Quarta-feira, Junho 18, 2008

O grande equalizador

Eu sempre fui a favor de provas globais, de exames, de avaliações. Iguais para todos. É a única maneira de testarmos a realidade dura e pura e pura e dura...

É um espelho terrível que finalmente revela o bom e o mau. Que destrói ilusões de grandeza que era oca, e que revela talentos escondidos por categorizações redutoras. É um grande momento de reality check.

Aconteceu hoje com o meu garoto mais novo. Na escola onde anda (e concluiu agora a quarta classe) foi sempre ofuscado pelo irmão mais velho. O "ponderado", educado, mais tímido e mais reservado. Que teve sempre mais de 90% nos testes de tudo e mais um par de botas, e quando fez os exames nacionais de aferição do ano passado obteve, "naturalmente", o máximo, A a matemática e A a português. Era indiscutivelmente o mais sensato, o mais calmo, o mais "inteligente". No quinto ano repetiu a dose, e ainda bem....

O mais novo foi sempre o "artista". O que pegava em materiais como papel, agrafos, cola, tinta, partes dos Dragons e dos Bionicles e fazia uma máscara do Predator ou do Alien (bastante realistas...) e depois recriava a "persona" numa pantomina criativa que nunca cessava de nos surpreender. Só que tinha belíssimas notas também (sempre mais de 90%...). Mas era sobretudo "engraçado", mesmo para os colegas (os pares) a imagem passava e ficava colada ao corpo. Hoje vieram as notas de aferição. Foi o único a ter A a português e A a matemática.

Os professores, os auxiliares, a governanta, os colegas hoje pareciam ter descoberto uma nova criatura. Conviveram com ele quatro anos e não "sabiam" que ele para além de pantomineiro (imbatível...) era afinal "assim", "como o irmão"....

Abençoado exame, que hoje parece ter feito sobretudo uma vítima. É que o meu filho mais novo agora acredita, também ele, que afinal é um belíssimo aluno, e não só um "artista"....

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Banco

recebi um simpático telefonema a informar-me convidar-me pressionar-me (push do marketing....) que um dos bancos onde tenho conta organiza um road show com produtos que vende.....

são ecrãs de plasma, computadores, hi-fi, vestidos Versace (OK esta é inventada por mim...) ..... o "evento" decorre num hotel de Lisboa e, claro está, pretende vender dinheiro a crédito para que compremos aqueles bens sem os quais a nossa vida ficará vazia de sentido teleológico.

Eu fui um bocado ríspido com a senhor/menina que me telefonou e provavelmente se encontra em contrato a prazo com renovação dependente do grau de "desempenho" nesta actividade de telemarketing de promotora da tupperware... eu quase que aposto que o director de marketing autor do "stream" comercial não é capaz de fazer as cold calls.....

mas já vai minguando a paciência para esta pressão constante e obsessiva para que nos reduzamos a consumidores de qualquer merda desde estejamos sempre numa posição de dever dinheiro por compras anteriores e em vias de comprar mais qualquer coisa....


suponho que a menina senhora que fez a chamada tem uma licenciatura em qualquer coisa menos na expectativa de ter de vender sabonárias ao telefone e levar desaforo de clientes irritados e sem orçamento para fazer face às expectativas dos filhos mais ao preço da gazolina e ao juro do empréstimo.... mas deve ser desta precariedade que a senhor lider do partido da oposição falava com alegria e optimismo...

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Quarta-feira, Junho 04, 2008

A sociedade desvinculada

recentemente uma lider de um partido político fazia uma notável descoberta. A de que tudo era precário pelo que a própria noção de precariedade estava sem sentido. Palavras sábias de alguém que já tem segurança suficiente para se colocar a salvo da incerteza que de sorriso na face constata para os outros. Os mais novos. Que em face de não existirem vínculos podem limitar-se a existir no presente sem calcular o futuro. A lider deve continuar a sorrir.

Sexta-feira, Maio 30, 2008

A estatística

parece que era de 2004 e, portanto, várias pessoas tiraram conclusões precipitadas ou mesmo manipuladas ou manipuladoras. E a asserção era sublinhada por um sorridente triunfo retórico.

Lamentavelmente, a estatística de ontem não estará disponível antes de uns anos. Se calhar evidenciaria as cinzas de uma classe média que já está longe da moda e a puxar a mediana para baixo.

Domingo, Maio 18, 2008

A conversa quando as coisas não correm bem

Antes de mais, um ‘disclaimer’ (como se diz em “internetês”…). Eu sou sócio número 13488, há quase trinta anos, da instituição que utilizo para ilustrar o argumento deste artigo. Afianço desde já, e antes de algum reflexo pavloviano em que a indústria é pródiga, que não sou nem candidato a segundo assessor do terceiro ajudante do décimo adjunto do sector de observação e recrutamento de talentos na área de Santana de Cambas, nem faço parte de nenhum sinistro grupo internacional de conspiradores que visa derrubar ninguém…

Mas adiante. Trata-se de discutir, neste artigo, algumas curiosidades do processo de formulação de uma estratégia. Devemos começar pelo negócio em que realmente estamos. Por exemplo, algumas pessoas podem presumir que vendem ferramentas de jardinagem, quando realmente estão no negócio dos ‘hobbies’ de fim-de-semana ao ar livre e em contacto com a natureza, competindo com as excursões do Centro Nacional de Cultura, ou com os passeios pedestres ao Jardim Botânico, ou com as actividades de prevenção dos AVC. Uma empresa que transporta crianças de casa para a escola pode equivocar-se e definir-se como empresa de transportes, quando o que realmente presta é um serviço de segurança. Entendido qual é realmente o negócio em que estamos presentes, podemos então definir como queremos actuar. Em que segmentos e com que produtos específicos devemos posicionar-nos, tendo em conta as acções de outros concorrentes, fornecedores, regulamentos e demais variáveis que podem facilitar ou constranger as nossas intenções e acções.

Verdadeiramente essencial é que fixemos objectivos claros a alcançar, que assumam uma dupla utilidade. Mobilizam as energias dos que colaboram no empreendimento e fornecem um farol e um padrão contra o qual podemos, permanentemente, comparar o que estamos alcançando e quão distante estamos do que pretendemos.

Quando as coisas correm mal, isto é, os objectivos fixados não foram atingidos, podemos sempre lançar mão do recurso ao processo soviético de revisão da História, dizendo, por exemplo que os 14,5% de EBITDA não foram cumpridos porque as condições de mercado se alteraram drasticamente, ou mesmo houve intenção malévola do governo, ou que a autoridade reguladora faz batota, mas em compensação as vendas cresceram 23% acima do esperado e quase 46,3% acima da mediana do sector. Ou então que conseguimos, numa revisão defensiva da nossa estratégia e, em face, da elevada volatilidade evidenciada pela economia a partir do segundo quadrimestre, uma significativa redução dos custos fixos com as operações logísticas que nos permitiram uma libertação de meios assinalável mantendo o nível de criação de valor para o accionista dentro das bandas normais na empresa e muito acima do que os nossos concorrentes directos conseguiram. De qualquer modo, os bónus parecem assegurados mesmo em face de estrondosos insucessos.

Estendendo a lógica anterior, e na fronteira da inovação radical, encontra-se o meu clube. De futebol, convém salientar para ajudar a posicionar a questão. Que tem acumulado EBITDAS muito apreciáveis segundo os resultados divulgados. Multiplicado as “casas”, como extensões do ‘supply chain’ de ‘merchadising’. Estabelecido parcerias estratégicas com sete sextos do mundo empresarial inclusive com a (passe a publicidade) Auto Mecânica de Mértola onde, como sócios do clube, temos 10% de desconto. Temos telemóveis próprios, seguros especiais, descontos em restaurantes de Alferrarede e Marzovelos, fabricantes de tintas desenvolveram cores especialmente para decorarmos a casa no interior e exterior, soluções financeiras especiais, descontos em serviços de alarmes e segurança, e muitíssimo mais que o catálogo dos benefícios por ser sócio é maior que as antigas listas de telefone da cidade do México. O problema é o da definição do negócio. É que, estou convencido, o que os sócios deste clube queriam era somente e singelamente ganhar o campeonato. Nada mais. Suspeito mesmo que trocávamos o desconto nas lojas de pneus de Estombar e de Arcozelos para evitar o quarto lugar. Mas não deixa de ser interessante o processo, contínuo, de revisão de objectivos estratégicos que são periodicamente actualizados com justificações mais que plausíveis, mesmo inovadoras e revolucionárias. Eu, aliás, posso fornecer, completamente livre de encargos com propriedade intelectual, o sistema de equações diferenciais não lineares de quarto grau que explica o modelo de fixação de objectivos do meu clube, bem como a retórica utilizada para o explicar de modo eloquente e simples. Mas fico com a secreta esperança que, eventualmente, um dia destes alguém consiga entender a verdadeira natureza do negócio.

publicado no Diário Económico

Sexta-feira, Abril 04, 2008

O triunfo do Pavlov ou a sociedade dos histéricos

Mais de 10.000.000% de aumento de casos de violência sobre velhos

De seguida, algumas dezenas de tarefeiros e estagiários pagos a sandes de fiambre são despachados em busca do momento emotivo. Do olhar de tristeza. Da situação de impotência e de solidão. No estúdio um jornalista/apresentador/entertainer com voz de Orson Wells amplifica o drama o horror a consternação. Lança a bisca para um dos habituais advogados, psicólogos, sociólogos, jornalistas desportivos, generais reformados, especialistas em armas termonucleares e geoestratégia que habitam o espaço comunicacional e, estão permanentemente contactáveis e disponíveis para expressar uma visão instantânea sobre o que seja necessário e pago a recibo verde. A percentagem, claro está, diz respeito a uma comparação absurda. Contra um tempo em que nem sequer se contavam tais minudências. Não existia, desde logo, o conceito. Antes, como agora, os velhos levavam quando se borravam ou mijavam, quando recusavam a comida. Só que agora, felizmente, há alguma censura social a essa realidade triste. A natureza humana é a mesma. A compaixão é a mesma. O que mudou foi a exposição pública. A violência sobre velhos, sobre mulheres, sobre crianças tornou-se odiosa. Não graças à histeria induzida pelos mídia e pelos bobos que a manipulam. É que depois do reflexo pavloviano do exagero e da erupção da histeria o que sobrevêm é de novo a indiferença. O conceito de violência doméstica, por exemplo, substituiu lentamente a sabedoria consuetudinária que caucionava as frequentes cargas de porrada sobre as esposas porque sim ou porque o Benfica perdia e que se consubstanciava no princípio que "entre marido e mulher não metas a colher". Contudo chegámos à noção de violência doméstica porque as mulheres e alguns homens foram conversando sobre o tema e foram chegando a novos consensos, não porque a histeria provocada com imagens fortes tenha ajudado muito. As imagens fortes e o ruído condenatório que se lhes em geral provoca reacantonamentos e não aumento do diálogo e dos consensos. Isto é, quando se gera uma histeria sobre os "homens" em geral, tipo são todos uns porcos, isto conduz os "homens" a reagir como "classe" e a negar não só a dimensão do fenómeno como muitas vezes o próprio fenómeno, oq ue prejudica a evolução do combate ao fenómeno.

Vem isto a própósito da histeria de hoje com os 140 casos de miudos que levaram "armas" para escolas. Sendo que no final alguns são canivetes, coisa que no meu tempo quase todos os miudos tinham... outros eram armas de fingir, e nalguns casos armas reais. Coisa que no meu tempo também se dava ao caso...

Gera-se uma histeria desnecessária que levanta receios infundados nos miudos sobre a sua escola, espaço em que em geral circulam com grande segurança. Mas os jornalistas são umas putas como outras quaisquer. Alegadamente até um código deontológico possuem. Deve ser bastante cómico. Os gestores e donos de empresas de meios de comunicação são também bastante patuscos. Parece que são "reféns" impotentes do mercado e do sangue e sound bites que o "mercado" exige. As putas propriamente ditas são merecedoras de compaixão. Estas outras putas que vivem dos excrementos são só isso mesmo.

Terça-feira, Março 25, 2008

Free Tibet

Sexta-feira, Março 14, 2008

Estratégia Instantânea (III)

Aqui há umas semanas sugeri que uma boa parte das estratégias clássicas estão em vias de extinção. Por exemplo, a dicotomia introduzida pelo Porter, a escolha entre o produzir barato e em massa ou produzir diferente e desnatar o mercado, foi, aparentemente, ultrapassada pelo produzir diferença para o mercado de massas, como nos casos da Zara e da Decathelon.
Depois, brincando um pouco com a extraordinária e prolixa pós-modernidade na teoria da gestão, sugeri que a sabedoria contida em os “três porquinhos gestores” e no “síndrome do macho alfa”, entre outros, poderia não bastar para substituir o modelo de crescimento do Igor Ansoff, que ainda me parece muito útil e talvez o melhor modelo de raciocínio estratégico. Mas, voltemos então à questão inicial: a estratégia tornou-se como os tempos. Instantânea. Mas quais serão os novos vectores de posicionamento?

Desde logo assistimos à desmaterialização das actividades antigamente associadas a transformação de materiais. Uma espécie de rotura entre o produto físico e a marca. ‘Brands Not Products’. A marca transforma-se num modelo de vida que comporta. O sistema de valores e atitudes que transmite. A experiência e a vivência que permite. Trata-se do que o símbolo nos permite sentir, ver, ser visto, e não no produto material que apenas serve de desculpa para a existência da marca. A marca fica assim associada ao conceito de atitude.

Estar “aqui e agora” é o ‘leitmotiv’ da estratégia pura e dura. A marca fornece um mecanismo de rápida identificação a uma tribo, como (re)nova(da) categoria sociológica. Tal como os ‘hot spots’ da noite aparecem e desaparecem com velocidade alucinante mas sem causalidade especial, as tribos aglomeram-se e desfazem-se à luz de conceitos polarizadores que se substituem rapidamente. Os instrumentos da estratégia estão, portanto, também em extinção.

Agora para saber que estratégia é que está na onda para a semana o melhor é ter ‘undercover agents’ entre o ‘crowd do people’... como faz a Nike ou a Tommy Hilfiger. A separação entre diferenciar e massificar pode estar a ser substituída pelo produto singular e despido de todos os ‘morphs’ tecnológicos e funcionais como o ‘low cost’ na aviação e os produtos com toda a hibridez do presente como as sapatilhas com leitor de mp3, gps e medidor de batimento cardíaco e dispensador de ‘chewing gums’.

Outra dimensão emergente como variável de posicionamento é o espaço. Os espaços em que existem e agem as pessoas, numa qualquer ‘megalopolis’. Por exemplo, numa farmácia atingem-se todos as pessoas do segmento maiores de 55 que habitam numa qualquer zona urbana. A partir desta constatação podemos conceber a farmácia como entreposto de satisfação de uma pluralidade de necessidades. Desde o sector de turismo; com organização de excursões, da venda de ‘time sharing’ em termas, na alimentação; produtos de macrobiótica, ampolas para a memória, calçado ortopédico, colchões ortopédicos, cadeiras anti-escaras...

O espaço em que existem pessoas com mais de vinte e menos de quarenta, profissionais, ainda com a expectativa de alcançar a presidência da Cisco ou da Amazon, podemos fornecer nos ‘health clubs’, além das tradicionais alimentações saudáveis e bebidas isotónicas, viagens de aventura ou de consciência ecológica e cultural, viagens de recreio, produtos financeiros, ‘ipods’ e outros bens da linha castanha como aparelhagens de alta fidelidade de marcas norueguesas, cursos de ‘reiki’, cursos de misticismo oriental e ocidental e do sul, cursos de equilíbrio do ‘stress’, roupas, máquinas de sumos, automóveis. Em breve num ‘shopping center’ poderemos ter consultas médicas, diagnósticos médicos, frequentar aulas de formação profissional, colocar o correio, depositar dinheiro, comer, ver cinema, bronzear o corpo, fazer ‘step’, nadar, reparar o carro, ouvir palestras, comprar tudo o que necessitamos para nos matermos vivos, limpos, frescos, seguros, com menor ansiedade...

Se os leitores analisarem o léxico utilizado nas mensagens da comunicação publicitária verão que em todo o lado há um mercado e todo o momento e todo o lado é um mercado, e nós, ‘homo economicus’, ‘homo faber’, ‘homo sapiens’, existimos enquanto consumidores ... nem que para isso tenhamos de criar mais ‘subprimes’...

Diário Económico 14 Março 2008

Segunda-feira, Março 10, 2008

À partida

não sou nem adepto nem sequer entusiasta do que é público como moralmente superior ao privado. Tenho, de igual modo, muitas dúvidas sobre a bondade "por definição" do privado como alternativa lógica a todas as esferas do público. Num e noutro caso, sou pouco dado a exaltações de prefixo e de premissa. Acho que o Estado resultou do consenso a que fomos chegando sobre a forma de nos protegermos da incerteza e da arbitrariedade da natureza. Não surpreendentemente os abusos começaram logo tão cedo quanto estabeleciamos acordos sobre os benefícios a tirar do sacrifício colectivo. Não surpeendentemente descobrimos claustrofobias no excesso de protecção a que chegámos. Talvez a solução mais racional não seja o regresso à incerteza pura a enfrentar cada um por si numa espécie de fascínio pelo estado de "pureza" original e selvagem que premeia o esforço individual e castiga os madraços...

A solução não será também, a passagem à obsessão pelo controlo aparentemente absoluto, mas na realidade apenas paranóico. Quer pela via de arrasar tudo o que foi feito quer pelo "remédio" de redobrar os procedimentos de triplo e quádruplo controlo do que é incontrolável. Do mester ético do passado que comportava dignidade e valor socialmente estabelecido passámos à sequência de acções isoladas sem fio condutor sem gradiente humano alegadamente a troco de maior eficiência. O quer que isso seja.

Vem isto a propósito do meu filho mais velho estar encantado com a tarefa de monitor da semana da matemática na escola dele. Não há mecanismo de avaliação que capture a satisfação e o orgulho que ele exibe aqui em casa. Nem a motivação que ele pode arranjar para seguir estudando. Os professores que o ajudaram a treinar para esta semana devem estar também orgulhosos do trabalho que fizeram. Ajudaram na sementeira. Os frutos serão colhidos mais tarde. Muito mais tarde. Tão tarde que já só restará uma memória daqueles que influiram na carreira dele. Não há sistema de avaliação que permita aferir a vida. Eu ainda recordo com grande carinho a Emília Marques, professora primária da escola 52 da Calçada da Tapada, escolhida pelo meu pai em alternativa à escola Avé Maria. No primeiro ano de escola interclassista partiram-me a cabeça umas quatro vezes até que descobri o caminho da Tapada de Agronomia onde podia caçar salamandras e osgas que serviam de "argumentos" negociais para o fim das hostilidades com os "calmeirões". Além dessa experiência inolvidável, a escola 52 deu-me a "Dona Emilia", que organizou várias "semanas da matemática"... que dava aulas de inglês, em 1966... que arranjava maneira dos pais mais abastados pagarem as excursões aos miudos mais pobres, que arranjou maneira de termos uma equipa de hóquei em campo, e tinha o brio, a vocação, o orgulho, o culto dos mestres artesãos da Idade Média e pertencia à guilda secreta dos contadores de estórias.

A Emilia Marques foi avaliada por nós, seus alunos, várias vezes. A maior professora que jamais tivemos. Não sei se ainda irei a tempo de preencher os papéis da avaliação.Sei que reconheço nas estórias que os meus filhos trazem das escolas velhas coisas familiares. Há mais Emilias por aí. A papelada nunca lhes fará justiça.

Segunda-feira, Março 03, 2008

Land of the Brave

Uma das coisas espantosas da politica americana é a ausência de separação entre o Estado e a religião. Separação efectiva. Um dos maiores pecados na politica norte americana é ser ateu. Pior que defender a segurança social, ou o New Deal, ou mesmo (deus nos livre) ser comunicsta, é ser ateu. O segundo pior é ser muçulmano. O Barack Obama passou a última semana a "defender-se" de "acusações" de islamismo. Não sabia que ser muçulmano era um pecado tão grande. Uma "vergonha". Mas parece que sim. E ele lá se vai justificando e desmentindo a insinuação e a "calunia". Espantoso. Na terra da transparência e da liberdade dos "founding fathers" (que por sinal eram incréus)...

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Non sense

O carnaval propriamente dito já passou. Não obstante, a mim de facto parece-me que todos fazemos questão e esforço por perpetuar a coisa. A situação da justiça, em particular, nos ultimos dias e semanas tem facultado suplementos de saudável loucura quotidiana. O país está deliciosamente esquizofrénico. E, podendo pagar o imposto automóvel pela Net, ao fim ao cabo a maior parte de nós não morrerá já sem essa louvável, inelutável, assinalável experiência. Bem hajam os que nos proporcionaram esse inolvidável avanço. Mas voltando à esquizofrenia, um novo momento telúrico é agora exemplificado pela situação dos felizardos que ainda tem carros em seu nome ainda que os tenham vendido há mais de dez anos. Numa situação vulgarissima de entrega do carro por troca de outro novinho em folha, todos assinámos os papelinhos da cedência da propriedade ao concessionário que nos vende o carro novo, só que parece que cerca de um milhão de compradores do carro velho nunca chegaram a mudar a propriedade. Agora aqueles que cuidavam ter vendido o carro tem de pagar, pela Net, pela Net... o imposto devido. Claro que poderão reclamar e, segundo uma criatura bondosa do governo, poderão pedir que o carro antigo seja apreendido, como mecanismo de pressão sobre o actual dono para ele tratar da papelada. Ora aí está. Paguem o imposto, mandem apreender o carro e lá para dois mil e setenta e oito vejam a situação resolvida num tribunal especial para os carros mal registados....

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Domingo, Fevereiro 03, 2008

A dissociação

começa a ser muito pronunciada a separação entre o empenho, o esforço, o saber e o sucesso. Um trajecto de esforço na aquisição de conhecimento já não garante coisa alguma em termos de ascensão social nem de obtenção de reconhecimento nem de durabilidade da expectativa de recompensa. Ao invés, a preguiça, a ignorância a esperteza saloia em circunstâncias felizes permitem obter êxitos demasiado visíveis. O exemplo de cima pode assim começar a frutificar. Poderemos ter uma geração inteira que vendo caminhos mais curtos que o esforço honesto de aquisição de conhecimento e da sua aplicação em trabalho íntegro, toma deliberada e decididamente os atalhos.

Não existindo a expectativa de correlação certa entre esforço e sucesso a busca da alternativa será iluminada pela badalhoquice. Até aqui as duas formas tinham coexistido de forma relativamente pacifíca. Não obstante, parece que a solução de troca tintas ganha vantagem relativa mas significativa sobre a outra forma de sobrevivência.

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

A solução óbvia

Frequentemente somos surpreendidos com algumas bizarrias de uma coisa fascinante denominada código do proecesso penal. Aquele documento que descreve a forma como se deve administrar e conduzie a justiça depois de tipificados os crimes no código penal. Aqui fica a minha modesta contribuição. Na investigação do crime de corrupção activa a escuta telefónica é válida se um juiz de instrução a autorizar e, claro está, verificar pista a pista as gravações decorrentes da diligência. Excepto se por força de outra diligência imperativa e inadiável o juiz de instrução tiver de fazer uma verificação alietória das pistas o que poderá fazer desde que o ano seja bissexto ou tenha chuvido mais do que 2 mm por metro quadrado durante seis meses consecutivos ou oito meses intervalados na comarca onde o inquérito está sediado. O ónus da demonstração do carácter inadiavel ou imperetível de diligência alternativa fica ao critério do tribunal da relação sendo que o tribunal da relação tem doze dias úteis para se pronunciar a contar da data de entrada do requerimento de parte ou do ministério público desde que não tenham decorrido mais de sete dias sobre o conhecimento da diligência por parte de quem de direito, ou desde que a maré esteja em praia mar ou a lua em quarto crescente. Em todo o caso prevalece sobre estas regras o entendimento do Supremo em jurisprudência desde que seja elaborada durante o mês de Maio ou durante as festas das colheitas de Almodovar no caso da comarca ser a sul de Coimbra ou das festas de Nossa Senhora da Conceição do Mogadouro se a Comarca ficar a este de Aveiro. Prevalencendo naturalmente a este respeito a interpretação autêntica emanada da Universidade de Coimbra, desde que não seja aduzida reclamação ao tribunal constitucional quando Marte se encontrar na segunda casa de Saturno. Faz-se excepção também se uma das partes for notificada por oficial de diligências que tenha medida de sapato inferior a 35 ou cujo segundo casamento esteja em processo de divórcio, sendo que a excepção carece da cosimultaniedade do pagamento de uma estampilha fiscal autênticada pela segunda secção da fazenda de Figueiró dos Vinhos.

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Domingo, Janeiro 27, 2008

da melhoria geral da qualidade

Uma coisa é certa, a qualidade geral dos sites, quer do ponto de vista estético, quer da sua operabilidade melhorou muitissimo com o governo Sócrates. Hoje podemos marcar consultas pela Net, pagar o imposto automóvel pela Net, pedir uma certidão narrativa completa de nascimento (uma coisa absolutamente fascinante...) pela Net, registar uma empresa completa pela Net, parece que já se pode mudar a residência pela Net, pode-se encomendar alfaces pela Net, pode-se ler o diário do governo pela Net, pode-se fazer a inscrição para o exame de terça feira pela Net, pode-se lançar a nota do exame de terça feira pela Net, pode-se fazer um blog com as coisas notáveis e cruciais da vida da flora intestinal de cada um, pode-se entrar no programa novas oportunidades pela Net, pode-se receber a conta do gás pela Net e pela Via CTT, pode-se pagar afactura da água pela Net. E nós portugueses aparentemente utilizamos bastante a Net. Gostamos da Net. O governo electrónico é um sucesso. Indiscutível. E, qualquer dia o Governo lançará ou mandará lançar um facebook ou outra rede social qualquer para mostrarmos as fotos da visita da tia Genoveva ou a ida à Disnelilândia de Paris ou as férias em Porto Galinha. Admira-me como ainda existam pessoas fisicamente. Literalmente.

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

Help

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Terça-feira, Janeiro 01, 2008

language creates the world

Sábado, Dezembro 29, 2007

apenas uma imagem

Domingo, Dezembro 23, 2007

Momento de Balanço

Julgo que tenho sido um razoável professor de gestão e de comportamento organizacional (nome pós moderno para psicologia aplicada ao que se passa dentro das empresas). Nos últimos tempos, contudo, sinto-me siderado pela minha incompetência. Numa rápida volta pelas livrarias, à procura de presentes não sei bem para quem, uma vez que uma pessoa até se pode sentir insultada quando lhe dão um livro, em vez de um frasco que custa no máximo quatrocentos paus dos antigos a produzir mas que depois quando se lhe junta um nome assim pró Dolce e Gabbana passa a ter de se expender sessenta ou setenta euros... mas dizia eu numa voltita às livrarias fui, inevitavelmente, dar também uma vista de olhos pela secção de gestão economia e ofícios correlativos. E, fiquei aterrado. Cuidava eu que saber qualquer coisa de análise financeira, mais de uns pózinhos pós modernos de psicologia social sob a forma de "segmentação de mercados" e os pês do posicionamento mais umas contas de estatística e investigação operacional e de estratégia mais dois dedos de conversa sobre motivação humana e a coisa safavasse.

Apanhei logo no focinho com "o que podemos aprender com os gansos". Os gansos? mas logo ao lado lá estavam eles, "os três porquinhos gestores"e o "sindrome do macho alfa". Pensava eu que era tudo pelas analogias do reino animal quando vi "o peixe que não quis evoluir" e sem paragem "o que podem ensinar os elefantes"e, claro está "um pavão na terra dos pinguins" tudo, quem sabe, incluido na "selva empresarial".

Passei à secção da gestão mística e secreta. Com "o poder de uma hora",o que faremos com duas? "a magia da estratégia", "os oito hábitos", "os sete poderes", "estratégia oceano azul", "re-imagine", "a chave do sucesso", "como ser brilhante" , "10 segredos simples". Seguia-se o menos homérico "Qualquer um consegue" e a necessidade de "gestores não mba's" escondidos na "a caixa dos tesouros"? Fiquei a saber que "talento não é tudo", que há também uma "inteligência moral", disseminadas n' "as leis não escritas"? pelo "o economista disfarçado"... que vai "de bom a excelente" e logo sem retomar o fôlego "de excelente a lider". Estive tentado com o "invista e fique rico", uma vez que investir e ficar pobre parece ser o caminho dos bancos ultimamente. Desconfiei fortemente do "winners never cheat" e desisti n'"o kama sutra dos negócios"....

Fiquei seriamente consternado e preocupado. Nada disto consta de Bolonha. Portanto será necessário um curso inteiro de gestão e mais dois ou três anos a ler estes estimulantes livros. Eu pelo menos fiquei a ver que ainda há vagas na secção do que podemos aprender com as salamandras, com o rinoceronte, com o coliforme fecal entre outros.

Domingo, Dezembro 16, 2007

pra não acabar com um conto aqui fica uma (muito) bela musica

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Conto de Natal

Olhou para o parapeito da janela onde dois pombos se entretinham a esconder da chuva. Lá fora fazia um vento frio e a humidade entrava pelos ossos adentro. Na prateleira da esquerda estava depositado o correio por abrir da ultima semana. Nem sequer a carta com a ameaça de corte da electricidade por falta de pagamento lhe tinha despertado curiosidade. Na parede em frente pendiam desalinhadas duas fotos dos seis netos. Da estante, junto à porta da sala, tinham caído meia dúzia de livros, que se espalharam pelo chão afora até à mesinha onde jazia um computador velho cheio de pó. A casa, já tinha conhecido melhores dias, estava agora sempre numa semi penumbra. Uma espécie de nevoeiro que parecia reter memórias de outrora. O homem continuou a olhar para o parapeito, de onde já tinham desaparecido os pombos. Estava congelado no tempo, perdido na perscrutação de lembranças que não pareciam ser nem boas nem más. A face estava como tudo o resto naquela casa. Sem cor, sem emoção e sem sentido. Jazia junto ao pé direito, calçado com uma chinela velha, um papel que parecia ser de análises ao sangue. Uma carta, na mão direita estava há largos minutos na iminência de cair para o chão abandonada na inutilidade das novidades que jão não importavam. Aparentemente as metastases tinham alastrado ao fígado. Finalmente. Pouco depois o homem sentara-se junto à mesinha onde jazia o velho computador e onde estavam as pastas com os exames médicos e os prospectos do lar de terceira idade que prometia uma velhice com "tranquilidade e qualidade". Tinha feito as contas e os filhos teriam de entrar com mais de metade do pagamento. A pensão de reforma de director do laboratório de qualidade não chegava para a mensalidade e todo o PPR seria para a entrada inicial. O fee. Além disso ainda era preciso suportar uma parte das despesas de saúde que o seguro já não cobria. Esgotara-se. Nem um terço da despesa da farmácia e da radioterapia. Esperava que pelo menos o seguro ainda cobrisse a operação à catarata da vista direita. Tinha feito as contas e concluira, com óbvia racionalidade, que o mais vantajoso para todos seria o seu desaparecimento. Os filhos mal conseguiam aguentar os pagamentos das mensalidades dos colégios dos netos, as fardas, as aulas de natação, os computadores, os softwares e o diabo que hoje tudo se paga como resgate do rei. A ordem natural da vida deveria ser o avô a ajudar e não a tornar-se num peso inútil. Um empecilho que se mija e gasta uma fortuna em fraldas. Abriu o estojo que estava na cómoda. Retirou a arma. Verificou o carregador e meteu uma bala na câmara. Puxou a culatra atrás e ouviu a bala a entrar no cano. Encostou a boca do cano à têmpora direita e premiu o gatilho. Clic. Clic. Clic. Clic. Clic. Foda-se. O cabrão do marroquino tinha-o aldrabado. Tinha trocado o ouro e um relógio de marca pela beretta. Tinha sido enganado. A puta da arma fabricada na China não chegava nem para um disparo singelo e redentor. Foda-se.

Sábado, Novembro 24, 2007

Por acaso

ou sem causalidade assinalável, devo confessar que não devo ler o mais recente livro do José Santos nem do Sousa Tavares. Também não tenciono ler a crónica do Pulido Valente em que, aparentemente, desconsidera forte e feio os dois escribas. Devo ainda informar que nunca li nenhum livro do Valente. Tal como devo informar que nunca li nenhum livro dos outros dois. Não planeio manter esta determinação para o resto da vida. Pode bem ser que um dia destes leia alguma coisa destas personagens. De resto penso que estas decisões pouco ou nada contribuam para a minha tensão arterial nem para a degradação ecológica do planeta. Um dia, incenerados, todos seremos devidamente esquecidos.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Outra área

de grande qualidade é o fornecimento de água no concelho de Cascais. Nos últimos dois meses já me calharam pelo menos seis interrupções de fornecimento... fico muito feliz porque a coisa é privada e portanto estou certo que os cortes são devidamente programados....

Ultimamente

tenho apanhado em pleno focinho com a lógica que nos invade um pouco por todo o lado. Paga-se menos por cada hora de trabalho e paga-se ao fim de alguns meses. Em breve, poderemos ser todos homens e mulheres a dias, numa qualquer actividade, sendo que todas as actividades se assemelharão quanto aos termos de pagamento. Podemos mesmo organizar um banco de tempo... hoje mudamos as velas numa oficina automóvel, amanhã damos formação em programação, depois de amanhã atendemos chamadas num call center, na semana seguinte podemos, quem sabe, ser auxiliares de cuidados paliativos...

O que me diverte mais é que no meio deste movimento, aparentemente inexorável, nos solicitam papelada que prova a preocupação com a qualidade do serviço...

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

A missiva

Ora no dealbar do segundo ciclo do ensino básico na escola EB+2/3/1,65+NO+ER+ES ou coisa parecida de Carcavelos fomos (criançada e pais) recebidos pelo "gerente do projecto pedagógico" ou melhor pelo "grande timoneiro do projecto educativo" que entre outras coisas nos seduziu com o cuidado colocado no refeitório e na excelência da comidinha prás nossas crianças... aliás, já no dia da cerimónia de recepção ficou ali logo patente a excelência do pequeno lanche que a malta tinha direito enquanto os pais se reuniam pela primeira vez com os(as) diretores(as) de turma. Não só a comida parecia um festim como era quase luxuriante visualmente entre papaias, mangas, uvas, kiwis, melancias e melõe e saladinhas de pinhão e eu sei lá que mais...

Tudo devidamente enquadrado por nutricionistas que, ali logo e sem aviso prévio, fomos notificados, era inovação de relevo daquela equipa dirigente e daquela escola aspirante a subir fartos degraus nos rankings. Comida saudável, fresca, de frescos devida e cuidadosamente confeccionada por pessoal carinhoso e avós de outras crianças, selo de qualidade que tranquiliza qualquer pai que já foi neto. Ponto final. Parágrafo, senhores ouvintes.

Posteriormente, reforçava-se a atenção e preocupação com os estouvados infantes, pois nem sequer sopinha de legumes e fruta abocanhavam na cantina e iam directamente ao bar cultivar o colesterol em pizzas e cachorros pelo que os pais deveriam estar atentos. Isto e novo aviso de piolhos à solta era o saliente e sublinhado na segunda reunião de pais.

Hoje, foi reposta a normalidade. Veio missiva afiançando que a avó principal se tinha reformado, de modos que a Direcção Geral Regional do Ensino Básico de Lisboa e do não menos imponente Vale do Tejo, competentíssima para o assunto tinha adjudicado o fornecimento da paparoca a uma dessas empresas de catering que, porventura, terá sobrevivido à sanha da ASAE. Ignora-se o que terá acontecido às restantes avós da cantina e às benditas técnicas de nutricionismo....

Uma coisa é certa, o projecto pedagógico sofreu rombo assinalável, o nutricionismo nem se fala, e agora a comida da cantina é pré fabricada e refrigerada e requentada numa promiscuidade de óleos e sebos e margarinas e ranço, os frescos liofilizaram-se (com sorte) e o equilíbrio de ácidos e proteínas e hidratos foi chão que deu uvas...

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Segunda-feira, Outubro 29, 2007

O teste de matemática

Hoje o garoto mais velho, no quinto ano, teve o primeiro teste de matemática. Ainda não sei o que aconteceu, mas duvido que lhe tenha corrido mal (temos um negócio de jogos prá playstationportable dependente de 95% pra cima a ciências português e matemática). No fim de semana fez uma série de exercícios (fichas na moderna terminologia....) e amanhava a coisa com limpeza. De qualquer modo tive oportunidade de ler com mais atenção o manual. E tinha lá umas páginas sobre a calculadora. Por exemplo como carregar na tecla On.

Não sei se por iniciativa da professora, se por causa do projecto pedagógico da escola ou se por outra razão qualquer, o meu filho ainda não tocou nessa maravilha da técnica, de modos que a tabuada, o conjunto dos números naturais e o conjunto dos números inteiros, os números decimais, o eixo do xis, as operações de seriação de maiores e menores e igualdades e as operações artiméticas básicas ainda são manipulados por ele (e pelos colegas) à força de pensar e usar o cérebro, sem recurso à magnifica calculadora.

Tanto melhor. As páginas que li são absolutamente surrealistas. Eu só conheci uma calculadora no primeiro ano da faculdade e mesmo assim a sua utilização só começou a sério no terceiro ano, num tempo em que os cursos tinham cinco... deverei pedir indemnização ao ministério? Por sofrimento atroz e desnecessário? Ou devo ficar feliz por o meu filho não ter ainda travado conhecimento com os pedófilos intelectuais que conceberam as "abencerragens" que vêm naquele manual?

Sábado, Outubro 20, 2007

Então agora que o íamos promover é que se vai embora?

Um dos problemas mais fascinantes da moderna vida organizacional consiste na determinação do “valor” dos recursos humanos. Valor do desempenho, valor potencial do seu desenvolvimento. A forma como procuramos determinar esses valores é, em si mesma, outra coisa fascinante. Claro que poderíamos dizer que os rituais de “avaliação de desempenho” são, apenas, mais uma forma de protecção que encontrámos para evitar ter conversas normais e vulgares, com os que nos rodeiam, por forma a estabelecermos relacionamentos satisfatórios, simples, eficazes e produtivos. Mas não. Parecemos preferir evitar completamente enfrentar o “outro”, mormente em aspectos em que a dissensão pode emergir, com todo o cortejo de coisas desagradáveis e viscosas, como emoções, que daí, em geral, advêm.

Através de esquemas, sofisticadíssimos, determinamos em “score cards” complicadíssimos a “importância” para a organização de cada um dos seus recursos humanos. Há uns anos, um amigo meu tendo ficado furioso com a sua avaliação de desempenho, numa multinacional, ameaçou sair, tendo os “scores” sido, assaz rapidamente, “reavaliados”. Tinham sido, oportunamente, descobertos erros na primeira avaliação talvez, e quem sabe, porventura, relacionados com a “descoberta” facultada pelo meu amigo que o irmão era chefe de gabinete de um ministro particularmente essencial para a vida da multinacional. (Esta história, apesar do que possam pensar, não se desenrolou em Portugal, não é portanto, necessário tentarem adivinhar quem é o meu amigo...).

O valor das pessoas, é assim de geometria variável, aumentado com circunstâncias e coincidências como a anterior e baixando quando a saída das pessoas parece inevitável ou desejável. Se as pessoas saem por sua iniciativa, parece existir um fenómeno de rejeição sentido por quem fica, traduzido num processo de dissonância cognitiva, que só pode ser resolvido pela desvalorização da pessoa que sai, ao fim ao cabo um inútil ou um “desgraçado” a quem só já mantínhamos por mera caridade. Se a pessoa que sai era importante para a organização trata-se, adicionalmente, de um “mal agradecido” a quem estávamos à beirinha de promover a director geral de sistemas transversais, e que afinal saiu como um “traidor” por vezes sem “escrúpulos”...

Sempre achei extraordinários os diálogos de separação, quer nas relações pessoais quer nas relações de trabalho.


Curiosamente, nos últimos tempos o valor das pessoas não está associado ao seu passado. O valor da pessoa não apresenta correlação com os desempenhos anteriores mas sim com uma noção de “potencial”. Com esta subtil transformação de sentido, quase podemos dizer que poderemos eliminar as avaliações de desempenho, processos caros e demorados que ainda por cima geram expectativas, irrealistas por certo, às pessoas que são avaliadas de modo positivo. Reenquadrando tudo no “potencial”, fazemos depender do futuro, sempre deslizante, uma opinião sobre o valor de qualquer pessoa. Poderemos sempre argumentar que ainda não “vimos” nada de extraordinário, colocando, sistematicamente, tudo em questão, nomeadamente gerando na pessoa uma angústia sempre renovável pela necessidade de “provar” de novo e sempre no futuro o que vale, o que, mormente em contextos voláteis com os do presente, se torna um exercício de aceitação da incerteza e de insegurança verdadeiramente notável. Isto tem a vantagem de desgastar bastante as pessoas cujo património de vida, de experiência e de bom trabalho numa qualquer organização será sempre desvalorizado e sem relevo.

Criam-se organizações sem memória, sem lealdades nem cumplicidades duradouras entre os seus habitantes, mas a quem será, necessariamente, exigida uma dedicação e comprometimento organizacional unilaterais. É talvez por isso que a muitos de nós, pensando nas relações e “contratos psicológicos” de trabalho com algumas organizações, ocorre a memória da figura imortalizada pelo Bordalo Pinheiro.
©José Manuel Fonseca

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

Entretanto

e continando no fascinante e difícil mundo dos projectos e percursos educativos, esta semana na actividade de estudo acompanhado cá de casa descobrimos coisas fabulosas. Confrontando dois livros de História para o primeiro ciclo, ficamos a saber que:

- num livro os Romanos estiveram por aqui cerca de 700 anos noutro estiveram mais de 400 anos....
- num livro o Conde D. Henrique morreu quando o D.Afonso Henriques tinha três anos enquanto para o outro livro já tinha quatro anos
- num livro a batalha de Covadonga foi em 718 noutro foi em 722
- num livro D. Afonso Henriques conquistou Beja noutro foi o D. Sancho II

O livro solo é uma coisa corporativa, passadista, gera menos emprego, menos lucros, menos impostos. Mas os livros à molhada podiam disfarçar mais....

Sábado, Setembro 29, 2007

projecto educativo

aqui há uns tempos dei-me ao trabalho de ver leis e estatutos do ensino. Descobri que a palavra instrução era maldita. Que a palavra ensinar também não era grande coisa. Que disciplina ou o acto de disciplinar eram malditos, que aprender era um processo complicadissimo.....

Ontem participei pela primeira vez numa reunião de encarregados de educação na escola EBD+S2+3+ES+PL+EP ou coisa parecida...

Eram os pais dos miúdos do 5 ano que pela primeira vez estão na escola secundária de carcavelos. A dada altura porque houve uns qui pro quo entre um dos garotos de dez anos e outros de treze (os calmeirões a quem estão a rebentar as borbulhas e se estão a acomodar a outros fluidos...) e porque os de dez anos já descobriram que se podem baldar da fila da cantina e ir ao bar comprar cachorros e pizzas, e porque há um muro de onde podem cair dois metros, um dos pais, que já levava uma listagem de crianças com nomes números e origens anteriores para recolher emails e telefones dos outros pais por via de esperar ser eleito o representanto dos encarregados de educação daquela turma.... um aprendiz de político portanto (que naturalmente acabou eleito para se representar a si próprio no que bem entender...), inquiriu se poderiam os pais assistir aos almoços. Dado o adiantado da hora e porque o meu cérebro já tinha desligado imaginei logo este voluntarismo a causar uma desnecessária dose de sofrimento psicológico e físico ao filho dele.... levando umas rodas de calduços ou outras coisas ainda mais humilhantes e dolorosas....

É fabuloso como os pais e mães não se recordam como era quando andavam por ali.... e como era humilhante e embrarçoso ter a famelga no espaço em que agente circulava com os amigos....

Depois fiquei a saber que no processo de avaliação, o "saber estar", os tpc's, os trabalhos adicionais e voluntários (como colorir os distritos de Portugal em três cores diferentes...), as fichas dos livros principais, as fichas dos livros adicionais, as fichas fotocopiadas na escola contam mais que os testes....

Como se trata do futuro dos meus estou a aprender a exercer o direito de tar calado... tava com vontade de dizer que no décimo segundo tem um exame que conta tudo para seguir em frente sem ser para engenharia do turismo rural nas Berlengas na Universidade Independente mas calei-me, sem dizer também que "saber estar" devia ser o mínimo exigível e que contar trinta por cento para a nota final só porque não guincham como macacos não cospem no chão como o resto dos tugas não os ajudará quando tiverem de disputar empregos com engenheiros de Bengala ou de outro sítio qualquer na India ou na China que preenchem desde há vinte anos todas as vagas do mestrado de matemática de Harvard e as vagas dos odutoramentos em Economia de Stanford..... mas resolvi aconselhar o meu a portar-se bem nas aulas e fazer todos os trabalhos idiotas ou inteligentes que lhe apareçam pela frente com o irreparável argumento que ele, tal como o pai e o avô e o bisavô e os demais concidadãos tem acesso normal a idiotas e imbecis tal como às moscas.....

Entretanto outro episódio interessante tinha sido o da funcionária responsável pelos balneários do ginásio que tinha arrancado miúdas dos chuveiros onde algumas delas se tinham juntado aos pares para pouparem tempo no duche a seguir à ginástica e chegarema tempo ou à fila de almoço ou à próxima aula.... esta briosa funcionária terá berrado com as miúdas de dez anos e dado uns encontrões e puxões às miúdas acusando-as de coisas que as miúdas não conseguiram compreender bem mas que as deixou aterradas.... apreendeu os cartões das miúdas e entregou-os à directora de turma...

Aparentemente a mulher vê lésbicas em todo o lado, possuirá a missão na Terra de impedir mais a proliferação dessa maldição... pior, parece que nunca existiu semelhante regra que impedisse os miúdos de tomarem banho aos pares aos magotes ou sózinhos....

Ilustrativo do que é o funcionalismo público ainda entre nós, é que a cara da directora de turma espelhava bastante indignação com isto, mas uma certa dose de impotência conformada sobre o que se deveria fazer à senhora funcionária, ignorando se o conselho executivo tinha tomado alguma iniciativa como falar com a mulher e dizer-lhe que crianças de dez anos não são já totalmente experientes nos domínios da volúpia e da depravação moral que ela parece temer e que a acção dela pode causar mais mal que bem ao seu Santo Graal.... ou quem sabe, não perdendo tanto tempo mandar dois berros à mulher.... mas não....dá para entender que a mulher está lá desde a fundação da escola e que os professores pelo contrário estão mais numa plataforma giratória e logística de distribuição pelo que ela vai lá ficar....

enfim, mais uns avisos porque aprareceram piolhos no oitavo ano, já há horários de oficinas, os pais devem escrever na caderneta as alergias e os problemas auditivos e a coisa passou mais ou menos sem que o Rousseau se sentisse desafiado ....

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Segunda-feira, Setembro 17, 2007

O ritual

de autoflagelação que foi imposto hoje a um colega meu pareceu-me demasiado cruel para ser verdade. Hoje percebi o que devem ter sido os tempos da China de Mao no tempo da Revolução Cultural. Não se faz aquilo a uma pessoa com sessenta e cinco anos. Inacreditável. O que poderá legitimar uma aleivosia daquelas? Um dia talvez consiga entender o que será a puta da compaixão para um que tem sempre na boca a beatitude de um catolicismo que deve ser de uma versão anterior ao Velho Testamento.

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

De facto

na hora da separação, confesso que com alguma acrimónia, agastado e desencantado, fico perplexo com o que se vai passando na Instituição onde exerci durante nove anos, o melhor que soube e pude, funções de docente, embora aparentemente com algum mérito.....

Mas fico sobretudo atarantado com o facto de na única instituição, que conheço a nível do globo todo, onde o decisor máximo (senão único) tem mais de noventa anos!!! e, em face de decisões já incompreensíveis e inverosímeis, todos os demais decisores ou "responsáveis" fingirem que nada se passa, que não é nada com eles. Que no meio do faz de conta o dinheirinho ao fim do mês não lhes falte.

Eu é que confesso, a uns dias de comemorar o aniversário do meu enfarte....., prefiro não arriscar outro....

Sexta-feira, Agosto 10, 2007

Eventualmente

um dia deste talvez venha a compreender esta coisa pós moderna da "governância" nas empresas. Para já, à pala deste conceito, um pouco por todo o mundo cresceram como hidras os orgão de controlo decisão execução planeamento supervisão...
Uma excelente desculpa para os salários e indmnizações e compensações e bónus absolutamente extraordinários e pouco católicos e pouco calvinistas.
O show particular dado nos últimos meses pela rapaziada do BCP, embora um pouco forçado pelo "outsider" Berardo, que parece ter mesmo particular prazer em ser inconveniente, é uma delícia.
Claor está a figura dos accionistas é verdadeiramente fabulosa. Parece ser necessário gostar de ser otário.

Terça-feira, Julho 17, 2007

Hard Line

A concretização do negócio da compra da Chrysler pela Cerberus parece simbolizar o triunfo da visão “hard line” em Gestão. Isto é, o abandono do pós modernismo que atribuía misteriosos good will a empresas cujos activos cresciam, as despesas explodiam e as vendas eram pouco mais que anedóticas, mas as acções subiam de modo consistente e incompreensível para aqueles que foram formados na escola da análise fundamental e que nunca tinham sido seduzidos pelos head and shoulders dos programas tipo MetaStock. O crash da “economia da bolha” terminou com esses delírios. De volta ao mundo real, a aterragem da Banca, entre outros, foi dolorosa. Hoje, a exigência de resultados palpáveis, i.e. mensuráveis em dinheiro é um must. Voltámos mesmo à sabedoria mais “ancestral” de um marketing em que dos quatro pês, só o pê do preço é que é mágico porque gera cash inflow. Todos os outros representam dinheiro a sair...

A Cerberus é uma private equity com uma, aparente, estratégia de portfolio de base financeira pura e dura. Embora se consultarmos o seu website sejamos presenteados com uma linguagem mais tranquilizadora e com uma aparente vocação industrial, o carácter do negócio parece ser bem mais simples. Comprar empresas falidas e produzir um turnaround rápido e eventualmente doloroso mas eficaz. Depois a empresa pode ser recolocada no mercado para venda. A Cerberus mereceu alguma atenção, recentemente, porque segundo a Business Week comprou nos últimos tempos empresas em valor superior a dez biliões de dólares.

Em boa verdade o fenómeno não é novo. A Omnicom , a Cendant , a LVHM, são apenas alguns exemplos de empresas cuja vocação financeira aparece aliada à vocação de gestão de marcas para segmentos ou actividades específicas. Mas a base financeira é inequívoca. A exigência de rendibilidade mínima de x% por ano é imperativa. Estas empresas, algumas cotadas na bolsa outras completamente privadas, utilizam métodos de portfolio para avaliar o sucesso dos posicionamentos das empresas que titulam e, em geral, são constituídas por meia dúzia de especialistas com formação em finanças. Uma das coisas curiosas sobre estas empresas é que toda a gente é vice presidente, mas basicamente vice presidente de si próprio...

Quem sabe, este será o modelo de gestão de futuro reservado ao ocidente. Massas monetárias geridas por magos financeiros sem espírito empreendedor nem interesse pela inovação, muito menos pelos produtos e serviços, nem pelos clientes ou colaboradores, mas que garantem rendibilidades interessantes aos participantes privados/accionistas/obrigacionistas. Sob o guarda-chuva protector de marcas telúricas, criadas para que os consumidores estabeleçam relações de lealdade para além da materialidade dos produtos, numa verdadeira dimensão e domínio de transcendência, (com as quais a própria Igreja aprenderá), com produções totalmente deslocalizadas, com I&D deslocalizadas, com serviços administrativos deslocalizados, com assistência técnica e call-centers deslocalizados. Tudo a caminho das actuais periferias, permanecendo nos centros, eventualmente, apenas as private equities que gerem estas verdadeiras networks de actividades e processos como puzzles organizacionais descartáveis e efémeros e que em gestão de modo entusiasmado se tipificam como loose couplings.

Entre nós, esta visão pura e dura, assente na separação clara entre propriedade e gestão, com a gestão contratada sem eufemismos para gerar efectivo e inequívoco valor para o detentor do capital não colhe muitos adeptos. Entre nós, além dos colaboradores e dos clientes são ainda claramente preteridos os accionistas em favor dos gestores de circunstância.

Possivelmente esta visão é um bocado “dantesca” e manifestamente exagerada. Não obstante tem algumas “virtualidades” como costumam dizer algumas pessoas em politiquês. Nomeadamente, e, como membros da private equity deste país, a de permitir perguntar se existirá algum inconveniente em proceder ao outsourcing de governação desde Bangalore...

©José Manuel Fonseca

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Terça-feira, Julho 10, 2007

A retórica

Hoje em dia, somos bafejados pela afortunada aparição de produtos que nos oferecem quase tudo o que um cidadão da pós modernidade necessita para ser completamente feliz e integrado na sociedade e nos seus grupos. Objectos híbridos e minúsculos que nos permitem telefonar, ver filmes, assistir em directo à novela das sete, das nove, das dez e, quem sabe, mesmo e inclusive, a das onze, para além, de armazenarem as fotos dos casamentos, baptizados, festas realizadas em todo o hemisfério norte, mais os vídeos do National Geographic ou de todas as séries de conselhos práticos do it yourself do Turquemenistão, mais a nossa agenda com dezoito níveis de alarmes, para nunca esquecermos o dia em que se comemora o aniversário da primeira vez que comprámos uma garrafa de azeite no supermercado com aquela que viria a ser a nossa mulher (uma coisa que os homens tem particular tendência a não recordarem e que está na origem dos divórcios), armazenar os álbuns de músicas da nossa juventude, ter online os conselhos úteis para nos relembrarmos do que se espera de nós numa entrevista de emprego mesmo com tutorial de ensaio final, ligação automática de hora a hora ao centro de domótica lá de casa para sabermos da evolução do stock de alho francês na prateleira da esquerda do frigorífico, ligação contínua ao GPS localizado no telemóvel dos nossos filhos e com os mapas de Azeitão e Ullapool, marcação automática de consultas de reiki, monitor cardíaco, consulta de saldos do cartão de débito, planeamento fiscal...

No marketing, há muito que se fala de uma dimensão mental dos produtos. Para alem do produto em si mesmo (as suas características físicas, a electrónica ou a química da coisa, as dimensões, resistências, energias), e do produto “estendido”, com as suas assistências pós venda, garantias, peças de substituição e acessórios, há aquilo que cada um “vê” no produto. E, com correcta identificação dos segmentos de mercado e das idiossincrasias de cada um, pode-se “desenhar” a politica de comunicação adequada à motivação da acção de compra por parte de pessoas convencidas ou persuadidas que irão adquirir, por exemplo, através de um mero leitor de mp3, a entrada para a galeria dos famosos, senão do país, pelo menos do salão de cabeleireiro da paróquia. A posse dos produtos, já nem sequer estamos a falar de utilização, porque a utilização é por vezes bastante complexa e incerta, está associada, a significados que transcendem as suas características funcionais e reais. Neste sentido, assistimos à explosão da dimensão “retórica” dos produtos. À construção de mensagens que nos transportam para universos paralelos e fabulosos de fantasias mais ou menos benignas, se, nos deslocarmos a um qualquer estabelecimento e adquirirmos um magnifico e extraordinariamente exotérico seguro de acidentes pessoais ou automóvel...

No meio deste mundo admiravelmente novo emergem palavras que comportam ressonâncias arcanas e mágicas como Customer Satisfaction! Em qualquer universidade que se preze, mormente já em Bolonha, a litania da satisfação do cliente deve ser administrada como um mantra. Embora na próxima revisão da coisa se deva, quem sabe, ensinar aos alunos os simples sistemas de equações de trinta e quatro variáveis necessários para descodificar os planos de tarifários das operadoras de telecomunicações...

E, é difícil não sermos contagiados por este verdadeiro vírus da felicidade, quando passados os dois anos de garantia do produto, é mais barato comprar um produto novo que mandar reparar o antigo, sendo que o novo produto já tem mais cem milhões de pixels que o antigo, ou as rpm mais que triplicaram entretanto, ou quando, ainda dentro da garantia, apenas passados dois ou três meses de espera nos devolvem o produto completamente novo e com um chip de cem “menréis” devidamente reparado na Lapónia Oriental...

Eu confesso que, enquanto aguardo a realização do sonho de um vida inteira, de ter um telemóvel que me permita ver em cinemascope o último episódio da novela das seis, não me importava de possuir produtos que simplesmente funcionassem...
©José Manuel Fonseca

Segunda-feira, Julho 02, 2007

A Não Comunicação

Todos os dias inventamos coisas novas e sofisticadas para evitar falarmos uns com os outros olhando-nos de frente. Parece um paradoxo na era dos telemóveis cada vez mais sofisticados e dos milhões de esseêmeesses que se trocam, dos emails, da internet 2.0 com comentários online e fóruns para tudo e para nada....

Pois é. Mas, não obstante tant