terça-feira, maio 21, 2013

Teoria Geral da Inequação ou Reductio ad absurdum

Corre por aí um video em que um garoto de 16 anos "humilha" uma professora catedrática. Pode ser visto aqui. 

Suscitou grande comoção e aprovação viral. Eu por mim devo dizer que a figura e postura do miúdo me é simpática e que a atitude da professora foi de uma certa sobranceria e desdém pelo garoto e portanto compreendo o gozo generalizado com a "humilhação". A realidade que percebo limita-se àqueles segundos.

Não tenho paciência para ver aquelas coisas, aborrece-me a leveza e superficialidade dos "debates" (já fui abordado e mesmo convidado pela "produção" por duas vezes, e tive de declinar o amável convite porque já lá vai o tempo... a vaidade pessoal está mais apaziguada, e em boa verdade nunca foi mais do que estratégia de comunicação... e o contributo que daria seria ruído de fundo como tudo o resto a que é reduzido que lá vão fazer e dizer...). Portanto, pelo que observo no video viral, o miúdo, aparentemente, decidiu criar uma marca de roupa barata confortável e que fugia à lógica do pagamento de fortunas pela mesma coisa em razão de serem feitas por marcas estrangeiras.

A professora presumiu sem bases, de modo agressivo e apressado, que a roupa era feita naqueles prédios que desabam no Sri Lanka por crianças pagas a 4 dólares mês, informada que era feita cá, não desarmou e soprou que era feita por gente a salário mínimo e o miúdo rápido disse-lhe que era melhor que estarem desempregadas. Foi aplaudido vibrantemente. A professora fez um sorriso amarelo e acaba o video.

10 a zero. Um miúdo que bate punho destroça uma instalada grisalha arrogante. Uma maneira de ver a coisa. O spin do Governo gostaria que esta imagem colasse. Um miúdo de dezasseis anos comporta a mensagem de esperança num país livre de lobbies e com iniciativa não titulada pelos maçons nem pelos partidos em oposição a uma académica das torres de marfim longe da realidade e mal agradecida para quem cria valor e impostos que lhe pagam o lugar de pós doutorada e investigadora à pala do dinheiro dos contribuintes. Outra forma de pôr as coisas. Para iniciados isto era uma derrota pesadíssima do ex ministro Gago... já estou a ver o sorriso amarelo do gajo do Público que foi visitar estabelecimentos de ciência pelo mundo inteiro e sempre alisou o caminho das teorias dos gaguistas e dos servidores do monarca como o Moniz Pereira da FCT da Nova que nunca quiseram ser os laboratórios das traseiras das empresas (dito por ele justamente num Prós e Contras)...

Mas como nunca fui bom na disciplina do maniqueísmo 101... e sempre me lixei com isso mas nunca me arrependi ... debatamos um pouco mais a coisa... por muito impopular que seja o debate e termos de usar o cérebro para pensar...

Comecemos por defender a professora com uma técnica conhecida...

 1. Ser milionário é melhor que ser da classe média e ter emprego numa empresa que se vai deslocalizar para a India...
2. Ser da classe média e ter vários depósitos de 99.000 euros em bancos europeus é melhor que ser supervisor de turno da Stapples...
 3. Estar empregado com salário mínimo é melhor do que estar desempregado sem subsídio...
4. Ser pobre na Suécia é melhor que ser pobre no Siri Lanka...
5. Estar doente de cancro da próstata em fase inicial é melhor que ter cancro de pequenas células no pulmão
6. Estar vivo é melhor que estar morto...

relativiza-se um pouco a coisa... Talvez o argumento que a professora quis introduzir (embora no registo de canelada próprio do programa, razão suficiente para nunca lá meter os pés no programa...mas vai lá quem quer o ego afagado...) possa ser melhor compreendido com este livro que uma adepta do mercado e da liberdade total de comércio e negócio escreveu quando ficou aborrecida com uma jovem aluna que pedia que parassem de comprar t-shirts porque eram todas feitas num regime esclavagista no oriente... a conclusão do livro é deveras surpreendente e interessante pelo menos para quem acredita na fábula do mercado ... (a conclusão é que a aluna deve continuar a clamar contra o esclavagismo) mas podem ler o livro e concluir por vós ... é este aqui As viagens de uma t-shirt no mundo global ... e a prazo o consenso de Washington virar-se-á contra os seus feiticeiros... e sim um dia alguém vai voltar a clamar por empregos que paguem mais do que a fome... mas a prazo este miúdo também será um herói louvável ... pelo inconformismo pela iniciativa pela criatividade pelo desafio porque podendo ficar quieto fez e não é dele a responsabilidade de resolver os problemas do mundo ...


Mas não se aplauda o trágico que é estarmos a congratularmos-nos com o facto de na Europa o modelo de desenvolvimento ser assente em mão de obra barata ... não nos regozijemos com o facto de ser melhor ter emprego que paga uma vida de merda a não ter emprego nenhum ... temos de exigir de nós e dos governantes que olhem para além da crise financeira em que se emporcalharam e em que comem o pão amassado por escroques gananciosos por certo não apreciados pelo futuro cardeal de Lisboa e que pensem e ouçam sobre uma ordem económica que não deve nem pode passar por competirmos com os soterrados dos prédios do Sri Lanka...

não é por certo aquele o futuro que queremos para os nossos filhos porque a técnica de exagerar até ao absurdo um dia será ... "ah o meu filho licenciado em física dos plasmas trabalha num call center a 450 euros mês mas enfim não tem deformações nos ossos dos punhos por manipular uma máquina de costura 14 horas por dia nem corre o risco de ficar soterrado porque o barraco onde trabalha é inspeccionado por finlandeses"....

e aos que agora descobriram a teoria de Schumpeter escrita em 1934 e curiosamente corrigida em 1942 (aconselho  que leiam... ) e se entusiasmam puerilmente com tanto bater punho não desprezem assim sem mais quem pensa e quer pensar mais fundo ... desprezem  a sobranceria e a arrogância intelectual mas não o pensamento ... ficamos sempre mais pobres quando a turba aplaude por quem tem reflexos pavlovianos ... 

1 comentário:

Sara disse...
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