada em verdadeiras cascatas até ser finalmente executada pelo Joaquim Epaminondas Desenrrascanços ao Domícilio Unipessoal Ld.ª, pese embora a declaração na missão que nos aponta como valor essencial da empresa o tratamento do cliente enquanto nosso maior activo... Estes processos geradores de esplêndidas cadeias de descontentamento com o "serviço", serão posteriormente, apaziguadas em frustrantes chamadas para ‘call centers' em que estudantes contratados a pataco nos pedem para fazermos o obséquio de aguardarmos, agradecendo de seguida os minutos de espera, oferecendo uma solução que envolve a espera de mais qualquer incerta diligência que acaba por se diluir no quotidiano.
Aparentemente ficamos sempre distantes dos "ideais" que vêm nos manuais ou que os professores transmitem. E pouco importa a disciplina de que falemos. Gestão de recursos humanos, estratégia ou marketing, os sublinhados são, em geral, os mesmos. Existe um mundo idealizado e "bondoso" nos livros, em que as pessoas são tratadas como indivíduos apreciados, valiosos e participativos, retribuindo com criatividade, empenho e diligência, o que contrastaria com a ‘rat race' que ocorre na realidade e que se traduz em aumentos de consumos de ansiolíticos e em sofrimento desnecessário que leva a que a saúde mental se torne uma fonte de preocupação entre a população activa e uma bela linha de investigação daquelas que garantem financiamentos para a investigação. Parece mesmo que um hospital privado duplicou nos últimos meses o número de psiquiatras tal a dimensão da procura dos serviços de gente empregada, desempregada, em vias de se reempregar ou de ficar sem emprego, num fenómeno verdadeiramente interclassista, com subordinados, gestores, directores e administradores a queixarem-se do mesmo. De facto, para que é que queremos empresas?
Esta "esquizofrenia" é tanto maior quanto mais nos aproximemos de posições mais pós-modernas que salientem o "valor do capital humano", ou da "gestão dos activos imateriais como a lealdade dos clientes", ou dos "novos modelos de lideranças transformacionais". Às vezes a coisa começa se por acaso se fala do ‘paper' do Coase sobre porque é que há empresas e não só mercados, que lhe deu o prémio Nobel. Daí à pergunta para que é que queremos, hoje, empresas pode ser um ápice. Em princípio, as empresas são a mais eficiente maneira de produzirmos produtos escrutinados no mercado, e cujo "comportamento" agregado gera riqueza para todos.
Não obstante esta conhecida litania, os meus alunos salientam crescentemente a distância que vai dos sucessos estrondosos que são enunciados e anunciados em todas as operações de fusões e aquisições, pelo menos a ter em conta o que consta, habitualmente, dos comunicados para as "cêémevêémes" e para a imprensa especializada, e as vivências dos que ficam na "nova empresa" após o emagrecimento das estruturas e obtenção de sinergias. E, que por vezes se traduzem em bizarrias de termos directores de primeira linha que ganham menos que os seus subordinados que tinham na empresa anterior um regime mais vantajoso do ponto de vista da política de remunerações, passando toda a gente a fingir que isso realmente não é importante na vontade indómita de todos em fazer da fusão uma equação em que 1+1 é superior a dois, não fora aquele maçador ‘complot' de condições subjectivas e imprevisíveis que veio a produzir o 1,87 final...
E que dizer do contraste entre a extraordinária bondade da transformação de custos fixos em custos variáveis, que nos motiva a enviar para ‘outsourcing' tudo o que não faz parte do ‘core business', sendo que a dada altura já ninguém sabe muito bem qual era o ‘core' e já se confunde o ‘business'. Por exemplo, a assistência ao cliente que é subcontratada em verdadeiras cascatas até ser finalmente executada pelo Joaquim Epaminondas Desenrrascanços ao Domícilio Unipessoal Ld.ª, pese embora a declaração na missão que nos aponta como valor essencial da empresa o tratamento do cliente enquanto nosso maior activo... Estes processos geradores de esplêndidas cadeias de descontentamento com o "serviço", serão posteriormente, apaziguadas em frustrantes chamadas para ‘call centers' em que estudantes contratados a pataco nos pedem para fazermos o obséquio de aguardarmos, agradecendo de seguida os minutos de espera, oferecendo uma solução que envolve a espera de mais qualquer incerta diligência que acaba por se diluir no quotidiano.
Aparentemente ficamos sempre distantes dos "ideais" que vêm nos manuais ou que os professores transmitem. E pouco importa a disciplina de que falemos. Gestão de recursos humanos, estratégia ou marketing, os sublinhados são, em geral, os mesmos. Existe um mundo idealizado e "bondoso" nos livros, em que as pessoas são tratadas como indivíduos apreciados, valiosos e participativos, retribuindo com criatividade, empenho e diligência, o que contrastaria com a ‘rat race' que ocorre na realidade e que se traduz em aumentos de consumos de ansiolíticos e em sofrimento desnecessário que leva a que a saúde mental se torne uma fonte de preocupação entre a população activa e uma bela linha de investigação daquelas que garantem financiamentos para a investigação. Parece mesmo que um hospital privado duplicou nos últimos meses o número de psiquiatras tal a dimensão da procura dos serviços de gente empregada, desempregada, em vias de se reempregar ou de ficar sem emprego, num fenómeno verdadeiramente interclassista, com subordinados, gestores, directores e administradores a queixarem-se do mesmo. De facto, para que é que queremos empresas?
segunda-feira, abril 13, 2009
Fusões e Aquisições
Em épocas de crise, uma das estratégias mais populares, e oportunas, consiste no aproveitar dos saldos. Empresas em dificuldades, à beira da extinção, são adquiridas por outras cujo desafogo financeiro lhes permite equacionar várias alternativas estratégicas. Ora em contextos de crise, frequentemente encontram-se negócios que são pechinchas...
Uma delas consiste em adquirir concorrentes numa lógica de aumento de quota de mercado. Este é, claramente, o caminho que serve de tema ao capítulo em epígrafe que existe em todos os manuais de estratégia. Podendo aproveitar para adquirir um concorrente e encaixar a sua base de clientes, e ainda as marcas que o concorrente possua, esta é claramente uma boa movimentação estratégica se o negócio for financeiramente vantajoso. Por outro lado, podem adquirir-se empresas cujo negócio não é meramente aditivo sobre o mercado, mas apresenta alguma espécie de sinergia comercial, alargando gamas de produtos oferecidas à nossa base de clientes, permitindo alcançar novos segmentos de mercado em sentido social ou geográfico, permitindo a presença em novas formas de canais de distribuição ou melhorando a eficiência geral da cadeia de distribuição, ou ainda, no sentido tecnológico, possibilitando a melhoria de algum aspecto da cadeia de valor e de conhecimento do negócio original, alargando a possibilidade de lançamento de novos produtos, ou a adopção e assimilação de tecnologias mais promissoras. Podem, ainda, adquirir-se empresas que não apresentando qualquer espécie de relação sinergética com o nosso ‘core business' se situam em sectores de actividade cujas taxas de crescimento a prazo, ou cujas margens de rendibilidade, sejam excepcionalmente atractivas e nesse caso encentamos uma clara diversificação, perseguindo uma visão de portfolio de negócios e de dispersão de riscos. Podem, naturalmente adquirir-se empresas cujos balanços contêm reservas ocultas de valor, sob a forma de imobilizados ainda em condições de serem liquidados com mais valias interessantes, ou que podem ser deslocalizados sem grande alarido, ou sob a forma de patrimónios imobiliários registados por valores do século dezoito, ou de valores mobiliários pouco expostos a riscos excessivos, e cuja liquidação permita encaixar verbas consideráveis, sem que a consequente resolução dos passivos seja demasiado penalizadora. Isto é, os credores possam ser persuadidos que receberem uma fracção dos seus créditos é uma bênção do céu.
Mais modernamente, podemos, ainda, adquirir empresas em dificuldades e cujos problemas adquirem tal grau de exposição mediática, embaraçando tanta gente, que a sua aquisição, embora, sem seguir nenhuma lógica empresarial anteriormente mencionada, e mesmo desafiando alguns aspectos fundamentais da gestão financeira, como o princípio de que as operações devem ser racionais, apresentem, ainda assim algum aspecto interessante. Podemos, então falar de uma feliz associação entre a esfera dos negócios e outras esferas, e as aquisições de empresas, aparentemente sem mercado ou sem produto ou sem ambos, conduzem à constituição e acumulação de "direitos especiais de saque" que podem ser posteriormente convertidos. Talvez não nalguma bolsa de valores mobiliários, nem sequer sob a forma de produtos tóxicos, tão populares ultimamente, mas sob a forma de "ponderações de ordem subjectiva em futuras apreciações de propostas para concursos" que permitam vislumbrar a possibilidade de elevadas probabilidades de vencer esses concursos ou ocasionem a abertura de "avenidas mais promissoras nomeadamente sob a forma de negócios, que corram em contextos, em que se possa evitar uma excessiva exposição aos factores de concorrência em mercado aberto". Há várias vantagens nestas parcerias público privado. Nomeadamente evitar formas aborrecidas de ‘dumping', bem como ser nomeado como um adepto do proteccionismo, que resulta sempre num considerável e evitável enxovalho, como resultou óbvio da recente cimeira do G20.
Esta notável, e feliz, evolução no campo das fusões e aquisições, reforça uma outra apreciável tendência que sedimenta a nossa confiança no futuro prenhe de alianças estratégicas entre plutocratas e oligarcas que nos poupa à maçada de ter de produzir escolhas complexas e nos proporciona melhores níveis de estabilidade e de conforto.
Uma delas consiste em adquirir concorrentes numa lógica de aumento de quota de mercado. Este é, claramente, o caminho que serve de tema ao capítulo em epígrafe que existe em todos os manuais de estratégia. Podendo aproveitar para adquirir um concorrente e encaixar a sua base de clientes, e ainda as marcas que o concorrente possua, esta é claramente uma boa movimentação estratégica se o negócio for financeiramente vantajoso. Por outro lado, podem adquirir-se empresas cujo negócio não é meramente aditivo sobre o mercado, mas apresenta alguma espécie de sinergia comercial, alargando gamas de produtos oferecidas à nossa base de clientes, permitindo alcançar novos segmentos de mercado em sentido social ou geográfico, permitindo a presença em novas formas de canais de distribuição ou melhorando a eficiência geral da cadeia de distribuição, ou ainda, no sentido tecnológico, possibilitando a melhoria de algum aspecto da cadeia de valor e de conhecimento do negócio original, alargando a possibilidade de lançamento de novos produtos, ou a adopção e assimilação de tecnologias mais promissoras. Podem, ainda, adquirir-se empresas que não apresentando qualquer espécie de relação sinergética com o nosso ‘core business' se situam em sectores de actividade cujas taxas de crescimento a prazo, ou cujas margens de rendibilidade, sejam excepcionalmente atractivas e nesse caso encentamos uma clara diversificação, perseguindo uma visão de portfolio de negócios e de dispersão de riscos. Podem, naturalmente adquirir-se empresas cujos balanços contêm reservas ocultas de valor, sob a forma de imobilizados ainda em condições de serem liquidados com mais valias interessantes, ou que podem ser deslocalizados sem grande alarido, ou sob a forma de patrimónios imobiliários registados por valores do século dezoito, ou de valores mobiliários pouco expostos a riscos excessivos, e cuja liquidação permita encaixar verbas consideráveis, sem que a consequente resolução dos passivos seja demasiado penalizadora. Isto é, os credores possam ser persuadidos que receberem uma fracção dos seus créditos é uma bênção do céu.
Mais modernamente, podemos, ainda, adquirir empresas em dificuldades e cujos problemas adquirem tal grau de exposição mediática, embaraçando tanta gente, que a sua aquisição, embora, sem seguir nenhuma lógica empresarial anteriormente mencionada, e mesmo desafiando alguns aspectos fundamentais da gestão financeira, como o princípio de que as operações devem ser racionais, apresentem, ainda assim algum aspecto interessante. Podemos, então falar de uma feliz associação entre a esfera dos negócios e outras esferas, e as aquisições de empresas, aparentemente sem mercado ou sem produto ou sem ambos, conduzem à constituição e acumulação de "direitos especiais de saque" que podem ser posteriormente convertidos. Talvez não nalguma bolsa de valores mobiliários, nem sequer sob a forma de produtos tóxicos, tão populares ultimamente, mas sob a forma de "ponderações de ordem subjectiva em futuras apreciações de propostas para concursos" que permitam vislumbrar a possibilidade de elevadas probabilidades de vencer esses concursos ou ocasionem a abertura de "avenidas mais promissoras nomeadamente sob a forma de negócios, que corram em contextos, em que se possa evitar uma excessiva exposição aos factores de concorrência em mercado aberto". Há várias vantagens nestas parcerias público privado. Nomeadamente evitar formas aborrecidas de ‘dumping', bem como ser nomeado como um adepto do proteccionismo, que resulta sempre num considerável e evitável enxovalho, como resultou óbvio da recente cimeira do G20.
Esta notável, e feliz, evolução no campo das fusões e aquisições, reforça uma outra apreciável tendência que sedimenta a nossa confiança no futuro prenhe de alianças estratégicas entre plutocratas e oligarcas que nos poupa à maçada de ter de produzir escolhas complexas e nos proporciona melhores níveis de estabilidade e de conforto.
terça-feira, março 17, 2009
ruidos
Finalmente temos uma palavra. Grande depressão. Até os bens de Giffen ou de luxo caem nos índices de consumo, contrariando a teoria económica que se ensina logo na terceira semana de micro economia. O Financial Times fez um ‘endorsement' de um livro que, entre muitos outros, arrasa com a hipótese do mercado eficiente. O doutor Trichet, contudo, parece dizer que a crise acaba já numa destas quintas-feiras e quiçá nem se dá por ela. Os juros caem a pique no BCE e os juros nem tugem nem mugem nos empréstimos, porque os ‘spreads' parecem de ajustamento automático. Um banco falido e nacionalizado lá fora continua a oferecer crédito a torto e a direito em centros comerciais ao pé de si, apenas por 30% de juros ao ano, e, naturalmente, a pessoas financeiramente iletradas, que parecem não ter condições de reembolsar nem uma parte do capital. Já se suspeita que o presidente Obama não caminhará sobre as águas.
Na vertente da gestão psicológica da crise, portanto com impacto nas expectativas que se desenvolvem e nos incentivos que se percebem, o que segundo os economistas acidentais ou economistas e psicólogos da ‘freakanomics', constitui a pedra filosofal da coisa, assistimos, finalmente, a algum ressarcimento. Ou seja, o autor do esquema de Ponzi foi dentro. O do esquema americano naturalmente. Pelo menos teremos um bode expiatório razoável. Estimulando a ideia de que afinal é capaz de não compensar ser um escroque mesmo que com a atenuante de padecer de megalomania, delírios de grandeza e paranóias conexas. Por cá, assistimos dia sim dia não a uma procissão de vítimas indefesas de um malévolo Mefistófeles que está detido. Só o dito filho de Satã é que fazia e desfazia. Todos os outros seres de vez em quando arriscavam uma pergunta que, segundo os próprios, ficava sem resposta e, naturalmente, já nem arriscavam uma segunda via, não fosse parecer indelicadeza. Incapazes de realizarem alguma acção mais arrojada parece que o dito Belzebu, inclusive, os impedia de saírem do banco e procurarem outro emprego. Eu confesso que tenho ficado extremamente compungido com o horrível e silencioso sofrimento que tantos e tantos administradores e quadros tiveram de suportar e do qual nem agora conseguem fazer uma catarse redentora.
Noutra novela mexicana bancária que parece também termos o dever (quiçá, obrigação patriótica?!) de defender, parece que se passaram coisas estranhas, opacas e também aí o mercado teve de ser refreado e a mão invisível teve de ser enclausurada. Entrementes, assistimos a procissões de associações de interesses a pedir ajuda do pai protector e omnipresente. O doutor Medina Carreira reafirma o que já vem dizendo há umas décadas, pelo menos desde que eu me recorde de pensar em recursos escassos e coisas afins. Decorrerão outras tantas décadas e saberemos qualquer coisa vinda de operação tornado. Fomos visitados por eminentes e importantes dignitários da metrópole. Descobriu-se que a língua de Camões é uma prova hercúlea para o "legislador" e para o "tradutor". Sabe-se que a despesa pública pode ter efeitos imediatos e mediatos. A bondade da dita despesa é de geometria variável consoante parâmetros complexos e indecifráveis para os leigos que vão ter de produzir escolhas a breve trecho sobre o nosso futuro colectivo no meio desta incerteza e confusão. A opção pela hipótese imediata, pôr gente a fazer "piquenas" reparações em todos os concelhos do país pode gerar mais emprego que, não obstante, será pouco reprodutor a prazo, mas rende mais votos já. A opção pelas grandes obras poderá ter efeitos multiplicadores a prazo a não ser que nos tenham mentido e todas as anteriores grandes obras afinal não tiveram efeitos. Coisa certinha com os estádios de bola feitos para o Euro que, ainda por cima, não estão preparados para uma final ou abertura do Mundial de 3298...
Estes folhetins naturalmente fortalecem a confiança nas instituições democráticas e nas instituições em geral, reforçam a percepção de justiça e de expectativa no futuro e fornecem bastos incentivos a que o Bordalo Pinheiro seja recordado, mesmo que a fábrica propriamente dita mande mais gente para a fila dos desempregados que aguardam o desenrolar dos próximos capítulos.
publicado hoje no diário económico
Na vertente da gestão psicológica da crise, portanto com impacto nas expectativas que se desenvolvem e nos incentivos que se percebem, o que segundo os economistas acidentais ou economistas e psicólogos da ‘freakanomics', constitui a pedra filosofal da coisa, assistimos, finalmente, a algum ressarcimento. Ou seja, o autor do esquema de Ponzi foi dentro. O do esquema americano naturalmente. Pelo menos teremos um bode expiatório razoável. Estimulando a ideia de que afinal é capaz de não compensar ser um escroque mesmo que com a atenuante de padecer de megalomania, delírios de grandeza e paranóias conexas. Por cá, assistimos dia sim dia não a uma procissão de vítimas indefesas de um malévolo Mefistófeles que está detido. Só o dito filho de Satã é que fazia e desfazia. Todos os outros seres de vez em quando arriscavam uma pergunta que, segundo os próprios, ficava sem resposta e, naturalmente, já nem arriscavam uma segunda via, não fosse parecer indelicadeza. Incapazes de realizarem alguma acção mais arrojada parece que o dito Belzebu, inclusive, os impedia de saírem do banco e procurarem outro emprego. Eu confesso que tenho ficado extremamente compungido com o horrível e silencioso sofrimento que tantos e tantos administradores e quadros tiveram de suportar e do qual nem agora conseguem fazer uma catarse redentora.
Noutra novela mexicana bancária que parece também termos o dever (quiçá, obrigação patriótica?!) de defender, parece que se passaram coisas estranhas, opacas e também aí o mercado teve de ser refreado e a mão invisível teve de ser enclausurada. Entrementes, assistimos a procissões de associações de interesses a pedir ajuda do pai protector e omnipresente. O doutor Medina Carreira reafirma o que já vem dizendo há umas décadas, pelo menos desde que eu me recorde de pensar em recursos escassos e coisas afins. Decorrerão outras tantas décadas e saberemos qualquer coisa vinda de operação tornado. Fomos visitados por eminentes e importantes dignitários da metrópole. Descobriu-se que a língua de Camões é uma prova hercúlea para o "legislador" e para o "tradutor". Sabe-se que a despesa pública pode ter efeitos imediatos e mediatos. A bondade da dita despesa é de geometria variável consoante parâmetros complexos e indecifráveis para os leigos que vão ter de produzir escolhas a breve trecho sobre o nosso futuro colectivo no meio desta incerteza e confusão. A opção pela hipótese imediata, pôr gente a fazer "piquenas" reparações em todos os concelhos do país pode gerar mais emprego que, não obstante, será pouco reprodutor a prazo, mas rende mais votos já. A opção pelas grandes obras poderá ter efeitos multiplicadores a prazo a não ser que nos tenham mentido e todas as anteriores grandes obras afinal não tiveram efeitos. Coisa certinha com os estádios de bola feitos para o Euro que, ainda por cima, não estão preparados para uma final ou abertura do Mundial de 3298...
Estes folhetins naturalmente fortalecem a confiança nas instituições democráticas e nas instituições em geral, reforçam a percepção de justiça e de expectativa no futuro e fornecem bastos incentivos a que o Bordalo Pinheiro seja recordado, mesmo que a fábrica propriamente dita mande mais gente para a fila dos desempregados que aguardam o desenrolar dos próximos capítulos.
publicado hoje no diário económico
sexta-feira, fevereiro 13, 2009
sexta-feira, dezembro 12, 2008
Conto de Natal
Era uma vez um país. E nesse país vivia um rapazinho. O pai, preocupado com o futuro do petiz e acabada a quarta classe, colocou-o a aprender um mester (nesses longínquos tempos não existiam novas oportunidades, só mesmo possibilidades de aprender a fazer coisas pela via menos paternalista do trabalho duro). No caso, o de cortador de carnes num talho. E o petiz cedo evidenciou uma aptidão natural para o negócio. De tal sorte, que se estabeleceu por conta própria ainda era quase imberbe. Foi consolidando a sua network de fornecedores e construiu uma adequada “base de clientes” mercê de um belíssimo “marketing de proximidade” e lábia q.b.! Isso, e uma balança cuja regulação permitia “poupar” cem gramas de carne em cada quilograma vendido, que ao fim de cada dia, em média, davam dois quilitos a favor de futuros cash-in-flows. De modos que ao fim do primeiro ano, conseguiu economizar para um carro em segunda mão com jantes de liga leve. Ao fim de algum tempo, já devidamente casado e com prole, deu entrada, em dinheiro vivo, para um apartamento em sexta linha de mar em Quarteira. O resto pagou, em pouco tempo, em letras que ele era pessoa de boas contas e boa palavra e, não exigia registos desnecessários das suas transacções comerciais. Era em si mesmo um structured investment vehicule de confiança. Os negócios foram progredindo paulatinamente. Mais dois ou três talhos, entre o Seixal e Vale de Milhaços, já em parceria com o filho mais velho, igualmente dotado na gestão das balanças e na gestão de recursos humanos com pronuncia do leste. Nos anos seguintes, aventura-se na moderna distribuição com uma cadeia de sete ou oito supermercados, para a zona de Leiria, em parceria com o cunhado, irmão da terceira mulher, que conhecera enquanto sua empregada num stand de automóveis em segunda mão que detinha com um sócio na zona dos Carvalhos e cujos veículos curiosamente nunca tinham mais do que 20.000 quilómetros andados nas mãos de esposas de médicos dos hospitais civis do Porto. Os negócios vão prosperando e o portfolio diversificado “liberta meios líquidos” suficientes para oferecer apartamentos de duas assoalhadas no Feijó para todos os filhos que entretanto se vão casando. A economia evolui e juntamente com ela o nosso herói. Com um filha licenciada em Gestão de Turismo abre algumas escolas de formação profissional em artes de serviços como cabeleireiros e manicuras, que o mundo evolui para o “imaterial” e para as áreas em que o “conhecimento” é o input chave. Com outro filho, que frequentou um desses cursos de formação profissional na área da programação de sites, acrescenta também uns franchises em domínios de real estate e de “consultoria financeira” em “reestruturação de passivos”. Com a mais nova, abre uma empresa de “eventos” que organiza casamentos e castings para programas de televisão. É accionista de um ou dois bancos. Medalha de ouro de três concelhos. Financia todos os partidos por igual.
Já quase reformado, a tragédia abatesse sobre este empreendedor. Veio sem aviso. Os supermercados estavam, afinal, todos em nome de uma holding do cunhado e de uma brasileira que aquele conhecera num bar de alterne que pertencia ao sócio do stand de automóveis. A mulher foge com o gerente de um dos franchises, não sem antes proceder a levantamentos significativos nas contas “off shore”, que tinham sido constituídas a conselho duma pessoa entendida que fora mesmo e inclusive membro de um governo. Uma inspecção descobre-lhe a careca das balanças e aplica pesadas multas. Porventura enviada a mando do presidente da junta de freguesia, por causa da sua teimosia em não pagar umas facturas de tipografias dos cartazes da última campanha eleitoral, depois de anos de favores do presidente da junta em meter cunhas na câmara municipal para acelerar os loteamentos dos terrenos comprados junto à praia. Seja como for, o word of mouth espalha-se e a sólida base de clientes torna-se volátil e finalmente os talhos fecham. Uma doença neurológica degenerativa assoma neste período. O banco onde tinha colocado a maior parte da liquidez comunica-lhe que os fundos de pensão sofreram um rombo com a crise do sector financeiro. Outra maçadora inspecção revela “fraudes”, “peculato de uso” e outras misteriosas expressões que, certamente, se devem a mau trabalho do contabilista encarregue de organizar os papéis dos centros de formação. No fundo nada que um bom advogado não saiba chutar para canto. Mas como a liquidez não abunda, e como os advogados não vendem fiado, descobre que um quadro valiosíssimo comprado ao amigo ex politico era afinal uma falsificação, bastante medíocre aliás, pelo que, em alternativa, tem de se desfazer de uns apartamentos de Santo António dos Cavaleiros, cuja venda mal cobre os custos das petições iniciais mais requerimentos e demais emolumentos que a sociedade de advogados explica em detalhe de ciência esotérica. Tanto esforço para assegurar o futuro dos filhos pelo menos estava respaldado no facto de todos serem, afinal, funcionários públicos com licença sem vencimento. Do mal o menos.
versão ampliada do Diário Económico...
Já quase reformado, a tragédia abatesse sobre este empreendedor. Veio sem aviso. Os supermercados estavam, afinal, todos em nome de uma holding do cunhado e de uma brasileira que aquele conhecera num bar de alterne que pertencia ao sócio do stand de automóveis. A mulher foge com o gerente de um dos franchises, não sem antes proceder a levantamentos significativos nas contas “off shore”, que tinham sido constituídas a conselho duma pessoa entendida que fora mesmo e inclusive membro de um governo. Uma inspecção descobre-lhe a careca das balanças e aplica pesadas multas. Porventura enviada a mando do presidente da junta de freguesia, por causa da sua teimosia em não pagar umas facturas de tipografias dos cartazes da última campanha eleitoral, depois de anos de favores do presidente da junta em meter cunhas na câmara municipal para acelerar os loteamentos dos terrenos comprados junto à praia. Seja como for, o word of mouth espalha-se e a sólida base de clientes torna-se volátil e finalmente os talhos fecham. Uma doença neurológica degenerativa assoma neste período. O banco onde tinha colocado a maior parte da liquidez comunica-lhe que os fundos de pensão sofreram um rombo com a crise do sector financeiro. Outra maçadora inspecção revela “fraudes”, “peculato de uso” e outras misteriosas expressões que, certamente, se devem a mau trabalho do contabilista encarregue de organizar os papéis dos centros de formação. No fundo nada que um bom advogado não saiba chutar para canto. Mas como a liquidez não abunda, e como os advogados não vendem fiado, descobre que um quadro valiosíssimo comprado ao amigo ex politico era afinal uma falsificação, bastante medíocre aliás, pelo que, em alternativa, tem de se desfazer de uns apartamentos de Santo António dos Cavaleiros, cuja venda mal cobre os custos das petições iniciais mais requerimentos e demais emolumentos que a sociedade de advogados explica em detalhe de ciência esotérica. Tanto esforço para assegurar o futuro dos filhos pelo menos estava respaldado no facto de todos serem, afinal, funcionários públicos com licença sem vencimento. Do mal o menos.
versão ampliada do Diário Económico...
segunda-feira, novembro 24, 2008
Este país é mesmo impagável
aqui acontece de tudo mas sempre em escala pequena.... é no fundo uma grande colecção de homens que têm um talho com uma balança marada ....
em cada kilo de bifes abifam 100 gramazitas na balança ..... ao fim do dia o talhante conseguiu surrupiar aos clientes uns dois kilitos de carne .... ao fim do primeiro ano já dá pra comprar um carrito em segunda mão com jantes de liga leve....
ao fim de algum tempo, o talhante casa a filha mais velha e oferece-lhe um apartamento de duas assoalhadas a estrear em Vale de Milhaços.... nesse mesmo ano dá entrada pra um apartamento em sexta linha de mar em terceira mão em Quarteira... e, abalançasse a um segundo talho e sociedade com o filho do meio que também evidencia algum jeito prás balanças....
um dia, já com uma refomazita jeitosa e alguns bens imobiliários em nome duma sociedade com um cunhado, a ASAE finalmente multa-o pelas balanças e a coisa dá raia na vizinhança ....
o homem tem de mudar de concelho ....a mulher foge com o empregado do supermercado que entretanto o talhante tinha aberto em Paio Pires.... e um dos fundos de pensão afinal tinha sido desviado pelo cunhado que também tinha os apartamentos do Feijó jé em nome duma imobiliária com uma brasileira que conheçera num bar de alterne....
o talhante entretanto descobre que tem um sopro no coração e uma doença degenerativa do foro neurológico e vive agora amancebado com uma viúva que tem gostos caros que exprime no El Corte Inglês todas as quartas feiras com a filha do segundo casamento.... entretanto o presidente da junta de freguesia que lhe tinha metido umas cunhas pra aumentar uma vivenda é preso por causa duns favores que fez com dois camiões da junta, e acaba por trocar os pés pelas mãos envolvendo o talhante que desmente algum dia ter dado dinheiro pró partido do presidente da junta, nem sequer em pagamentos de facturas na tipografia do Simões....
em cada kilo de bifes abifam 100 gramazitas na balança ..... ao fim do dia o talhante conseguiu surrupiar aos clientes uns dois kilitos de carne .... ao fim do primeiro ano já dá pra comprar um carrito em segunda mão com jantes de liga leve....
ao fim de algum tempo, o talhante casa a filha mais velha e oferece-lhe um apartamento de duas assoalhadas a estrear em Vale de Milhaços.... nesse mesmo ano dá entrada pra um apartamento em sexta linha de mar em terceira mão em Quarteira... e, abalançasse a um segundo talho e sociedade com o filho do meio que também evidencia algum jeito prás balanças....
um dia, já com uma refomazita jeitosa e alguns bens imobiliários em nome duma sociedade com um cunhado, a ASAE finalmente multa-o pelas balanças e a coisa dá raia na vizinhança ....
o homem tem de mudar de concelho ....a mulher foge com o empregado do supermercado que entretanto o talhante tinha aberto em Paio Pires.... e um dos fundos de pensão afinal tinha sido desviado pelo cunhado que também tinha os apartamentos do Feijó jé em nome duma imobiliária com uma brasileira que conheçera num bar de alterne....
o talhante entretanto descobre que tem um sopro no coração e uma doença degenerativa do foro neurológico e vive agora amancebado com uma viúva que tem gostos caros que exprime no El Corte Inglês todas as quartas feiras com a filha do segundo casamento.... entretanto o presidente da junta de freguesia que lhe tinha metido umas cunhas pra aumentar uma vivenda é preso por causa duns favores que fez com dois camiões da junta, e acaba por trocar os pés pelas mãos envolvendo o talhante que desmente algum dia ter dado dinheiro pró partido do presidente da junta, nem sequer em pagamentos de facturas na tipografia do Simões....
sábado, novembro 15, 2008
Se
as notas a matemática e a português no ensino secundário melhoraram tanto...
Parece que a subida foi de tal modo espectacular que, sem dúvida, nela se reflectiu a excelência das medidas de política educativa tomadas pelo governo, entre estas, presumivelmente as medidas adoptadas com uma melhor formação, recrutamento, e performance dos professores (mormente nas aulas de substituição). Portanto, a avaliação de desempenho está feita. Estamos todos de parabéns, em particular a família do defunto....
Parece que a subida foi de tal modo espectacular que, sem dúvida, nela se reflectiu a excelência das medidas de política educativa tomadas pelo governo, entre estas, presumivelmente as medidas adoptadas com uma melhor formação, recrutamento, e performance dos professores (mormente nas aulas de substituição). Portanto, a avaliação de desempenho está feita. Estamos todos de parabéns, em particular a família do defunto....
Paradoxal
não deixa de ser curioso que num mundo cada vez mais desmaterializado... de serviços intangíveis.... de relações desvinculadas e efémeras.... de incertezas e rupturas...cada vez mais queiramos medir aquilo para o que não possuímos escalas aceitáveis ou realistas.... inventando critérios ponderadores parâmetros e sei lá que mais para tentar mensurar o incomensurável....
daqui a nada estamos a calcular medidas de afectos ......
daqui a nada estamos a calcular medidas de afectos ......
sexta-feira, outubro 31, 2008
o fantasma na máquina
Por causa da crise (recessão, forte abrandamento, depressão...continuamos sem palavra consensual que encapsule o colapso à nossa volta... e, portanto sem a tranquilidade que comporta ter um nome para a “besta”....) (re)começam a defrontar-se as escolas económicas. Pensava-se que com o chamado consenso de Washington (desregular, privatizar e deixar o mercado formar todos os preços acabando com os preços políticos e administrativos) o Estado iria, de cura em cura, emagrecer com ou sem dietas com aloé vera...
Afinal não. Parece que o famigerado Estado é como um gato de sete vidas (ou mais...) e regressará para relançar a economia ou esmagar a iniciativa privada, conforme o lado da barricada em que nos coloquemos. O horror que alguns descobrem, é o regresso do “socialismo” em particular na sua forma “keynesiana”. Eu, realmente, nunca tinha dado pela partida do dito, avisam-me agora do seu regresso. Nos Estados Unidos, por exemplo, nos últimos anos houve um excelente “keynesianismo” que, alegadamente, fez prosperar umas empresas que utilizavam a curiosa técnica de custos mais margem para facturar ao “Estado” as obras que faziam e, que em boa medida, eram decididas pelas empresas que as faziam, uma vez que não existiam concursos, nem propostas, nem nenhuma dessas maçadas que pelo menos permitem simular o funcionamento do mercado de concorrência perfeita, que existirá algures no sistema Solar. Este excelente impulso (que Schumpeter não desdenharia) deu origem a um novo paradigma técnico-económico. A novíssima “industria” da “Homeland Security” que fez da Betchel, da Boeing, da Blackwater, da Halliburton, empresas envolvidas em negócios algo distantes do seu “core business” mas em venturosos ondas de facturação, no Iraque ou no mercado doméstico. O caso da Boeing, e do seu sistema electrónico e de satélites para controlo de fronteiras (no teste é a do Canadá, sitio de onde provêm ameaças consideráveis...) tem sido, aliás, motivo de grande entusiasmo, tanto que já são vários biliões de dólares que ninguém consegue realmente justificar onde e como foram gastos segundo os insuspeitos Economist e Financial Times. Pena que esquilos, coelhos e alces façam disparar os alarmes para dar origem a possíveis operações de neutralização de invasores com F16 e demais aparato de resposta rápida....
Em todo o caso, os “offsprings” para a segurança privada de mansões e condomínios foi frutuosa. Com inovadores produtos como os “panic rooms”, dentro dos quais os proprietários podem controlar por computador o que se passa nas outras divisões da casa e escolher libertar gás mostarda ou gás lacrimogéneo para neutralizar os “invasores”. Desconheço se com estes produtos vem incluído um psiquiatra gratuito...
Mas agora, em face da crise cuja poeira ainda estará longe de assentar, assistiremos a debates entre os que insistirão na bondade da teoria de remover definitivamente o Estado e os que aconselharão o retorno de mais Estado. Como relançar o consumo privado que ameaça colapsar num mar de despedimentos? Como relançar a actividade económica se os bancos não arriscam emprestar às empresas? Como financiar projectos estruturais se desapareceram uns míseros triliões de dólares no buraco negro das bolsas e ainda não se conseguiu estancar a sangria? Receio que uns e outros se percam num folclore retórico de idiotas úteis. Eu temo que estejamos à beira de um tempo inovador. Realmente novo. Em que plutocratas e oligarcas se unam, ainda mais, e nos “acostumem” a um simulacro confortável de democracia. A troco da “estabilidade”, da “segurança”, que nos será concedida por políticos e banqueiros, nestes tempos tão “complexos” de veículos financeiros imperscrutáveis, muitos de nós cederemos a “liberdade” de dizer não obrigado, da próxima vez que nos oferecerem a possibilidade de nos candidatarmos ao sorteio de um computador baratinho bastando para tal cantarmos uma cantilena e regressarmos à época em que o comportamento infantil era natural...
publicado no Diário Económico
Afinal não. Parece que o famigerado Estado é como um gato de sete vidas (ou mais...) e regressará para relançar a economia ou esmagar a iniciativa privada, conforme o lado da barricada em que nos coloquemos. O horror que alguns descobrem, é o regresso do “socialismo” em particular na sua forma “keynesiana”. Eu, realmente, nunca tinha dado pela partida do dito, avisam-me agora do seu regresso. Nos Estados Unidos, por exemplo, nos últimos anos houve um excelente “keynesianismo” que, alegadamente, fez prosperar umas empresas que utilizavam a curiosa técnica de custos mais margem para facturar ao “Estado” as obras que faziam e, que em boa medida, eram decididas pelas empresas que as faziam, uma vez que não existiam concursos, nem propostas, nem nenhuma dessas maçadas que pelo menos permitem simular o funcionamento do mercado de concorrência perfeita, que existirá algures no sistema Solar. Este excelente impulso (que Schumpeter não desdenharia) deu origem a um novo paradigma técnico-económico. A novíssima “industria” da “Homeland Security” que fez da Betchel, da Boeing, da Blackwater, da Halliburton, empresas envolvidas em negócios algo distantes do seu “core business” mas em venturosos ondas de facturação, no Iraque ou no mercado doméstico. O caso da Boeing, e do seu sistema electrónico e de satélites para controlo de fronteiras (no teste é a do Canadá, sitio de onde provêm ameaças consideráveis...) tem sido, aliás, motivo de grande entusiasmo, tanto que já são vários biliões de dólares que ninguém consegue realmente justificar onde e como foram gastos segundo os insuspeitos Economist e Financial Times. Pena que esquilos, coelhos e alces façam disparar os alarmes para dar origem a possíveis operações de neutralização de invasores com F16 e demais aparato de resposta rápida....
Em todo o caso, os “offsprings” para a segurança privada de mansões e condomínios foi frutuosa. Com inovadores produtos como os “panic rooms”, dentro dos quais os proprietários podem controlar por computador o que se passa nas outras divisões da casa e escolher libertar gás mostarda ou gás lacrimogéneo para neutralizar os “invasores”. Desconheço se com estes produtos vem incluído um psiquiatra gratuito...
Mas agora, em face da crise cuja poeira ainda estará longe de assentar, assistiremos a debates entre os que insistirão na bondade da teoria de remover definitivamente o Estado e os que aconselharão o retorno de mais Estado. Como relançar o consumo privado que ameaça colapsar num mar de despedimentos? Como relançar a actividade económica se os bancos não arriscam emprestar às empresas? Como financiar projectos estruturais se desapareceram uns míseros triliões de dólares no buraco negro das bolsas e ainda não se conseguiu estancar a sangria? Receio que uns e outros se percam num folclore retórico de idiotas úteis. Eu temo que estejamos à beira de um tempo inovador. Realmente novo. Em que plutocratas e oligarcas se unam, ainda mais, e nos “acostumem” a um simulacro confortável de democracia. A troco da “estabilidade”, da “segurança”, que nos será concedida por políticos e banqueiros, nestes tempos tão “complexos” de veículos financeiros imperscrutáveis, muitos de nós cederemos a “liberdade” de dizer não obrigado, da próxima vez que nos oferecerem a possibilidade de nos candidatarmos ao sorteio de um computador baratinho bastando para tal cantarmos uma cantilena e regressarmos à época em que o comportamento infantil era natural...
publicado no Diário Económico
sábado, outubro 25, 2008
Ocorreu-me
que talvez o nível de sucesso escolar, no domínio da língua mãe, pudesse ser mensurado pela bitola da Governadora Palin. As dificuldades dela em não tropeçar nos sujeitos e predicados de uma frase são já lendárias...
Se conseguirmos produzir alunos acima do nível discursivo dela já podemos considerar um grande sucesso... com tanto sucesso contudo.... em breve umas instruções simples para fazer uma sopa transformarão a química alimentar para além do que o Lavoisier julgaria possível...
Se conseguirmos produzir alunos acima do nível discursivo dela já podemos considerar um grande sucesso... com tanto sucesso contudo.... em breve umas instruções simples para fazer uma sopa transformarão a química alimentar para além do que o Lavoisier julgaria possível...
segunda-feira, outubro 20, 2008
A palavra que define a crise
Ainda não há uma palavra que sirva de significante para tudo o que se está a passar. Hoje o Governador do FED falou de "serious slowdown". Instado, recusou a utilização de "recession", ou que em ultima análise era indiferente a palavra. Parece-me que não. Há algo tranquilizador no consenso sobre a palavra que designa um mal. É como se o mal pudesse ser contido na palavra e nós assim conseguíssemos controlar a coisa. Dominá-la. A economia deveria prestar alguma atenção à necessidade de segurança. Ao plano psicológico. Eu, até acho que se queremos os "mercados financeiros" a recuperar mais depressa poderíamos ter já levado a tribunal alguns "bodes expiatórios". Exemplos. Os "mercados" também tem sentido de "justiça"...
domingo, outubro 19, 2008
Ad Hominem
Ciclicamente dá à costa, com ardor, a dor de corno sobre o Saramago. É imperdoável que o homem tivesse sido (parece que ainda é) comunista. O que quer que isso seja, e signifique, hoje, conspurca desde o berço o que o homem escreve. Sem pontuação ainda por cima. Tivesse sido outro a inventar aquela ideia da península Ibérica ir por aí afora desligada do continente, ou de ficarmos todos cegos, ou de votarmos todos em branco num excesso de visão, ou de existirem duplicados de nós próprios, ou mesmo a iconoclastia do evangelho e, não faltariam por aí os louvadores de tanta genialidade, criatividade e sagacidade. Mas o homem tem de penar pela sanha persecutória dos tempos do Diário de Notícias. Não basta, contudo, lamentar e condenar a deriva estalinista que o contaminou. Por causa dela, há que recusar ao desgraçado qualquer arremedo de mérito pelo que fez no tempo que lhe sobrou à actividade de comissário político. Reduzir a sua escrita a pedaços de menoridade ao alcance de qualquer dos seus mais acirrados críticos. E lastimar profundamente a atribuição da comenda do Nobel. Coisa que, se lhes fosse conferido para tal, alguns não hesitariam em corrigir retirando o prémio em público e com o autor arrojado e humilhado em praça central de cidade capital e com transmissão em directo na CNN.
Eu devo confessar que li alguns livros, gostei deles, e houve mesmo alguns que achei arrebatadores. Lamento que o homem tenha desperdiçado tempo a perseguir adversários políticos, que tenha desperdiçado talento a impor visões asfixiantes e irrealistas do mundo a terceiros. Mas espero, sinceramente, não vir a ser condenado ao fogo eterno por ter gostado de ler o que o homem escreveu mesmo sem pontuação.
Eu devo confessar que li alguns livros, gostei deles, e houve mesmo alguns que achei arrebatadores. Lamento que o homem tenha desperdiçado tempo a perseguir adversários políticos, que tenha desperdiçado talento a impor visões asfixiantes e irrealistas do mundo a terceiros. Mas espero, sinceramente, não vir a ser condenado ao fogo eterno por ter gostado de ler o que o homem escreveu mesmo sem pontuação.
segunda-feira, setembro 22, 2008
A felicidade eterna
A coisa ainda não acabou, portanto, ainda é cedo para a agenda mediática ser dominada por aqueles que nos relembrarão que “nos tinham avisado”. Ou por aqueles que propõem inovadoras panaceias para que nunca mais possa acontecer. Ainda não é o tempo de balanços profundíssimos nem para serem exigidos mecanismos “que de uma vez por todas” previnam estas crises. Ou novas autoridades de regulação. Quem sabe, daqui a algum tempo alguém virá falar de meta sistemas e de Kurt Godel. E da necessidade de um supra organismo acima de todos que regule o sistema financeiro a nível mundial uma vez que os “fenómenos” são transnacionais e as fronteiras são um conceito inútil neste mundo electrónico em que se esvaziam os cofres de um banco através do pânico dos “ratos”...
Por enquanto os rostos são de perplexidade e desorientação. Os psicólogos poderão falar dos modelos de negação, pânico, acomodação, superação e sei lá que mais. Não faltam já especialistas em ‘crisis management’ a vender boas soluções. Mas em boa verdade ainda ninguém sabe realmente as “medidas” da crise. É como uma nova “besta” para a qual procuramos comparações com outros monstros mas sem a convicção que já temos um nome certo para a nomear. No jargão das mini crises os analistas pronunciam com autoridade a palavra “volatilidade”. Que quer dizer não estamos a ver bem o filme mas a poeira vai assentar lá mais para a tarde. No presente contexto as palavras são mais voláteis. Crise, recessão, ajustamento, correcção, choque. Pior que no inicio do século vinte. Grande depressão. Até um candidato presidencial primeiro arriscou que os fundamentais estavam sólidos, mas depois de perceber que ninguém parecia escutá-lo veio falar dos malandros de Wall Street que entretanto são dos principais financiadores da sua campanha.
Quando pára? Quem são os próximos? Ninguém arrisca dizer. Eu por mim só posso dizer não será a última vez. Nem a penúltima. Os seres humanos são muito optimistas e cavalgam euforicamente ilusões de riqueza incomensurável rápida e fácil. Mesmo em face de evidências claras do contrário. Como aquelas que faziam o ratio Dupont em estilhaços com promessas de valor infinito, mesmo na véspera do ‘crash’ da bolha da Internet. Companhias como a Yahoo que vendia pouco ou nada, valiam em bolsa centenas ou milhares de vezes mais que os seus activos tangíveis. Era a época do imaterial em explosão. ‘The sky was the limit’. Na altura, o sentido de urgência tomou conta de todos. Era o momento de investir em projectos arrojados que seriam premiados em ciclos virtuosos na Net, ‘overnight’...
E os bancos aprovavam operações lunáticas. E entalaram-se. E com eles, todos os que achavam que a gestão financeira tinha sido reinventada e que os fundamentais das finanças já não implicavam que uma empresa deve, idealmente, ter várias vezes a facturação superior ao activo líquido, e claro está, que este activo líquido seja bastante sólido... Entre nós algumas ‘rising stars’ da época deixaram um rasto de papel que hoje vale cêntimos...
Agora parece que a ilusão, bondosa e pia, de fazer de todos, orgulhosos proprietários de casas com preços inflaccionados num contexto de perda de rendimento disponível não era uma fórmula vencedora. Mas parece que já se suspeitava disso porque os promotores de tão venturosa política tratavam de vender e revender o risco a outros tão eufóricos e tão pouco convictos da robustez de todo o processo. E, circunspectos banqueiros, parece que caminharam sobre as águas. Agora alguns concluem que era uma mera ilusão de óptica.
A única coisa que sei é que daqui a uns anos assistiremos de novo a euforias semelhantes que no final todos acharão terem sido perigosas e incompreensíveis ilusões. E, talvez não se trate de dificuldades em aprender com os erros. Trata-se apenas de mecanismos psicológicos básicos que fazem gente sensata entrar em esquemas de pirâmide. Ou de gente que cai em contos de vigário. Estamos sempre disponíveis para isso. A vida pode ser demasiado curta para não enriquecermos já até amanhã de manhã cedinho.
publicado no Diário Económico
Por enquanto os rostos são de perplexidade e desorientação. Os psicólogos poderão falar dos modelos de negação, pânico, acomodação, superação e sei lá que mais. Não faltam já especialistas em ‘crisis management’ a vender boas soluções. Mas em boa verdade ainda ninguém sabe realmente as “medidas” da crise. É como uma nova “besta” para a qual procuramos comparações com outros monstros mas sem a convicção que já temos um nome certo para a nomear. No jargão das mini crises os analistas pronunciam com autoridade a palavra “volatilidade”. Que quer dizer não estamos a ver bem o filme mas a poeira vai assentar lá mais para a tarde. No presente contexto as palavras são mais voláteis. Crise, recessão, ajustamento, correcção, choque. Pior que no inicio do século vinte. Grande depressão. Até um candidato presidencial primeiro arriscou que os fundamentais estavam sólidos, mas depois de perceber que ninguém parecia escutá-lo veio falar dos malandros de Wall Street que entretanto são dos principais financiadores da sua campanha.
Quando pára? Quem são os próximos? Ninguém arrisca dizer. Eu por mim só posso dizer não será a última vez. Nem a penúltima. Os seres humanos são muito optimistas e cavalgam euforicamente ilusões de riqueza incomensurável rápida e fácil. Mesmo em face de evidências claras do contrário. Como aquelas que faziam o ratio Dupont em estilhaços com promessas de valor infinito, mesmo na véspera do ‘crash’ da bolha da Internet. Companhias como a Yahoo que vendia pouco ou nada, valiam em bolsa centenas ou milhares de vezes mais que os seus activos tangíveis. Era a época do imaterial em explosão. ‘The sky was the limit’. Na altura, o sentido de urgência tomou conta de todos. Era o momento de investir em projectos arrojados que seriam premiados em ciclos virtuosos na Net, ‘overnight’...
E os bancos aprovavam operações lunáticas. E entalaram-se. E com eles, todos os que achavam que a gestão financeira tinha sido reinventada e que os fundamentais das finanças já não implicavam que uma empresa deve, idealmente, ter várias vezes a facturação superior ao activo líquido, e claro está, que este activo líquido seja bastante sólido... Entre nós algumas ‘rising stars’ da época deixaram um rasto de papel que hoje vale cêntimos...
Agora parece que a ilusão, bondosa e pia, de fazer de todos, orgulhosos proprietários de casas com preços inflaccionados num contexto de perda de rendimento disponível não era uma fórmula vencedora. Mas parece que já se suspeitava disso porque os promotores de tão venturosa política tratavam de vender e revender o risco a outros tão eufóricos e tão pouco convictos da robustez de todo o processo. E, circunspectos banqueiros, parece que caminharam sobre as águas. Agora alguns concluem que era uma mera ilusão de óptica.
A única coisa que sei é que daqui a uns anos assistiremos de novo a euforias semelhantes que no final todos acharão terem sido perigosas e incompreensíveis ilusões. E, talvez não se trate de dificuldades em aprender com os erros. Trata-se apenas de mecanismos psicológicos básicos que fazem gente sensata entrar em esquemas de pirâmide. Ou de gente que cai em contos de vigário. Estamos sempre disponíveis para isso. A vida pode ser demasiado curta para não enriquecermos já até amanhã de manhã cedinho.
publicado no Diário Económico
sexta-feira, julho 25, 2008
O Colapso
O espírito das férias anda no ar e não é propriamente a época de grandes reflexões. Sobretudo das que implicam a mudança de paradigmas e, desta vez, não falo do meu clube nem do mundo do futebol, mas antes de coisas mesmo sérias. Não obstante, e o mais rapidamente possível, vamos ter de repensar alguns modelos que conduzem o modo como pensamos e agimos sobre o quotidiano. Talvez mais pela fresca, que ultimamente a coisa anda um bocado bizarra. Nas últimas semanas chega a ser divertido o ciclo, que, à falta de melhor, poderemos chamar de Trichet. Cada vez que o governador do banco central europeu fala (e não age…), expressando a sua preocupação sobre a inflação deixando a “ameaça” de aumento de juros, segue-se que o dólar se afunda e o petróleo sobe. Numa ocasião, o petróleo recuperou em horas o que tinha perdido em duas semanas. Portanto, o senhor Trichet, estou certo que involuntariamente, cada vez que fala consegue provocar o efeito contrário ao que deixa patente nas suas palavras e nos seus desejos. Claro que o mundo não ficaria melhor só porque o senhor Trichet escolhesse falar menos. Mas, ainda assim, talvez devesse limitar-se a comunicar acções e decisões concretas em lugar de longas análises em que detalha o contrário do que acabará por acontecer como consequência das suas palavras. E escrevo isto em face de duas semanas de descidas contínuas do preço do crude...
Em todo o caso, desta vez, a subida do preço do dinheiro parece longe de provocar o efeito pretendido. Talvez porque ‘elsewhere’ o preço do dinheiro anda barato e há escassez de sítios onde aplicar o que se retirou de um sistema financeiro em colapso. Dinheiro salvo à revelia de todas as homílias sobre a ‘market freedom’ que afinal só se aplica quando a coisa corre bem. Quando corre mal, o mercado deve ser manietado, a mão invisível retirada para lugar seguro e os “pacotes” de dinheiro público entram em acção para salvar as burradas privadas. Ainda assim, e em face deste facto, não há mingua de quem requeira dose maior da terapia. Mais do mesmo mas em doses ainda mais cavalares. Talvez o paciente não resista a tanta boa vontade e com juros a 10% a terapia se calhar resulta sobre um cadáver. Mas há quem descubra virtudes inusitadas no “abrandamento”, como lhe chama o nosso primeiro ministro. O aumento do preço do combustível provocará a redução no consumo com consequente melhoria no ambiente. Por extensão do argumento, poderemos prever que o aumento do preço da comida provocará a redução dos diabetes, do colesterol e, em última análise, a solução para a crise financeira dos sistemas públicos de saúde ocidentais. Paradoxalmente, os partidos verdes e alguns de esquerda parecem pretender aumentos de subsídios para o consumo de combustíveis fósseis que, entretanto, culpam pelo efeito estufa. Isto está confuso.
Tudo isto não passaria de borbulhagem exógena, portanto sem significado, não fora o problema do crescimento económico ser também arrastado para a maré de linearidades em colapso. É que parece que tudo se conjuga para fazer sol na eira, com temperaturas de 50 graus e chuva no nabal com chuvas torrenciais e enxurradas. Na repartição da grande divisão do trabalho pós mercados livres presumimos que os mercados a oriente se alargariam com a exportação dos empregos pouco qualificados para lá, transferindo a economia industrial, resgatando uns milhões à pobreza que consumiriam alegremente os nosso bens e serviços, e nós no ocidente ficaríamos com a economia dos serviços e com a parte da economia do conhecimento. Para isso é que comprámos o ‘franchise’ do MIT, em Portugal, e no resto da Europa compraram-se outros ‘franchises’ semelhantes e multiplicaram-se os cursos “qualificantes” de todo o feitio e tamanho. Alas. A economia do conhecimento e o seu aumento de “empregabilidade” parece ter descoberto o caminho das terras do sol nascente. Nunca pensei dizer isto mas, agora, até a economia dos eventos me parece mais promissora juntamente com a economia do turismo de luxo, do turismo cultural e, como diz um amigo meu, as filigranas com design e investigação em cima podem ser produtos com futuro na área de uma oferta integrada de história e vivências aos novos ricos do oriente. No colapso de mais algumas linearidades simplórias, nós por cá vamos, por certo, descobrir novos pobres mas com menos obesidade e diabetes.
(publicado no Diário Económico)
Em todo o caso, desta vez, a subida do preço do dinheiro parece longe de provocar o efeito pretendido. Talvez porque ‘elsewhere’ o preço do dinheiro anda barato e há escassez de sítios onde aplicar o que se retirou de um sistema financeiro em colapso. Dinheiro salvo à revelia de todas as homílias sobre a ‘market freedom’ que afinal só se aplica quando a coisa corre bem. Quando corre mal, o mercado deve ser manietado, a mão invisível retirada para lugar seguro e os “pacotes” de dinheiro público entram em acção para salvar as burradas privadas. Ainda assim, e em face deste facto, não há mingua de quem requeira dose maior da terapia. Mais do mesmo mas em doses ainda mais cavalares. Talvez o paciente não resista a tanta boa vontade e com juros a 10% a terapia se calhar resulta sobre um cadáver. Mas há quem descubra virtudes inusitadas no “abrandamento”, como lhe chama o nosso primeiro ministro. O aumento do preço do combustível provocará a redução no consumo com consequente melhoria no ambiente. Por extensão do argumento, poderemos prever que o aumento do preço da comida provocará a redução dos diabetes, do colesterol e, em última análise, a solução para a crise financeira dos sistemas públicos de saúde ocidentais. Paradoxalmente, os partidos verdes e alguns de esquerda parecem pretender aumentos de subsídios para o consumo de combustíveis fósseis que, entretanto, culpam pelo efeito estufa. Isto está confuso.
Tudo isto não passaria de borbulhagem exógena, portanto sem significado, não fora o problema do crescimento económico ser também arrastado para a maré de linearidades em colapso. É que parece que tudo se conjuga para fazer sol na eira, com temperaturas de 50 graus e chuva no nabal com chuvas torrenciais e enxurradas. Na repartição da grande divisão do trabalho pós mercados livres presumimos que os mercados a oriente se alargariam com a exportação dos empregos pouco qualificados para lá, transferindo a economia industrial, resgatando uns milhões à pobreza que consumiriam alegremente os nosso bens e serviços, e nós no ocidente ficaríamos com a economia dos serviços e com a parte da economia do conhecimento. Para isso é que comprámos o ‘franchise’ do MIT, em Portugal, e no resto da Europa compraram-se outros ‘franchises’ semelhantes e multiplicaram-se os cursos “qualificantes” de todo o feitio e tamanho. Alas. A economia do conhecimento e o seu aumento de “empregabilidade” parece ter descoberto o caminho das terras do sol nascente. Nunca pensei dizer isto mas, agora, até a economia dos eventos me parece mais promissora juntamente com a economia do turismo de luxo, do turismo cultural e, como diz um amigo meu, as filigranas com design e investigação em cima podem ser produtos com futuro na área de uma oferta integrada de história e vivências aos novos ricos do oriente. No colapso de mais algumas linearidades simplórias, nós por cá vamos, por certo, descobrir novos pobres mas com menos obesidade e diabetes.
(publicado no Diário Económico)
quarta-feira, junho 18, 2008
O grande equalizador
Eu sempre fui a favor de provas globais, de exames, de avaliações. Iguais para todos. É a única maneira de testarmos a realidade dura e pura e pura e dura...
É um espelho terrível que finalmente revela o bom e o mau. Que destrói ilusões de grandeza que era oca, e que revela talentos escondidos por categorizações redutoras. É um grande momento de reality check.
Aconteceu hoje com o meu garoto mais novo. Na escola onde anda (e concluiu agora a quarta classe) foi sempre ofuscado pelo irmão mais velho. O "ponderado", educado, mais tímido e mais reservado. Que teve sempre mais de 90% nos testes de tudo e mais um par de botas, e quando fez os exames nacionais de aferição do ano passado obteve, "naturalmente", o máximo, A a matemática e A a português. Era indiscutivelmente o mais sensato, o mais calmo, o mais "inteligente". No quinto ano repetiu a dose, e ainda bem....
O mais novo foi sempre o "artista". O que pegava em materiais como papel, agrafos, cola, tinta, partes dos Dragons e dos Bionicles e fazia uma máscara do Predator ou do Alien (bastante realistas...) e depois recriava a "persona" numa pantomina criativa que nunca cessava de nos surpreender. Só que tinha belíssimas notas também (sempre mais de 90%...). Mas era sobretudo "engraçado", mesmo para os colegas (os pares) a imagem passava e ficava colada ao corpo. Hoje vieram as notas de aferição. Foi o único a ter A a português e A a matemática.
Os professores, os auxiliares, a governanta, os colegas hoje pareciam ter descoberto uma nova criatura. Conviveram com ele quatro anos e não "sabiam" que ele para além de pantomineiro (imbatível...) era afinal "assim", "como o irmão"....
Abençoado exame, que hoje parece ter feito sobretudo uma vítima. É que o meu filho mais novo agora acredita, também ele, que afinal é um belíssimo aluno, e não só um "artista"....
É um espelho terrível que finalmente revela o bom e o mau. Que destrói ilusões de grandeza que era oca, e que revela talentos escondidos por categorizações redutoras. É um grande momento de reality check.
Aconteceu hoje com o meu garoto mais novo. Na escola onde anda (e concluiu agora a quarta classe) foi sempre ofuscado pelo irmão mais velho. O "ponderado", educado, mais tímido e mais reservado. Que teve sempre mais de 90% nos testes de tudo e mais um par de botas, e quando fez os exames nacionais de aferição do ano passado obteve, "naturalmente", o máximo, A a matemática e A a português. Era indiscutivelmente o mais sensato, o mais calmo, o mais "inteligente". No quinto ano repetiu a dose, e ainda bem....
O mais novo foi sempre o "artista". O que pegava em materiais como papel, agrafos, cola, tinta, partes dos Dragons e dos Bionicles e fazia uma máscara do Predator ou do Alien (bastante realistas...) e depois recriava a "persona" numa pantomina criativa que nunca cessava de nos surpreender. Só que tinha belíssimas notas também (sempre mais de 90%...). Mas era sobretudo "engraçado", mesmo para os colegas (os pares) a imagem passava e ficava colada ao corpo. Hoje vieram as notas de aferição. Foi o único a ter A a português e A a matemática.
Os professores, os auxiliares, a governanta, os colegas hoje pareciam ter descoberto uma nova criatura. Conviveram com ele quatro anos e não "sabiam" que ele para além de pantomineiro (imbatível...) era afinal "assim", "como o irmão"....
Abençoado exame, que hoje parece ter feito sobretudo uma vítima. É que o meu filho mais novo agora acredita, também ele, que afinal é um belíssimo aluno, e não só um "artista"....
quinta-feira, junho 05, 2008
Banco
recebi um simpático telefonema a informar-me convidar-me pressionar-me (push do marketing....) que um dos bancos onde tenho conta organiza um road show com produtos que vende.....
são ecrãs de plasma, computadores, hi-fi, vestidos Versace (OK esta é inventada por mim...) ..... o "evento" decorre num hotel de Lisboa e, claro está, pretende vender dinheiro a crédito para que compremos aqueles bens sem os quais a nossa vida ficará vazia de sentido teleológico.
Eu fui um bocado ríspido com a senhor/menina que me telefonou e provavelmente se encontra em contrato a prazo com renovação dependente do grau de "desempenho" nesta actividade de telemarketing de promotora da tupperware... eu quase que aposto que o director de marketing autor do "stream" comercial não é capaz de fazer as cold calls.....
mas já vai minguando a paciência para esta pressão constante e obsessiva para que nos reduzamos a consumidores de qualquer merda desde estejamos sempre numa posição de dever dinheiro por compras anteriores e em vias de comprar mais qualquer coisa....
suponho que a menina senhora que fez a chamada tem uma licenciatura em qualquer coisa menos na expectativa de ter de vender sabonárias ao telefone e levar desaforo de clientes irritados e sem orçamento para fazer face às expectativas dos filhos mais ao preço da gazolina e ao juro do empréstimo.... mas deve ser desta precariedade que a senhor lider do partido da oposição falava com alegria e optimismo...
são ecrãs de plasma, computadores, hi-fi, vestidos Versace (OK esta é inventada por mim...) ..... o "evento" decorre num hotel de Lisboa e, claro está, pretende vender dinheiro a crédito para que compremos aqueles bens sem os quais a nossa vida ficará vazia de sentido teleológico.
Eu fui um bocado ríspido com a senhor/menina que me telefonou e provavelmente se encontra em contrato a prazo com renovação dependente do grau de "desempenho" nesta actividade de telemarketing de promotora da tupperware... eu quase que aposto que o director de marketing autor do "stream" comercial não é capaz de fazer as cold calls.....
mas já vai minguando a paciência para esta pressão constante e obsessiva para que nos reduzamos a consumidores de qualquer merda desde estejamos sempre numa posição de dever dinheiro por compras anteriores e em vias de comprar mais qualquer coisa....
suponho que a menina senhora que fez a chamada tem uma licenciatura em qualquer coisa menos na expectativa de ter de vender sabonárias ao telefone e levar desaforo de clientes irritados e sem orçamento para fazer face às expectativas dos filhos mais ao preço da gazolina e ao juro do empréstimo.... mas deve ser desta precariedade que a senhor lider do partido da oposição falava com alegria e optimismo...
quarta-feira, junho 04, 2008
A sociedade desvinculada
recentemente uma lider de um partido político fazia uma notável descoberta. A de que tudo era precário pelo que a própria noção de precariedade estava sem sentido. Palavras sábias de alguém que já tem segurança suficiente para se colocar a salvo da incerteza que de sorriso na face constata para os outros. Os mais novos. Que em face de não existirem vínculos podem limitar-se a existir no presente sem calcular o futuro. A lider deve continuar a sorrir.
sexta-feira, maio 30, 2008
A estatística
parece que era de 2004 e, portanto, várias pessoas tiraram conclusões precipitadas ou mesmo manipuladas ou manipuladoras. E a asserção era sublinhada por um sorridente triunfo retórico.
Lamentavelmente, a estatística de ontem não estará disponível antes de uns anos. Se calhar evidenciaria as cinzas de uma classe média que já está longe da moda e a puxar a mediana para baixo.
Lamentavelmente, a estatística de ontem não estará disponível antes de uns anos. Se calhar evidenciaria as cinzas de uma classe média que já está longe da moda e a puxar a mediana para baixo.
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