quarta-feira, março 19, 2014

Trânsito em Julgado

Aparentemente os únicos culpados da crise já foram condenados em mais vinte anos de servidão e de punição calvinista. Ou seja os idiotas que continuarão a pagar as PPP's, que enriquecem meia duzia de bancos e "empreendedores", os tolos que sustentarão a "limpeza" dos BPN's dos BPP's dos Banif's dos BCP's e que assistirão, na primeira fila, à prescrição dos processos contra todos o meliantes que dissolveram dinheiro em negócios bizantinos e ilegais, os palermas que ficarão sem assistência médica, sem educação de qualidade, sem reformas já foram informados de mais uma sentença de décadas de submissão sob vigilância apertada por parte daqueles que recusam regular o delírio de criação de instrumentos e veículos financeiros que delapidam a riqueza criada por todos os demais e aqueles que com engenho, capital ou trabalho se levantam diariamente para perseverar e labutar honestamente.

Escapam, yet again, da cadeia, os Costas, os Varas, os Loureiros, gente menor quando comparada com os criadores de gigantescos esquemas de pirâmide que movem políticos como peões, ou com os médios criadores locais de rendas garantidas pela criadagem política. O que diferencia esta gente toda não é a natureza do ADN é apenas a dimensão do ganho. Entre o subprime de Wall Street, a PPP da auto estrada inútil da Figueira a Leiria ou os quadros de Miró do Costa há traços comuns. Claro que o Lloyd tem panache, o Mota usa perfume Korous, o Salgado usa Brylcreem em vez de oleo de fritar peixe, e o Costa mastiga sandes de atum como um brejenço e ri-se de boca cheia como um javardote. Mas todos pertencem à mesma agremiação.

Nenhuma destas almas é culpada de nada. Todos vagueiam etéreos sobre a ambrósia do Olimpo.
Os únicos condenados já com trânsito em julgado e que suportarão sem lamento ou desabafo a monumental transferência de riqueza usurpada com a cumplicidade de políticos que se substituem como se troca de lençõis e atoalhados ao sábado, são aqueles que acham que tem de penar as cangas que deus nosso senhor lhes deu para penar.

O que mais admiro nso facínoras que lideram todo este saque organizado é a extraordinária capacidade para convencer os imbecis que pagam a conta que não existe nenhum outro caminho nenhuma alternativa que não seja este confisco depudorado e esta selvajaria de escravatura de gerações sem expectativa sem esperança, agradecidas e venerandas porque a "alternativa" seria quiçá serem adultos e assumirem a vida e os riscos que ela comporta. 

domingo, janeiro 26, 2014

Da liberdade e da individualidade

O que de mais nobre fornecemos ao Mundo, por aqui na Europa, foi a existência de um valor supremo de Liberdade e o princípio que um individuo é um ser único insusbtituível cuja dignidade é inegociável e irrevogável. Em face das agruras e obstáculos da vida, provenientes quer da dureza do meio quer da nossa inquebrantável tenacidade em progredir e mudar a nossa condição de existência, fomos descobrindo que os laços de coooperação nos permitiam evoluir e consolidar melhores condições de existência, de reprodução da nossa espécie e de preservação do saber que íamos passando aos que nos sucediam.

Durante séculos fomos criando teias de cumplicidade, fraternidade e solidariedade que nos permitiram, no contexto do valor e do princípio mencionados, elevarmo-nos acima das bestas irracionais e das pulsões mais primitivas. Frequentemente alguns de nós regressam ou parecem preferir o contexto da tentação em dominar ou subjugar parte dos outros por forma a acumular maior conforto e bem estar de qualquer espécie. Há quem não se sinta bem com um óptimo de Nash mais equilibrado. E surgem as possibilidades de retorno a um egoísmo primal em que triunfa o forte sobre o fraco, a frieza sobre o escrupúlo e gula sobre a compaixão. É um aparente triunfo da Liberdade do único que se impõe aos demais numa luxúria de equívocos de individualismo, como se no final só pudesse existir um único. Noutras circunstâncias, e de modo quase simétrico, periodicamente surge a tentação de substituir a solidariedade genuína e expontânea, com o ordenamento hierarquizado de submissões e lealdades baseadas não na fraternidade mas no medo e na falsa sensação de segurança fornecida pelo vínculo desresponsabilizador da obediência cega. Em última instância o grupo dilui a identidade individual e esmaga a liberdade através da acção instrumentalizada em favor do absurdo injustificado e injustificável. Como se no final só pudesse existir um único amorfo indistrinçável dos demais.

Em ambos os casos derrotam-se a liberdade e a individualidade. Nos extremos temos o pesadelo dum egoismo que destrói o sentimento de identificação com o outro ou um grupo que esmaga todos até que ninguém possuí uma identidade única. Actualmente parecemos divididos entre estes dois pesadelos. E com pouco vislumbre de remissão. 

quinta-feira, janeiro 02, 2014

para que não se perca na espuma ...




OPINIÃO

Em busca da Europa perdida

Como se devia ter feito há 80 anos, é preciso hoje mergulhar nos problemas, chamar as coisas pelos seus nomes, identificar o adversário real, transformar a crise em conflito.




Há precisamente oitenta anos, no terrível período que se seguiu à primeira Grande Guerra, à crise de 1929 e à Grande Depressão, quando a Europa parecia de novo "um arquipélago de antagonismos e conflitos", escreveu Bento de Jesus Caraça um lúcido artigo nas páginas do semanário Globo, intitulado “Crepúsculo da Europa”. Nele afirmava: “A Europa não tem de que queixar-se: tal é o resultado lógico e natural da sua obra…Dela saíram as sementes do que vai pelo mundo: foi dela que partiram os descobridores e os colonizadores, os pregadores e os traficantes. A Europa criou o cristianismo e o capitalismo, a mecânica e as ideologias, as armas aperfeiçoadas e o princípio das nacionalidades… Se hoje o controle do mundo lhe escapa, não tem senão que resignar-se – como os velhos cansados se resignam a passar os símbolos da autoridade aos mais novos.”
Era por demais evidente que o caminho que se estava a seguir então era errado. E que a busca de um “espírito europeu” – ou de uma “identidade europeia” como diríamos hoje – não era mais do que uma quimera, tão fútil como o de definir uma identidade “asiática” ou “americana”, ou “africana”… um exercício vácuo, um projeto ilusório para enganar os incautos. O que era preciso era mergulhar nos problemas, sem preconceitos, para se poder agir.
Como sabemos, não foi este o rumo escolhido. A Europa foi atraída para uma segunda Grande Guerra, da qual saiu derrotada, devastada, dividida entre uma aliança com os Estados Unidos a ocidente e um pacto com a União Soviética a leste. A obsessão americana com a segurança bem como o terror de que os soviéticos chegassem às margens do Atlântico induziu as nações europeias aliadas, em reconstrução sob a alçada do Plano Marshall, a reagruparem-se em comunidade económica. A propaganda americana contra a ameaça do comunismo centrava-se sobre o conceito de mundo livre, defensor da democracia, em luta pelos direitos humanos. A palavra “capitalismo” desapareceu do domínio público e da política. E a esquerda social-democrata viu realizado o seu sonho de conquistar o poder. A grande promessa – transformar o mundo – que carregava no seu ventre desde o século XIX iria finalmente ser cumprida. De facto, a esquerda criou o Estado-providência nas suas várias declinações nacionais, mas foi basicamente surpreendida e dizimada pelas “crises do petróleo” e pela globalização financeira e económica que se lhes seguiram. Na realidade, a esquerda não transformara o mundo. Esquecera-se de que existia o capitalismo e de que o sistema-mundo capitalista em evolução não tolerava pretensões de hegemonia militarmente desestruturadas.
A construção europeia entrou num impasse que apenas as novas adesões escondiam. Mas o golpe fatal na ilusão de uma europa soberana resultou da implosão do bloco soviético. A partir daí, a política dos europeístas consistiu essencialmente em “atirar para a frente”, uma versão cosmopolita de “todos ao molhe e fé em Deus”, na vã esperança de que os problemas que surgissem teriam o condão de reforçar a coesão das nações europeias e robustecer a União. A Europa e a esquerda tinham-se esquecido de que o capitalismo continuava a existir e a evoluir. Veio a crise de 2007 e 2008, que ainda não nos largou, e viu-se o descalabro em que caímos. A democracia representativa entrou no vórtice da crise. Esta é uma das primeiras perceções que avultam de um projeto de investigação e reflexão sobre a crise europeia iniciado recentemente pela Universidade de Cambridge e pela Fundação Maison des Sciences de l’Homme, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.
A crise da Europa é também o resultado de uma leitura errada da história. Em primeiro lugar, acreditou-se que «é possível gerir a transição» como se as nações fossem soberanas no sentido em que se aplicava a palavra “soberania” no século XIX! A “governança” não foi introduzida no vocabulário político por ingenuidade… Em segundo lugar, admitiu-se piamente que «as economias convergem no decorrer do tempo» ignorando que o capitalismo tem sempre, pelo contrário, um efeito de “polarização”, provocando divergências na evolução das economias do sistema-mundo e jogando com elas com o objetivo de acumular cada vez mais capital.
Não havia assim qualquer hipótese de o voluntarismo e os instrumentos da esquerda (os Estados-providência principalmente) resistirem ao confronto com a política de direita e a sua retórica de liberalização, desregulação e privatização. Talvez porque o campo da direita se tenha tornado internacional, seguindo os ditames do capitalismo informacional de hoje, ao passo que a esquerda se foi fragmentando e acantonando, tentando defender o que resta da soberania (os territórios) das nações, ou mesmo atirando-se para a frente se a oportunidade parece espreitar. Mas é claro que assim também não irá longe.
Como se devia ter feito há 80 anos, é preciso hoje inescapavelmente mergulhar nos problemas, chamar as coisas pelos seus nomes, identificar o adversário real, transformar a crise em conflito, procurar as alianças onde existem as solidariedades que vão cimentar o mundo novo. Não onde os interesses do mundo-espetáculo nos pretendem acorrentar.
Professor universitário, Físico

terça-feira, novembro 26, 2013

A insustentável leveza do esmagamento dos frágeis

O discurso dos que acham que somos todos culpados da crise e de que todos vivemos acima das nossas possibilidades e de que todos, em medida certa e de ciência segura, fingimos sofrer agora é duplamente cruel. Porque é assente numa falácia. Aqueles que assinaram contratos de parcerias publico privadas com rendimentos seguros, isentos de todo o risco, com remunerações de 16% sabem que nenhuma teoria financeira suporta esta taxa obscena. Porque não há negócios, no quadro da rule of law, que sem risco permitam taxas de lucro dessa natureza, de um modo reiterado e intemporal. Ora estas pessoas sabem que estavam a assaltar os contribuintes. Ponto final.

Estes entre outros. Os que aceitam empregos de assessores com 20 anos a ganhar 5000 euros como se fosse a expressão da meritocracia.Os que aceitam o favor do amigo do partido para assumir o cargo de vogal não executivo daquilo sobre o que não sabem nem o nome. Entre estes atrás e os iletrados, ignorantes, fruto de diversas circunstâncias da vida que não possuem informação nem procuraram aprender vai um mundo. Os que tem reformas de 400 euros não podiam saber do impacto das decisões que foram tomadas em seu nome. Este mundo é demasiado assimétrico. E, curiosamente só se aduzem argumentos em favor de uma certa visão igualitária das responsabilidades quando há borrasca. Quando há maná ninguém contacta os desvalidos. Curioso não?!

 Mas a velhacaria suprema dos Neves e dos escribas jocosos do Blasfémias é a desvalorização chocarreira da pobreza. Ao negarem a existência da própria pobreza. Das crianças que chegam aos hospitais doentes de desnutrição. Que adormecem nas aulas com o estômago a ecoar em refluxos de ácido. Das pessoas que deixam de ir a consultas gratuitas porque depois não tem dinheiro para se alimentar nem para comprar os medicamentos. De pessoas que deixam os exames por fazer porque a esperança se esvaiu. Ao negarem estas coisas amanhando meia duzia de exemplos espúrios. O cigano que todos conhecem que tem um Mercedes e dois subsidios. A mulher que vai com olhar vazio ao centro de saúde mas leva uma imitação de mala Channel comprada na feira da Malveira. A criança com rosto de fome e com o pai que já rejeitou duas "ofertas" de emprego para ganhar abaixo do salário mínimo que nem dá para pagar as contas de cinco filhos aconselhádos pela bondade da Associação das Familias Grandes. Esta gente está a ser esmagada sem razão nem moral. Achais que daqui virá algo de positivo? Negar a própria existência desta gente é convidá-los a sairem do espaço público a envergonharem-se lá longe sem a vista de outros seres humanos. Condená-los à clandestinidade. Negar a sua condição é negar a sua identidade. Dificilmente uma acção totalitária passa por outra coisa. É a malvadez em estado puro. Arendt repugnar-se-ia perante estas pessoas.

 É isto o princípio que o Neves aprendeu de Cristo?


 ficam aqui duas referências da miséria humana ... a asserção de que somos todos igualmente culpados...   a certeza que há pessoas que não vão a consultas gratuitas prque não tem dinheiro e de crianças que prejudicam os rankings...tudo humor finíssimo...

segunda-feira, julho 29, 2013

do uso do cérebro

Uma das coisas engraçadas no livros dos focinhos é a velocidade com que a malta prega no mural (ou timeline se não quisermos brincar aos pobrezinhos...) um pedaço de bons conselhos de origem duvidosa e minutos depois o simétrico ... ou uma indignação qualquer e a sua negação com igual velocidade e ligeireza.


Por exemplo, muita malta publica coisas sobre as quais acha que pendem características de escandaleira ou injustiça ou corrupção ou miséria humana inexplicável ... (muitas vezes sem cuidado de auscultar da verdade da coisa) mas logo de seguida publicam um daqueles conselhos cor-de-rosa choque de optimismo gerador de culpabilização em todas as directions...

tipo: vejam bem este exemplo de sofrimento sem remissão e sem nome (uma pessoa sem  braços e sem pernas que não ouve nem vê e que foi abandonada aos seis meses e que esteve enjaulada até anteontem...) e que exibe esperança ...  como se a esperança tivesse algum ponto de referência e só fosse expectável que alguém tivesse esperança se reunisse determinadas circunstâncias e características...

Com este tipo de posts parecem desejar gerar uma culpa e vergonha naqueles que tentam ou pretendem mudar o mundo sem exibir sempre um sorriso e que de vez em quando se zangam... ou que reclamam (e muitas vezes por motivos pueris e com terceiros quando a solução se encontra ao alcance do esforço próprio)

ora gente... não há nenhuma correlação entre direito à crítica e à indignação e a situação particular de ninguém. Para se reclamar por um mundo mais aceitável, mais limpo, mais culto, mais educado, mais justo, mais equitativo, mais racional não há uma espécie de pré requisito de ponto de partida... nem, por um lado, de ter de se estar numa escala inenarrável de sofrimento nem de se ser titular de nenhuma posição de combatente diplomado em mil batalhas desde do útero da mãe...

Não se tem mais razão numa reclamação por se ser um espoliado do último grau... nem se tem menos razão porque se chegou ao combate ontem ...

Não há qualquer proporcionalidade entre as circunstâncias particulares de cada um e os princípios que são feridos ou violados ...

Opor as pessoas que se queixam da vida a outras que nada tem e (aparentemente) vêem a vida fluir com um fluxo interminável de "positividades" para apoucar os primeiros será popular entre aqueles que donos do destino de milhões querem impor a todos a ideia (pouco verdadeira) de que o destino se encontra apenas nas mãos daquele que o pode escrever se for tenaz e "acreditar" com todas as forças...

Cuidado! Não sejam os idiotas úteis da propaganda, nem dos que exploram a ideia de que só os preguiçosos estão desempregados nem dos que se locupetam com regimes a "garantir" emprego a todos sem esforço individual dos que querem emprego ou que querem melhorar a sua situação...


em todo o momento é aconselhável a utilização de sistema nervosos central ...

Senão ainda dão por vós a fazer afirmações totalmente falsas e idiotas como: "se as pessoas pensarem positivo e acreditarem convictamente consegue alterar a bioquímica e reverter o cancro"...  ou se "desejarmos realmente e com "força" acaba por acontecer o que desejamos..."

Há que distinguir a visão do mérito do esforço individual da criação colectiva de condições para que todos possam ter melhores pontos de partida mas há que distinguir a ciência da magia e da dellusion... 

segunda-feira, julho 22, 2013

A livraria

Com o fecho das livrarias há um mundo que desaparece. Um mundo de rituais. O não menor dos quais, para mim, era cheirar o livro antes de o comprar. Eram um mundo sem pressas. Com personagens. Como o Santos da Livraria Portugal. Um mundo de pouco barulho e que se saboreava e celebrava a palavra,  a densidade da personagem, a força telúrica de certas páginas em que se descrevia um pequeno quarto ou uma charneca exangue, a reviravolta desarmante na trama ...

Os tablets não me parece que substituam os livros, provavelmente não os farão desaparecer.
Mas o que temo realmente é que com a morte das livrarias se anuncie com pompa e circunstância a  doença crónica da falta de leitura ...  ou a sua substituição pela actividade de "passar os olhos" por essas "obras" que se compram para um voo  ou em promoções do Continente anunciadas pela Rebelo Pinto como oportunidades de adquirir o "último "livro" dela ou de outros grandes escritores..."... bailhamedeuze que me ocorreu logo um conceito mas não era associado à actividade da escrita...

E a prazo ... o colapso (que já se vislumbra) do pensamento ... o advento de um mundo de imbecis consumidores de verdades pré-fabricadas pré-embaladas que é só levar ao micro-ondas e que não impede o consumo simultâneo de notícias sobre quem é que aumentou as mamas ou quem é que vai animar as noites do Algarve... 

terça-feira, maio 21, 2013

Teoria Geral da Inequação ou Reductio ad absurdum

Corre por aí um video em que um garoto de 16 anos "humilha" uma professora catedrática. Pode ser visto aqui. 

Suscitou grande comoção e aprovação viral. Eu por mim devo dizer que a figura e postura do miúdo me é simpática e que a atitude da professora foi de uma certa sobranceria e desdém pelo garoto e portanto compreendo o gozo generalizado com a "humilhação". A realidade que percebo limita-se àqueles segundos.

Não tenho paciência para ver aquelas coisas, aborrece-me a leveza e superficialidade dos "debates" (já fui abordado e mesmo convidado pela "produção" por duas vezes, e tive de declinar o amável convite porque já lá vai o tempo... a vaidade pessoal está mais apaziguada, e em boa verdade nunca foi mais do que estratégia de comunicação... e o contributo que daria seria ruído de fundo como tudo o resto a que é reduzido que lá vão fazer e dizer...). Portanto, pelo que observo no video viral, o miúdo, aparentemente, decidiu criar uma marca de roupa barata confortável e que fugia à lógica do pagamento de fortunas pela mesma coisa em razão de serem feitas por marcas estrangeiras.

A professora presumiu sem bases, de modo agressivo e apressado, que a roupa era feita naqueles prédios que desabam no Sri Lanka por crianças pagas a 4 dólares mês, informada que era feita cá, não desarmou e soprou que era feita por gente a salário mínimo e o miúdo rápido disse-lhe que era melhor que estarem desempregadas. Foi aplaudido vibrantemente. A professora fez um sorriso amarelo e acaba o video.

10 a zero. Um miúdo que bate punho destroça uma instalada grisalha arrogante. Uma maneira de ver a coisa. O spin do Governo gostaria que esta imagem colasse. Um miúdo de dezasseis anos comporta a mensagem de esperança num país livre de lobbies e com iniciativa não titulada pelos maçons nem pelos partidos em oposição a uma académica das torres de marfim longe da realidade e mal agradecida para quem cria valor e impostos que lhe pagam o lugar de pós doutorada e investigadora à pala do dinheiro dos contribuintes. Outra forma de pôr as coisas. Para iniciados isto era uma derrota pesadíssima do ex ministro Gago... já estou a ver o sorriso amarelo do gajo do Público que foi visitar estabelecimentos de ciência pelo mundo inteiro e sempre alisou o caminho das teorias dos gaguistas e dos servidores do monarca como o Moniz Pereira da FCT da Nova que nunca quiseram ser os laboratórios das traseiras das empresas (dito por ele justamente num Prós e Contras)...

Mas como nunca fui bom na disciplina do maniqueísmo 101... e sempre me lixei com isso mas nunca me arrependi ... debatamos um pouco mais a coisa... por muito impopular que seja o debate e termos de usar o cérebro para pensar...

Comecemos por defender a professora com uma técnica conhecida...

 1. Ser milionário é melhor que ser da classe média e ter emprego numa empresa que se vai deslocalizar para a India...
2. Ser da classe média e ter vários depósitos de 99.000 euros em bancos europeus é melhor que ser supervisor de turno da Stapples...
 3. Estar empregado com salário mínimo é melhor do que estar desempregado sem subsídio...
4. Ser pobre na Suécia é melhor que ser pobre no Siri Lanka...
5. Estar doente de cancro da próstata em fase inicial é melhor que ter cancro de pequenas células no pulmão
6. Estar vivo é melhor que estar morto...

relativiza-se um pouco a coisa... Talvez o argumento que a professora quis introduzir (embora no registo de canelada próprio do programa, razão suficiente para nunca lá meter os pés no programa...mas vai lá quem quer o ego afagado...) possa ser melhor compreendido com este livro que uma adepta do mercado e da liberdade total de comércio e negócio escreveu quando ficou aborrecida com uma jovem aluna que pedia que parassem de comprar t-shirts porque eram todas feitas num regime esclavagista no oriente... a conclusão do livro é deveras surpreendente e interessante pelo menos para quem acredita na fábula do mercado ... (a conclusão é que a aluna deve continuar a clamar contra o esclavagismo) mas podem ler o livro e concluir por vós ... é este aqui As viagens de uma t-shirt no mundo global ... e a prazo o consenso de Washington virar-se-á contra os seus feiticeiros... e sim um dia alguém vai voltar a clamar por empregos que paguem mais do que a fome... mas a prazo este miúdo também será um herói louvável ... pelo inconformismo pela iniciativa pela criatividade pelo desafio porque podendo ficar quieto fez e não é dele a responsabilidade de resolver os problemas do mundo ...


Mas não se aplauda o trágico que é estarmos a congratularmos-nos com o facto de na Europa o modelo de desenvolvimento ser assente em mão de obra barata ... não nos regozijemos com o facto de ser melhor ter emprego que paga uma vida de merda a não ter emprego nenhum ... temos de exigir de nós e dos governantes que olhem para além da crise financeira em que se emporcalharam e em que comem o pão amassado por escroques gananciosos por certo não apreciados pelo futuro cardeal de Lisboa e que pensem e ouçam sobre uma ordem económica que não deve nem pode passar por competirmos com os soterrados dos prédios do Sri Lanka...

não é por certo aquele o futuro que queremos para os nossos filhos porque a técnica de exagerar até ao absurdo um dia será ... "ah o meu filho licenciado em física dos plasmas trabalha num call center a 450 euros mês mas enfim não tem deformações nos ossos dos punhos por manipular uma máquina de costura 14 horas por dia nem corre o risco de ficar soterrado porque o barraco onde trabalha é inspeccionado por finlandeses"....

e aos que agora descobriram a teoria de Schumpeter escrita em 1934 e curiosamente corrigida em 1942 (aconselho  que leiam... ) e se entusiasmam puerilmente com tanto bater punho não desprezem assim sem mais quem pensa e quer pensar mais fundo ... desprezem  a sobranceria e a arrogância intelectual mas não o pensamento ... ficamos sempre mais pobres quando a turba aplaude por quem tem reflexos pavlovianos ... 

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Basicamente é isto ...

Levemente a propósito deste texto que é formidável. e destas bizarrias da moderna filologia... como "o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas"... que levaram à construção de um meta discurso milhares de vezes mais complexo (e verdadeiramente inútil)que o próprio discurso... Mas realmente no polo oposto ...porque no texto citado se revela a existência de uma exagerada complexificação redundante e pouco parcimoniosa do discurso, enquanto o que me preocupa é a simplificação imbecil das matérias e o processo de criação de idiotas incapazes de pensar... Quando eu estudei, mesmo ao nível da licenciatura, tive alguns belíssimos professores, um ou outro mesmo notáveis a fazerem recordar-me a minha professora primária. Era, então, o ensino baseado num "paradigma" diverso. O professor(a) punha na nossa frente a carne ou o peixe, os condimentos, os acompanhamentos, os instrumentos, o fogão, os recipientes, os panos e dava-nos, por vezes manuais de culinária e gastronomia com milhares de páginas prenhes de possibilidades imensas e incomensuráveis. Claro que havia professores capazes de fornecer um cherne ou um naco de suculenta carne e temperos exóticos e outros apenas capazes de fornecer uns carapaus e um pedaço de alcatra. Mas a confecção era por nossa conta e risco. A prática ajudava e no final comíamos o que tínhamos confeccionado com o nosso engenho e arte. A nota dependia do cheiro, do paladar, da vista, do sabor e do apetite. Hoje cada vez mais o papel do professor(a) é fornecer um micro ondas chinês, com um manual de culinária simplificado a vinte slides. E, uma embalagem de comida pré cozinhada que sabe a plástico e é igual da Guatemala ao Zimbabue da Suécia à Tailândia. O resultado final da confecção é irrelevante porque é pré-determinado. Avalia-se se o aluno sabe meter o pacote dentro do micro ondas se identifica o botão da potência e do tempo e se sabe manipular os ditos cujos. Tudo normalizado. Tudo fácil de verificar através de sábias políticas de "qualidade".

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Kommendörsgatan

A primeira vez que saí do país sem ser na companhia dos meus pais foi aos dezassete anos, na vêspera de entrar para a Universidade em 1977. Na altura ainda ia com a fantasia calada de me esquecer de regressar. Antecipando em trinta e poucos anos os sábios conselhos dos nossos governantes actuais. Mas, e lamentavelmente, sempre amei demasiado este país e das várias vezes que me encontrei lá fora nunca me passou pela cabeça não voltar. De qualquer modo, e aproveitando a boleia de uns “primos” mais que afastados lá fui para a Suécia, que é hoje, para mim, uma segunda pátria, pelo menos afectiva. Já lá voltei vezes sem conta. Pelo caminho começaram os choques culturais de um jovem provinciano que habitava Lisboa, e cuidava que a liberdade recém conquistada e várias noites à roda de fogueiras na Costa da Caparica, a discutir os filmes de Win Wnders e Tarkovsky ou os livros de Kundera ou o significado hermético do Carpet Crawlers o tinham preparado para enfrentar a Europa de Lars von Trier. Não tinham. Por exemplo, na Alemanha essa potência sempre estranha e telúrica tão wagneriana, numa bomba de gasolina bloquei logo no desiderato de lavar as mãos. Um gesto prosaico mas que na sofisticada casa de banho pública implicava, então, o domínio do posicionamento correcto das mãos em frente à célula foto-eléctrica que operava a torneira! Nada que um momento de teatral fingimento olhando de soslaio o que faziam os demais não revelasse o “segredo” de tamanha tecnologia. Os choques “tecnológicos” sucediam-se. Talvez radique nessa frustração o facto de vinte anos mais tarde já me encontrar doutorado, precisamente no assunto de como diabo se criam coisas novas, porque é que são adoptadas e porque é que são (eram...) criadas sobretudo naqueles países mágicos do norte... Na Suécia vi-me confrontado com variadíssimas experiências em quase todos os domínios da existência humana. Curiosamente pouquíssimos, no plano do consumidor/produtor de objectos “usa/deita-fora-porque-é-barato-e-sai-a-versão-5-já-na-semana-que-vem” a que alguns parecem querer, agora, reduzir a vida e valor da condição humana. É indescritível a experiência de viver numa comunidade meio anarquista que juntava um músico, um operário dos estaleiros navais, um estudante de engenharia electrotécnica, uma designer gráfica e uma população flutuante que rodava nos dois outros quartos vagos, um dos quais ocupei em breves semanas! Descobri um grupo de rock com o qual partilhei uma ou duas músicas num gig marcante (pelo menos até à parte em que estive na plena posse das faculdades cognitivas normais...). Descobri vários sabores e consegui fazer um cozido à portuguesa que me garantiu duas semanas de isenção de tarefas domésticas! Ainda hoje quando vou a Gotemburgo regresso àquela rua. Kommendörsgatan. Descia essa rua todos os dias durantes semanas em direcção ao centro, à padaria e ao café. Comprei inúmero material em segunda mão para tocar guitarra, albuns em vinil, roupa quentíssima para o nosso país. Perto dessa rua existia um café de artistas e de intelectuais que mal souberam que eu era português me bombardeavam com perguntas sobre a revolução dos cravos . Nessa altura ainda era um ingénuo adolescente, crente na bondade que o Rousseau vira na natureza humana. E, claro, deslumbrava a audiência com descrições maravilhosas e fantasiosas da utopia que se desfolhava por cá. Mais para me vingar da inveja de uma sociedade que funcionava (tão simplesmente funcionava...) e que tinha tantos gadgets e processos que eu nem sabia que existiam para além dos filmes de ficção tipo espaço 1999... Trouxe livros, fotos, recordações e amizades. Não tinha quase dinheiro nenhum mas amanhei maneira de ver os Dire Straits ainda em início de carreira. E de ver o Frank Zappa. Houve dias em que nem dormi. Outros em que acordei no outro extremo da cidade ou mesmo fora dela. Tinha dezassete anos, autorização dos meus pais e do Ministério do Exército (ou coisa assim) para sair do país. E pela primeira vez em muitas vezes voltei ao meu país. À minha terra. Mas ainda hoje um pouco do que eu sou foi ganho em Kommendörsgatan. Sem sombra de dúvida a melhor parte de mim e aquela que ainda tem uma esperança infinita no Homem, aquela que conta estórias formidáveis aos meus filhos, aquela em que ainda sonho fazer coisas novas, essa ainda trás um bocado daquela descida ao fim da tarde na direcção do rio, com a brisa fria no rosto e a idade em que o impossível é uma treta.

sábado, janeiro 05, 2013

A angústia

Não há paracetamol para a angústia. A minha corrói-me por dentro. É crescente o sentimento de exílio na circunstância. Já não é só a sensação de ser um alentejano desterrado num "outro" lado qualquer. De ser um gestor por acaso ou um professor por acidente. Mas de estar a viver um momento errado numa história escrita por Carrol. É a sensação de sair da precariedade da existência e de olhar de fora para dentro e de achar pouco mais do que ridículo o "plot". Aprisionado numa trama que não é certa nem é séria nem é justa. Tem dias em que isto é decepcionante. Noutros apenas cansativo. Ainda noutros assaz paradoxal. E, perante perplexidades várias já vão escasseando as forças para o movimento. Tanto mais que a causa final de Aristoteles é um logro. Um embuste.

domingo, dezembro 16, 2012

Admitamos que sim

para efeitos de debate. Que a austeridade é uma espécie de purga salutar que limpa o mau tecido social. Político, económico, empresarial. Este empobrecimento é um mero side effect. Depois disso as pessoas, que sobreviverem, adaptam-se a novas regras, nomeadamente a sua ausência. Das ditas regras. Admitamos que a agenda de Washington entre nós nos "curaria" de séculos de dependência do "pai". Do omnipresente, opulento majestático e napoleónico "Estado" . Eu até nem discordo na totalidade. Há áreas em que o Estado nunca deveria ter entrado. Imiscui-se em assuntos que são da sua esfera mas sim da do indivíduo. Das famílias. Dos condóminos. Dos bairros. Das empresas. Da livre iniciativa. Que o crescimento do Estado à conta da narrativa da solidariedade veio a degenerar no abuso. Na autocracia. No favorecimento parasitário de amigos. Na construção de teias entre interesses privados que assaltaram e o tornaram refém. Que em todo o lado parece ser assim. Mesmo nas pátrias mais organizadas do Norte o "Estado" acaba a fazer favores a amigalhaços embora a coisa seja mais discreta e disfarçada. Portanto, o consenso de Washington; desregular tudo, privatizar tudo e formar os preços todos no mercado, deixar toda a gente à sua sorte, seria a panaceia final. Que depois do brutal choque que isso causará  a populações habituadas justamente ao contrário seria benéfico e daí resultaria um novo país pulsante e virtuoso. Prenhe de livre iniciativa libertadas forças de inovação que jazem em bolsas oprimidas pelo corporativismo sindical e patronal anquilosado, serôdio de antanho. Por ideologias igualitárias que só geram mediocridade.

E depois? Quando toda a criatividade se soltar no mercado, finalmente livre? Quando a oferta de novidades florescer e os consumidores forem inundados pela boa nova da escolha livre?

Depois os seres humanos começam laboriosamente a "corrigir" a ausência de regras do e no mercado. Começam a fazer cartéis e a relembrar aos políticos que tem de arranjar maneira de voltar a transferir riqueza através do pipeline do orçamento. Surgem novas Halliburton, Betchel, Boeing... que nunca quiseram o mercado mas sempre se deram bem com a plutocracia, com a autocracia mascarada de escolhas eleitorais. Os banksters reorganizam os velhos impérios que nunca foram desfeitos. E o people terá de voltar a descobrir o mutualismo e o sindicalismo.

E um dia talvez daqui a muitos séculos teremos de encontrar um ponto de equilíbrio entre segurança e iniciativa, entre risco e prudência entre o indivíduo e a comunidade. Uma coisa é certa, na ausência de regras, no triunfo do cenário de Washington, a única coisa que daí sairá é uma nova descoberta que a utopia de Moro é um pesadelo e que a utopia da hipótese da eficiência do mercado é uma ilusão idiota.

No final caminhamos para o monopólio ou para o cartel. Ou para a ditadura de iluminados sobre todos. Em qualquer dos casos a ineficiência e o sofrimento esperam-nos ao virar da esquina.

Ou então aguentamos a dialética até ao fim dos tempos.




terça-feira, setembro 18, 2012

A Indústria

Começa, para mim, um novo ano escolar. Preparar aulas. Adaptar programas. Renovar outros. Actualizar outros. De ano para ano, desde que decidi "experimentar" o ensino e fui ficando, as condições tem-se modificado. A profissão tem-se modificado. De docente, na verdadeira acepção da palavra, aquele que ensina, a actividade foi-se tornando, de modo crescente e irreparável, uma sequência de actos burocráticos, de litanias, de exibições de "power points", de "normalizações". E, o que legitima a capacidade para ser parte destas cadeias de transmissão, destas linhas de montagem de consciências dormentes, desta inoculação de conformismo e de saberes conservados em refrigeradores, desta passagem de pacotes pré aquecidos, é a publicação anual de um artigozinho. Pelo menos.

Faço, hoje, parte de uma enorme indústria. Sou uma espécie de operário mais especializado. Sempre em risco de ficar obsoleto. E posso mover-me para onde quiser. Para fora ou para dentro. Do país ou do estrangeiro. Do público ou do privado. A indústria é total e global.

E, esta indústria do conhecimento está já formatada e devidamente regulada. Talvez se possa perguntar em benefício de quem? E, aqui reside um busílis que me incomoda cada vez mais. É que é em demasia em favor de uma indústria conexa. A das publicações. Paulatinamente, fomos passando de um mecanismo colegial, de apreço pelos pares e de refutação e crítica das investigações e das propostas de postulados para uma verdadeira obsessão que beneficia descaradamente alguns actores fora do sistema. Os que vivem de publicar os artigos que os professores e investigadores tanto necessitam de publicar para, já nem é avançarem na carreira que hoje fica tudo em professor auxiliar, mas, permanecerem na rat race. E, esta boa gente cartelizou a coisa. São meia dúzia de grandes casas internacionais, que dominam as publicações e que cobram fortunas consideráveis pela reprodução e consulta dos artigos que entretanto deixaram de ser propriedade intelectual dos seus autores. E, no seu interesse desenvolveram, naturalmente, um mecanismo de notação. Só as suas revistas são de "primeira linha". Só as suas revistas contam! O contexto proporciona o desenvolvimento de laços de favores, de grupos de "pertença" que já nada tem a ver com o "avanço do conhecimento". Num desespero por se manterem afloat, os autores nem se preocupam com a indignidade de alguém se apropriar de parte do seu cérebro. Nem acham isto repugnante. É que nem tem tempo. Pressionados pelo publish or perish, esmagados pelo volume ciclópico de relatórios de qualidade a preencher e de normalizações da forma como "dão" as aulas, os professores participam nestes processos que nada mais são que um travesti de qualidade na passagem do conhecimento aos alunos, os professores cedem cada vez mais o seu estatuto a uma crescente proletarização da condição social e banalização do seu acto de docência. O que se "aprende" e "ensina" é o mesmo à escala planetária.

Entretanto a indústria alimenta-se dos seus próprios filhos. Novas gerações que buscam, poucos o saber, e muitos a "certificação, são os novos consumidores destes artigos e manuais. Eles, querendo entrar na rat race tem de publicar os artigos que cedem gratuitamente para que novas gerações os venham citar. Para que façam prova de "erudição".

O produto final é cada vez melhor a avaliar os relatórios da OCDE. E das agência de "notação". E os rankings. Feitos por publicações que pertencem aos grupos financeiros das editoras. E as agências governamentais que ajudam as universidades a competir pelos clientes no grande mercado internacional.

Deixo à vossa consideração o que sai anualmente do sistema. Por qualquer das saídas. Deixo também à reflexão se é isto que pagamos para os nossos filhos e se é este o futuro que precisamos e queremos.

Eu, por enquanto encontrei um espaço de liberdade e de criatividade que me coloca em linha directa com uns consumidores directos do produto fabricado na universidade. Alguns empresários e quadros que procuram conhecimento genuíno e não liofilizado para juntar água numa Bimby. Enquanto me for possível devo dizer que vou dar o meu melhor nesta actividade. E, continuarei a ser uma maverick nas aulas mais tradicionais. Enquanto me permitirem. Para já a coisa até corre.


(este texto está em revisão - todos os direitos reservados)


segunda-feira, setembro 10, 2012

O algoritmo de compressão

Nesta questão toda da pseudo crise, em que somos fustigados pela inépcia e cumplicidade canhestra e eventualmente involuntária dos políticos, ao serviço de uma política que já só serve o capitalismo financeiro de meia dúzia, o que mais me impressiona é o coro de vozes que acham que temos de penar estas penas porque "vivemos acima das nossas possibilidades". Há aqui uma assunção de uma culpa quase bíblica. Fomos marcados por essa culpa difusa de um pecado que já ninguém sabe qual foi mas que parece subcutâneo! É um argumento tipo bomba de neutrões. Da direita a alguma esquerda todos utilizam este argumento como se nem sequer de demonstração carecesse. É um verdadeiro axioma. E, basta a sua menção para uma grande parte do povoléu se calar embaraçado, com pudor e vergonha ela própria envergonhada. Activada esta culpa primordial, Pimba!Ao fim ao cabo "todos" fomos aos bancos pedir crédito para férias em Porto Galinha, "todos" andámos a trocar de carros e de casas de mobílias de arquitectos à conta de uma verdadeira luxúria credíticia. Uma lascívia de consumo sem limites. Os políticos, "coitados, foram apenas na mesma onda que de resto nos varreu a "todos".Perdão. Eu nunca consumi o que não era meu. Mas mesmo que tivesse caído em tentação porque é que agora haveria de me envergonhar? Em boa verdade quer tivéssemos ou não consumido a riqueza a criar nos próximos seis séculos, individual ou colectivamente, na realidade assumimos um ar constrito e absorvemos uma "postura" de grande embaraço e cedemos ao calvinismo nórdico que nos aponta os dedos ameaçador e reprovador. Tudo é merecido, tudo é para suportar. Ora há aqui falácias terríveis. A primeira, é a de que o interesse neste consumo imoderado foi de certo capitalismo financeiro inebriado com teorias de crescimento infinito que a certa altura já incapaz de gerar valor a partir de realidades palpáveis se pôs a "inovar" e a inventar formas de criar dívida a partir do que "haverá de ser"! E, quando nos pomos a especular e imaginar sobre o futuro bom... não há limites não é verdade. Podemos vender opções sobre a produção futura de bananas na Guatemala em 3056! E, existindo dúvida legítima sobre essa produção podemos vender "seguros de crédito" sobre a dívida contraída para comprar tamanho delírio. Como o próprio capitalismo financeiro "subprime" sabia que isto era um manhoso castelo de cartas tratou de refinar estas verdadeiras artimanhas de conto de vigário sob formas pseudo matemáticas e mascaradas de "sofisticação" misturando dívida irrecuperável com dívida legítima e criando acrónimos que iludiram, justa e deliciosamente os alegados "especialistas". Ora chegado a um ponto em que alguém perguntou quanto do crédito total poderia imediatamente ser liquidado sobre valores ficcionados (no caso sobre as hipotecas nos Estados Unidos) a coisa descambou. Os bancos dada a sua natureza (de nunca poderem ter o valor dos depósitos em cada momento disponível para saque) habituados a correrem riscos em demasia a que as "autoridades reguladoras fizeram cumplicemente vista larga, afundaram-se. E, ordenaram aos políticos que afectassem os dinheiros dos contribuintes em seu benefício de modo directo e sem disfarces. No meio deste descalabro saíram triunfadores bancos ingénuos e bancos deliberadamente desonestos. Depois, a falácia genial, em face da contracção de dívida pública a níveis inusitados para ser aplicada nestas operações de salvação dos merdas que nos lixaram, os merdas ficaram "alarmados" com o nível de dívida pública necessária para os salvar. E compères do sistema resolveram "notar" o alarme dos facínoras. Aumentaram o "alarme" e ... Disseram-nos que somos nós os causadores da aflição porque elegemos os políticos seus amigos. Formidável não? O espantoso é que basta a enunciação das palavras "todos fomos beneficiados" "todos vivemos acima das nossas possibilidades" "todos andámos a viver à tripa forra" para que a esmagadora maioria de nós se tenha deixado anestesiar pela conversa mole e cínica destes políticos de treta que nos afogam em demagogia e cobardia ... E se recolha à placidez do lar para aí resmungar com receio de ser ouvido pelo vizinho... Somos afinal o quê? Eu por mim não pedi nada. Eu por mim não me endividei para além do que ganho. Eu por mim não deixei de criar riqueza. Eu por mim não suporto mais estas medidas. Eu por mim não quero "oferecer" mais o meu esforço aos chupistas que se riem de nós. Eu por mim não compreendo como é que vocês se sentem culpados...

quinta-feira, julho 26, 2012

o PREC 2012


Eu acho delicioso o PREC iniciado pelo Passos. E, não pensem que estou a ser cínico. Estou apenas a ser levissimamente sarcástico. Mas é notável o esforço para produzir seres autónomos, furiosamente individuais, declaradamente independentes, determinadamente responsáveis, com nojo intestino de tudo o que cheire a colectivismo, comunitarismo, agrupamento, sociedade. Numa terra que tem quase 900 anos de busca e idealização incessante de um pai austero, tirano, que não ri, que ilumine e indique sem tergiversar, o caminho, a causa final de Aristóteles, é obra reconheça-se. Parece que temos de nos tornar todos furiosos empreendedores. É bom do ponto de vista semântico, psicológico e financeiro. As universidade resolvem o problema das estatísticas de empregabilidade. Sobem nos rankings do Financial Times. Os alunos e potenciais desempregados começam a vida num estado mais optimista e a Segurança Social não se vê logo envolvida em subsídios. As universidades conseguem eventualmente uns subsidios para financiar incubadoras e pagar salários e outras despesas correntes. As estatísticas do IEFP melhoram formidavelmente. E se além dos finalistas convencermos os desempregados a optarem pelo mais prometedor título de empresários, óptimo. Resolve-se num passe de mágica o problema da sustentabilidade. Em última análise sair da zona de conforto deixar de ser piegas e emigrar. Ir à aventura por esse mundo fora de peito feito e confiança ilimitada na gesta na diáspora e no euromilhões. O que é curioso e que esta sanha de produzir seres não dependentes da sombra protectora dessa abstração denominada Estado e responsabilizáveis individualmente colapsa quando nos deparamos ou com membros do governo apanhados em contra mão com a filosofia liberal do esforço calvinista e que vão por atalhos de irmandades cuja retórica assenta nas ideologias que deram origem aoEstado Social e à ideia de solidariedade e de comunidade. Ou colapsa igualmente quando o mercado parece desfavorecer, vá lá saber-se porque carga de água, os projectos mais venturosos tipo BPP e BPN. Parece que nestas áreas os prejuízos tem de ser socializados e não podem ser devolvidos à responsabilidade individual dos implicados. Ficamos um pouco desorientados pela lógica de S. Tomás. Faz o que ele diz e não o que ele faz. O Estado já se sabe (ninguém diz de onde proveio esta sabedoria teórica ou empírica) é mau gestor. O "Estado" sem dúvida mormente porque esse sevandija é um ser etéreo e sem identidade. Mas, alas, parece que os advogados que trabalham de manhã no escritório a preparar a lei para o seu cliente que à tarde aprovam no parlamento e que à noite nomeiam o seu compadre para a administração da fundação, do hospital, do centro, do instituto, da comissão, da empresa municipal não são Estado. Os maus gestores nunca tem rosto nunca tem nome e acoitam-se todos atrás do "Estado". Ninguém pode portanto ser responsabilizado. Não deixa de ser catita. O Estado é ninguém em particular e são boas pessoas em geral. A esses ninguém lhes exige que sejam empreendedores e que se deixem de irmandades. Entretanto a dura luta não vem sem escolhos. Mas haja fé. Pela primeira vez desde a década de 40 exportamos mais do que importamos. Congratulemo-nos portanto. Regressámos ao período em que as pessoas do povo analfabeto dividiam uma sardinha para 4. Se morria de infecções banais. Se fugia a salto na raia da probreza e se ia para o bidonville. Notável não? Não regressaremos a essa tolice chamada estado social. A curva IS LM ancorou noutro ponto de equilibrio. Os economistas sem cultura que vivem aqui e agora acontextual e ahistórico rejubilam com a boa nova do Freeman. A litania do mercado enche-lhes a boca de mel. Vão morrer com cancro no estômago ou nos pulmões incapazes de ler as letrinhas pequenas dos contratos de seguro de saúde e de ganhar dinheiro como o cristão dos supermercados que não quer o estado a pagar pacemakers. É um mundo novo admirável . A porra é que não há soma e o prozac é caro e não é comparticipado.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

A assunção da culpa

não há nada mais judaico-cristão que a culpa. Ao fim ao cabo já nascemos com o sinal da culpa primordial. O umbigo. Ao longo da vida carregamos a cruz e com sorte, expiamos os pecados confessando ou obtendo uma bula. Mas a culpa acompanha-nos como uma amiga. Pelo menos a alguns que eu pessoalmente não compartilho esse peso. Outros terei.

Vem isto a propósito do conformismo da malta em relação aos executores da pena. Porque a culpa é omnipresente, e por defeito, não carece de prova. É porque sim. Portanto os troikos apenas nos relembram a sua existência. Parece que todos nos portámos muito mal. E a espada de Demócles pende sobre nós presa por fio mais fino e menos resistente que o da crina do cavalo. Pende sempre desde que nascemos . Junta-se a esta crença da culpa a crença de que somos menores. Mais preguiçosos. Menos espertos. Uns madraços. E que beneficiamos de uma série de benesses que desbaratámos. Todos. Já eramos culpados mas agora carregamos fardo adicional de culpa. E o fardo todos os dias cresce.

De modos que aceitando a condenação e a sua justeza e aceitamos com indiferença. No fundo habituamo-nos a ser culpados. De qualquer coisa. E fugimos. Da multa. Da polícia. Do fisco. De nós. Da dignidade. De ter costas direitas. De exigir uma melhor explicação para esta culpa. De exigir que os culpados sejam castigados . E assim vamos vivendo. Habitualmente. Cheios de culpazinha. A nossa vidinha. É a vida. "Tem de ser". "Eles é que sabem". "Temos de penar as penas que Deus Nosso Senhor nos reservou". "Temos de aguentar". "Temos de nos sacrificar". "Isto custa mas paciência o que é que se vai fazer?!"

Gajos como eu é que ficam perplexos e mal vistos. Não se sentem culpados de nada. Eu por mim não vejo inconveniente em que prendam e mandem a chave fora os facínoras que nos (se) governaram durante os últimos oito séculos. A começar, preferencialmente, pelos ainda vivos, mesmo que habitualmente se encontrem em posições de julgar os outros.

terça-feira, janeiro 31, 2012

Se o avô fosse vivo

teria ficado orgulhoso do neto . O meu filho mais velho aceitou um convite de um professor de Educação Física para ir no Sábado a um torneio de corfbal entre equipas federadas do campeonato Sub 16 de Lisboa. Parece que a do Sporting teria míngua de jogadores e ele, que é do Benfica, aceitou porque gosta de jogar, porque era na escola dele (o professor é o seleccionador nacional da modalidade) e porque não foi contaminado pelo vírus da estupidez que cria ódios entre adeptos. Acontece que no dia do jogo apareceu a equipa do Sporting completa e portanto ele teve menos oportunidade de jogar. Outro garoto convidado colega do meu, por acaso adepto ferrenho do Sporting, estava muito aborrecido com o facto de jogar pouco e queria ir-se embora. O meu filho disse que não iria porque tinha dado a palavra dele. E, portanto, mesmo que não jogasse tinha de ficar. Tão simples como isto.


Não sei o que ele virá a ser. O que a vida lhe reserva. As escolhas que fará. Sei que para já o avô que dava uma grande importância à palavra à honra à dignidade e à espinha teria ficado contentíssimo de ver o neto exibir esta solidez de carácter. Teria ficado feliz por ver o neto exibir uma espessura de carácter acima daqueles habituais comentadores e fazedores de fretes que fazem as leis que aproveitam de seguida aqueles habituais políticos para quem a palavra é um conceito de geometria variável e viscoso. Sei que o teu avô, Gonçalo, te preferiria ver carpinteiro e de costas direitas, que engenheiro e dobrado pelas conveniências.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

não sei se me devo penitenciar mas tenho pruridos em o fazer

Chegamos a uma altura da vida em que os problemas quotidianos começam a superar a energia que conseguimos desenvolver. Os filhos são constante fonte de preocupação e de projecções (nas mais das vezes das fantasias dos pais, mais ou menos benignas desde que os pais tenham a sensatez de as conservar para si mesmos...) os pais, quando ainda são vivos começam a precisar de nós com frequência quase diária. Alguns amigos verdadeiros enfrentam circusntancialmente dificuldades que nos tocam emocionalmente e que por vezes exigem de nós uma ajuda e nos obrigam a redescobrir ainda mais fontes de energia que nem sequer sabíamos em reserva. E lá nos vamos aguentado. Na maior parte dos casos, suponho eu, já deixámos há muito de acreditar no Pai Natal e em várias formas de perfeição, todas elas adolescentemente inadiáveis, impreteríveis, irrecusáveis e, se tivermos juízo começamos a ser bafejados por uma certa serenidade tranquilizadora sobre o mundo e sobre as coisas humanas.

Os entusiasmos afloram já com uma certa película envolvente de cinismo quanto baste, e a ilusão de juventude eterna começa a chocar com as dores nos ossos e nas articulações. Nada de grave se mantivermos alguma dose de optimismo e de esperança mais ou menso abstractas e não desenvolvermos em concreto grandes expectativas de vir a conhecer um mundo irrealisticamente a caminho da perfeição qualquer que seja a sua idealização. Eventualmente podemos até ficar zangados perante coisas realmente inadmissíveis, mas convêm não ignorar de onde vem a enxurrada e neste momento elas são fortes e nem sempre pautam pela racionalidade ou pela honestidade ou pela sensatez.

Neste quadro teremos de começar a ignorar alguns disparates mais ou menos pueris que resultam de entusiasmos de adolescências tardias que vêm de alguns dos figurantes da vida na Cidade. Como esta asserção que para "os Ronaldos das diversas áreas haverá sempre lugar em Portugal". O autor desta magnifica frase é um qualquer secretário de estado cujo nome é realmente e genuinamente irrelevante. Exactamente como a criatura que produziu tamanha boçalidade e estupidez.

Eu já nem força tenho para tentar explicar ao secretário de estado a dimensão estrondosa da bestialidade que afirmou em contraponto com qualquer noção de Humanismo Renascentista porque para isso teria de ter nele, secretário de estado, alguém com um módico de cultura e leituras feitas fora do ocasional manual de resumos do pensamento do Mendes Bota.

Resta-me apenas pedir desculpa de ser um tipo preguiçoso e por não ter elegido como teleologia da minha vida o contributo para a competitividade da Nação em geral e quiçá de Trajouce em particular, nem sequer ver como escatologia final da minha existência o pagamento do imposto municipal sobre imóveis, nem pretender ser o melhor e maior ensaísta sobre a natureza da renda Ricardiana. Não obstante estas alarmantes falhas de carácter que me impendem de vir a pertencer a uma ou mais seitas de seres superiores, nem sequer poder ser assessor de um qualquer secretário de estado, gostaria de reclamar o direito a existir aqui e agora como gajo normal. E, se ainda me for facultada a permissão, de salientar que a tolerância para com a existência de gajos normais ainda é o que vai permitindo a abrunhos como tanto governante poder viver aqui sem ter de emigrar para países onde pudessem tornar-se socialmente úteis limpando urinóis.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

A esquizofrenia como regime político e normalidade social

Nesta questão do ide lá para fora se aqui achais que não tendes futuro é um dos mais fantásticos double binds que já tive oportunidade de conhecer. Não só os governantes se põem na posição exactamente simétrica àquela que seria de esperar de quem busca a eleição, que é a de resolver os problemas da zona sob sua jurisdição, e consequentemente melhorar as condições de existência das pessoas a quem serve e em nome de quem são eleitas, parecendo "empurrar" os eleitores a fugir de si e do país que é suposto melhorarem como diabo da cruz, como ainda se propõem "facilitar" a fuga através de uma instituição como foi proposto pelo deputado Rangel. Em lugar de oferecer expectativas oferecem o negrume da desesperança. Mas de forma científica e organizada.

Neste discurso, aparentemente, esta gente não se apercebe da dimensão humana do problema nem da compaixão que seria o registo discursivo adequado em lugar de uma avaliação alegadamente racional que fazem com uma frieza que chega a ser gélida.
Mas o pior, e neste campo nem sequer parece existir nos inúmeros conselheiros e spin doctors alguém que tenha um módico de razoabilidade, seria pedir demais que tivessem um espírito cristão e inteligência, para ver da violência emocional e psicológica destas afirmações. Que quem é ministro ou primeiro ou segundo ou ajudante não pode não deve produzir barbaridades destas. Por muito racionais que sejam . Puta que pariu. Desde quando existe uma merda chamada "realidade objectiva"?

Não só empurram as pessoas para fora da sua terra, escorraçam será o termo preferível, mas até se apropriam do "mérito" da decisão! O processo de partir daqui para fora é um processo sofrido que comporta a angústia da quebra dos laços com o passado e com os afectos, com as raízes e com as referências e com os símbolos. É um processo de dissonância terrível. É um processo amargo e revoltante. É um sofrimento individual. É um vencer de inércias e medos. Não é uma aventura seus cabrões. Não é épico nem desafiante. Para a esmagadora maioria das pessoas é uma incerteza que comporta ansiedade sem fim. É uma decisão que se toma em face do beco sem saída a que se chega no nosso sítio, na nossa terra. Um dia percebemos que temos de partir. Que não há nada para nós aqui. Que o nosso país é uma merda. Que nós deixámos que ficasse uma merda. Onde é que nós nos distraímos e perdemos o rumo? Onde é que cedemos?

Mas aqui estamos a ser escorraçados. E até o sofrimento nos é negado. Até a angústia nos é expoliada. Para quem quer liquidar o Estado até aqui mete o Estado a ser "dono" das hesitações e dos choros de separação e das expectativas dos que querem ver daqui pra fora. Pra quem tudo é decisão individual. Escolha racional. Até aqui querem reduzir quem parte a objecto de paternalismo do Estado. Até na hora de compreendermos nem tempo temos, outros "melhores" que nós "ajudam-nos" a compreender que devemos temos de ir embora.

Há uma diferença fundamental entre fazer o luto da saída e ser empurrado. Quem não entende isto nem pai de filhos devia ser. Fodaçe.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Perplexidades? talvez não... (2)

Em face do "reenquadramento" das expectativas e do desencadear de mecanismos adaptativos, o que será que se segue?

Segundo uns recuaremos para níveis de há quarenta anos atrás. Penso que não. Duas coisas acontecerão. Aqueles que perspectivam o mundo como um mar de injustiças desencadearão algumas formas de revolta e resistência. Outros, que acham que o futuro será sempre melhor, por definição e fé, tentarão inovar e encontrar novas soluções com as tecnologias "enabling" de hoje. Talvez, destas duas forças resulte uma tensão dialéctica positiva. Em certa medida as duas manifestações são positivas. E necessárias.

Por um lado Schumpeter tem razão quando afirma que em épocas de crise se processam ondas de destruição criativa, talvez não no sentido que os próceres da economia neo-clássica agora tomam de empréstimo o conceito à "escola austríaca", mas no sentido em que os seres humanos neste processo "irrealista" against all odds de tentar encontrar esperança mesmo no meio de um campo de concentração nazi, tentarão inventar saídas e algumas surgirão. Por outro lado as camadas de população esmagadas pela austeridade em contraponto com a exposição mediática da riqueza obscena de outros que regurgitam opulência até ao vómito podem, e devem, exigir uma nova redistribuição da riqueza. O avistamento quotidiano do "outro lado do 1%" que já não se pode mais esconder em condomínios privados porque o Google Earth nem isso permite, possivelmente causará mais "Indignados" mais "Occupy this and that", mais pórticos a arder. Torna-se insuportável tanto double bind. Tanto double standard.
Tanta hipocrisia. A bola está do lado dos vilipendiados e do 1%. É o jogo mais interactivo que existe. Não há árbitros e as regras vão sendo construídas à medida que se joga.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Perplexidades? talvez não...

Parece paradoxal a popularidade que gozam todos os que se preparam para governar ou governam países a que se impõem medidas verdadeiramente draconianas de austeridade e, que de modo notório, advêm da necessidade de pagar dívidas que em boa medida resultaram da ilusão do juro baixo (promovida deliberadamente) e da "necessidade" de resgatar o sector financeiro que nos conduziu a uma situação insustentável. A Esquerda que se prepararia para capitalizar o descontentamento gerado pela imposição aos pagadores de impostos e "classes trabalhadoras" (os 99%) contra a mais brutal desigualdade na distribuição da riqueza e por cúmulo do esforço de recuperação, parece surpresa pela "incongruência" desta aceitação (mesmo admitindo uma manipulação dos números pelas agências de inquéritos e pela imprensa que amplifica os resultados, na verdade convêm reflectir sobre a tendência...).

Mas, repare-se. A raça humana chegou aqui, ao dia de hoje, com esperança de vida até ao Alzheimer e ao cancro final, no seio desta formidável civilização tecnológica (formidável no sentido de espantosa não necessariamente de boa) mercê de um mecanismo que nos ajuda a compreender certa dose de conformismo, resignação e parodoxo. É que contra toda a probabilidade objectiva de insucesso os seres humanos persistem arreigados a uma coisa chamada esperança que por vezes raia o delírio. Mas sem esse irrealismo já teríamos perecido. Desistido. Mesmo no seio da mais brutal exploração, da maior iniquidade as pessoas agarram-se a uma "delusion" como tábua de salvação. Não podem aliás dar-se ao luxo de perder a ...fé num dia melhor algures lá para a frente. Sem essa esperança, "objectivamente" irrealista, o ser humano enfrentaria a futilidade da sua existência. Essa hipótese não é razoável.

No quadro desta violenta austeridade que viola as expectativas construídas ao longo das últimas décadas e mesmo século, as pessoas readaptam as suas expectativas. Mantêm a esperança de sair da crise. É aliás oferecido um horizonte próximo. Pode ser uma desonestidade intelectual mas é a percepção que conta não a "realidade" "objectiva".

Não deixa de ser paradoxal também que a Esquerda necessite da desesperança para crescer. Mas propõe a esquerda em geral (não o PS que é um fiel prócere do consenso de Washington e do capitalismo de casino que dele emergiu com particular vigor) propõe alguma esperança nova? Que compreenda os horizontes prosaicos em que as pessoas raciocinam em teros do que realmente querem e aspiram? Não me parece. Propõem uma "sociedade mais justa". Isto é uma mera abstracção com o problema de terem existido e existirem "sociedades mais justas". Será que são atractivas? E se não são já reflectiram porque não o são?

Mais. A esperança é uma realidade individual. Não há esperança de "classe". As pessoas não são naturalmente solidárias em abstracto. São altruístas com situações próximas. Não em "atitude". A atitude não é um preditor do comportamento. Em face do problema, do drama de outro ser humano, as pessoas podem revelar o seu melhor. Em face de um desígnio teleológico de "justiça social" as pessoas não tem noção instrumental da utilidade dessa praxis. As pessoas tem esperança que os filhos atinjam melhores condições materiais de vida que elas próprias. Não sei se estarão preocupadas com os filhos dos outros no Quizirguistão.

(a continuar)

domingo, novembro 06, 2011

O país das tampinhas de plástico

Quando eu era jovem adulto andei durante algum tempo a entregar comida a gente que dormia pelas ruas de Lisboa. Mais tarde, denominaram-se estas pessoas como sem abrigo. Na altura aquela actividade não tinha nome. Agora tem a nobreza (a finesse e a moda...) do voluntariado. Na altura, também não era caridade, coisa que sempre me repugnou, mas tão somente uma espécie de imperativo que se sentia de participar no alívio da miséria de outros seres humanos que por esta ou aquela razão tinham desistido ou foram forçados a desistir de ficar à tona numa sociedade que, já nessa altura, se começava a seduzir pelo consumo e em que a medida das pessoas não era o que eram mas o que pareciam ser e, sobretudo o que pareciam ter. Na altura, a actividade reunia pessoas de todos os caminhos da vida, nas mais das vezes organizadas por alguma estrutura amadora de alguma paróquia mas que aceitava ateus como eu, e nenhum de nós fazia grande julgamento nem dos que davam nem dos que aceitavam.

Entretanto a sociedade evoluiu. Ou pelo menos é que parece. O modelo social democrata parece ter sido arredado pelo consenso de Washington como salientou o Judt. Perdemos o fio da narrativa como muito bem arguiu o Sennett. E desembocámos numa sociedade rendida aos proxenetas da "indústria" financeira e aos seus ditames. Reféns de axiomas mais que risíveis. De sofismas que vários próceres nos afiançam ser o fim da história. E, no seio de toda esta imperativa "disciplina orçamental" devemos ter perdido o norte. Ou quem nos comanda mais propriamente, perdeu o sentido do Outro. Ou o sentido de ser apenas humano. No altar da eficiência, da competitividade querem que fique o sangue da nossa compaixão. Mas nós também nos perdemos na indiferença. Mesmo que seja chique e fino ser "solidário" um fim de semana por ano. Realmente nós oferecemos facilmente, demasiado facilmente, o sangue da nossa compaixão a troco de um gadget de plástico com luzinhas.

Levámos séculos de associações, de guildas, de corporações, de sindicatos, de mutualidades, de caixas de previdência, de misericórdias a construir laços de perpetuação da solidariedade, a robustecer as alianças entre cada ser, cada família por forma a repartirmos um pouco melhor o produto do nosso esforço e sobretudo a arranjar maneiras de todos terem um pouco do bolo.

Agora dizem-nos, sem dizer, com aquela hipocrisia disfarçada de bondade e de superioridade, que esse tempo acabou e que , basicamente, é cada um por si. Ou em caso de necessidade que quem precise meta no facebook um pedido para voluntários recolherem tampinhas de plástico no caso do nosso filho ter uma doença crónica. E rezar. Rezar muito para que o preço do plástico não desça nos mercados.

Puta que os pariu.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Zen

A vida raramente corre como a desejamos e quase nunca como a planeamos. Há momentos mais felizes que outros, conhecemos pessoas boas e pessoas que nos desiludem e pessoas que pouco nos dizem e pessoas que devemos evitar. Construímos, por vezes, circunstâncias um pouco bizantinas de que depois nos queixamos ou lamentamos. Muitas vezes a saída é tão óbvia que só nos apercebemos dela quando nos distanciamos o suficiente para ver o elefante completo. O caminho que as coisas levam também é por vezes bizarro e nas mais das vezes é por omissão e medo que deixamos as coisas arrastarem até à putrefacção. Repetimos a nós próprios demasiadas vezes o mantra da segurança e da falsa esperança. O ás de copas nunca sai na última mão.

Ser escravo nunca foi boa ideia. E, ser, voluntariamente, imbecil não me parece uma opção válida. Ser apenas (mais) um parafuso na perpetuação da estupidez que nos arrasta para o fundo, ainda que parafuso renitente à chave de fendas não é de grande mérito. A única escravatura admissível é a da nossa consciência. E essa começa a ser insuportável porque a distância entre o que ela nos dita e o quotidiano é demasiado grande. Porra.

quarta-feira, setembro 21, 2011

O imperativo da ordem ou a preguiça a que nos habituamos ...

Fico sempre um pouco perplexo quando a queixa maior dos alunos a quem dou aulas é a da "arrumação" dos textos fornecidos. Ou expressão similar... Sondada a coisa, o que a queixa denota inevitavelmente inexoravelmente irremediavelmente inapelavelmente (e demais advérbios de modo...) é que não forneci um powerpoint com a matéria a escorrer, a fluir, durante uma sequência de 200 ou trezentos slides...

OK. Posso até ter fornecido. Nalguns casos tem mesmo quase 200 dos benditos slides...
Mas não os passei metodicamente, sistematicamente, sequencialmente...

Não, em lugar dessa actividade de passador de slides continuo a insistir que aqueles a quem me conferem o encargo de ensinar, aprendam. Mesmo. Lamentavelmente, ainda não há forma de aguém aprender sem a utilização do sistema nervoso central em particular daquele curioso aparato que se situa a norte do cerebelo. A ansiedade eleva-se imediatamente quando se sugere o confronto de duas posições contrárias,simétricas ou mesmo irreconciliáveis sobre uma questão qualquer. A possibilidade de caos espreita. É insuportável que o mundo não seja claramente simples. E redutível a duas proposições. Ou um slogan.

Não obstante, cresce a olhos vistos o número de colegas que fornecem um fast food pronto a digerir, que nunca magoa o estômago, não mexe com as tripas nem sequer chega a circular pelos neurónios. Dizem que é alimento para o intelecto. Permitam-me que duvide.


Em boa verdade, contudo, a minha atitude é já meramente quixotesca. A enxurrada de pronto a comer, prêt-à-porter, é de tal maneira que daqui a nada, idiotas como eu que gostariam de discutir as "verdades" encaixotadas em livrinhos de quinze páginas letra 48 serão anacrónicos e postos no seu devido lugar ....

Nesse dia celebraremos o Huxley

segunda-feira, setembro 12, 2011

Um dia habituamo-nos à formatação e à normalização das relações

e substituiremos todos os afectos e a espontaneidade por formulários devidamente preenchidos, arquivados, disponíveis para conciliação com outros formulários que geram relatórios que geram modelos de análise que geram procedimentos perfeitos num mundo irreal que se auto descreve e auto ampara e auto avalia. E no fim conclui-se sempre que as coisas são perfeitas. Pelo menos nesse mundo em que não há pessoas mas agentes, objectos, filas de espera, eventos, ocorrências, não conformidades, discontinuidades, fluxos...

Nesse dia alguém apontará num relatório devidamente formatado que eu sou um terrorista que atenta, pelo menos por omissão de preenchimento do campo 21A/34-PU, contra a devida ordem das coisas.

O mundo é gerido por gajos obcecados com a ordem e regularidade da arrumação dos armários da cozinha. Substituimos a criatividade pela ordenação e agora queremos sistematizar o espírito de iniciativa e de rasgar horizontes e ninguém parece perceber a extraordinária idiotice do sofisma. Temos medíocres verificadores de preenchimento de campos a exigir aos outros que desafiem o futuro...

tem dias em que é difícil suportar o cabrão do imperador não só nu como asno....

quarta-feira, setembro 07, 2011

The age of hypocrisy

O imposto sobre a gordura o sal e o açúcar parece que será uma má ideia porque as populações mais pobres recorrem a esse tipo de dieta alimentar porque a fast food é a food available. (Não que as saladas regulamentadas normalizadas sejam muito melhores. Pelo menos no paladar. Um pepino, tomate, alface, courgette, pimento standartizado, em peso, aspecto e tamanho habitualmente não sabe a grande coisa e tenho cá para mim que tudo em "blind test" baralharia as pessoas e talvez acabassem por confundir um pimento com um alho francês. Mas, enfim, sempre geram menos gordura, menos AVC's, enfartes e menos cancro nos intestinos.) Não deixa de ser curioso que a solução seja taxar, mais uma vez os pobres e os que dependem ou estão viciados naquelas porcarias. Tal como no caso do tabaco nunca se colocou em questão proibir pura e simplesmente o fabrico e distribuição do produto. Quiçá pelo exemplo da lei Seca e da droga que apesar de proibida circula sem grande impedimento. A proibição parece ineficaz e faz apenas subir o preço no contrabando. Não sei. A eficácia do combate à droga por vezes está dependente de variáveis exógenas. Eufemismo para as moedas de troca na política. Eufemismo que vem encapotado da hipocrisia da "liberdade de escolha" no caso do tabaco pelo menos e que seria argumento essencial no caso da fast food.

A proibição do tabaco talvez gerasse uma indústria subterrânea ou talvez não. A proibição da comida que nos conduz tranquilamente à obstrução das coronárias talvez gerasse uma controvérsia grande ou talvez não. Em todo o caso é uma hipótese meramente académica. Em qualquer caso, enfrentar os lobbies das e as multinacionais do "sector" é coisa que não passa pela cabeça dos empregados de mesa que nos governam.

Porque o que está em causa aqui como noutras circunstâncias é a natureza do contrato social que estabelecemos e, em nome do qual continuamos a eleger "our betters" para que decidam em nome do bem comum. A corrupção desta noção tem avançado a passos largos. O interesse dos lucros de alguns sobrepõe-se amiúde, para não dizer sempre, ao interesse geral. O grave é que além da idiotice de comermos porcarias e nunca questionarmos de onde provêm a porcaria que nos dão a comer nos distanciamos cada vez mais de perguntar como foi possível chegar à sobreposição do interesse particular ao interesse geral. Os proxenetas dos bónus agradecem-nos.

terça-feira, setembro 06, 2011

A insustentável e pesada tolice do faz de conta

Com o decorrer dos anos, acentua-se a baixa de tolerância para com o faz de conta com que lidamos, mas que todos fingimos não existir nem ter consequências. O faz de conta, contudo, tornou-se floreado, sofisticado, sistematizado, organizado. É um faz de conta reificado. Um faz de conta cada vez mais envolto em processualismos e actividades de tal modo complexas que quase o disfarça e camufla. Mas a substância, a essência da coisa não muda porque a embalagem se torna mais bonita. Ou mais exuberante. Hilariante, ao longo destes tempos que tem corrido, e em cúmulo, é que cada vez recebemos menos para fingir não ver o faz de conta que cada vez nos ocupa mais tempo. Isto é, a maior parte da profissão hoje passas-se na dimensão de um faz de conta e cada vez mais fazemos o faz de conta mais barato e mais mirambolante.

O faz de conta, no ensino, é como uma imensa bolha financeira. Sabemos que um dia nos rebentará no focinho, mas enquanto dura parecemos todos alegremente sugados para uma actividade acéfala de ultra optimismo em que fazemos de conta que a coisa é imparável. Desta vez é imparável. Nunca é. O faz de conta que ensinamos e que resmas de alunos fazem de conta que aprendem em regime de quase tutoria individual, em salas com centenas de outros como eles e, em que é impossível vir a conhecer o apelido de dois décimos deles, é um delírio permitido pela quantidade de papel e relatórios e métodos e aferições que afogam o processo que finalmente fica submergido debaixo de tanta formalidade que parece mesmo ter existido aquilo que fica explícito e descrito com um detalhe fabuloso nos papéis. É justo porque no final um papel prova ao aluno e à sociedade sequiosa de papéis que atestem coisas que a coisa existiu mesmo e que o aluno preencheu aqueles passos detalhados.

Até ao dia em que o aluno tenha de executar qualquer coisa fora do papel.

segunda-feira, julho 25, 2011

A raiva irracionalizada e a perda do Norte

Nestes dias há sentimentos de espanto, impotência, raiva e sedução. O norueguês conseguiu, no seu delírio narcisista, megalómano, sádico e psicopata despertar e desenterrar, de forma inapelável, vários fantasmas. Não me convenço que tenha sido possível que agisse totalmente solitário. Nomeadamente no transporte de tanto explosivo. Mas talvez. De qualquer modo parece-me acessório em face de tamanha tragédia e horror. A policia que investigue. O problema que ele levanta, para além do delírio místico, esoterismo de pacotilha, da agenda fascizante, é o do extremo do politicamente correcto a que chegámos e que no fundo e em voz baixinha começa a ter audiência e murmúrio. O multiculturalismo, uma bem em si mesmo para mim, foi transformado, de certo modo em alibi, em caução para a cobardia. Para o fechar de olhos. O que conduziu a abusos, a tornear a "Lei" consuante a "minoria". E vários assuntos foram-se tornando tabu. Por exemplo, achamos intolerável, e quanto a mim bem, qualquer ataque a mesquitas entre nós, mas, não se ouve uma palavra sobre a Arábia Saudita onde, sendo impensável uma igreja cristã, um desgraçado que tenha um gesto reflexo de se benzer pode ver-se em sarilhos enormes. Mas ninguém ousa discutir esta reciprocidade. Fingimos que é um não assunto. A "esquerda" chique só tremulamente se agita quando as mulheres são ameaçadas de lapidação ou mutilação genital. Por exemplo, não se houve uma palavra sobre os delírios do Hamas sobre mulheres ou sobre homossexualidade. Se um tipo de direita europeu disser de um homossexual o que dizem os tipos do Hizbola ou do Hamas é crucificado. Se for palestiniano faz de conta que não se ouviu. As chacinas do Hamas aos da OLP são não assuntos. Já na Sérvia versus Kosovo a questão islâmica deixa a esquerda mais ortodoxa atordoada. A Nato interveio a favor dos muçulmanos portanto estes muçulmanos não são parecidos com os guerrilheiros libaneses. É confuso. Pelo menos na aparência, se não se for mais fundo na História. O complexo de culpa colonial também cava fundo neste aspecto.

A confusão amplia-se quando os evangélicos sulistas da Bible Belt partilham com os alter anti globalização da esquerda a mesma crença/ódio na teoria conspirativa do zionismo/bilderberguianos/banqueiros/maçons/luciferianos. O discurso dos amantes do Zeitgeist (filme que contêm interessantes questões) pode-se confundir facilmente com o discursos dos tea partiers americanos o que leva a interessantes meltdowns ideológicos.

O que é novo neste fanático norueguês para além da escala do horror, do sadismo e da frieza do planeamento e execução solitária (se foi lone ranger de facto..) é que este é favorável aos judeus, ataca, de modo articulado e não pueril, a escola de Frankfurt em que de facto se baseia a matriz do nosso multiculturalismo e tolerância civilizacional, e discute várias questões de ética e de fraqueza e capitulação em face de comportamentos de minorias que por exemplo recusam a integração ou as regras da cultura que encontraram e não se propõem a dialogar coisa alguma. É nisto que o tipo pode captar apoiantes e alguma simpatia, por agora disfarçada, mas daqui a algum tempo emergente e abertamente exposta. Toda a gente vai dizer que repudia a chacina mas...

Isto conduzir-nos-á a becos sem saída. Terríveis. Nós consagrámos a Liberdade. A fraternidade. A solidariedade. Institucionalizámos o Direito. Fomos um farol. Por isso nos procuram os refugiados. Os que fogem da tirania. Do terror. Da miséria. Não deitemos séculos de construção de valores superiores assim fora tão apressadamente. É em tempos de negrume que a luz é precisa.

Ora aqui convinha que nos norteássemos por princípios sólidos. A tolerância e o convívio com o nosso "outro" é fundamentalmente enriquecedor, o acolhimento do "outro" entre nós é um acto soberbo e digno e a Lei é para se cumprir sempre. Tão simplesmente. The Law of the Land. And our laws are generally very fair and tolerant. So abide them. Period.