um dia deste talvez venha a compreender esta coisa pós moderna da "governância" nas empresas. Para já, à pala deste conceito, um pouco por todo o mundo cresceram como hidras os orgão de controlo decisão execução planeamento supervisão...
Uma excelente desculpa para os salários e indmnizações e compensações e bónus absolutamente extraordinários e pouco católicos e pouco calvinistas.
O show particular dado nos últimos meses pela rapaziada do BCP, embora um pouco forçado pelo "outsider" Berardo, que parece ter mesmo particular prazer em ser inconveniente, é uma delícia.
Claor está a figura dos accionistas é verdadeiramente fabulosa. Parece ser necessário gostar de ser otário.
sexta-feira, agosto 10, 2007
terça-feira, julho 17, 2007
Hard Line
A concretização do negócio da compra da Chrysler pela Cerberus parece simbolizar o triunfo da visão “hard line” em Gestão. Isto é, o abandono do pós modernismo que atribuía misteriosos good will a empresas cujos activos cresciam, as despesas explodiam e as vendas eram pouco mais que anedóticas, mas as acções subiam de modo consistente e incompreensível para aqueles que foram formados na escola da análise fundamental e que nunca tinham sido seduzidos pelos head and shoulders dos programas tipo MetaStock. O crash da “economia da bolha” terminou com esses delírios. De volta ao mundo real, a aterragem da Banca, entre outros, foi dolorosa. Hoje, a exigência de resultados palpáveis, i.e. mensuráveis em dinheiro é um must. Voltámos mesmo à sabedoria mais “ancestral” de um marketing em que dos quatro pês, só o pê do preço é que é mágico porque gera cash inflow. Todos os outros representam dinheiro a sair...
A Cerberus é uma private equity com uma, aparente, estratégia de portfolio de base financeira pura e dura. Embora se consultarmos o seu website sejamos presenteados com uma linguagem mais tranquilizadora e com uma aparente vocação industrial, o carácter do negócio parece ser bem mais simples. Comprar empresas falidas e produzir um turnaround rápido e eventualmente doloroso mas eficaz. Depois a empresa pode ser recolocada no mercado para venda. A Cerberus mereceu alguma atenção, recentemente, porque segundo a Business Week comprou nos últimos tempos empresas em valor superior a dez biliões de dólares.
Em boa verdade o fenómeno não é novo. A Omnicom , a Cendant , a LVHM, são apenas alguns exemplos de empresas cuja vocação financeira aparece aliada à vocação de gestão de marcas para segmentos ou actividades específicas. Mas a base financeira é inequívoca. A exigência de rendibilidade mínima de x% por ano é imperativa. Estas empresas, algumas cotadas na bolsa outras completamente privadas, utilizam métodos de portfolio para avaliar o sucesso dos posicionamentos das empresas que titulam e, em geral, são constituídas por meia dúzia de especialistas com formação em finanças. Uma das coisas curiosas sobre estas empresas é que toda a gente é vice presidente, mas basicamente vice presidente de si próprio...
Quem sabe, este será o modelo de gestão de futuro reservado ao ocidente. Massas monetárias geridas por magos financeiros sem espírito empreendedor nem interesse pela inovação, muito menos pelos produtos e serviços, nem pelos clientes ou colaboradores, mas que garantem rendibilidades interessantes aos participantes privados/accionistas/obrigacionistas. Sob o guarda-chuva protector de marcas telúricas, criadas para que os consumidores estabeleçam relações de lealdade para além da materialidade dos produtos, numa verdadeira dimensão e domínio de transcendência, (com as quais a própria Igreja aprenderá), com produções totalmente deslocalizadas, com I&D deslocalizadas, com serviços administrativos deslocalizados, com assistência técnica e call-centers deslocalizados. Tudo a caminho das actuais periferias, permanecendo nos centros, eventualmente, apenas as private equities que gerem estas verdadeiras networks de actividades e processos como puzzles organizacionais descartáveis e efémeros e que em gestão de modo entusiasmado se tipificam como loose couplings.
Entre nós, esta visão pura e dura, assente na separação clara entre propriedade e gestão, com a gestão contratada sem eufemismos para gerar efectivo e inequívoco valor para o detentor do capital não colhe muitos adeptos. Entre nós, além dos colaboradores e dos clientes são ainda claramente preteridos os accionistas em favor dos gestores de circunstância.
Possivelmente esta visão é um bocado “dantesca” e manifestamente exagerada. Não obstante tem algumas “virtualidades” como costumam dizer algumas pessoas em politiquês. Nomeadamente, e, como membros da private equity deste país, a de permitir perguntar se existirá algum inconveniente em proceder ao outsourcing de governação desde Bangalore...
©José Manuel Fonseca
A Cerberus é uma private equity com uma, aparente, estratégia de portfolio de base financeira pura e dura. Embora se consultarmos o seu website sejamos presenteados com uma linguagem mais tranquilizadora e com uma aparente vocação industrial, o carácter do negócio parece ser bem mais simples. Comprar empresas falidas e produzir um turnaround rápido e eventualmente doloroso mas eficaz. Depois a empresa pode ser recolocada no mercado para venda. A Cerberus mereceu alguma atenção, recentemente, porque segundo a Business Week comprou nos últimos tempos empresas em valor superior a dez biliões de dólares.
Em boa verdade o fenómeno não é novo. A Omnicom , a Cendant , a LVHM, são apenas alguns exemplos de empresas cuja vocação financeira aparece aliada à vocação de gestão de marcas para segmentos ou actividades específicas. Mas a base financeira é inequívoca. A exigência de rendibilidade mínima de x% por ano é imperativa. Estas empresas, algumas cotadas na bolsa outras completamente privadas, utilizam métodos de portfolio para avaliar o sucesso dos posicionamentos das empresas que titulam e, em geral, são constituídas por meia dúzia de especialistas com formação em finanças. Uma das coisas curiosas sobre estas empresas é que toda a gente é vice presidente, mas basicamente vice presidente de si próprio...
Quem sabe, este será o modelo de gestão de futuro reservado ao ocidente. Massas monetárias geridas por magos financeiros sem espírito empreendedor nem interesse pela inovação, muito menos pelos produtos e serviços, nem pelos clientes ou colaboradores, mas que garantem rendibilidades interessantes aos participantes privados/accionistas/obrigacionistas. Sob o guarda-chuva protector de marcas telúricas, criadas para que os consumidores estabeleçam relações de lealdade para além da materialidade dos produtos, numa verdadeira dimensão e domínio de transcendência, (com as quais a própria Igreja aprenderá), com produções totalmente deslocalizadas, com I&D deslocalizadas, com serviços administrativos deslocalizados, com assistência técnica e call-centers deslocalizados. Tudo a caminho das actuais periferias, permanecendo nos centros, eventualmente, apenas as private equities que gerem estas verdadeiras networks de actividades e processos como puzzles organizacionais descartáveis e efémeros e que em gestão de modo entusiasmado se tipificam como loose couplings.
Entre nós, esta visão pura e dura, assente na separação clara entre propriedade e gestão, com a gestão contratada sem eufemismos para gerar efectivo e inequívoco valor para o detentor do capital não colhe muitos adeptos. Entre nós, além dos colaboradores e dos clientes são ainda claramente preteridos os accionistas em favor dos gestores de circunstância.
Possivelmente esta visão é um bocado “dantesca” e manifestamente exagerada. Não obstante tem algumas “virtualidades” como costumam dizer algumas pessoas em politiquês. Nomeadamente, e, como membros da private equity deste país, a de permitir perguntar se existirá algum inconveniente em proceder ao outsourcing de governação desde Bangalore...
©José Manuel Fonseca
terça-feira, julho 10, 2007
A retórica
Hoje em dia, somos bafejados pela afortunada aparição de produtos que nos oferecem quase tudo o que um cidadão da pós modernidade necessita para ser completamente feliz e integrado na sociedade e nos seus grupos. Objectos híbridos e minúsculos que nos permitem telefonar, ver filmes, assistir em directo à novela das sete, das nove, das dez e, quem sabe, mesmo e inclusive, a das onze, para além, de armazenarem as fotos dos casamentos, baptizados, festas realizadas em todo o hemisfério norte, mais os vídeos do National Geographic ou de todas as séries de conselhos práticos do it yourself do Turquemenistão, mais a nossa agenda com dezoito níveis de alarmes, para nunca esquecermos o dia em que se comemora o aniversário da primeira vez que comprámos uma garrafa de azeite no supermercado com aquela que viria a ser a nossa mulher (uma coisa que os homens tem particular tendência a não recordarem e que está na origem dos divórcios), armazenar os álbuns de músicas da nossa juventude, ter online os conselhos úteis para nos relembrarmos do que se espera de nós numa entrevista de emprego mesmo com tutorial de ensaio final, ligação automática de hora a hora ao centro de domótica lá de casa para sabermos da evolução do stock de alho francês na prateleira da esquerda do frigorífico, ligação contínua ao GPS localizado no telemóvel dos nossos filhos e com os mapas de Azeitão e Ullapool, marcação automática de consultas de reiki, monitor cardíaco, consulta de saldos do cartão de débito, planeamento fiscal...
No marketing, há muito que se fala de uma dimensão mental dos produtos. Para alem do produto em si mesmo (as suas características físicas, a electrónica ou a química da coisa, as dimensões, resistências, energias), e do produto “estendido”, com as suas assistências pós venda, garantias, peças de substituição e acessórios, há aquilo que cada um “vê” no produto. E, com correcta identificação dos segmentos de mercado e das idiossincrasias de cada um, pode-se “desenhar” a politica de comunicação adequada à motivação da acção de compra por parte de pessoas convencidas ou persuadidas que irão adquirir, por exemplo, através de um mero leitor de mp3, a entrada para a galeria dos famosos, senão do país, pelo menos do salão de cabeleireiro da paróquia. A posse dos produtos, já nem sequer estamos a falar de utilização, porque a utilização é por vezes bastante complexa e incerta, está associada, a significados que transcendem as suas características funcionais e reais. Neste sentido, assistimos à explosão da dimensão “retórica” dos produtos. À construção de mensagens que nos transportam para universos paralelos e fabulosos de fantasias mais ou menos benignas, se, nos deslocarmos a um qualquer estabelecimento e adquirirmos um magnifico e extraordinariamente exotérico seguro de acidentes pessoais ou automóvel...
No meio deste mundo admiravelmente novo emergem palavras que comportam ressonâncias arcanas e mágicas como Customer Satisfaction! Em qualquer universidade que se preze, mormente já em Bolonha, a litania da satisfação do cliente deve ser administrada como um mantra. Embora na próxima revisão da coisa se deva, quem sabe, ensinar aos alunos os simples sistemas de equações de trinta e quatro variáveis necessários para descodificar os planos de tarifários das operadoras de telecomunicações...
E, é difícil não sermos contagiados por este verdadeiro vírus da felicidade, quando passados os dois anos de garantia do produto, é mais barato comprar um produto novo que mandar reparar o antigo, sendo que o novo produto já tem mais cem milhões de pixels que o antigo, ou as rpm mais que triplicaram entretanto, ou quando, ainda dentro da garantia, apenas passados dois ou três meses de espera nos devolvem o produto completamente novo e com um chip de cem “menréis” devidamente reparado na Lapónia Oriental...
Eu confesso que, enquanto aguardo a realização do sonho de um vida inteira, de ter um telemóvel que me permita ver em cinemascope o último episódio da novela das seis, não me importava de possuir produtos que simplesmente funcionassem...
©José Manuel Fonseca
No marketing, há muito que se fala de uma dimensão mental dos produtos. Para alem do produto em si mesmo (as suas características físicas, a electrónica ou a química da coisa, as dimensões, resistências, energias), e do produto “estendido”, com as suas assistências pós venda, garantias, peças de substituição e acessórios, há aquilo que cada um “vê” no produto. E, com correcta identificação dos segmentos de mercado e das idiossincrasias de cada um, pode-se “desenhar” a politica de comunicação adequada à motivação da acção de compra por parte de pessoas convencidas ou persuadidas que irão adquirir, por exemplo, através de um mero leitor de mp3, a entrada para a galeria dos famosos, senão do país, pelo menos do salão de cabeleireiro da paróquia. A posse dos produtos, já nem sequer estamos a falar de utilização, porque a utilização é por vezes bastante complexa e incerta, está associada, a significados que transcendem as suas características funcionais e reais. Neste sentido, assistimos à explosão da dimensão “retórica” dos produtos. À construção de mensagens que nos transportam para universos paralelos e fabulosos de fantasias mais ou menos benignas, se, nos deslocarmos a um qualquer estabelecimento e adquirirmos um magnifico e extraordinariamente exotérico seguro de acidentes pessoais ou automóvel...
No meio deste mundo admiravelmente novo emergem palavras que comportam ressonâncias arcanas e mágicas como Customer Satisfaction! Em qualquer universidade que se preze, mormente já em Bolonha, a litania da satisfação do cliente deve ser administrada como um mantra. Embora na próxima revisão da coisa se deva, quem sabe, ensinar aos alunos os simples sistemas de equações de trinta e quatro variáveis necessários para descodificar os planos de tarifários das operadoras de telecomunicações...
E, é difícil não sermos contagiados por este verdadeiro vírus da felicidade, quando passados os dois anos de garantia do produto, é mais barato comprar um produto novo que mandar reparar o antigo, sendo que o novo produto já tem mais cem milhões de pixels que o antigo, ou as rpm mais que triplicaram entretanto, ou quando, ainda dentro da garantia, apenas passados dois ou três meses de espera nos devolvem o produto completamente novo e com um chip de cem “menréis” devidamente reparado na Lapónia Oriental...
Eu confesso que, enquanto aguardo a realização do sonho de um vida inteira, de ter um telemóvel que me permita ver em cinemascope o último episódio da novela das seis, não me importava de possuir produtos que simplesmente funcionassem...
©José Manuel Fonseca
segunda-feira, julho 02, 2007
A Não Comunicação
Todos os dias inventamos coisas novas e sofisticadas para evitar falarmos uns com os outros olhando-nos de frente. Parece um paradoxo na era dos telemóveis cada vez mais sofisticados e dos milhões de esseêmeesses que se trocam, dos emails, da internet 2.0 com comentários online e fóruns para tudo e para nada....
Pois é. Mas, não obstante tanta fartura e variedade, fazemos cada vez mais esforço para nos evitarmos. Claro que é impossível não comunicar como sustentou o Paul Watzlawick em divertidos, e por vezes inquietantes livros, mas nós persistimos em inventar formas de não comunicar. Sobretudo de não conversar. Simplesmente conversar sobre as coisas e sobre os problemas. Não senhora. Fazemos logo uma reunião, ou várias, com actas. E anexos. Tudo o que evite ter de enfrentar o problema e o possa reduzir a coisas que se possam arrumar em procedimentos. Idealmente desenhamos mais um belíssimo sistema de gestão documental.
E regulamentos. Regras, normas. Abstractas, impessoais. Protectoras. Aqui há uns anos, entrei numa sala de aula que tinha um aviso seco, frio e formal. “É proibido utilizar telemóveis durante os exames”. Pensei imediatamente que os alunos tinham dado algum passo em frente nas técnicas de copianço. Que algures no bar da faculdade uns comparsas de livros abertos estavam a enviar por sms as respostas ao exame. Ou que por auriculares minúsculos e disfarçados pelos cabelos e perucas recebiam as respostas vírgula a vírgula. Mas não. Não era por causa desses manhosos. Tinha acontecido que um assistente de direito, durante uma prova, se entretivera a ditar umas minutas de cartas e outras importantes deliberações, à secretaria. Que no escritório tomava notas, de forma, quiçá, pouco diligente, porque o assistente berrava desalmado e insultava a dita secretaria que possuiria apenas uma escassa percentagem do cérebro, para além de moral sexual duvidosa...
Claro que até à sexagésima fila da sala de exame (que possuía apenas dez filas...) a rapaziada teve dificuldade em se concentrar, não conseguiu responder às perguntas, agitou-se, mas evitou chamar a atenção do assistente que, já se sabe, tem a faca e o queijo senão na mão pelo menos à mão de semear. E, depois, claro está, pela calada fez queixinhas ao director da faculdade. O assunto mereceu superior consideração e, em lugar de se chamar o assistente e de lhe pedir encarecidamente que não repetisse a façanha, ou, quem sabe, perguntar-lhe se era assim um imbecil de modo consistente ou tinha sido meramente episódico o fenómeno. Não senhora. Fez-se uma regra abstracta, pública, dirigida a todos, mesmo os noventa e nove por cento dos que nunca lhes tinha passado pela cabeça serem tão idiotas. Com essa regra, insultou-se a inteligência de muitos mas, poupou-se a alguém um confronto que eventualmente poderia ser penoso e comportar angústias ou mesmo medos.
Na área da gestão de carreiras, de atribuição de recompensas, de promoções, de avaliação de desempenho também se observa este esforço insano para evitar a comunicação face a face. Evitar confrontarmo-nos com o “outro”. Temos arranjado múltiplos sistemas de pontos e critérios e ponderadores para reafirmar e sublinhar o que toda a gente sabe à partida. Mas que aparece disfarçado em fórmulas, para que não sejamos forçados a explicar as escolhas, que toda a gente sabe que já estavam feitas mas que deste modo realmente “científico” ninguém tem de argumentar.
Um dos sintomas de esquizofrenia organizacional consiste no avolumar destes procedimentos que nos protegem das ansiedades da vulgar conversa e da descoberta que o outro é um ser muito razoável e até simpático...
© José Manuel Fonseca
Pois é. Mas, não obstante tanta fartura e variedade, fazemos cada vez mais esforço para nos evitarmos. Claro que é impossível não comunicar como sustentou o Paul Watzlawick em divertidos, e por vezes inquietantes livros, mas nós persistimos em inventar formas de não comunicar. Sobretudo de não conversar. Simplesmente conversar sobre as coisas e sobre os problemas. Não senhora. Fazemos logo uma reunião, ou várias, com actas. E anexos. Tudo o que evite ter de enfrentar o problema e o possa reduzir a coisas que se possam arrumar em procedimentos. Idealmente desenhamos mais um belíssimo sistema de gestão documental.
E regulamentos. Regras, normas. Abstractas, impessoais. Protectoras. Aqui há uns anos, entrei numa sala de aula que tinha um aviso seco, frio e formal. “É proibido utilizar telemóveis durante os exames”. Pensei imediatamente que os alunos tinham dado algum passo em frente nas técnicas de copianço. Que algures no bar da faculdade uns comparsas de livros abertos estavam a enviar por sms as respostas ao exame. Ou que por auriculares minúsculos e disfarçados pelos cabelos e perucas recebiam as respostas vírgula a vírgula. Mas não. Não era por causa desses manhosos. Tinha acontecido que um assistente de direito, durante uma prova, se entretivera a ditar umas minutas de cartas e outras importantes deliberações, à secretaria. Que no escritório tomava notas, de forma, quiçá, pouco diligente, porque o assistente berrava desalmado e insultava a dita secretaria que possuiria apenas uma escassa percentagem do cérebro, para além de moral sexual duvidosa...
Claro que até à sexagésima fila da sala de exame (que possuía apenas dez filas...) a rapaziada teve dificuldade em se concentrar, não conseguiu responder às perguntas, agitou-se, mas evitou chamar a atenção do assistente que, já se sabe, tem a faca e o queijo senão na mão pelo menos à mão de semear. E, depois, claro está, pela calada fez queixinhas ao director da faculdade. O assunto mereceu superior consideração e, em lugar de se chamar o assistente e de lhe pedir encarecidamente que não repetisse a façanha, ou, quem sabe, perguntar-lhe se era assim um imbecil de modo consistente ou tinha sido meramente episódico o fenómeno. Não senhora. Fez-se uma regra abstracta, pública, dirigida a todos, mesmo os noventa e nove por cento dos que nunca lhes tinha passado pela cabeça serem tão idiotas. Com essa regra, insultou-se a inteligência de muitos mas, poupou-se a alguém um confronto que eventualmente poderia ser penoso e comportar angústias ou mesmo medos.
Na área da gestão de carreiras, de atribuição de recompensas, de promoções, de avaliação de desempenho também se observa este esforço insano para evitar a comunicação face a face. Evitar confrontarmo-nos com o “outro”. Temos arranjado múltiplos sistemas de pontos e critérios e ponderadores para reafirmar e sublinhar o que toda a gente sabe à partida. Mas que aparece disfarçado em fórmulas, para que não sejamos forçados a explicar as escolhas, que toda a gente sabe que já estavam feitas mas que deste modo realmente “científico” ninguém tem de argumentar.
Um dos sintomas de esquizofrenia organizacional consiste no avolumar destes procedimentos que nos protegem das ansiedades da vulgar conversa e da descoberta que o outro é um ser muito razoável e até simpático...
© José Manuel Fonseca
O Plano de Negócios
Parece que nos encaminhamos para a “empresarialização” das escolas públicas. Aparentemente, as escolas primárias e secundárias terão de encontrar “unidades de negócio” alternativas como forma de financiamento das suas actividades escolares e da renovação das suas instalações e equipamentos. Os professores, para além das aulas propriamente ditas, poderão ter de se preocupar com a “rentabilização” dos espaços e equipamentos. Talvez num futuro não muito distante possam também “rentabilizar” os recursos humanos, quem sabe através de inovadoras actividades de fabrico de croquetes, serviços de catering, de karaoke e de jongleurs...
No fundo nada que não ocorra já em muitos estabelecimentos por esse pais fora. Há, contudo, uma diferença entre poderem recorrer ao aluguer de espaços ao fim de semana, como forma de arredondarem os parcos orçamentos, e a “necessidade”, ou imperativo, de se preocuparem com a “rentabilização” dos recursos tornando-se mais especializados em eventos e tendo deliberadamente de concorrer com empresas vocacionadas para essa actividade. Supõe-se que, apesar desta descoberta sociológica do fascinante mundo empresarial, os professores, quem sabe alguns deles ao menos, continuem a ter como missão ensinar os alunos.
Mas, nesta onda e na trajectória, podemos ir bem mais longe. Rapidamente poderemos assistir a aproximações de marcas e empresas que poderão oferecer patrocínios apelativos. A troco da visibilidade de cartazes no interior, ou para o exterior, das escolas, as instituições poderão ter chamadas de telemóvel mais baratas, vouchers de desconto no Feira Nova, quem sabe poderão receber computadores portáteis, a troco de visionamento de publicidade nas salas de aula, poderão receber material multimédia, a troco de corners temporários poderão receber equipamentos de educação física dignos de ginásios de topo, a troco de stands permanentes e alternativas ao bar e à papelaria, podem-se assinar contratos mais completos de apoio. Daqui a presenças na sala de aula no tempo lectivo é um curto passo. E porque não manuais escolares patrocinados por marcas de chocolates, yogurtes ou de roupa cool?
O projecto educativo do ciclo da água pode ser substituído pelo importante ciclo de fabrico de ténis em qualquer sweat shop na Ásia. A circulação do sangue nos seres humanos pode ser vista em cd rom em casa e na sala de aula pode ser substituída pelo ciclo de fabrico de hambúrgueres de uma qualquer marca de franchise. Os projectos de “investigação” criadores de “competências” poderão ser apenas formas de arranjar ainda mais dinheiro para as escolas. Por exemplo, e sabiamente contornando as leis de trabalho infantil, podem-se instruir os miúdos para recolherem inquéritos de mercado preenchidos pelos alunos e famílias, e por transeuntes nas bombas de gasolina ou nos centros comerciais. Promovendo ainda uma política activa de “estágios” dos alunos no sector da macdonaldização de empregos para adolescentes. Tudo isto resultando em sérios incrementos da capacidade de interacção social dos alunos e de fortíssimo reforço da “empregabilidade” da população escolar.
Tudo isto me parece bastante legítimo e lógico. Pelo menos numa sociedade em que a preparação das crianças para a vida passe a enquadrar a preparação para os actos de consumo. Poderemos finalmente reduzirmo-nos ao momento de consumo. Sem passado e sem futuro.
© José Manuel Fonseca
No fundo nada que não ocorra já em muitos estabelecimentos por esse pais fora. Há, contudo, uma diferença entre poderem recorrer ao aluguer de espaços ao fim de semana, como forma de arredondarem os parcos orçamentos, e a “necessidade”, ou imperativo, de se preocuparem com a “rentabilização” dos recursos tornando-se mais especializados em eventos e tendo deliberadamente de concorrer com empresas vocacionadas para essa actividade. Supõe-se que, apesar desta descoberta sociológica do fascinante mundo empresarial, os professores, quem sabe alguns deles ao menos, continuem a ter como missão ensinar os alunos.
Mas, nesta onda e na trajectória, podemos ir bem mais longe. Rapidamente poderemos assistir a aproximações de marcas e empresas que poderão oferecer patrocínios apelativos. A troco da visibilidade de cartazes no interior, ou para o exterior, das escolas, as instituições poderão ter chamadas de telemóvel mais baratas, vouchers de desconto no Feira Nova, quem sabe poderão receber computadores portáteis, a troco de visionamento de publicidade nas salas de aula, poderão receber material multimédia, a troco de corners temporários poderão receber equipamentos de educação física dignos de ginásios de topo, a troco de stands permanentes e alternativas ao bar e à papelaria, podem-se assinar contratos mais completos de apoio. Daqui a presenças na sala de aula no tempo lectivo é um curto passo. E porque não manuais escolares patrocinados por marcas de chocolates, yogurtes ou de roupa cool?
O projecto educativo do ciclo da água pode ser substituído pelo importante ciclo de fabrico de ténis em qualquer sweat shop na Ásia. A circulação do sangue nos seres humanos pode ser vista em cd rom em casa e na sala de aula pode ser substituída pelo ciclo de fabrico de hambúrgueres de uma qualquer marca de franchise. Os projectos de “investigação” criadores de “competências” poderão ser apenas formas de arranjar ainda mais dinheiro para as escolas. Por exemplo, e sabiamente contornando as leis de trabalho infantil, podem-se instruir os miúdos para recolherem inquéritos de mercado preenchidos pelos alunos e famílias, e por transeuntes nas bombas de gasolina ou nos centros comerciais. Promovendo ainda uma política activa de “estágios” dos alunos no sector da macdonaldização de empregos para adolescentes. Tudo isto resultando em sérios incrementos da capacidade de interacção social dos alunos e de fortíssimo reforço da “empregabilidade” da população escolar.
Tudo isto me parece bastante legítimo e lógico. Pelo menos numa sociedade em que a preparação das crianças para a vida passe a enquadrar a preparação para os actos de consumo. Poderemos finalmente reduzirmo-nos ao momento de consumo. Sem passado e sem futuro.
© José Manuel Fonseca
quarta-feira, junho 20, 2007
Tradição
Existe um sitio onde aqueles que podem mandar o fazem com particular, e tradicional, desconsideração dos demais. Neste periodo antes das férias estivais torna-se mais saliente esta tradição de aviltamento da dignidade dos outros. Existem populações inteirinhas que aguardam ansiosas o descortinar se continuarão a constituir fauna da Instituição no ano lectivo seguinte. Eu, por mim, admiro profundamente os seres titânicos que títulam, deste modo soberano, a vida dos outros. E, claro está não há míngua de criaturas que esperam venerandas a suprema e sábia decisão sobre o seu direito à vidinha e à sopinha. Há, claro está, também os mal agradecios, os mal formados que já preparam o processozinho em tribunal...
Os que mandam, entretanto, não comunicam uns com os outros pelo que de vez em quando saem "novidades" e contra novidades num circuito particularmente esquizofrénico. É um sitio onde a teoria do double bind do Bateson ganha um significado novo. Dir-seia mesmo uma banalização assinalável.
O que seria da nossa vida sem aquela grande inovação das gargalhadas enlatadas.
Os que mandam, entretanto, não comunicam uns com os outros pelo que de vez em quando saem "novidades" e contra novidades num circuito particularmente esquizofrénico. É um sitio onde a teoria do double bind do Bateson ganha um significado novo. Dir-seia mesmo uma banalização assinalável.
O que seria da nossa vida sem aquela grande inovação das gargalhadas enlatadas.
segunda-feira, junho 11, 2007
e todos comeram dos restos do banquete...
ainda há dias tive de comparecer numa daquelas sessões de fustigação que se constituem rituais de sofrimento desnecessário... finalmente compareceu o senhor morgado que informou a plebe que há restos de comida para todos os que decidirem passar da penhora do ser para o rastejar definitivo e sem eufemismos....
não faltou quem ficasse venerando e agradecido...eu por mim sempre pensei que o feudalismo era coisa dos livros de história mas afinal é de beija mão e genuflexão bem vivinha da silva....
não faltou quem ficasse venerando e agradecido...eu por mim sempre pensei que o feudalismo era coisa dos livros de história mas afinal é de beija mão e genuflexão bem vivinha da silva....
segunda-feira, maio 14, 2007
Agora que se aproxima o Exam...
retorna o famoso Dicionário de Economia e Gestão para candidatos à McKinsey*
* com o patrocínio do Domestos III sabor a Maracujá e sobre o livro do Economist Guide To Management Ideas do genial Tim Hindle
* com o patrocínio do Domestos III sabor a Maracujá e sobre o livro do Economist Guide To Management Ideas do genial Tim Hindle
ETA Zurich 13:42
É aparentemente difícil aceitar que a jornada não possui destino final que possamos conhecer antecipadamente. Que a cada manobra, criamos colectivamente infinitas possibilidades de portos ou apeadeiros finais sem que se vislumbre qualquer deles. Aparentemente, não concebemos que o prazer está na jornada e não na chegada. Porventura, o que nos resta tem então a ver com a qualidade da participação na viagem, e não com a possibilidade de melhorar o planeamento da rota.
E Deus? Perguntam algumas pessoas de vez em quando. Bom, há lugar para Deus. Não o Deus das cartas e rotas pré-definidas e totalitariamente acabadas. Mas o Deus da possibilidade e da escolha de viajar.
E Deus? Perguntam algumas pessoas de vez em quando. Bom, há lugar para Deus. Não o Deus das cartas e rotas pré-definidas e totalitariamente acabadas. Mas o Deus da possibilidade e da escolha de viajar.
quinta-feira, maio 10, 2007
Normalidade
Não sei se já repararam mas todos temos acesso a uma distribuição normal de moscas...
Isto é, por um lado não há maneira de evitar que os ricos tenham acesso gratuito à sua dose de moscas, mas por outro lado, os ricos por mais que se esforcem não consegue monopolizar as moscas todas para si. É uma coisa que dificilmente os próceres da economia mais fundamental terão oportunidade de privatizar.
De igual modo quando fenecemos todos temos igual direito a apodrecer e a uma dose razoável de vermes que tomam por pitéu o invólucro em que circulamos na nossa existência ...e não há maneira de alguns de nós cheirarem a Channel 5 depois de bater a bota....
é reconfortante...
Isto é, por um lado não há maneira de evitar que os ricos tenham acesso gratuito à sua dose de moscas, mas por outro lado, os ricos por mais que se esforcem não consegue monopolizar as moscas todas para si. É uma coisa que dificilmente os próceres da economia mais fundamental terão oportunidade de privatizar.
De igual modo quando fenecemos todos temos igual direito a apodrecer e a uma dose razoável de vermes que tomam por pitéu o invólucro em que circulamos na nossa existência ...e não há maneira de alguns de nós cheirarem a Channel 5 depois de bater a bota....
é reconfortante...
sábado, maio 05, 2007
A Injunção
Um dos problemas mais dramáticos que enfrentamos é o risco enorme que corremos de ser felizes. De modo que, por todo o lado, se observa um esforço titânico para minorar significativamente esse horizonte. Por vezes, este esforço, chega ao nível de assinalável profissionalismo. Mas são ainda poucos os que obedecem ao imperativo de um esforço continuado e sistemático de vigilância. A maior parte de nós é pouco diligente na redução desse risco.
segunda-feira, abril 30, 2007
É compreensível
mas nunca deixa de ser triste, quando um mancebo pensa que Roma passou a pagar a miseráveis delatores.
sexta-feira, abril 27, 2007
O momento
À escala do tempo atómico, a pequena perturbação introduzida pelos recentes acontecimentos políticos não será registada por nenhum observador galáctico. Infelizmente, tratamos de assuntos menores e com figurantes de opereta numa companhia que já se arrasta penosamente por feiras de província. Não obstante, para aqueles mais motivados para assuntos de intendência, a coisa é séria. Mas, bem vistas as coisas, a sucessão será uma questão de zapping. Em breve, a estes pantomineiros seguir-se-ão outros de igual qualidade, e, a encenação será de novo facilitada pela fraca audiência cuja exigência é apenas que as pipocas estejam quentes.
O Dia de Todas as Excitações - O tribuno
É para dias como o de hoje que este blogue existe. Dias ímpares na tugalândia. Dias em que nos aproximamos do céu. Não o céu dos poetas, mas um proxy. O céu dos figurões. Alguém sentirá, ou está já a sentir, o inebriente caminhar nas nuvens. Elevado ao clube dos eleitos. Não pelo voto dos energúmenos mas pela escolha dos seus pares. Em circunstâncias destas, é sabido que a visão se torna em farsight, o ouvido médio passa a sintonizar música celestial. O cérebro sofre mutações e convulsões. O Ser cresce mesmo alguns centímetros. Relativizam-se as coisas espúrias. Estas alvas e castas figuras elevam-se acima do Monte Olimpo e revela-se-lhes em toda a sua beleza o segredo da vida politica. É a verdadeira ascensão ao grau trinta e oito do segredo dos pedreiros livres. Para nós que ficamos cá em baixo, a olhar o vazio e os, ocasionais, pontos brilhantes, quais estrelas cadentes, só nos resta tomar como nosso o êxtase alheio....na certeza que amanhã, ou quiçá depois de amanhã, uma vez que mais uma vez temos a hipótese de resgatar a nossa impotência numa vitória efémera de futebol, poderemos voltar ao quotidiano mais descolorido mas perene e certo. Menos excitante, mas conhecido, menos desafiante , mas para o qual já construimos variadíssimos mecanismos de defesa.
e não é que somos de novo favorecidos pela bondade do tribuno em perder tempo connosco?! Bem haja.
e não é que somos de novo favorecidos pela bondade do tribuno em perder tempo connosco?! Bem haja.
terça-feira, abril 24, 2007
Reposta a estabilidade
está quase reposta a normalidade certificada. O túnel abre ao público e aos veículos. O Portas voltou ao PP. O Pinto da Costa lançou um livro. O Isaltino não se demite. A Universidade (?!) Independente será substituida por outra sendo a primeira fechada num acto digno da proposição sublinhada pelo Watzlawick. Se cumple pero no se hace.
terça-feira, abril 17, 2007
de uma vez por todas
Ontem decorreu mais um debate sobre temas de importância crucial. Mais uma uma vez se apelou a que se resolvessem questões de uma vez por todas. Mais um exercício inútil de retórica, que nunca acabará nem de uma vez por todas...
sexta-feira, abril 13, 2007
Coito Interruptus
Uma das consequências do fenómeno Independente e diplomas sem livros de termos foi a questão da pressão a que alegadamente foram sujeitos os querubins, perdão, os directores de alguns meios de comunicação. Ficámos a saber que houve pressão mas não foram condicionados. Estamos mais tranquilos. Portanto o acto não foi levado até ao fim. Nenhum dos cidadãos corre o risco de emprenhar.
terça-feira, abril 10, 2007
O fio de prumo
O meu pai um dia, a propósito de um comentário meu, virou-se para mim e disse-me que eu nunca deveria alugar o meu cérebro a ideias de outros nem fazer trespasse da minha dignidade por dinheiro algum. Na altura, era eu estudante universitário, ficaram-me retidas as metáforas. E, claro está o sentido da coisa. Hoje, eu próprio começo a ser questionado pelos meus filhos, estando na altura de lhes começar a transmitir valores à medida que a atenção deles se desloca, por vezes...., do gameboy para o que acontece na sociedade à volta deles. Claro que já se falou do diploma mais famoso deste país. E claro está que eu recomendo vivamente que se esforcem e dignifiquem a sua vida com a progressão das suas aprendizagens. Claro está que não me mostro excessivamente entusiasmado quando me dizem que foram os melhores da turma, e digo sempre que a mim e à mãe basta que se tenham esforçado honesta e diligentemente. Os resultados acontecem com naturalidade como resultado do esforço e da honestidade, que não é preciso ser sempre o melhor em tudo nem em nada. Claro está que mais cedo ou mais tarde me podem perguntar se no final isso é assim tão importante e mesmo necessário. Claro está que nessa altura se calhar me posso lembrar doutra vez em que o meu pai me disse que apesar de ser perfeitamente possível viver como uma puta (e ele sempre se referia àqueles e àquelas que vendiam outras coisas que não a carne...) mas que no fim da vida quando olhamos para trás poderemos sentir vergonha ou orgulho ou alívio ou satisfação. Tudo dependia do que queriamos sentir quando estivessemos na vêspera do fim. Pode ser divertido ser capa de revista cor de rosa ou mesmo cor de merda mas deve ser fodido passar a vida a esconder os fantasmas no armário.
quinta-feira, abril 05, 2007
O lodaçal e a porcalhota
Nos últimos dias temos assistido a uma novela deveras hilariante. A intriga, a trama é excelente. Os personagens também são óptimos. E quase todos os dias há uma pequena variação que mantém a tensão e a possibilidade de surpresa e reviravolta.
Já mete dó a involuntária participação do senhor ministro da Ciência em figuração, que é de facto incómoda, no papel de ceguinho. Tem de conseguir um equilíbrio de trapezista. Não enterrar mais o chefe no lodaçal da coisa e tentar sair ileso da dita cuja. Quadrar círculos foi sempre coisa delicada. O chefe por enquanto reservado aparecerá no final como herdeiro da fortuna da tia Genoveva ou como detentor do genuíno coelho da cartola. Lugar maldito parece ser o de reitor. Finalmente terá sido ocupado por um cavalheiro doutorado embora ainda na semana passada. A lista de ex alunos da bendita universidade é notável. A lista de ex professores aparentemente também. Igualmente notável a lista de doutores da mula ruça que eventualmente terão, pelo menos, acabado o liceu mas que foram ou serão potenciais vice reitores quando não mesmo reitores da coisa.
No meio desta ópera bufa é bem possível que a audiência comece a suspeitar que a Universitas é afinal um local de comédia e de gajos cuja característica estatística mais saliente é que dão peidos e arrotos. Pelo menos assim parece. E não há maneira de alguém contrariar a flatulência...
Convinha manter o carnaval quotidiano mas, quiçá, evitar descer já para a porcalhota assim de modo tão abrupto.
Já mete dó a involuntária participação do senhor ministro da Ciência em figuração, que é de facto incómoda, no papel de ceguinho. Tem de conseguir um equilíbrio de trapezista. Não enterrar mais o chefe no lodaçal da coisa e tentar sair ileso da dita cuja. Quadrar círculos foi sempre coisa delicada. O chefe por enquanto reservado aparecerá no final como herdeiro da fortuna da tia Genoveva ou como detentor do genuíno coelho da cartola. Lugar maldito parece ser o de reitor. Finalmente terá sido ocupado por um cavalheiro doutorado embora ainda na semana passada. A lista de ex alunos da bendita universidade é notável. A lista de ex professores aparentemente também. Igualmente notável a lista de doutores da mula ruça que eventualmente terão, pelo menos, acabado o liceu mas que foram ou serão potenciais vice reitores quando não mesmo reitores da coisa.
No meio desta ópera bufa é bem possível que a audiência comece a suspeitar que a Universitas é afinal um local de comédia e de gajos cuja característica estatística mais saliente é que dão peidos e arrotos. Pelo menos assim parece. E não há maneira de alguém contrariar a flatulência...
Convinha manter o carnaval quotidiano mas, quiçá, evitar descer já para a porcalhota assim de modo tão abrupto.
domingo, março 18, 2007
A ascensão do irrelevante fútil
Fascinante o número de objectos que adquirimos e as suas propriedades mágicas. Há tempos tive de trocar a pilha num relógio. Aparentemente o dito tinha de ser enviado para longe por forma a que pessoal especializado procedesse à troca da pilha repondo a "estanquicidade" da caixa, possibilitando de "novo" que o relógio mergulhasse a 200 metros de profundidade. Toda esta operação custava o suficiente para adquirir dois ou três relógios novos e demorava pelo menos umas semanas... Em alternativa gastava uma quantia insignificante e fazia logo ali, no relojoeiro, a troca da pilha e o relógio continuava a dar horas...
Ora como nunca o bendito relógio mergulhara a "200 metros".... a coisa ficou logo ali resolvida....
Depois, olho em redor e tenho forma de arquivar a história de vida da população inteirinha do hemisfério norte. Mais as fotografias das respectivas famílias nos últimos seis séculos e os videos das festas de anos e de Natal. Possuo numa única divisão da casa mais capacidade de armazenamento de informação que o governo norte americano dispôs na década de sessenta no período do psicopata que comandou o FBI...
toda esta capacidade de armazenamento de informação jaz por aqui e por ali...
presumivelmente nunda darei uso (ou bom uso) a tantos teras de capacidade, mas parece haver um conforto em tanta redundância e tanto excesso....
Ora como nunca o bendito relógio mergulhara a "200 metros".... a coisa ficou logo ali resolvida....
Depois, olho em redor e tenho forma de arquivar a história de vida da população inteirinha do hemisfério norte. Mais as fotografias das respectivas famílias nos últimos seis séculos e os videos das festas de anos e de Natal. Possuo numa única divisão da casa mais capacidade de armazenamento de informação que o governo norte americano dispôs na década de sessenta no período do psicopata que comandou o FBI...
toda esta capacidade de armazenamento de informação jaz por aqui e por ali...
presumivelmente nunda darei uso (ou bom uso) a tantos teras de capacidade, mas parece haver um conforto em tanta redundância e tanto excesso....
quinta-feira, março 15, 2007
As Classes e a falta de classe
Ainda hoje um amigo meu me chamou a atenção para as classes na nossa sociedade e para a fraca mobilidade social. Existem, para mim, pelo menos duas classes. Uma que parece estar vacinada à partida e por definição. Estas pessoas por natureza e com naturalidade circulam entre ocupações e postos independentemente da sua competência ou vocação. Estas pessoas possuem uma espécie de direito natural a ganhar uma remuneração pela simples razão que existem e ocupam espaço físico e temporal. Reajem muito mal às manifestações de terceiros pela mesma sinecura que parecem possuir sem necessidade de justificação.
Ainda esta semana fui muito desagradavelmente surpreendido por uma destas criaturas. Aparentemente, eu, membro inequívoco da outra classe, a que tem de se penitenciar e pedir desculpa por existir e por usufruir de um income em troco do seu trabalho, portanto uma classe que tem de expiar uma "culpa cristã" sem hipótese de redenção, fui amavelmente aconselhado a sacrificar-me pela "Instituição" em que ocasionalmente a criatura desempenha magnificas funções. Mais, estaria eu em débito irresolúvel e perene por a "Instituição" me ter "aceite de volta" quando há algum tempo eu miseravelmente trai a "confiança" depositada em mim e saí. O facto de por defeito ou por mérito ficar sempre entre os melhores avaliados na bendita "instituição" de ter um passado na dita, parece não contar. O tempo é, assim, sempre o presente e o potencial no futuro. Mas, para a outra classe, a das criaturas, nem sequer existe essa dimensão de tempo. São imortais. São verdadeiros titãs e seres arcanos. Na feira de carcavelos podem-se comprar em bonequinhos. Sem classe nenhuma.
Ainda esta semana fui muito desagradavelmente surpreendido por uma destas criaturas. Aparentemente, eu, membro inequívoco da outra classe, a que tem de se penitenciar e pedir desculpa por existir e por usufruir de um income em troco do seu trabalho, portanto uma classe que tem de expiar uma "culpa cristã" sem hipótese de redenção, fui amavelmente aconselhado a sacrificar-me pela "Instituição" em que ocasionalmente a criatura desempenha magnificas funções. Mais, estaria eu em débito irresolúvel e perene por a "Instituição" me ter "aceite de volta" quando há algum tempo eu miseravelmente trai a "confiança" depositada em mim e saí. O facto de por defeito ou por mérito ficar sempre entre os melhores avaliados na bendita "instituição" de ter um passado na dita, parece não contar. O tempo é, assim, sempre o presente e o potencial no futuro. Mas, para a outra classe, a das criaturas, nem sequer existe essa dimensão de tempo. São imortais. São verdadeiros titãs e seres arcanos. Na feira de carcavelos podem-se comprar em bonequinhos. Sem classe nenhuma.
segunda-feira, março 12, 2007
A ilusão
uma das coisas que me interessa, é a criação de realidades imaginária, através das quais as pessoas racionalizam o que lhes acontece no quotidiano, e as ameaças que sentem advir de uma realidade fragmentada, imprevisível e sem vinculação aparente entre as coisas. O post anterior ilustra os rituais de "qualidade" que nos atormentam mas que diligentemente e sem sentido crítico (só às escondidas e com pessoas de confiança ou em voz baixinha...) deixamos correr sem questionar da irracionalidade da liturgia e da litania e, sobretudo sem perguntar onde está a qualidade que era suposto resultar disto tudo. Mas, noutras áreas de sofrimento humano também nos deixamos ir atrás de realidades virtuais. Outra palavra mágica é a "mudança". Porquê? porque sim. Basicamente toda a gente sabe que tem de mudar. Porquê e para quê aparentemente ninguém sabe a não ser que mobilize como justificação outras abstracções. A eficiência. O progresso. A modernidade. A sobrevivência. Como se medem estas coisas? Como se evidenciam? Ninguém parece saber ou concordar....
sexta-feira, março 09, 2007
Psicopatia Geral
De vez em quando meto-me em sarilhos. Quer isto dizer que de vez em quando meto-me no meio de processos e projectos com chancela de qualidade e subsidiados pela União Europeia através de uma qualquer das suas incontáveis directorias e subdirectorias e agências e comissões e grupos e comités ou outra qualquer designação. Nas duas últimas semanas tive de dar uma formação (um dia inteirinho) a dois grupos de seres humanos. Em negociação e aspectos associados com a persuasão e vendas e compras de utensílios domésticos ou maquinaria e alfaias agrícolas.
No início da sessão distribuí um questionário de avaliação de conhecimentos que se repetia no fim da sessão. É, naturalmente, suposto que uma atenta análise comparativa entre os dois questionários assinale, evidencie, demonstre uma evolução durante o dia, mercê da excepcional formação "recebida"... é, portanto, suposto que a formação ilumine as almas e o caminho teleológico daquelas pessoas que sem, aquela formação em concreto, teriam como destino, eventualmente, o negrume do falhanço social económico familiar e pessoal. Através de múltiplas sessões de formação como aquela, e da óbvia evidência da progressão, as pessoas resgatam-se do desespero. Qualificam-se. Elevam-se.
Claro que além deste questionário há ainda mais papelada para preencher. Utilíssima. O formador, será julgado pelos formandos. Pode-se dar o caso do formador não possuir qualidades suficientes para ajudar, no processo de elevação ao nirvana, daquelas pessoas. O formador também deve preencher uma folhinha por cada formando. Pode-se dar o caso do formando não vislumbrar a genialidade do sistema e de não ser merecedor da participação nestes benfazejos cursos e processos. Há ainda as folhas de presenças, as folhas de sumário por sessão, as folhas de objectivos por sessão, o plano da sessão propriamento dito e as folhas de incidentes e anomalias e não conformidades, bem como o relatório final.
Dúvido, claro está, que algum destes inquéritos passados em milhares de formações não demonstre que os formandos melhoraram imenso (num único dia...), que os formadores não sejam todos quase semi deuses, e que os formandos não tenham demonstrado enorme empenho, dedicação, atenção, vontade de aprender e particpação construtiva.
Claro está, uma parte substantiva da sessão de formação é gasta a preencher esta papelada que no final será inspeccionada e terá de bater a bota com a perdigota...
No início da sessão distribuí um questionário de avaliação de conhecimentos que se repetia no fim da sessão. É, naturalmente, suposto que uma atenta análise comparativa entre os dois questionários assinale, evidencie, demonstre uma evolução durante o dia, mercê da excepcional formação "recebida"... é, portanto, suposto que a formação ilumine as almas e o caminho teleológico daquelas pessoas que sem, aquela formação em concreto, teriam como destino, eventualmente, o negrume do falhanço social económico familiar e pessoal. Através de múltiplas sessões de formação como aquela, e da óbvia evidência da progressão, as pessoas resgatam-se do desespero. Qualificam-se. Elevam-se.
Claro que além deste questionário há ainda mais papelada para preencher. Utilíssima. O formador, será julgado pelos formandos. Pode-se dar o caso do formador não possuir qualidades suficientes para ajudar, no processo de elevação ao nirvana, daquelas pessoas. O formador também deve preencher uma folhinha por cada formando. Pode-se dar o caso do formando não vislumbrar a genialidade do sistema e de não ser merecedor da participação nestes benfazejos cursos e processos. Há ainda as folhas de presenças, as folhas de sumário por sessão, as folhas de objectivos por sessão, o plano da sessão propriamento dito e as folhas de incidentes e anomalias e não conformidades, bem como o relatório final.
Dúvido, claro está, que algum destes inquéritos passados em milhares de formações não demonstre que os formandos melhoraram imenso (num único dia...), que os formadores não sejam todos quase semi deuses, e que os formandos não tenham demonstrado enorme empenho, dedicação, atenção, vontade de aprender e particpação construtiva.
Claro está, uma parte substantiva da sessão de formação é gasta a preencher esta papelada que no final será inspeccionada e terá de bater a bota com a perdigota...
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Prazer
Estou neste preciso momento a assistir à defesa de uma monografia de mestrado por uma pessoa que orientei. E há momentos, como docentes, em que sentimos um certo orgulho. Este é um deles. É clarissímo que o candidato nada me deve em termos da excelência da defesa que está a produzir. Nem sequer em termos do trabalho que apresenta, embora o tenha elaborado no quadro de teorias e métodos que eu subscrevo e de que até possuo laivos de autoria, mas no fundo isso é irrelevante.
Eu estou apenas orgulhoso de ter podido ajudar e estar associado ao seu trabalho. É raro ver um professor agradecer aos alunos que teve o simples facto de o terem sido. É o que eu pretendo fazer quando chegar a minha vez de falar.
Eu estou apenas orgulhoso de ter podido ajudar e estar associado ao seu trabalho. É raro ver um professor agradecer aos alunos que teve o simples facto de o terem sido. É o que eu pretendo fazer quando chegar a minha vez de falar.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Surrealismo e infelicidade
lá terá de ser...pode bem caracterizar a atitude e a emoção que me assalta neste momento. Estou no meio duma "infindável" reunião cujo horizonte se espraia se estende se expande até pelo menos ao meio dia e meia... nesta reunião estão contidas as razões pelas quais a Europa está a perder todo o balanço em relação à China e aos Estados Unidos...
É, claro está, uma reunião cheia de "boas vontades" e, em que um conjuto absolutamente irrepreensível (e absurdo...e claustrofóbico) de procedimentos pretende substituir o "mercado". O que se traduz numa retórica absolutamente inenarrável de paternalismos e presunções e água benta...
Isto tudo, tem tendência a produzir "realidades" que batem certinho no universo fictício da "papelada", que helás, agora já é digital.
É, claro está, uma reunião cheia de "boas vontades" e, em que um conjuto absolutamente irrepreensível (e absurdo...e claustrofóbico) de procedimentos pretende substituir o "mercado". O que se traduz numa retórica absolutamente inenarrável de paternalismos e presunções e água benta...
Isto tudo, tem tendência a produzir "realidades" que batem certinho no universo fictício da "papelada", que helás, agora já é digital.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Carnaval
No meu outro blogue em que um dos motes é que neste país é carnaval todos os dias, vai sendo difícil arranjar posts que se distingam da banalização do carnaval quotidiano em que vivemos. Todos os dias há desfiles em múltiplos e variados locais e momentos e com personagens inusitadas ou habituais. Só que já são tantos e ao mesmo tempo que é impossível manter um registo de todos.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
A propósito
da onda de excitação que invade uma certa, ou melhor, certos extractos da intelligentsia lusa, à esquerda ou à direita com a eleição de figurantes das peças de teatro já executadas, também tenho um pequeno contibuto. Não que seja especialista na coisa. Nem por sombras. E fico mesmo quase constrangido perante gente que deve ter lido o Pascoaes, mais o Pessoa, o Vieira, o Mattoso, o Lourenço, o Cortesão, o António José, ou pelo menos a monografia do Miguel Real.
Eu confesso desde já que dei uma vista de olhos. Mas foi de vistas curtas. E, estou seguro, que deve haver aqueles que foram ainda mais dentro da problemática e tem o António Quadros e o Pinharanda Gomes. Eu, por mim, já saber enunciar estes heróis do Joachim dei Fiori é um monumental achievment.
Mas regressando ao Salazar. Parece que o homem teve inúmeras virtudes e pairou acima da carne do pecado e da tentação. Quase um santo, que nos deixou largamente abastecidos de poupanças, economias de uma vida de asceta que impôs com grande gosto aos demais sem cuidar de lhes escutar preferências ou opiniões. Foi, isso é certo, um grande gestor das invejazinhas entre os industriais e banqueiros. Esse mérito ninguém o pode retirar. Dividir para reinar é um truque de prestigitador bastante conhecido qualquer manual de estratégia do it youself nos diz isso. Mas entre o enunciar e o fazer há um mundo de obstáculos. Que o nosso herói foi ultrapassando até à malograda queda e metafórica cadeira. O nosso herói foi um magnifico gestor da adrenalina nacional, da seiva da lusitaniedade, a invejazinha que nos corrói. Sempre desejámos ao "outro" que amouchasse com o focinho no chão como nós. E isso parece que o psicólogo Salazar compreendeu muito bem. Tanto melhor. Venham mais beatos como ele. Mantenham o aeroporto aberto.
Eu confesso desde já que dei uma vista de olhos. Mas foi de vistas curtas. E, estou seguro, que deve haver aqueles que foram ainda mais dentro da problemática e tem o António Quadros e o Pinharanda Gomes. Eu, por mim, já saber enunciar estes heróis do Joachim dei Fiori é um monumental achievment.
Mas regressando ao Salazar. Parece que o homem teve inúmeras virtudes e pairou acima da carne do pecado e da tentação. Quase um santo, que nos deixou largamente abastecidos de poupanças, economias de uma vida de asceta que impôs com grande gosto aos demais sem cuidar de lhes escutar preferências ou opiniões. Foi, isso é certo, um grande gestor das invejazinhas entre os industriais e banqueiros. Esse mérito ninguém o pode retirar. Dividir para reinar é um truque de prestigitador bastante conhecido qualquer manual de estratégia do it youself nos diz isso. Mas entre o enunciar e o fazer há um mundo de obstáculos. Que o nosso herói foi ultrapassando até à malograda queda e metafórica cadeira. O nosso herói foi um magnifico gestor da adrenalina nacional, da seiva da lusitaniedade, a invejazinha que nos corrói. Sempre desejámos ao "outro" que amouchasse com o focinho no chão como nós. E isso parece que o psicólogo Salazar compreendeu muito bem. Tanto melhor. Venham mais beatos como ele. Mantenham o aeroporto aberto.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Tem dias
em que é muito difícil fingir que somos idiotas e que acreditamos nas peças de teatro em que, segundo o Goffman, participamos na nossa vida social. Alguém me devia ter avisado que à medida que se vai envelhecendo estes papéis que temos de desempenhar são, crescentemente, cansativos e monótonos.
A natureza humana e a sua condição são bem mais simples que o que parecem. Qualquer observador distraído ao fim de algumas repetições começa a notar regularidades. Ter de fingir que se acredita que um qualquer figurante da peça em representação está preocupadissímo com os seus concidadãos começa a requerer uma dose de energia que já não está à mão de semear. A dramaturgia é, afinal, muito mais pobre do que se supunha. Os encenadores são medíocres, os actores bastante amadores e a cenografia está a cair aos pedaços. Fingir que se leva isto mesmo a sério é o diabo. Eu confesso que me é penoso. Tem momentos em que nem sei como é que ainda não me desmancho a rir incontrolavelmente.
A natureza humana e a sua condição são bem mais simples que o que parecem. Qualquer observador distraído ao fim de algumas repetições começa a notar regularidades. Ter de fingir que se acredita que um qualquer figurante da peça em representação está preocupadissímo com os seus concidadãos começa a requerer uma dose de energia que já não está à mão de semear. A dramaturgia é, afinal, muito mais pobre do que se supunha. Os encenadores são medíocres, os actores bastante amadores e a cenografia está a cair aos pedaços. Fingir que se leva isto mesmo a sério é o diabo. Eu confesso que me é penoso. Tem momentos em que nem sei como é que ainda não me desmancho a rir incontrolavelmente.
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
O meu pai
faria hoje 76 anos. E faz, hoje. exactamente nove meses que ele morreu. Era a pessoa mais generosa que eu conheci, tinha um sentido de humor terrível e paradoxal, uma parte do qual consegui herdar. A generosidade e a capacidade de perdoar é que não herdei. Uma vez, tinha eu uns quinze anos, a caminho do monte no Alentejo, parou o carro saiu e mandou-me fechar os olhos, perguntou-me o que é que eu via. Nada. Pois é isso mesmo que vais herdar de mim, vou dar-te o que puder em vida, mas não esperes grandes heranças. Deu-me um mundo em vida. Outra vez, já eu era adulto e pai, pergutou-me se eu ficava aborrecido com o facto de ele dar dinheiro a pessoas da família e a amigos ou pessoas que simplesmente precisavam de ajuda. Como se eu tivesse direito a reclamar ou tivesse o direito de realmente ficar aborrecido. Fiquei um pouco embaraçado e sem saber o que dizer. Que o dinheiro era dele, que eu não tinha nada a ver com isso. Mas ele fitou-me e voltou à carga. Apeteceu-me abraça-lo e dizer que era um pai sem igual. Mas um gajo nestas ocasiões mantêm sempre a puta da compustura e voltei a dizer-lhe as mesmas merdas que já tinha dito. Podia ter-lhe dito que raramente se conhecem pessoas como ele, com capacidade de olhar realmente para o "outro" e para o compreender sem julgar, que ele encarava as dificuldades da vida com resignação mas sempre rindo-se na cara da adversidade, o que nos dava um suplemento de coragem.
As memórias já vão sendo mais doces, embora me custe ainda escrever sobre ele. Lembro-me de um dia chegar a casa e ele estar com o neto, o meu filho mais velho, sentados no chão da sala reordenando por cores os cd's que estavam espalhados num mar... devo ter ficado embasbacado e chateado, eles olharam pra mim encolheram os ombros e continuaram...
Nunca lhe ouvi nenhuma recriminação aos muitos que se aproveitaram da generosidade dele nunca devolvendo empréstimos. Nunca lhe ouvi expectativa de reconhecimento ou de agradecimento de terceiros. Fazia porque achava que devia fazer. Dava porque achava que devia dar e sempre sem expectativa que alguém sequer viesse agradecer. Nunca aguardou louvor. Pediu-me, quando me tornei adulto, que não me vendesse. Foi quando me contou a história do meu avô, o pai dele, e me relembrou episódios da vida dele. Não aceitar dinheiro que não tem o nosso nome. Não trocar por dinheiro a nossa dignidade, a nossa consciência a nossa alma. Obrigado pai por me teres ensinado que há um conforto gigantesco em podermos olhar os outros nos olhos, podermos circular por aí de queixo levantado mesmo que a roupa que podemos vestir já não estejam na moda e o orçamento seja curto para parecermos o que nunca fomos.
Gostaria apenas de vir a ser, para os meus filhos, um bocadinho daquilo que ele foi para mim. Se isso acontecer terei sido um ser humano decente. Ele era excepcional. E eu tenho muitas saudades dele.
As memórias já vão sendo mais doces, embora me custe ainda escrever sobre ele. Lembro-me de um dia chegar a casa e ele estar com o neto, o meu filho mais velho, sentados no chão da sala reordenando por cores os cd's que estavam espalhados num mar... devo ter ficado embasbacado e chateado, eles olharam pra mim encolheram os ombros e continuaram...
Nunca lhe ouvi nenhuma recriminação aos muitos que se aproveitaram da generosidade dele nunca devolvendo empréstimos. Nunca lhe ouvi expectativa de reconhecimento ou de agradecimento de terceiros. Fazia porque achava que devia fazer. Dava porque achava que devia dar e sempre sem expectativa que alguém sequer viesse agradecer. Nunca aguardou louvor. Pediu-me, quando me tornei adulto, que não me vendesse. Foi quando me contou a história do meu avô, o pai dele, e me relembrou episódios da vida dele. Não aceitar dinheiro que não tem o nosso nome. Não trocar por dinheiro a nossa dignidade, a nossa consciência a nossa alma. Obrigado pai por me teres ensinado que há um conforto gigantesco em podermos olhar os outros nos olhos, podermos circular por aí de queixo levantado mesmo que a roupa que podemos vestir já não estejam na moda e o orçamento seja curto para parecermos o que nunca fomos.
Gostaria apenas de vir a ser, para os meus filhos, um bocadinho daquilo que ele foi para mim. Se isso acontecer terei sido um ser humano decente. Ele era excepcional. E eu tenho muitas saudades dele.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (12)
Nick Quase Sem Cabeça
A maior parte de nós consegue passar pela vida balbuciando escassas centenas de vocábulos. Não necessitamos de articular mais do que umas dúzias de frases para nos fazermos entender. Com ou sem inovações bizarras no domínio da semântica e da sintaxe, o país “real” sobrevive magnificamente com recurso a um léxico reduzido. Gente famosa ou gente com aspiração à fama entendem-se às mil maravilhas nestes códigos simples. Se o leitor ou leitora deseja dominar esta linguagem basta-lhe adquirir algumas revistas e frequentar salões de cabeleireiro. De facto a coisa é indolor. Não requer, sequer, muitos neurónios funcionais.
O mundo, por outro lado, acomodou-se a esta existência. A sociedade não é, realmente, feita de instituições, de processos ou de sistemas. Luhmann estava profundamente equivocado. O “tecido” que serve de base à sociedade são os “eventos”. Podem ser “escândalos”, “casos”, “doenças”, quaisquer “dificuldades” ou “aspirações” menores ou maiores das pessoas “que são faladas e fotografadas”.
A sociedade é, realmente, um continuum de descontinuidades. Aparentemente, todos os eventos são, por natureza, singulares. Não existem conexões entre eles. Constituem um borbulhar aleatório e espontâneo. O “próximo” episódio simplesmente toma o seu espaço na arena social substituindo o escândalo anterior. Não há memória. São eventos singelos sem relação e não existe a possibilidade de aprendizagem. Nada é legado ou transmitido. Numa sociedade sem aprendizagem e sem memória em que não há legados, não há tempo, apenas coisas que se sucedem umas após as outras. Numa sociedade em que não há tempo, há apenas caras que se tornam iguais, gestos iguais, pessoas que se repetem como clones. Nesta sociedade, precisamos de poucas palavras para nos entendermos.
É o triunfo final do solipsismo, o tempo é aqui e agora e só eu existo. Sem estes “eventos” não existe vida. Nem imprensa. Nem politica, nem políticos nem jornalistas. No limite trata-se de estar num determinado espaço e tempo e produzir uma ou outra afirmação sobre os benefícios do botox ou da última cirurgia plástica às mamas que alguém fez ou pensa fazer. Ou sobre o que comeu fulano ou fulana. Ou sobre a atribuição de recursos para uma obra. Ou sobre a instalação de uma empresa num concelho. Ou sobre uma pessoa que morreu porque demoraram sete horas a transportá-lo para um hospital. Ou sobre uma criança, mais uma, que era queimada com cigarros por um “pai” psicopata. Ou um futebolista que estava bêbado mas a lei foi aplicada na versão suave porque sim. Uma hora depois, estas coisas pereceram, e foram substituídas por novas afirmações sobre outras coisas quaisquer. O período de vida útil de um “evento” é inferior ao de um iogurte. É também, o triunfo final do nihilismo. Tudo se torna igual e equivalente. Muito embora não seja realmente verdade, parece que todos poderemos aceder a tudo. Todos podemos ser famosos. Esta é a suprema ilusão de uma sociedade sem memória e sem tempo. Parece. Tudo parece. Pouca coisa é.
© José Manuel Fonseca
A maior parte de nós consegue passar pela vida balbuciando escassas centenas de vocábulos. Não necessitamos de articular mais do que umas dúzias de frases para nos fazermos entender. Com ou sem inovações bizarras no domínio da semântica e da sintaxe, o país “real” sobrevive magnificamente com recurso a um léxico reduzido. Gente famosa ou gente com aspiração à fama entendem-se às mil maravilhas nestes códigos simples. Se o leitor ou leitora deseja dominar esta linguagem basta-lhe adquirir algumas revistas e frequentar salões de cabeleireiro. De facto a coisa é indolor. Não requer, sequer, muitos neurónios funcionais.
O mundo, por outro lado, acomodou-se a esta existência. A sociedade não é, realmente, feita de instituições, de processos ou de sistemas. Luhmann estava profundamente equivocado. O “tecido” que serve de base à sociedade são os “eventos”. Podem ser “escândalos”, “casos”, “doenças”, quaisquer “dificuldades” ou “aspirações” menores ou maiores das pessoas “que são faladas e fotografadas”.
A sociedade é, realmente, um continuum de descontinuidades. Aparentemente, todos os eventos são, por natureza, singulares. Não existem conexões entre eles. Constituem um borbulhar aleatório e espontâneo. O “próximo” episódio simplesmente toma o seu espaço na arena social substituindo o escândalo anterior. Não há memória. São eventos singelos sem relação e não existe a possibilidade de aprendizagem. Nada é legado ou transmitido. Numa sociedade sem aprendizagem e sem memória em que não há legados, não há tempo, apenas coisas que se sucedem umas após as outras. Numa sociedade em que não há tempo, há apenas caras que se tornam iguais, gestos iguais, pessoas que se repetem como clones. Nesta sociedade, precisamos de poucas palavras para nos entendermos.
É o triunfo final do solipsismo, o tempo é aqui e agora e só eu existo. Sem estes “eventos” não existe vida. Nem imprensa. Nem politica, nem políticos nem jornalistas. No limite trata-se de estar num determinado espaço e tempo e produzir uma ou outra afirmação sobre os benefícios do botox ou da última cirurgia plástica às mamas que alguém fez ou pensa fazer. Ou sobre o que comeu fulano ou fulana. Ou sobre a atribuição de recursos para uma obra. Ou sobre a instalação de uma empresa num concelho. Ou sobre uma pessoa que morreu porque demoraram sete horas a transportá-lo para um hospital. Ou sobre uma criança, mais uma, que era queimada com cigarros por um “pai” psicopata. Ou um futebolista que estava bêbado mas a lei foi aplicada na versão suave porque sim. Uma hora depois, estas coisas pereceram, e foram substituídas por novas afirmações sobre outras coisas quaisquer. O período de vida útil de um “evento” é inferior ao de um iogurte. É também, o triunfo final do nihilismo. Tudo se torna igual e equivalente. Muito embora não seja realmente verdade, parece que todos poderemos aceder a tudo. Todos podemos ser famosos. Esta é a suprema ilusão de uma sociedade sem memória e sem tempo. Parece. Tudo parece. Pouca coisa é.
© José Manuel Fonseca
sábado, fevereiro 10, 2007
O Retorno
Daqui a algumas horas (dia e meio...) regresso à minha actividade de iluminar as almas que se me apresentam sequiosas de aprender as mágicas.... adiante...regresso, portanto, à actividade docente. Ironicamente, é uma espécie de restart, porque foi justamente no arranque do semestre anterior, perante uma turma a quem fiz a apresentação da cadeira, que me começou a dar aquilo que mais tarde aprendi ser um enfarte agudo do miocárdio. Portanto, após seis meses de multiplas aprendizagens sobre problemas coronários, antiagregantes plaquetários, vasodilatadores, tensões arteriais, necroses, escleroses e outros interessantes assuntos, eis que, de novo, e já no entusiasmante contexto da interpretação nacional do sistema de Bolonha, volto a comparecer perante uma mole humana para dizer coisas inteligentes e inteligiveis. Enfim, melhores dias virão.
terça-feira, janeiro 30, 2007
A disponibilidade
Causa-me alguma estranheza a profusão de gente que se disponibiliza para ser consciência de outros. Que se oferece para padrão moral a ser seguido. Que se auto-estabelece como referência e standard. Nesta questão do aborto parece-me existir uma verdadeira inflação de gente que sabe imenso do assunto nos múltiplos planos em que o debate decorre. De repente médicos percebem imenso de doutrina de direito, advogados descodificaram genes e ligações neuronais, sociólogos distinguem-se em conhecimentos sobre neuroses e psicoses, religiosos castos falam com profusão de detalhes de relacionamentos íntimos que por certo leram algures, escritoras rasgam as fronteiras da filosofia, economistas teorizam sobre priões, psicólogos dirimem o código de processo penal. Não há míngua de gente tresloucada e destemperada pela ocasião. O “outro” tornou-se mesmo um local insalubre. Para além disto, há ainda uma dose cavalar de paternalismo nas posições de uns e de outros que me irrita um bom bocado. Eu tenho mesmo dificuldade em ser tomado por imbecil, por garoto e por atrazado mental. São feitios.
Eu confesso que sendo uma coisa de consciência não estou muito disponível para revelar a minha, que a vou utilizar no dia aprazado, mas não faço questão de converter ninguém à minha enorme sabedoria no assunto.
Eu confesso que sendo uma coisa de consciência não estou muito disponível para revelar a minha, que a vou utilizar no dia aprazado, mas não faço questão de converter ninguém à minha enorme sabedoria no assunto.
domingo, janeiro 28, 2007
As escolhas de quem nunca escolheu
Parece que os portugueses mais notáveis, ou mais famosos, ou mais grandiloquentes, ou maiores, não agradam à grande maioria dos opinadores. E, em particular a de Salazar causa grande comoção. E, entusiasmo também. Já vi de tudo na justificações e lamentações para a figuração de Salazar e Cunhal entre os dez maiores.
O assunto, confesso, não vai além de um bocejo, mas ainda assim arrisco a mais um "contributo" para a justificação. Trata-se da "idealização" de um tempo estável, regular, ordeiro, monótono do ponto de vista matemático. O de Salazar e o de Cunhal. Tempo e espaço em equilíbrio hamiltoniano. Especialmente atractivas, as idealizações, em períodos em que a densidade da mudanças e a contemporaniedade da bagunça faz do presente uma coisa sem nexo e do futuro uma coisa alarmante, inexplicável, não entendível,e, sobretudo não controlável. Só que o presente sempre foi o que se nos afigura agora e o futuro sempre terá parecido o que agora parece. Portanto se a pergunta tivesse sido colocada há dez ou dois séculos atrás as respostas talvez reflectissem sempre o descontentamento com o presente a ansiedade com o futuro e o sobrevalorizar de algum ser mediocre mais recentemente apontado como autor da ordem e da segurança e da diminuição da ansiedade.
O fenómeno pode ser amplificado por séculos de ausência de gente com espinha e com vontade e nunca habituadas a decidir e a aguentar as incertezas e consequências das decisões. Mas sobre isto outros, tantos outros tem escrito já toneladas de coisas. E este escrito apenas junta mais alguma poeira a outros tantos.
Em todo o caso os semelhantes atraem-se, e a pequenez, a obediênciazinha, a ignorância, a insularidade e o paroquialismo, a paranóia e a ilusão de controlo sempre foram companhias excelentes e deram-se bem umas com as outras. Os escolhidos são óptima companhia para os que escolhem, a sessenta cêntimos mais IVA.
O assunto, confesso, não vai além de um bocejo, mas ainda assim arrisco a mais um "contributo" para a justificação. Trata-se da "idealização" de um tempo estável, regular, ordeiro, monótono do ponto de vista matemático. O de Salazar e o de Cunhal. Tempo e espaço em equilíbrio hamiltoniano. Especialmente atractivas, as idealizações, em períodos em que a densidade da mudanças e a contemporaniedade da bagunça faz do presente uma coisa sem nexo e do futuro uma coisa alarmante, inexplicável, não entendível,e, sobretudo não controlável. Só que o presente sempre foi o que se nos afigura agora e o futuro sempre terá parecido o que agora parece. Portanto se a pergunta tivesse sido colocada há dez ou dois séculos atrás as respostas talvez reflectissem sempre o descontentamento com o presente a ansiedade com o futuro e o sobrevalorizar de algum ser mediocre mais recentemente apontado como autor da ordem e da segurança e da diminuição da ansiedade.
O fenómeno pode ser amplificado por séculos de ausência de gente com espinha e com vontade e nunca habituadas a decidir e a aguentar as incertezas e consequências das decisões. Mas sobre isto outros, tantos outros tem escrito já toneladas de coisas. E este escrito apenas junta mais alguma poeira a outros tantos.
Em todo o caso os semelhantes atraem-se, e a pequenez, a obediênciazinha, a ignorância, a insularidade e o paroquialismo, a paranóia e a ilusão de controlo sempre foram companhias excelentes e deram-se bem umas com as outras. Os escolhidos são óptima companhia para os que escolhem, a sessenta cêntimos mais IVA.
sábado, janeiro 27, 2007
As conversas
foram artigos publicados (não necessariamente pela ordem apresentada aqui no blog) na revista Psicologia Actual no ano de 2006.
Conversas do Quotidiano Vulgar (11)
“Mas depois, isto é mesmo assim?”
Ora esta pergunta é, frequentemente, feita por alunos com ar desconfiado, ou mesmo céptico, quando não, mais que abertamente trocista, questionando a pragmática da coisa. E, eu, nas mais das vezes, lá amanho um “bom pelo menos devia ser assim...”!
E a pergunta nasce do facto de uma boa parte do meu tempo, ser gasta a industriar os meus alunos, na adequada utilização de semânticas e sintaxes cruciais nos tempos que correm. Ou seja, tento torná-los proficientes numa das linguagens mágicas da contemporaneidade – a da gestão de empresas. Uma das coisas que é essencial que aprendam são algumas declarações de valor, ou de fé, que hierarquizam e adjectivam os sentimentos e emoções que é suposto experienciar posteriormente na vida real. Por exemplo, que os “Clientes” são a razão de existência da “empresa” e, que devemos fazer tudo para os satisfazer, modalidade ou via única para os preservar e manter fiéis aos produtos ou serviços que fornecemos, em concorrência com outras empresas sequiosas de ocupar o nosso espaço no mercado. Este pequeno desígnio justifica toda uma monumental série de sub-ciências, que se ramificam em modelos (mais léxico e regras semânticas e sintácticas a aprender), como Marketing, Estratégia, Qualidade Total, Engenharia Simultânea, Análise de Portfolios, e eu sei lá que mais... Claro que estas palavras se “desmultiplicam” numa complexa teia de considerandos que se espraiam em técnicas e acções a executar por forma a vencer esses marafados da concorrência e alcançar o Éden.
Eu confesso, há neste Universo áreas, que mesmo para mim, já são obscuras. Suponho mesmo que já existam alçapões por onde cairia em abismos dignos dos filmes que envolvem elfos e criaturas mágicas... Já não estou seguro se as técnicas para retermos a fidelidade dos clientes não envolvem, inclusive, o controlo mental, voodoo ou outras técnicas ocultistas. Uma coisa é certa, entre a nossa comunidade emerge uma verdadeira transcendentalidade da expressão “Customer Satisfaction”. Um anglicismo que faz o coração bater mais depressa, e que culmina a litania da glorificação do “Cliente”. O cliente satisfeito e motivado para nos premiar com a sua preferência.
Mas, há luz das experiências recentes, tenho grandes dúvidas sobre a utilidade de uma bela parte deste esforço linguístico que faço na Universidade. E sou assaltado pela descrença dos meus alunos. Ultimamente, ocorreu na minha casa uma verdadeira hecatombe de avarias. Televisões, aspiradores, computadores, consolas de jogos, quem sabe em solidariedade com a minha nova condição de cardíaco, resolveram fenecer ou cessar a sua função. E, dentro ou fora do período de garantia, a interacção com as empresas que fabricaram ou assistem os equipamentos, têm constituído experiências inolvidáveis. Passado o período de garantia, invariavelmente, a solução aconselhada é deitar fora e comprar novo! E, parece de facto mais racional do ponto de vista económico, e do ponto de vista estritamente individual. A reparação é sempre orçamentada pelo dobro de um equipamento que já tem pelo menos mais do quádruplo das rotações por minuto, dos pixels, do ratio de resolução e sabe Deus que mais misteriosas coisas. Mas, e do ponto de vista social? Confesso que me fascina o destino de toneladas e toneladas de televisões e computadores e outros lixo electrónico. Confesso que sou um cínico e que desconfio que a bendita reciclagem seja um conto de fadas que um dia desabe sobre nós. Sob a forma de máquinas auto-construídas com desejos de vingança e angústias existenciais!
Por outro lado, quando a coisa ainda está no período de garantia, como uma consola portátil com três mesinhos de vida de um dos meus garotos, a troca por outra é imediata, nem se discute. Aquilo de qualquer modo já está tão miniaturizado que nem vale a pena pensar numa intervenção humana para substituir um qualquer micro chip de cem menréis. Só que o nem se discute é um belo eufemismo. Afinal o processo demora o seu tempo, mais concretamente umas largas semanas. E, logo por azar, os presentes de Natal eram jogos para a bendita consola. Aparentemente a nova consola que substitui sem mais delongas nem discussões (que o consumidor tem sempre razão e temos de o tratar bem...) vem de Saturno! Ao mesmo tempo que todos estes processos decorrem, o telefone toca. Constantemente. De todo o lado surgem ofertas magnificas. De cartões de crédito sem pagamentos, de operadores de telefones sem mensalidade. De promessas penhoradas de que a empresa que nos contacta tem um mundo de delicias e prazeres à espera de um pequeno click ou sim da nossa parte.
Eu por mim já nem sei o que deva dizer aos alunos. Provavelmente que não deliciem tanto os pobres clientes. Que os deixem em paz e quem sabe, lhes vendam produtos e serviços que simplesmente funcionem...
©
Ora esta pergunta é, frequentemente, feita por alunos com ar desconfiado, ou mesmo céptico, quando não, mais que abertamente trocista, questionando a pragmática da coisa. E, eu, nas mais das vezes, lá amanho um “bom pelo menos devia ser assim...”!
E a pergunta nasce do facto de uma boa parte do meu tempo, ser gasta a industriar os meus alunos, na adequada utilização de semânticas e sintaxes cruciais nos tempos que correm. Ou seja, tento torná-los proficientes numa das linguagens mágicas da contemporaneidade – a da gestão de empresas. Uma das coisas que é essencial que aprendam são algumas declarações de valor, ou de fé, que hierarquizam e adjectivam os sentimentos e emoções que é suposto experienciar posteriormente na vida real. Por exemplo, que os “Clientes” são a razão de existência da “empresa” e, que devemos fazer tudo para os satisfazer, modalidade ou via única para os preservar e manter fiéis aos produtos ou serviços que fornecemos, em concorrência com outras empresas sequiosas de ocupar o nosso espaço no mercado. Este pequeno desígnio justifica toda uma monumental série de sub-ciências, que se ramificam em modelos (mais léxico e regras semânticas e sintácticas a aprender), como Marketing, Estratégia, Qualidade Total, Engenharia Simultânea, Análise de Portfolios, e eu sei lá que mais... Claro que estas palavras se “desmultiplicam” numa complexa teia de considerandos que se espraiam em técnicas e acções a executar por forma a vencer esses marafados da concorrência e alcançar o Éden.
Eu confesso, há neste Universo áreas, que mesmo para mim, já são obscuras. Suponho mesmo que já existam alçapões por onde cairia em abismos dignos dos filmes que envolvem elfos e criaturas mágicas... Já não estou seguro se as técnicas para retermos a fidelidade dos clientes não envolvem, inclusive, o controlo mental, voodoo ou outras técnicas ocultistas. Uma coisa é certa, entre a nossa comunidade emerge uma verdadeira transcendentalidade da expressão “Customer Satisfaction”. Um anglicismo que faz o coração bater mais depressa, e que culmina a litania da glorificação do “Cliente”. O cliente satisfeito e motivado para nos premiar com a sua preferência.
Mas, há luz das experiências recentes, tenho grandes dúvidas sobre a utilidade de uma bela parte deste esforço linguístico que faço na Universidade. E sou assaltado pela descrença dos meus alunos. Ultimamente, ocorreu na minha casa uma verdadeira hecatombe de avarias. Televisões, aspiradores, computadores, consolas de jogos, quem sabe em solidariedade com a minha nova condição de cardíaco, resolveram fenecer ou cessar a sua função. E, dentro ou fora do período de garantia, a interacção com as empresas que fabricaram ou assistem os equipamentos, têm constituído experiências inolvidáveis. Passado o período de garantia, invariavelmente, a solução aconselhada é deitar fora e comprar novo! E, parece de facto mais racional do ponto de vista económico, e do ponto de vista estritamente individual. A reparação é sempre orçamentada pelo dobro de um equipamento que já tem pelo menos mais do quádruplo das rotações por minuto, dos pixels, do ratio de resolução e sabe Deus que mais misteriosas coisas. Mas, e do ponto de vista social? Confesso que me fascina o destino de toneladas e toneladas de televisões e computadores e outros lixo electrónico. Confesso que sou um cínico e que desconfio que a bendita reciclagem seja um conto de fadas que um dia desabe sobre nós. Sob a forma de máquinas auto-construídas com desejos de vingança e angústias existenciais!
Por outro lado, quando a coisa ainda está no período de garantia, como uma consola portátil com três mesinhos de vida de um dos meus garotos, a troca por outra é imediata, nem se discute. Aquilo de qualquer modo já está tão miniaturizado que nem vale a pena pensar numa intervenção humana para substituir um qualquer micro chip de cem menréis. Só que o nem se discute é um belo eufemismo. Afinal o processo demora o seu tempo, mais concretamente umas largas semanas. E, logo por azar, os presentes de Natal eram jogos para a bendita consola. Aparentemente a nova consola que substitui sem mais delongas nem discussões (que o consumidor tem sempre razão e temos de o tratar bem...) vem de Saturno! Ao mesmo tempo que todos estes processos decorrem, o telefone toca. Constantemente. De todo o lado surgem ofertas magnificas. De cartões de crédito sem pagamentos, de operadores de telefones sem mensalidade. De promessas penhoradas de que a empresa que nos contacta tem um mundo de delicias e prazeres à espera de um pequeno click ou sim da nossa parte.
Eu por mim já nem sei o que deva dizer aos alunos. Provavelmente que não deliciem tanto os pobres clientes. Que os deixem em paz e quem sabe, lhes vendam produtos e serviços que simplesmente funcionem...
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José Manuel Fonseca
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (10)
A culpa de ter partido, a raiva de ter ficado e a saudade de não voltar
Há quem diga que Portugal sofre de uma doença bipolar. Seriamos, portanto, possuidores de uma natureza maníaco-depressiva, oscilando, sem realismo, entre a fuga megalómana para o prognóstico de realização imperial e, o soçobrar, o colapso colectivo, que se afunda no diagnóstico auto-punitivo de tragédias anunciadas a que se segue um desejo de regeneração que nunca é concretizada. Ora o problema parece-me ser outro.
Parecemos mais um povo infantilizado. Eterno adolescente imberbe, cheio de angústias e de crises de auto confiança. Inseguro e incapaz de largar de vista a mão do pai idealizado contra o qual, paradoxalmente, se quer afirmar. Típico dos adolescentes, vivemos em eterna auto perscrutação, numa zona nebulosa e ambígua, ansiosos e hesitantes sobre os desígnios a perseguir e incertos quanto às acções a executar.
Oscilamos, de facto, entre a amargura do falhanço antecipado e a euforia irrealista e inebriante de um futuro radioso e grandioso. Em qualquer dos casos, em termos absolutos e definitivos, para além de qualquer ponto de equilíbrio redentor. Por vezes, apresentam-nos cheios de manhas e de mecanismos de defesa, somos ardilosos de modo um pouco cobarde, e sentimo-nos inferiores. Outras vezes, cheios de sonhos de importância perene e esmagadora, somos arrogantes e megalómanos e sentimo-nos superiores. No fundo, como qualquer adolescente à procura do seu lugar no mundo e do seu papel.
Um povo adolescente eternamente à procura do pai ideal que alumie o caminho a percorrer e sempre a rejeitar qualquer pai que se afigure possível. Um povo prisioneiro, há séculos, deste paradoxo. Sempre em busca de um líder/pai carismático idealizado que nos exima de nos maçarmos com a angústia do trabalho e do pensamento e a quem possamos transformar em bode expiatório para a nossa própria inépcia e preguiça. Um povo que teme a incerteza tanto, que “compra” qualquer certeza ilusória. E que se acostumou a estar naquela zona cinzenta em que se pode atribuir às circunstâncias e a terceiros a “culpa”, por coisas que, de outro modo, poderiam ser corrigidas como parte de processos de aprendizagem e crescimento. Um povo que por vezes cede à impotência, disfarçada pelo marialvismo e pelo misticismo barato. Não raras vezes, consumimo-nos na cobardia de não denunciar pela frente aquilo de que nos entretemos a fazer a dissecação em voz baixa, sempre lestos a condenar, antes de prova irrefutável, elaborando longuíssimos e amplos juízos de intenção e de valor. Um povo demasiado habituado a não tomar decisões e a assumir a responsabilidade pela escolha produzida. Um povo ignorante que se presume sabichão. E choramingas. Sempre coitadinhos.
Seremos antes um povo de indivíduos fracos, incapazes de relacionamento de iguais, ansiando pela validação e afago do chefe? Mas somos mais um povo sem individualismo, porque, aparentemente, a nossa individualidade é apenas uma mera expressão da diferença percebida ou desejada em relação ao outro, e não base de autoconfiança e crescimento próprio. Antes pelo contrário, dependentes do reconhecimento do e pelo outro, que contudo nunca é suficiente, porque é sempre relativo, pedinchamos constantemente atenção e carinho que depois não aceitamos porque somos incapazes de assumir uma relação igual em que tenhamos de nos dar também. Preferimos pois, a adulação distante em lugar da emoção genuína. Basta ver como por circunstâncias e ocasiões várias, sempre que há eventos, cá dentro ou lá fora, mandamos repórteres perguntar aos estrangeiros de modo retórico: “- Então o que diz de Portugal? Somos um povo simpático e que se desenvolveu imenso, não acha?” “Não acha que podemos ser campeões do mundo?”
E o pobre turista apanhado desprevenido lá balbucia, com um sorriso de perplexidade, um “pois”...
Incapazes de enfrentar o confronto com o outro. De dizer frontalmente aos milhares de “protagonistas” da ausência de ideias e de estratégias, que é tempo de arranjarem roupas porque, para além de nus, vão monótonos e saloios...
Mas enfim, sempre temos um solzinho que faz inveja aos nórdicos e um tinto de Pias que é um espectáculo... no fundo no fundo para quê mudar se virá sempre alguém resolver os nossos problemas por nós... hã?
©
Há quem diga que Portugal sofre de uma doença bipolar. Seriamos, portanto, possuidores de uma natureza maníaco-depressiva, oscilando, sem realismo, entre a fuga megalómana para o prognóstico de realização imperial e, o soçobrar, o colapso colectivo, que se afunda no diagnóstico auto-punitivo de tragédias anunciadas a que se segue um desejo de regeneração que nunca é concretizada. Ora o problema parece-me ser outro.
Parecemos mais um povo infantilizado. Eterno adolescente imberbe, cheio de angústias e de crises de auto confiança. Inseguro e incapaz de largar de vista a mão do pai idealizado contra o qual, paradoxalmente, se quer afirmar. Típico dos adolescentes, vivemos em eterna auto perscrutação, numa zona nebulosa e ambígua, ansiosos e hesitantes sobre os desígnios a perseguir e incertos quanto às acções a executar.
Oscilamos, de facto, entre a amargura do falhanço antecipado e a euforia irrealista e inebriante de um futuro radioso e grandioso. Em qualquer dos casos, em termos absolutos e definitivos, para além de qualquer ponto de equilíbrio redentor. Por vezes, apresentam-nos cheios de manhas e de mecanismos de defesa, somos ardilosos de modo um pouco cobarde, e sentimo-nos inferiores. Outras vezes, cheios de sonhos de importância perene e esmagadora, somos arrogantes e megalómanos e sentimo-nos superiores. No fundo, como qualquer adolescente à procura do seu lugar no mundo e do seu papel.
Um povo adolescente eternamente à procura do pai ideal que alumie o caminho a percorrer e sempre a rejeitar qualquer pai que se afigure possível. Um povo prisioneiro, há séculos, deste paradoxo. Sempre em busca de um líder/pai carismático idealizado que nos exima de nos maçarmos com a angústia do trabalho e do pensamento e a quem possamos transformar em bode expiatório para a nossa própria inépcia e preguiça. Um povo que teme a incerteza tanto, que “compra” qualquer certeza ilusória. E que se acostumou a estar naquela zona cinzenta em que se pode atribuir às circunstâncias e a terceiros a “culpa”, por coisas que, de outro modo, poderiam ser corrigidas como parte de processos de aprendizagem e crescimento. Um povo que por vezes cede à impotência, disfarçada pelo marialvismo e pelo misticismo barato. Não raras vezes, consumimo-nos na cobardia de não denunciar pela frente aquilo de que nos entretemos a fazer a dissecação em voz baixa, sempre lestos a condenar, antes de prova irrefutável, elaborando longuíssimos e amplos juízos de intenção e de valor. Um povo demasiado habituado a não tomar decisões e a assumir a responsabilidade pela escolha produzida. Um povo ignorante que se presume sabichão. E choramingas. Sempre coitadinhos.
Seremos antes um povo de indivíduos fracos, incapazes de relacionamento de iguais, ansiando pela validação e afago do chefe? Mas somos mais um povo sem individualismo, porque, aparentemente, a nossa individualidade é apenas uma mera expressão da diferença percebida ou desejada em relação ao outro, e não base de autoconfiança e crescimento próprio. Antes pelo contrário, dependentes do reconhecimento do e pelo outro, que contudo nunca é suficiente, porque é sempre relativo, pedinchamos constantemente atenção e carinho que depois não aceitamos porque somos incapazes de assumir uma relação igual em que tenhamos de nos dar também. Preferimos pois, a adulação distante em lugar da emoção genuína. Basta ver como por circunstâncias e ocasiões várias, sempre que há eventos, cá dentro ou lá fora, mandamos repórteres perguntar aos estrangeiros de modo retórico: “- Então o que diz de Portugal? Somos um povo simpático e que se desenvolveu imenso, não acha?” “Não acha que podemos ser campeões do mundo?”
E o pobre turista apanhado desprevenido lá balbucia, com um sorriso de perplexidade, um “pois”...
Incapazes de enfrentar o confronto com o outro. De dizer frontalmente aos milhares de “protagonistas” da ausência de ideias e de estratégias, que é tempo de arranjarem roupas porque, para além de nus, vão monótonos e saloios...
Mas enfim, sempre temos um solzinho que faz inveja aos nórdicos e um tinto de Pias que é um espectáculo... no fundo no fundo para quê mudar se virá sempre alguém resolver os nossos problemas por nós... hã?
©
José Manuel Fonseca
terça-feira, janeiro 23, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (9)
Miragem Perdida
Vivemos uma época nova. Prenhe de coisas admiráveis. Prometedoras. Parecemos finalmente libertos da dependência do meio físico, que os nossos antepassados louvavam e amaldiçoavam. Libertos da doença e com delírios de eternidade. Mas esta época de novidades pós modernas, também nos deixou cínicos e relativistas. Há coisas ameaçadoras que nos deixam ansiosos e angustiados. Respondemos de modos vários. Com hedonismo, que nos faz deleitar com excrementos, necrofilias voyeurs de podridões e dissoluções caricatas, que se podem observar em muitos programas televisivos. Com misticismo e ocultismo apressados e ignorantes, que permitem e possibilitam conexões aparentemente universais de forças misteriosas e telúricas, mas que esquecem o sentido pragmático da origem das lendas, mitos e práticas antigas. Com hiper-racionalismo, que nos faz pedir mais observatórios de coisa nenhuma e de medições e certificações de processos e de realidades imaterializadas cuja unidade de medida se torna delirante nas mãos dos novos sacerdotes ocultistas da gestão e da economia....
Mereceria antes uma reflexão sobre a origem desta aparente desorientação. E, na sua raiz existem, pelo menos três causas simples. A primeira, uma perda de referências básicas do nosso quotidiano durante milénios. Os ciclos da natureza. Que pautavam a nossa vida colectiva: económica; social e mesmo espiritual. Quando a nossa actividade económica era essencialmente agrícola e a indústria era artesanal, dependente do meio físico e dos seus caprichos, as colheitas marcavam um ponto alto da nossa vida colectiva. Uma espécie de fim teleológico sempre repetido. Que nos levava a organizar rituais de fertilidade e a adorar deuses dela encarregues. Que nos levaram a construir simbolismos, ordens e litanias. E que regularizavam a nossa vida mesmo em aspectos de transição entre a idade de criança e a idade adulta, com cerimónias iniciáticas, que regularizavam a perpetuação da espécie com as épocas de festivais pagãos de acasalamento. Com a complexificação da nossa vida económica e social, à medida que nos transferíamos para cidades, este vínculo foi-se esbatendo. Fomos ganhando autonomia da nossa dependência imediata dos ciclos das estações, da nossa relação com o meio físico como primeiro ambiente de sobrevivência. E, chegámos à sociedade industrial, às megalópolis, ao consumo intensivo de materiais e de energias, cada vez com menos mistério. Perdemos a noção de um tempo. Um tempo sempre renovado. O tempo actual, tem outro sabor e não tem rituais. Ou melhor, tem outros rituais, mais rápidos mais inclementes. Temos menos tempo.
A segunda, é a perda do significado, do papel e da função da família. Durante milénios a família, herdeira do clã, da horda, não necessitara do Estado para ver nascer os seus, para os educar, para os ver procriar, para cuidar da velhice e para enterrar os seus mortos. Num espaço por vezes demasiado exíguo, e com pouca mobilidade geográfica e social, coexistiam três quatro ou mesmo cinco gerações. O mundo corria ao sabor dos ciclos lunares, a memória era perpetuada através de histórias e saberes transmitidos com vínculo de sangue. Hoje, estamos espartilhados, sem tempo nem lugar para amar e honrar os nossos, que se encontram à incomensurável distância de dois quarteirões, ao abrigo dos quais se constroem solidões insuportáveis.
A terceira é a perda de sentido teleológico e teológico da existência. Uma certeza de espiritualidade e de deslumbramento que se perdeu. Por isso se procuram mistérios de plástico em sítios imbecis. Não sei se Deus existe ou não. Não sou muito crente em explicações transcendentais e divinas. Não acho que a revelação seja superior ao racionalismo de Descartes. Não obstante, apeámos Deus do pedestal e no seu lugar não pusemos ninguém nem nada. Um vazio. Coisa que a natureza abomina. Talvez estejamos a substituí-Lo pelo dinheiro, pelo poder e pela fama. De certeza que não pela cultura, nem pela integridade nem pela compaixão.
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Vivemos uma época nova. Prenhe de coisas admiráveis. Prometedoras. Parecemos finalmente libertos da dependência do meio físico, que os nossos antepassados louvavam e amaldiçoavam. Libertos da doença e com delírios de eternidade. Mas esta época de novidades pós modernas, também nos deixou cínicos e relativistas. Há coisas ameaçadoras que nos deixam ansiosos e angustiados. Respondemos de modos vários. Com hedonismo, que nos faz deleitar com excrementos, necrofilias voyeurs de podridões e dissoluções caricatas, que se podem observar em muitos programas televisivos. Com misticismo e ocultismo apressados e ignorantes, que permitem e possibilitam conexões aparentemente universais de forças misteriosas e telúricas, mas que esquecem o sentido pragmático da origem das lendas, mitos e práticas antigas. Com hiper-racionalismo, que nos faz pedir mais observatórios de coisa nenhuma e de medições e certificações de processos e de realidades imaterializadas cuja unidade de medida se torna delirante nas mãos dos novos sacerdotes ocultistas da gestão e da economia....
Mereceria antes uma reflexão sobre a origem desta aparente desorientação. E, na sua raiz existem, pelo menos três causas simples. A primeira, uma perda de referências básicas do nosso quotidiano durante milénios. Os ciclos da natureza. Que pautavam a nossa vida colectiva: económica; social e mesmo espiritual. Quando a nossa actividade económica era essencialmente agrícola e a indústria era artesanal, dependente do meio físico e dos seus caprichos, as colheitas marcavam um ponto alto da nossa vida colectiva. Uma espécie de fim teleológico sempre repetido. Que nos levava a organizar rituais de fertilidade e a adorar deuses dela encarregues. Que nos levaram a construir simbolismos, ordens e litanias. E que regularizavam a nossa vida mesmo em aspectos de transição entre a idade de criança e a idade adulta, com cerimónias iniciáticas, que regularizavam a perpetuação da espécie com as épocas de festivais pagãos de acasalamento. Com a complexificação da nossa vida económica e social, à medida que nos transferíamos para cidades, este vínculo foi-se esbatendo. Fomos ganhando autonomia da nossa dependência imediata dos ciclos das estações, da nossa relação com o meio físico como primeiro ambiente de sobrevivência. E, chegámos à sociedade industrial, às megalópolis, ao consumo intensivo de materiais e de energias, cada vez com menos mistério. Perdemos a noção de um tempo. Um tempo sempre renovado. O tempo actual, tem outro sabor e não tem rituais. Ou melhor, tem outros rituais, mais rápidos mais inclementes. Temos menos tempo.
A segunda, é a perda do significado, do papel e da função da família. Durante milénios a família, herdeira do clã, da horda, não necessitara do Estado para ver nascer os seus, para os educar, para os ver procriar, para cuidar da velhice e para enterrar os seus mortos. Num espaço por vezes demasiado exíguo, e com pouca mobilidade geográfica e social, coexistiam três quatro ou mesmo cinco gerações. O mundo corria ao sabor dos ciclos lunares, a memória era perpetuada através de histórias e saberes transmitidos com vínculo de sangue. Hoje, estamos espartilhados, sem tempo nem lugar para amar e honrar os nossos, que se encontram à incomensurável distância de dois quarteirões, ao abrigo dos quais se constroem solidões insuportáveis.
A terceira é a perda de sentido teleológico e teológico da existência. Uma certeza de espiritualidade e de deslumbramento que se perdeu. Por isso se procuram mistérios de plástico em sítios imbecis. Não sei se Deus existe ou não. Não sou muito crente em explicações transcendentais e divinas. Não acho que a revelação seja superior ao racionalismo de Descartes. Não obstante, apeámos Deus do pedestal e no seu lugar não pusemos ninguém nem nada. Um vazio. Coisa que a natureza abomina. Talvez estejamos a substituí-Lo pelo dinheiro, pelo poder e pela fama. De certeza que não pela cultura, nem pela integridade nem pela compaixão.
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José Manuel Fonseca
segunda-feira, janeiro 22, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (8)
Futuros em Aberto
Aqui, 23 de Agosto 2087. Na minha rua foi descoberta uma pessoa que lia livros e possuía mesmo um dicionário. Denunciado por um comité de cidadãos preocupados, de que faziam parte a D. Célia e o Sr. Marco, o meliante foi encaminhado para o Tribunal Supremo da Grande Inquisição dos Comportamentos Socialmente Aceitáveis. Os Meretissímos Juízes E. Rangel, J. Moniz e En de Mol e outros membros do colectivo, de que se tornaria fastidioso dar conta, conduziram um rigoroso inquérito. Concedendo em média dois segundos para cada resposta, colocaram perguntas de grande relevância jurisprudencial e objectividade, como por exemplo “já deixou de ser um perigoso facínora e um ser desprezível? Sim ou não?”
Aguardando com paciência o que o arguido tinha para dizer, o inquérito prolongou-se por mais de quinze minutos, excedendo a norma de eficiência interrogatória MJ67/2077, enquanto o arguido murmurava coisas incompreensíveis sobre um denominado princípio do terceiro excluído. Instado a comentar, por uma, competente e culta, jovem jornalista do canal 34 da Grande Televisão Unificada, o PM balbuciou a frase “é necessário aguardar com serenidade”, tendo a jovem jornalista concluido com autoridade, “portantos, concorda com a pena perpétua aplicada, portantos….”
Aqui, 8 de Maio de 2056. Devido a um feliz acaso, um cidadão da minha rua descobriu num velho baú, um documento que vem por fim a especulações sobre a viagem de Vasco da Gama. Prova-se, finalmente, que a 4 de Junho de 1447, Vasco da Gama recebeu o “go ahead” para a expedição por parte da 12ª comissão de avaliação de projectos de risco. A comissão, presidida pelo Conde Economicus Rationalis, ficava satisfeita quanto ao cálculo do valor actualizado do cash flow a gerar pelo empreendimento, quanto à bondade do cronograma do projecto, e, sobretudo, quanto ao formato dos relatórios a enviar trimestralmente ao “review board”. Foram nessa altura dissipadas as dúvidas quanto à nau “Bérrio” que tinha sido indevidamente inscrita e referenciada como caravela no formulário entregue na 3ª Comissão de Avaliação Global de Hierarquização Múltipla de Projectos. Recorde-se que este erro, tinha levantado dificuldades à configuração do sistema de avaliação de desempenho global bem como ao sistema de monitorização parcelar, com vista à certificação do “final report”. O Capitão Gama, tinha proposto que a descoberta da Índia ocorreria pelas 18 horas e 35 minutos (tempo local) do dia 22 de Maio de 1498, facto que levantou alguma celeuma dadas as calendarizações de outros projectos. Por sugestão do Barão Precisus Cartesianus, o cronograma foi revisto tendo sido acordada a data de 20 de Maio pelas 3 horas com uma tolerância de 26 minutos de acordo com a norma de qualidade de investigação fundamental em projectos oceanográficos ISO 0897/65 e com a norma de assertividade na navegação 342/87.
Face a esta magnifica descoberta, o ministro da educação qualificante pós doutoral, apanhado de surpresa no intervalo das gravações do popular concurso “A Minha Vida é ver Televisão”, em que como sabem, todas as terças feiras é sorteado um concorrente da casa, a quem é implantado um receptor neural de televisão e removida a zona que controla o sono, por forma que o felizardo consiga ver seis mil canais em simultâneo sem necessidade de perder tempo a dormir, declarou, “trata-se de mais um sucesso da política de rigor e modernidade que vimos trilhando”.
Aqui, 14 de Janeiro de 2071. Um cidadão da minha rua decidiu requisitar uma ama a tempo inteiro, aos serviços de estrutura social do Ministério da Reforma de Grupos de Risco. O jovem cidadão C. Malhadas, de quatro anos, foi o primeiro cidadão da minha rua a exercer o direito que a nova lei de apoio a “orfãos de pais ausentes” confere. No formulário 24/B/25HG, que recorde-se substitui o anterior formulário ER/89/GK, o declarante assinala que os pais se encontravam em casa (definido o espaço casa em termos sociais de acordo com a norma TY453/ISO/32) menos do que a média de 19 minutos, o que viola a norma de tempo parental mínimo de qualidade definido pela norma IPQ/8900. Para além desta violação grosseira, os pais de C. Malhadas, não cumpriam ainda a norma que regula o tempo mínimo de qualidade comunicacional. A comissão que avaliou a fase de apreciação preliminar do pedido do cidadão Malhadas verificou, adicionalmente, que os pais dele não aferiam os cronómetros instalados na residência dos Malhadas nos últimos sete meses. Esta violação, gravíssima, da utilização de artefactos centrais, conduziu o casal a um julgamento sumário no Tribunal de Inquisição Média da Família em Conceito Lato, que sentenciou o casal a dois meses de interdição da frequência de espaços comercias bem como à cessação do direito de requisitar anti-depressivos por igual período, adicionalmente o casal fica proibido de enviar postais para castings em programas televisivos.
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Aqui, 23 de Agosto 2087. Na minha rua foi descoberta uma pessoa que lia livros e possuía mesmo um dicionário. Denunciado por um comité de cidadãos preocupados, de que faziam parte a D. Célia e o Sr. Marco, o meliante foi encaminhado para o Tribunal Supremo da Grande Inquisição dos Comportamentos Socialmente Aceitáveis. Os Meretissímos Juízes E. Rangel, J. Moniz e En de Mol e outros membros do colectivo, de que se tornaria fastidioso dar conta, conduziram um rigoroso inquérito. Concedendo em média dois segundos para cada resposta, colocaram perguntas de grande relevância jurisprudencial e objectividade, como por exemplo “já deixou de ser um perigoso facínora e um ser desprezível? Sim ou não?”
Aguardando com paciência o que o arguido tinha para dizer, o inquérito prolongou-se por mais de quinze minutos, excedendo a norma de eficiência interrogatória MJ67/2077, enquanto o arguido murmurava coisas incompreensíveis sobre um denominado princípio do terceiro excluído. Instado a comentar, por uma, competente e culta, jovem jornalista do canal 34 da Grande Televisão Unificada, o PM balbuciou a frase “é necessário aguardar com serenidade”, tendo a jovem jornalista concluido com autoridade, “portantos, concorda com a pena perpétua aplicada, portantos….”
Aqui, 8 de Maio de 2056. Devido a um feliz acaso, um cidadão da minha rua descobriu num velho baú, um documento que vem por fim a especulações sobre a viagem de Vasco da Gama. Prova-se, finalmente, que a 4 de Junho de 1447, Vasco da Gama recebeu o “go ahead” para a expedição por parte da 12ª comissão de avaliação de projectos de risco. A comissão, presidida pelo Conde Economicus Rationalis, ficava satisfeita quanto ao cálculo do valor actualizado do cash flow a gerar pelo empreendimento, quanto à bondade do cronograma do projecto, e, sobretudo, quanto ao formato dos relatórios a enviar trimestralmente ao “review board”. Foram nessa altura dissipadas as dúvidas quanto à nau “Bérrio” que tinha sido indevidamente inscrita e referenciada como caravela no formulário entregue na 3ª Comissão de Avaliação Global de Hierarquização Múltipla de Projectos. Recorde-se que este erro, tinha levantado dificuldades à configuração do sistema de avaliação de desempenho global bem como ao sistema de monitorização parcelar, com vista à certificação do “final report”. O Capitão Gama, tinha proposto que a descoberta da Índia ocorreria pelas 18 horas e 35 minutos (tempo local) do dia 22 de Maio de 1498, facto que levantou alguma celeuma dadas as calendarizações de outros projectos. Por sugestão do Barão Precisus Cartesianus, o cronograma foi revisto tendo sido acordada a data de 20 de Maio pelas 3 horas com uma tolerância de 26 minutos de acordo com a norma de qualidade de investigação fundamental em projectos oceanográficos ISO 0897/65 e com a norma de assertividade na navegação 342/87.
Face a esta magnifica descoberta, o ministro da educação qualificante pós doutoral, apanhado de surpresa no intervalo das gravações do popular concurso “A Minha Vida é ver Televisão”, em que como sabem, todas as terças feiras é sorteado um concorrente da casa, a quem é implantado um receptor neural de televisão e removida a zona que controla o sono, por forma que o felizardo consiga ver seis mil canais em simultâneo sem necessidade de perder tempo a dormir, declarou, “trata-se de mais um sucesso da política de rigor e modernidade que vimos trilhando”.
Aqui, 14 de Janeiro de 2071. Um cidadão da minha rua decidiu requisitar uma ama a tempo inteiro, aos serviços de estrutura social do Ministério da Reforma de Grupos de Risco. O jovem cidadão C. Malhadas, de quatro anos, foi o primeiro cidadão da minha rua a exercer o direito que a nova lei de apoio a “orfãos de pais ausentes” confere. No formulário 24/B/25HG, que recorde-se substitui o anterior formulário ER/89/GK, o declarante assinala que os pais se encontravam em casa (definido o espaço casa em termos sociais de acordo com a norma TY453/ISO/32) menos do que a média de 19 minutos, o que viola a norma de tempo parental mínimo de qualidade definido pela norma IPQ/8900. Para além desta violação grosseira, os pais de C. Malhadas, não cumpriam ainda a norma que regula o tempo mínimo de qualidade comunicacional. A comissão que avaliou a fase de apreciação preliminar do pedido do cidadão Malhadas verificou, adicionalmente, que os pais dele não aferiam os cronómetros instalados na residência dos Malhadas nos últimos sete meses. Esta violação, gravíssima, da utilização de artefactos centrais, conduziu o casal a um julgamento sumário no Tribunal de Inquisição Média da Família em Conceito Lato, que sentenciou o casal a dois meses de interdição da frequência de espaços comercias bem como à cessação do direito de requisitar anti-depressivos por igual período, adicionalmente o casal fica proibido de enviar postais para castings em programas televisivos.
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José Manuel Fonseca
sábado, janeiro 20, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (7)
As escolhas e as consequências
À beira de mais um ano lectivo proponho alguns tópicos para reflexão.
Poderá o Estatuto de Carreira Docente não incluir as palavras “educar”, “ensinar”, “instruir”, “aprender”? Pode, claro que pode. Mais, poderá a Lei de Bases do Sistema Educativo não conter a palavra “educar” e a palavra “disciplinar”? Pode pois. Em contraponto, pode, no que se refere aos objectivos do ensino primário, conter coisas bizantinas como: “Fomentar a consciência nacional aberta à realidade concreta numa perspectiva de humanismo universalista, de solidariedade e de cooperação internacional;” . Confesso que não faço a mínima ideia como é atingido este objectivo. Chegados ao ensino superior, os bravos alunos enfrentarão um contexto que visa: “Suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração;”. Sou franco, não sei muito bem o que é uma “estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração”. Eu, que também sou pai, tenho a expectativa que na escola primária, os meus filhos desenvolvam consciência cívica, moral, capacidade crítica, sentido de solidariedade, sensibilidade estética, vontade de reciclar, de lavar os dentes e de não extrair macacos do nariz em público. Procuro assegurar que também lhes ensinem aritmética, gramática e que adquiram mais léxico que o dos presidentes dos clubes de futebol. E que lhes exijam respeito pelos professores e por si próprios.
Poderão os pais, no ensino secundário, assinar justificações de faltas dos seus filhos, com a expectativa muito razoável que sejam deferidas, porque os filhos foram ao funeral de uma “actor” de telenovelas? Poderão os pais assinar justificações de faltas dos filhos, com igual expectativa à anterior, porque os filhos foram a “castings” para telenovelas? Aparentemente, sim senhora. Porque, parece que muitos e muitos pais acreditam que há duas soluções de vida para os filhos. Serem famosos ou ganharem o euromilhões. Até porque as trágicas consequências dos comportamentos do jovem “actor” passaram sem apreço, nomeadamente que visasse “Desenvolver a formação moral da criança e o sentido da responsabilidade, associado ao da liberdade”. Ficou-se apenas pela exploração até ao vómito da imagem idílica do personagem na novela. A consideração e homenagem ao jovem que morreu nunca foi feita.
Poderá um professor ser incomodado porque sobre um garoto, de onze anos, apresentado como “não lente e não escrevente” simplificou e reduziu a coisa ao analfabetismo? Aparentemente sim, pode ser mesmo criticado com dureza. Porque na terminologia “adequada” não deveremos traumatizar a “criança”. Devemos antes remete-la para um mundo de ilusão paternalista, pelo menos até ela sair finalmente do “sistema educativo” e deixar de ser “actor do processo” e, finalmente, lhe bater no focinho o mundo desencantado. Claro está, pode entretanto ter “sorte” e pode chegar a alguma telenovela.
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À beira de mais um ano lectivo proponho alguns tópicos para reflexão.
Poderá o Estatuto de Carreira Docente não incluir as palavras “educar”, “ensinar”, “instruir”, “aprender”? Pode, claro que pode. Mais, poderá a Lei de Bases do Sistema Educativo não conter a palavra “educar” e a palavra “disciplinar”? Pode pois. Em contraponto, pode, no que se refere aos objectivos do ensino primário, conter coisas bizantinas como: “Fomentar a consciência nacional aberta à realidade concreta numa perspectiva de humanismo universalista, de solidariedade e de cooperação internacional;” . Confesso que não faço a mínima ideia como é atingido este objectivo. Chegados ao ensino superior, os bravos alunos enfrentarão um contexto que visa: “Suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração;”. Sou franco, não sei muito bem o que é uma “estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração”. Eu, que também sou pai, tenho a expectativa que na escola primária, os meus filhos desenvolvam consciência cívica, moral, capacidade crítica, sentido de solidariedade, sensibilidade estética, vontade de reciclar, de lavar os dentes e de não extrair macacos do nariz em público. Procuro assegurar que também lhes ensinem aritmética, gramática e que adquiram mais léxico que o dos presidentes dos clubes de futebol. E que lhes exijam respeito pelos professores e por si próprios.
Poderão os pais, no ensino secundário, assinar justificações de faltas dos seus filhos, com a expectativa muito razoável que sejam deferidas, porque os filhos foram ao funeral de uma “actor” de telenovelas? Poderão os pais assinar justificações de faltas dos filhos, com igual expectativa à anterior, porque os filhos foram a “castings” para telenovelas? Aparentemente, sim senhora. Porque, parece que muitos e muitos pais acreditam que há duas soluções de vida para os filhos. Serem famosos ou ganharem o euromilhões. Até porque as trágicas consequências dos comportamentos do jovem “actor” passaram sem apreço, nomeadamente que visasse “Desenvolver a formação moral da criança e o sentido da responsabilidade, associado ao da liberdade”. Ficou-se apenas pela exploração até ao vómito da imagem idílica do personagem na novela. A consideração e homenagem ao jovem que morreu nunca foi feita.
Poderá um professor ser incomodado porque sobre um garoto, de onze anos, apresentado como “não lente e não escrevente” simplificou e reduziu a coisa ao analfabetismo? Aparentemente sim, pode ser mesmo criticado com dureza. Porque na terminologia “adequada” não deveremos traumatizar a “criança”. Devemos antes remete-la para um mundo de ilusão paternalista, pelo menos até ela sair finalmente do “sistema educativo” e deixar de ser “actor do processo” e, finalmente, lhe bater no focinho o mundo desencantado. Claro está, pode entretanto ter “sorte” e pode chegar a alguma telenovela.
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José Manuel Fonseca
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (6)
Mudanças
Suponho que os leitores(as) estejam entre aqueles(as) que recebem, constantemente, correio electrónico cheio de bons conselhos. Sobre as coisas efectivamente importantes da vida, sobre a prudência financeira, sobre a gripe das aves, sobre as cautelas a ter para evitar assaltos enquanto se está parado nos sinais vermelhos, sobre os perigos dos micro-ondas, sobre os malefícios do tabagismo, sobre educação de adolescentes, sobre a preservação da juventude de espírito, eu sei lá....
Em geral, estes conselhos implicam mudança de comportamentos. Os apelos à mudança de comportamentos são tantos que é difícil atender (e entender) a todos. Ao lado destes imperativos éticos e estéticos, florescem variadíssimas actividades económicas. Se olhar em seu redor observará que já há disponíveis no seu minimercado local quase todos os produtos que incluem coisas misteriosas como bífidos activos, antioxidantes, ou ainda mais bizantinas como elkazéimunitazes, ou mais triviais como alho em pílulas para o coração que combatem os radicais livres, soja sob a forma de croquetes a sobremesas de morango, e claro está o aloé vera incluído em quase todos os produtos mesmo os de higiene doméstica ou corporal. Toda esta infinidade de produtos aparecem associados a serviços de meditação transcendental, de ginástica tântrica, de leitura de runas, de redecoração do ambiente em que vive sob a égide do feng shui, de massagens em diversas partes do corpo, cada uma com um nome e um diploma de proficiência quando não de deontologia e carteira profissional associada, ou de actividades com nomes menos ocultistas e mais fashion como body pump, ou step ou cardiofitness... Quando não resultarem estas mézinhas, podem os mais afluentes recorrer a múltiplas formas de preservar a juventude sob a forma de injecções ou de cirurgias com ou sem introdução no corpo de objectos artificiais.
Em psicologia, não se fica de fora deste mercado promissor. A discussão sobre mudança ou inovação de comportamentos em psicologia é um dos melhores diálogos de surdos que conheço. Desde as escolas mais analíticas às das terapias breves todos possuem uma solução para mudarmos e nos tornarmos melhores pessoas. Em geral, estou certo, se seguíssemos mesmo, ainda que uma percentagem pequena, de todos os conselhos que recebemos, seriamos mais saudáveis, mais espontâneos, mais felizes, mais equilibrados, e eventualmente nem sequer teríamos prisão de ventre, ou colesterol alto.
O que me fascina nesta questão toda é a dificuldade que temos em envelhecer. Em nos sentirmos bem nas e através das diversas fases de vida em que vamos passando. Acho surpreendente, a quantidade de pessoas que parecem dependentes de ilusões de juventude eterna, de saúde infinita, de beleza imortal, de perfeição sem mácula. É bem possível que esta percepção seja fortemente enviesada pelos mídia. Provavelmente não há assim tanta gente a viver neste mundo de seres com dentição completa e sem vestígio de cárie...
A maior parte de nós, olha para toda aquela classe de conselhos através das lentes de outra ilusão perigosa. A de que somos mesmo imortais, não precisamos de nada daquelas coisas e podemos prosseguir com a nossa vida sem aquelas “obsessões” todas...
Curiosamente, descobri muito deste mundo nas circunstâncias em que me encontro enquanto escrevo estas linhas....aguardando, por horas, que me serrem o esterno e me “reparem” três artérias que fazem bastante falta... E, portanto, agora sou objecto, não só por correio electrónico, como de viva voz, da atenção de vários familiares e amigos que me favorecem com conselhos de variadíssima índole e amplitude. Desde que experimentei o que era um enfarte agudo do miocárdio, já provei inúmeros produtos, que tivesse eu consumido em programas cientificamente testados teriam eliminado o excesso de colesterol que justamente me tramou... Entretanto deixei de fumar, para grande satisfação de amigos médicos que fumam bastante, só tenho comido peixe e legumes sem sal e sem sabor, judiciosamente aconselhados por amigos que se deliciam com secretos de porco preto e um tinto de Portalegre...
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Suponho que os leitores(as) estejam entre aqueles(as) que recebem, constantemente, correio electrónico cheio de bons conselhos. Sobre as coisas efectivamente importantes da vida, sobre a prudência financeira, sobre a gripe das aves, sobre as cautelas a ter para evitar assaltos enquanto se está parado nos sinais vermelhos, sobre os perigos dos micro-ondas, sobre os malefícios do tabagismo, sobre educação de adolescentes, sobre a preservação da juventude de espírito, eu sei lá....
Em geral, estes conselhos implicam mudança de comportamentos. Os apelos à mudança de comportamentos são tantos que é difícil atender (e entender) a todos. Ao lado destes imperativos éticos e estéticos, florescem variadíssimas actividades económicas. Se olhar em seu redor observará que já há disponíveis no seu minimercado local quase todos os produtos que incluem coisas misteriosas como bífidos activos, antioxidantes, ou ainda mais bizantinas como elkazéimunitazes, ou mais triviais como alho em pílulas para o coração que combatem os radicais livres, soja sob a forma de croquetes a sobremesas de morango, e claro está o aloé vera incluído em quase todos os produtos mesmo os de higiene doméstica ou corporal. Toda esta infinidade de produtos aparecem associados a serviços de meditação transcendental, de ginástica tântrica, de leitura de runas, de redecoração do ambiente em que vive sob a égide do feng shui, de massagens em diversas partes do corpo, cada uma com um nome e um diploma de proficiência quando não de deontologia e carteira profissional associada, ou de actividades com nomes menos ocultistas e mais fashion como body pump, ou step ou cardiofitness... Quando não resultarem estas mézinhas, podem os mais afluentes recorrer a múltiplas formas de preservar a juventude sob a forma de injecções ou de cirurgias com ou sem introdução no corpo de objectos artificiais.
Em psicologia, não se fica de fora deste mercado promissor. A discussão sobre mudança ou inovação de comportamentos em psicologia é um dos melhores diálogos de surdos que conheço. Desde as escolas mais analíticas às das terapias breves todos possuem uma solução para mudarmos e nos tornarmos melhores pessoas. Em geral, estou certo, se seguíssemos mesmo, ainda que uma percentagem pequena, de todos os conselhos que recebemos, seriamos mais saudáveis, mais espontâneos, mais felizes, mais equilibrados, e eventualmente nem sequer teríamos prisão de ventre, ou colesterol alto.
O que me fascina nesta questão toda é a dificuldade que temos em envelhecer. Em nos sentirmos bem nas e através das diversas fases de vida em que vamos passando. Acho surpreendente, a quantidade de pessoas que parecem dependentes de ilusões de juventude eterna, de saúde infinita, de beleza imortal, de perfeição sem mácula. É bem possível que esta percepção seja fortemente enviesada pelos mídia. Provavelmente não há assim tanta gente a viver neste mundo de seres com dentição completa e sem vestígio de cárie...
A maior parte de nós, olha para toda aquela classe de conselhos através das lentes de outra ilusão perigosa. A de que somos mesmo imortais, não precisamos de nada daquelas coisas e podemos prosseguir com a nossa vida sem aquelas “obsessões” todas...
Curiosamente, descobri muito deste mundo nas circunstâncias em que me encontro enquanto escrevo estas linhas....aguardando, por horas, que me serrem o esterno e me “reparem” três artérias que fazem bastante falta... E, portanto, agora sou objecto, não só por correio electrónico, como de viva voz, da atenção de vários familiares e amigos que me favorecem com conselhos de variadíssima índole e amplitude. Desde que experimentei o que era um enfarte agudo do miocárdio, já provei inúmeros produtos, que tivesse eu consumido em programas cientificamente testados teriam eliminado o excesso de colesterol que justamente me tramou... Entretanto deixei de fumar, para grande satisfação de amigos médicos que fumam bastante, só tenho comido peixe e legumes sem sal e sem sabor, judiciosamente aconselhados por amigos que se deliciam com secretos de porco preto e um tinto de Portalegre...
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José Manuel Fonseca
terça-feira, janeiro 16, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (5)
A minha geração
A minha geração está agora no poder. Entreteve-se em meados da década de setenta a discutir politica com um entusiasmo pueril, tipicamente adolescente, cheio de certezas e absolutos imperativos incontornáveis e inexoráveis. Participou em RGA’s loucas e exuberantes, colocando tudo em questão, construindo futuros imaginários inadiáveis e inelutáveis. A minha geração respirou a explosão do ar da liberdade sem verdadeiramente conhecer o cheiro fétido do medo de pensar e safou-se da guerra. A minha geração fazia directas na praia à luz da fogueira e de sonhos generosos discutindo filmes de Tarkovsky e as obras de Milan Kundera. A minha geração descobriu o inter-rail, andou pelos campos e pelas cidades vivendo sem barreiras e quase sem limites. A minha geração experimentou quase tudo o que havia para experimentar. Mas a minha geração envelheceu. É como aqueles pêssegos descongelados nas prateleiras dos supermercado. Era brilhante e radiosa. Mas quando chegou a casa já estava definhada. Macilenta e sem fulgor. A minha geração rendeu-se. Ao dinheiro, ao estatuto, à fama, à capa de revista em que se anuncia ao mundo que se planeia um divórcio ou que se vai repuxar centímetro e meio de pele no focinho. Ao óbvio, ao pragmatismo, ao leasing da mota, ao silêncio.
A minha geração entregou-se. Vive de memórias do que poderia ter sido. A minha geração que tudo questionava aceita agora o absurdo como estado natural. A minha geração vira a cara e olha para os dias de ontem, quando uma pessoa tem um filho queimado e tem de ir com ele para Espanha, porque aqui há armazéns com aviões de combate no valor de milhões e milhões e milhões de euros encaixotados há anos mas não há um sitio para tratar crianças queimadas. A minha geração rendeu-se. A minha geração que produziu motins por segundas chamadas de exame fica agora impotente perante os concursos de promoção que já toda a gente sabe antecipadamente qual o resultado.
A minha geração que produzia acusações terríveis e insofismáveis contra os injustos e injustiças, na cara deles, de dedo em riste, fica agora calada perante a exibição de seres medíocres sem vergonha de serem escutados a combinar resultados de jogos. E, que vão para tribunal declarar que vivem à beirinha da pobreza e da quase indigência para evitar as custas judiciais ao mesmo tempo que os vimos de Armani no aeroporto. A minha geração que discutia as letras do Lamb Lies Down on Broadway como se a seta do tempo dependesse da exegese, consome agora doses cavalares de imbecilidade telvisionada a que constitucionalmente temos todo o direito. A minha geração que era inconveniente e comentava alto durante as sessões de cinema e levava a casa abaixo de riso, assiste agora sem reacção às nomeações de afilhados do jardineiro da cunhada do gajo da concelhia para directores do centro cultural de Alguidares de Centro. A minha geração que prometia solenemente mudar o mundo, muda de camisa para ir assistir ao lançamento da primeira pedra da empresa presidida por um ex futuro deputado que enquanto foi subsecretário de estado a ajudou a criar facilitando tudo e um par de botas. A minha geração que repudiava como heresia e pecado inominável a falta de honestidade comprou uma casa na falésia com desconto da sisa mas dando de vez em quando um donativo para a Liga de Protecção das Minhocas em Extinção.
A minha geração envelheceu. Amadureceu e tornou-se igual a todas as outras que capitularam perante o “fado”. Não há nada de especial na minha geração. Vai a Bruxelas e tem casas de cinco assoalhadas com estacionamento e jacuzzi. Acomodou-se. Vai a despacho. A minha geração aprendeu que o respeitinho é muito bonito. A minha geração acotovela-se para aparecer na TV atrás do senhor ministro enquanto ele diz coisas com ar grave e advérbios de modo. A minha geração tornou-se numa força incontornável de amanuenses venerandos e realistas.
Eu sou da minha geração. Mas não tenho orgulho nisso.
PS. É claro que isto não é a minha geração. Mas eu escrevi isto quando assistia a um programa com uma daquelas criaturas do esplêndido mundo da bola, que não é pior que os outros mundos. Podia ter sido escrito enquanto assistia a um programa com um autarca a incentivar o sábio uso de pedradas, ou com um ministro a explicar porque é que temos de fazer o que ele diz mas não que ele faz... tanto faz...
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A minha geração está agora no poder. Entreteve-se em meados da década de setenta a discutir politica com um entusiasmo pueril, tipicamente adolescente, cheio de certezas e absolutos imperativos incontornáveis e inexoráveis. Participou em RGA’s loucas e exuberantes, colocando tudo em questão, construindo futuros imaginários inadiáveis e inelutáveis. A minha geração respirou a explosão do ar da liberdade sem verdadeiramente conhecer o cheiro fétido do medo de pensar e safou-se da guerra. A minha geração fazia directas na praia à luz da fogueira e de sonhos generosos discutindo filmes de Tarkovsky e as obras de Milan Kundera. A minha geração descobriu o inter-rail, andou pelos campos e pelas cidades vivendo sem barreiras e quase sem limites. A minha geração experimentou quase tudo o que havia para experimentar. Mas a minha geração envelheceu. É como aqueles pêssegos descongelados nas prateleiras dos supermercado. Era brilhante e radiosa. Mas quando chegou a casa já estava definhada. Macilenta e sem fulgor. A minha geração rendeu-se. Ao dinheiro, ao estatuto, à fama, à capa de revista em que se anuncia ao mundo que se planeia um divórcio ou que se vai repuxar centímetro e meio de pele no focinho. Ao óbvio, ao pragmatismo, ao leasing da mota, ao silêncio.
A minha geração entregou-se. Vive de memórias do que poderia ter sido. A minha geração que tudo questionava aceita agora o absurdo como estado natural. A minha geração vira a cara e olha para os dias de ontem, quando uma pessoa tem um filho queimado e tem de ir com ele para Espanha, porque aqui há armazéns com aviões de combate no valor de milhões e milhões e milhões de euros encaixotados há anos mas não há um sitio para tratar crianças queimadas. A minha geração rendeu-se. A minha geração que produziu motins por segundas chamadas de exame fica agora impotente perante os concursos de promoção que já toda a gente sabe antecipadamente qual o resultado.
A minha geração que produzia acusações terríveis e insofismáveis contra os injustos e injustiças, na cara deles, de dedo em riste, fica agora calada perante a exibição de seres medíocres sem vergonha de serem escutados a combinar resultados de jogos. E, que vão para tribunal declarar que vivem à beirinha da pobreza e da quase indigência para evitar as custas judiciais ao mesmo tempo que os vimos de Armani no aeroporto. A minha geração que discutia as letras do Lamb Lies Down on Broadway como se a seta do tempo dependesse da exegese, consome agora doses cavalares de imbecilidade telvisionada a que constitucionalmente temos todo o direito. A minha geração que era inconveniente e comentava alto durante as sessões de cinema e levava a casa abaixo de riso, assiste agora sem reacção às nomeações de afilhados do jardineiro da cunhada do gajo da concelhia para directores do centro cultural de Alguidares de Centro. A minha geração que prometia solenemente mudar o mundo, muda de camisa para ir assistir ao lançamento da primeira pedra da empresa presidida por um ex futuro deputado que enquanto foi subsecretário de estado a ajudou a criar facilitando tudo e um par de botas. A minha geração que repudiava como heresia e pecado inominável a falta de honestidade comprou uma casa na falésia com desconto da sisa mas dando de vez em quando um donativo para a Liga de Protecção das Minhocas em Extinção.
A minha geração envelheceu. Amadureceu e tornou-se igual a todas as outras que capitularam perante o “fado”. Não há nada de especial na minha geração. Vai a Bruxelas e tem casas de cinco assoalhadas com estacionamento e jacuzzi. Acomodou-se. Vai a despacho. A minha geração aprendeu que o respeitinho é muito bonito. A minha geração acotovela-se para aparecer na TV atrás do senhor ministro enquanto ele diz coisas com ar grave e advérbios de modo. A minha geração tornou-se numa força incontornável de amanuenses venerandos e realistas.
Eu sou da minha geração. Mas não tenho orgulho nisso.
PS. É claro que isto não é a minha geração. Mas eu escrevi isto quando assistia a um programa com uma daquelas criaturas do esplêndido mundo da bola, que não é pior que os outros mundos. Podia ter sido escrito enquanto assistia a um programa com um autarca a incentivar o sábio uso de pedradas, ou com um ministro a explicar porque é que temos de fazer o que ele diz mas não que ele faz... tanto faz...
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José Manuel Fonseca
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (4)
A Pergunta
Em geral temos uma cultura de castração e de repressão. Aparentemente, temos até, agora, erigida em doutrina do calduço uma apreciação superior, que nos remete para uma perigosa categoria de pais negligentes se evitarmos o exercício profilático da palmada correctiva. Distinguimo-nos dos judeus que louvam as crianças (pelo menos nessa fase) pela capacidade de perguntar. Incentivam a curiosidade, a descoberta e a crítica. Muitas vezes as perguntas são devolvidas com outras perguntas, mas são sempre respondidas. Por exemplo, quando um miúdo chama alguém de puta. Em lugar de levar logo um estaladão pavloviano, podemos sempre afirmar que a palavra é forte, que é desagradável, é ofensiva, é dura. Quando se diz uma coisa dessas o objectivo é ofender, magoar e fazer com que o outro não goste de nós, ou mesmo provocar o corte da comunicação e da relação. As crianças aprendem que há sempre consequências para este tipo de comportamentos e de palavras, aliás há para tudo o que dizemos. Portanto são informadas de potenciais consequências se persistirem naquele curso de acção. Podem escolher um bom ou um mau relacionamento.
Entre nós, a resposta mais comum à pergunta, à afirmação ou mesmo à provocação de uma criança é a negativa. Talvez, e felizmente, já não seja violenta. Os estalos ou sopapos, já para não mencionar as “pedagógicas” tareias de cinto, são crescentemente substituídas pela imposição de absolutos primários. Errado, mau, feio!
Uma criança pergunta, frequentemente, coisas absurdas, inacreditáveis, vocifera asneiras, frustrada com coisas tão básicas como a recusa da mãe ou do pai em fornecer mais um copo de sumo antes de começar a comer a refeição. Murmura um palavrão que aprendeu nesse dia na escola, atira com uma ordinarice recentemente adquirida. Leva de volta a ameaça, a sentença, a condenação inapelável, por vezes o "exílio" no quarto, talvez ainda no quarto escuro. E, começa a saber que há coisas (muitas) impronunciáveis, é informado de coisas aparentemente graves como que é novinho, que não tem idade, que é feio, que é mau, que é errado.
Porque ainda está desarmado para saber distinguir a pessoa da afirmação, é incapaz de diferenciar o feio aplicado à frase que pronunciou e presume que é ele que é feio, começa por se sentir sujo, inadequado. Em adição a isto, provavelmente, detecta incongruências no comportamento daqueles que lhe recomendam que nunca minta, que nunca diga asneiras nem palavrões, que seja sempre honesto. E, se calhar uma vez até se aventurou a questionar o progenitor sobre esta contradição. Talvez para apenas levar de volta "Faz o que te digo, não faças o que eu faço". Frase liminar que coloca a cereja em cima do bolo.
Mais tarde torna-se silencioso. Cala a afirmação que o rei vai nu. Não tem dúvidas nas aulas. Tem vergonha de perguntar. Não participa nas reuniões. Mede as palavras com receio de vários tabus que já interiorizou. Torna-se artificial e contido. Murmura silenciosamente ameaças inomináveis, fantasia catástrofes variadas para aqueles a quem tem de reverenciar com o seu silêncio respeitoso e falso. Torna-se um cobardolas encartado e certificado com ISO 9000. Sabe muito bem que é impensável perguntar a um tipo que se desdobra em conselhos para os outros serem empreendedores porque estudou o assunto até à exaustão, porque raio de porra é que o gajo não se tornou empreendedor. Sabe que é impossível perguntar a toda esta casta de conselheiros se já tomaram o remédio que recomendam.
Torna-se um óptimo português.
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Em geral temos uma cultura de castração e de repressão. Aparentemente, temos até, agora, erigida em doutrina do calduço uma apreciação superior, que nos remete para uma perigosa categoria de pais negligentes se evitarmos o exercício profilático da palmada correctiva. Distinguimo-nos dos judeus que louvam as crianças (pelo menos nessa fase) pela capacidade de perguntar. Incentivam a curiosidade, a descoberta e a crítica. Muitas vezes as perguntas são devolvidas com outras perguntas, mas são sempre respondidas. Por exemplo, quando um miúdo chama alguém de puta. Em lugar de levar logo um estaladão pavloviano, podemos sempre afirmar que a palavra é forte, que é desagradável, é ofensiva, é dura. Quando se diz uma coisa dessas o objectivo é ofender, magoar e fazer com que o outro não goste de nós, ou mesmo provocar o corte da comunicação e da relação. As crianças aprendem que há sempre consequências para este tipo de comportamentos e de palavras, aliás há para tudo o que dizemos. Portanto são informadas de potenciais consequências se persistirem naquele curso de acção. Podem escolher um bom ou um mau relacionamento.
Entre nós, a resposta mais comum à pergunta, à afirmação ou mesmo à provocação de uma criança é a negativa. Talvez, e felizmente, já não seja violenta. Os estalos ou sopapos, já para não mencionar as “pedagógicas” tareias de cinto, são crescentemente substituídas pela imposição de absolutos primários. Errado, mau, feio!
Uma criança pergunta, frequentemente, coisas absurdas, inacreditáveis, vocifera asneiras, frustrada com coisas tão básicas como a recusa da mãe ou do pai em fornecer mais um copo de sumo antes de começar a comer a refeição. Murmura um palavrão que aprendeu nesse dia na escola, atira com uma ordinarice recentemente adquirida. Leva de volta a ameaça, a sentença, a condenação inapelável, por vezes o "exílio" no quarto, talvez ainda no quarto escuro. E, começa a saber que há coisas (muitas) impronunciáveis, é informado de coisas aparentemente graves como que é novinho, que não tem idade, que é feio, que é mau, que é errado.
Porque ainda está desarmado para saber distinguir a pessoa da afirmação, é incapaz de diferenciar o feio aplicado à frase que pronunciou e presume que é ele que é feio, começa por se sentir sujo, inadequado. Em adição a isto, provavelmente, detecta incongruências no comportamento daqueles que lhe recomendam que nunca minta, que nunca diga asneiras nem palavrões, que seja sempre honesto. E, se calhar uma vez até se aventurou a questionar o progenitor sobre esta contradição. Talvez para apenas levar de volta "Faz o que te digo, não faças o que eu faço". Frase liminar que coloca a cereja em cima do bolo.
Mais tarde torna-se silencioso. Cala a afirmação que o rei vai nu. Não tem dúvidas nas aulas. Tem vergonha de perguntar. Não participa nas reuniões. Mede as palavras com receio de vários tabus que já interiorizou. Torna-se artificial e contido. Murmura silenciosamente ameaças inomináveis, fantasia catástrofes variadas para aqueles a quem tem de reverenciar com o seu silêncio respeitoso e falso. Torna-se um cobardolas encartado e certificado com ISO 9000. Sabe muito bem que é impensável perguntar a um tipo que se desdobra em conselhos para os outros serem empreendedores porque estudou o assunto até à exaustão, porque raio de porra é que o gajo não se tornou empreendedor. Sabe que é impossível perguntar a toda esta casta de conselheiros se já tomaram o remédio que recomendam.
Torna-se um óptimo português.
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José Manuel Fonseca
sábado, janeiro 13, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (3)
A sedução
É incontável o número de cursos que garantem sucesso nas conquistas profissionais ou sexuais. Basta consultar o Google e aparece imediatamente uma lista infindável de métodos mais ou menos mecânicos, ferramentas de sedução para qualquer situação em que a vida nos coloca. Parece que se pode aprender a fazer olhares, ensaiar poses, utilizar pausas dramáticas ou técnicas de sincronização que tornariam o “Zelig” de Woody Allen (do filme homónimo, de 1983) um ser sem nada de estranho ou notável ou, inclusive, aprender a realizar gestos e palavras subliminares e até hipnóticas...Quiçá, antes de embarcar nessa despesa, eu possa ajudar no processo de compra.
A sedução assenta em dois princípios psicológicos muito simples. Primeiro, na consideração pelo outro, na forma de ouvir e comunicar na linguagem do outro. Por linguagem entenda-se também a não verbal. Em segundo lugar, no alimentar das expectativas e fantasias do interlocutor em relação ao mundo em que este se insere e em relação ao sedutor. A chave da sedução está no mistério que o sedutor cria à sua volta. Na incerteza e interesse que gera no outro. Nas meias palavras e nos meios silêncios. Ou seja, numa ambiguidade que permita ao interlocutor imaginar o sedutor em possíveis papéis, que possa desempenhar, que o interlocutor constrói como forma de regular as pequenas inconveniências do presente enquanto se projecta em futuros mais apetecíveis.
A maior parte de nós está demasiado ocupada em se ouvir a si mesma a explanar, com profundidade e extensão, a sua munificente sabedoria sobre assuntos avulsos. Com grande assertividade desenvolvemos visões mais ou menos rebuscadas sobre tudo e sobre nada. Estaremos aliás particularmente habilitados nestes domínios: raramente se encontra uma dúzia de portugueses que não subscreva duas dúzias de opiniões, por vezes bizantinas, sobre qualquer assunto que esteja em apreço. O sedutor não nega nem afirma a opinião do outro. Incentiva o interlocutor a usufruir dum período em que é escutado sem oposição e com “evidente” interesse. Seguidamente, o sedutor ideal sintetiza o pensamento do outro numa frase memorável. É um criativo publicitário. Deixa o outro fascinado a pensar que foi o autor da frase, que a sua sabedoria vale ainda mais do que o próprio já suspeitava. O sedutor oferece ao interlocutor os “direitos de autor”. Torna-se mais que apreciado, torna-se desejado. O sedutor procura dar ao outro o centro do palco. Pontua o discurso dos outros com interjeições bem humoradas, por vezes paradoxais. O paradoxo é uma arte do sedutor. Num paradoxo podemos conter a interpretação que deixa ambos os antagonistas numa discussão com a firme certeza de que estamos exclusivamente do lado de cada um. Sem que nenhum possa verdadeiramente desmentir a
interpretação do outro. Um grande sedutor consegue deixar alguém insultado durante horas até que o outro compreenda o insulto. É pois fácil confundir um sedutor com um diletante. Puro engano. O desprendimento e a distracção são artifícios. O sedutor é um narciso incorrigível. Tem normalmente uma orientação bastante instrumental das suas relações. Um manipulador por excelência. O sedutor consegue “dar” ao outro a sensação de ganho; sobretudo quando desperta instintos maternais ou paternais. Consegue o verdadeiro ganho sem nunca dar a entender o que pretendia realmente. Nunca é demasiado óbvio. O sedutor pode também ser equivocado como a serenidade em pessoa. Em lugar de um calmo interlocutor, o sedutor é uma máquina de cálculos de utilidade marginal... Contudo, não é estritamente motivado pelo dinheiro ou por bens materiais. O sedutor é um fascinado pelo poder e pelo reconhecimento, que aceita com sobriedade e timidez, mesmo com embaraço.
Mas nem tudo é negativo no sedutor. É regra geral determinado e transpira auto-confiança e auto-estima. Mesmo que seja muito menor do que aparenta ser, a verdade é que o sedutor é um “achiever”. Acredita que é autor do seu
destino, possuindo aquilo que os psicólogos denominam por “locus” interno de controlo.
Um sedutor em escala denomina-se normalmente de líder, cujo carisma é baseado na capacidade de nos entusiasmar com futuros ao nosso alcance. Futuros claros e desafiantes, difíceis, mobilizadores. A troco de orgulho e satisfação mais imaterial. E faz sonhar... é um verdadeiro comerciante de sonhos.
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É incontável o número de cursos que garantem sucesso nas conquistas profissionais ou sexuais. Basta consultar o Google e aparece imediatamente uma lista infindável de métodos mais ou menos mecânicos, ferramentas de sedução para qualquer situação em que a vida nos coloca. Parece que se pode aprender a fazer olhares, ensaiar poses, utilizar pausas dramáticas ou técnicas de sincronização que tornariam o “Zelig” de Woody Allen (do filme homónimo, de 1983) um ser sem nada de estranho ou notável ou, inclusive, aprender a realizar gestos e palavras subliminares e até hipnóticas...Quiçá, antes de embarcar nessa despesa, eu possa ajudar no processo de compra.
A sedução assenta em dois princípios psicológicos muito simples. Primeiro, na consideração pelo outro, na forma de ouvir e comunicar na linguagem do outro. Por linguagem entenda-se também a não verbal. Em segundo lugar, no alimentar das expectativas e fantasias do interlocutor em relação ao mundo em que este se insere e em relação ao sedutor. A chave da sedução está no mistério que o sedutor cria à sua volta. Na incerteza e interesse que gera no outro. Nas meias palavras e nos meios silêncios. Ou seja, numa ambiguidade que permita ao interlocutor imaginar o sedutor em possíveis papéis, que possa desempenhar, que o interlocutor constrói como forma de regular as pequenas inconveniências do presente enquanto se projecta em futuros mais apetecíveis.
A maior parte de nós está demasiado ocupada em se ouvir a si mesma a explanar, com profundidade e extensão, a sua munificente sabedoria sobre assuntos avulsos. Com grande assertividade desenvolvemos visões mais ou menos rebuscadas sobre tudo e sobre nada. Estaremos aliás particularmente habilitados nestes domínios: raramente se encontra uma dúzia de portugueses que não subscreva duas dúzias de opiniões, por vezes bizantinas, sobre qualquer assunto que esteja em apreço. O sedutor não nega nem afirma a opinião do outro. Incentiva o interlocutor a usufruir dum período em que é escutado sem oposição e com “evidente” interesse. Seguidamente, o sedutor ideal sintetiza o pensamento do outro numa frase memorável. É um criativo publicitário. Deixa o outro fascinado a pensar que foi o autor da frase, que a sua sabedoria vale ainda mais do que o próprio já suspeitava. O sedutor oferece ao interlocutor os “direitos de autor”. Torna-se mais que apreciado, torna-se desejado. O sedutor procura dar ao outro o centro do palco. Pontua o discurso dos outros com interjeições bem humoradas, por vezes paradoxais. O paradoxo é uma arte do sedutor. Num paradoxo podemos conter a interpretação que deixa ambos os antagonistas numa discussão com a firme certeza de que estamos exclusivamente do lado de cada um. Sem que nenhum possa verdadeiramente desmentir a
interpretação do outro. Um grande sedutor consegue deixar alguém insultado durante horas até que o outro compreenda o insulto. É pois fácil confundir um sedutor com um diletante. Puro engano. O desprendimento e a distracção são artifícios. O sedutor é um narciso incorrigível. Tem normalmente uma orientação bastante instrumental das suas relações. Um manipulador por excelência. O sedutor consegue “dar” ao outro a sensação de ganho; sobretudo quando desperta instintos maternais ou paternais. Consegue o verdadeiro ganho sem nunca dar a entender o que pretendia realmente. Nunca é demasiado óbvio. O sedutor pode também ser equivocado como a serenidade em pessoa. Em lugar de um calmo interlocutor, o sedutor é uma máquina de cálculos de utilidade marginal... Contudo, não é estritamente motivado pelo dinheiro ou por bens materiais. O sedutor é um fascinado pelo poder e pelo reconhecimento, que aceita com sobriedade e timidez, mesmo com embaraço.
Mas nem tudo é negativo no sedutor. É regra geral determinado e transpira auto-confiança e auto-estima. Mesmo que seja muito menor do que aparenta ser, a verdade é que o sedutor é um “achiever”. Acredita que é autor do seu
destino, possuindo aquilo que os psicólogos denominam por “locus” interno de controlo.
Um sedutor em escala denomina-se normalmente de líder, cujo carisma é baseado na capacidade de nos entusiasmar com futuros ao nosso alcance. Futuros claros e desafiantes, difíceis, mobilizadores. A troco de orgulho e satisfação mais imaterial. E faz sonhar... é um verdadeiro comerciante de sonhos.
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José Manuel Fonseca
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (2)
“Você acha que isto funciona?”
A resposta veio, sem ambiguidade, mas sem grande sofisticação do léxico. Foram dois socos que o “emissor” recebeu como satisfação para a sua interrogação. Nem sequer alguns sons, eventualmente recriadores dos fonemas que originalmente devem ter saído da garganta dos primeiros hominídeos que deram origem à fala humana, foram emitidos. Apenas uma agressão ao interlocutor. Mais tarde, descrevendo a cena, o “emissor”, perante terceiros, que não tinham testemunhado a situação, salientava o absurdo da reacção do agressor. Como poderia alguém reagir daquela forma àquela pergunta inócua, formulada em plácido tom de voz e sem inflexões de timbre? O individuo tinha de ser louco, e deveria ser exemplarmente punido. De facto, ninguém em bom juízo poderia entender como é que uma interrogação daquelas pode desencadear uma tal resposta.
E, no quadro do modelo cognitivo/cibernético de comunicação ficamos impotentes para explicar a situação. Não parece colocar-se a hipótese do agressor não ter compreendido a pergunta. Teremos de nos socorrer de uma outra hipótese, aquela que remete o “receptor” para uma área de patologia mental ou de defeito de carácter. Não será na área da comunicação humana, como mero mecanismo de “transmissão e transferência” de significados entre interlocutores que poderemos entender situação tão bizarra.
É claro que se pensarmos um pouco, poderemos, ainda no contexto da comunicação humana, ir um pouco mais fundo. Qual era a tónica daquela interrogação? O plácido tom de voz teria sido substituído por um ênfase? Seria o “isto”? Um objecto exterior, independente e indiferente, àquele a quem a pergunta era dirigida? Seria o “acha”? Implicando já uma subtil sugestão de possibilidades sobre as capacidades de decisão, avaliação e escolha do “receptor”? Assim do tipo, “não consegue perceber que “isto” não funciona?” Seria o “você”? Assim como quem diz, “você seu imbecil desde que foi concebido até ao momento em que cessar de respirar, que nunca conseguiu nem nunca conseguirá raciocinar de modo minimamente satisfatório?” E a linguagem corporal? A expressão facial? Reforçaria a teoria da placidez ou a teoria da repreensão insuportável?
E, o contexto situacional? Estaria esta interacção a decorrer em frente a uma audiência? Estaria o “receptor” em situação de perder a face? E, a história anterior de interacção entre estes dois seres? Teria sido pautada até então por “diálogos” deste ou daquele tipo? Como seria o típico quadro emocional quando aqueles dois seres trocavam vocábulos? Depois de considerarmos estas novas perguntas, talvez possamos não nos precipitar para patologias mais complicadas, nem pronunciar palavras de domínios linguísticos fora do contexto falado naquela instalação fabril onde testemunhei esta interacção humana.
Os processos de comunicação são frequentemente tidos como neutros e “assépticos”. Meros mecanismos de processamento de significados sobre realidades objectivas. Os problemas, neste quadro, ocorrem apenas em domínios semânticos e sintácticos, ou ainda na intromissão maçadora de “ruídos” que impedem a apropriação da totalidade da mensagem. Alegadamente, se estivermos na posse da linguagem certa, saberemos o que alguém quer dizer.
“- Meu, quantas batacas batem no teu Ozibisa?”, seria uma interrogação que deixaria os meus pais perplexos, não obstante constituir uma simples maneira de perguntar as horas no seio de uma das comunidades durante a minha adolescência. Portanto aos pais, aparentemente, bastaria conhecer a “linguagem” para entender os filhos...
Contudo, muitas vezes a comunicação torna-se prenhe de ambiguidades e fonte de equívocos, mesmo, talvez sobretudo, quando na superfície, todos os participantes são proficientes na linguagem que alegadamente todos “partilham”. Numa das comunidades em que me insiro, a dos gestores, que partilham uma curiosa linguagem, alguém pode afirmar com ar sério e austero:
“- A prévia hierarquização dos atributos do produto e sua adequação às necessidades e potenciais utilizações, é condição de sucesso no lançamento de novos produtos.”
Aceitemos que este enunciado constitui uma asserção indisputável no seio daquela disciplina. Só que aquela frase, tanto pode constituir uma recomendação para alguém que pretende aderir ao plano tecnológico, como uma critica velada ao departamento de marketing, como uma recriminação por um falhanço clamoroso do departamento de Novos Produtos, como uma frase cínica do director financeiro que secretamente se delicia com o tiro no pé do administrador. Para sabermos em concreto o que significa aquela frase necessitamos de muito mais que o que nos fornecem os modelos tradicionais de comunicação humana. Necessitamos de saber qual era o tom de voz, como era a linguagem corporal, o que estava por “trás” da frase, ou seja que história anterior decorreu, quem estava presente, quem não estava presente, se aquele tipo de frases pomposas pertence ao quotidiano daquela organização ou não. Precisamos de “pistas”. Então as “pistas” tornam-se parte dos nossos processos de comunicação. Então os processos de comunicação tornam-se processos sociais. Então os processos sociais tornam-se parte do significado que conferimos à nossa comunicação. Então a comunicação não pode mais ser uma mero mecanismo, tornando-se mais do que um meio. Torna-se numa das expressões de vida, e numa característica essencial da própria condição de ser humano e de estar vivo. E, estar vivo num determinado contexto, em que a vida vai sendo descrita e construída à medida das palavras que são inventadas e criadas para a descrever e viver.
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A resposta veio, sem ambiguidade, mas sem grande sofisticação do léxico. Foram dois socos que o “emissor” recebeu como satisfação para a sua interrogação. Nem sequer alguns sons, eventualmente recriadores dos fonemas que originalmente devem ter saído da garganta dos primeiros hominídeos que deram origem à fala humana, foram emitidos. Apenas uma agressão ao interlocutor. Mais tarde, descrevendo a cena, o “emissor”, perante terceiros, que não tinham testemunhado a situação, salientava o absurdo da reacção do agressor. Como poderia alguém reagir daquela forma àquela pergunta inócua, formulada em plácido tom de voz e sem inflexões de timbre? O individuo tinha de ser louco, e deveria ser exemplarmente punido. De facto, ninguém em bom juízo poderia entender como é que uma interrogação daquelas pode desencadear uma tal resposta.
E, no quadro do modelo cognitivo/cibernético de comunicação ficamos impotentes para explicar a situação. Não parece colocar-se a hipótese do agressor não ter compreendido a pergunta. Teremos de nos socorrer de uma outra hipótese, aquela que remete o “receptor” para uma área de patologia mental ou de defeito de carácter. Não será na área da comunicação humana, como mero mecanismo de “transmissão e transferência” de significados entre interlocutores que poderemos entender situação tão bizarra.
É claro que se pensarmos um pouco, poderemos, ainda no contexto da comunicação humana, ir um pouco mais fundo. Qual era a tónica daquela interrogação? O plácido tom de voz teria sido substituído por um ênfase? Seria o “isto”? Um objecto exterior, independente e indiferente, àquele a quem a pergunta era dirigida? Seria o “acha”? Implicando já uma subtil sugestão de possibilidades sobre as capacidades de decisão, avaliação e escolha do “receptor”? Assim do tipo, “não consegue perceber que “isto” não funciona?” Seria o “você”? Assim como quem diz, “você seu imbecil desde que foi concebido até ao momento em que cessar de respirar, que nunca conseguiu nem nunca conseguirá raciocinar de modo minimamente satisfatório?” E a linguagem corporal? A expressão facial? Reforçaria a teoria da placidez ou a teoria da repreensão insuportável?
E, o contexto situacional? Estaria esta interacção a decorrer em frente a uma audiência? Estaria o “receptor” em situação de perder a face? E, a história anterior de interacção entre estes dois seres? Teria sido pautada até então por “diálogos” deste ou daquele tipo? Como seria o típico quadro emocional quando aqueles dois seres trocavam vocábulos? Depois de considerarmos estas novas perguntas, talvez possamos não nos precipitar para patologias mais complicadas, nem pronunciar palavras de domínios linguísticos fora do contexto falado naquela instalação fabril onde testemunhei esta interacção humana.
Os processos de comunicação são frequentemente tidos como neutros e “assépticos”. Meros mecanismos de processamento de significados sobre realidades objectivas. Os problemas, neste quadro, ocorrem apenas em domínios semânticos e sintácticos, ou ainda na intromissão maçadora de “ruídos” que impedem a apropriação da totalidade da mensagem. Alegadamente, se estivermos na posse da linguagem certa, saberemos o que alguém quer dizer.
“- Meu, quantas batacas batem no teu Ozibisa?”, seria uma interrogação que deixaria os meus pais perplexos, não obstante constituir uma simples maneira de perguntar as horas no seio de uma das comunidades durante a minha adolescência. Portanto aos pais, aparentemente, bastaria conhecer a “linguagem” para entender os filhos...
Contudo, muitas vezes a comunicação torna-se prenhe de ambiguidades e fonte de equívocos, mesmo, talvez sobretudo, quando na superfície, todos os participantes são proficientes na linguagem que alegadamente todos “partilham”. Numa das comunidades em que me insiro, a dos gestores, que partilham uma curiosa linguagem, alguém pode afirmar com ar sério e austero:
“- A prévia hierarquização dos atributos do produto e sua adequação às necessidades e potenciais utilizações, é condição de sucesso no lançamento de novos produtos.”
Aceitemos que este enunciado constitui uma asserção indisputável no seio daquela disciplina. Só que aquela frase, tanto pode constituir uma recomendação para alguém que pretende aderir ao plano tecnológico, como uma critica velada ao departamento de marketing, como uma recriminação por um falhanço clamoroso do departamento de Novos Produtos, como uma frase cínica do director financeiro que secretamente se delicia com o tiro no pé do administrador. Para sabermos em concreto o que significa aquela frase necessitamos de muito mais que o que nos fornecem os modelos tradicionais de comunicação humana. Necessitamos de saber qual era o tom de voz, como era a linguagem corporal, o que estava por “trás” da frase, ou seja que história anterior decorreu, quem estava presente, quem não estava presente, se aquele tipo de frases pomposas pertence ao quotidiano daquela organização ou não. Precisamos de “pistas”. Então as “pistas” tornam-se parte dos nossos processos de comunicação. Então os processos de comunicação tornam-se processos sociais. Então os processos sociais tornam-se parte do significado que conferimos à nossa comunicação. Então a comunicação não pode mais ser uma mero mecanismo, tornando-se mais do que um meio. Torna-se numa das expressões de vida, e numa característica essencial da própria condição de ser humano e de estar vivo. E, estar vivo num determinado contexto, em que a vida vai sendo descrita e construída à medida das palavras que são inventadas e criadas para a descrever e viver.
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José Manuel Fonseca
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Conversas do Quotidiano Vulgar (1)
O Boato
Uma das trivialidades, talvez mesmo uma autêntica instituição, com que convivemos nos nossos quotidianos é o boato. Umas vezes insidioso e malévolo, outras vezes mais ligeiro e inócuo, quando não mesmo divertido. O boato, nem sempre resulta da mera expressão da cobardia e mesquinhez dos seus autores(as). Por vezes, pode ser um valioso indicador de mal estar social ou organizacional. Pode relevar de inveja mal contida mas, também, pode constituir um salutar mecanismo de escape a situações de verdadeira esquizofrenia organizacional ou social. Em geral, o boato proporciona uma forma barata de “corrigir” aspectos da realidade com que convivemos e nos desagradam. É um óptimo mecanismo de substituição: para a ineficácia e lentidão do sistema de justiça; para a “injustiça” no sistema de promoções no trabalho; para as pequenas e médias vinganças ou como alternativa para uma vida de trabalho honesto e abnegado!
Sem querer produzir uma taxonomia ou tipologia desta importante forma de comunicação humana, fiquemo-nos por dois exemplos meramente ilustrativos das situações anteriores. No primeiro caso, podemos falar de rumores sobre um determinado produto, como contendo substâncias tóxicas, de preferência com a sugestão que façam mal às crianças. Depois, espalha-se a insinuação através do mail, exemplificada com uma foto, retirada da net, de uma criança aparentemente afectada por uma qualquer doença horrível, junta-se a “certificação” que foi “um amigo” que nos avisou com base numa palestra, a que assistiu no Centro Esquimó de Cripto Genética, palestra essa, da autoria do ”conhecido e reputadíssimo Professor Immanuel Konrad”. O produto, provavelmente de qualquer concorrente nosso, contra o qual não conseguimos triunfar no mercado em termos nobres e dignos, sofrerá quase de certeza um repentino abaixamento de vendas, e o departamento de Marketing ou de Public Relations do concorrente lutará durante semanas pela recuperação da reputação, que provavelmente nunca mais será a mesma. Variantes deste instrumento de “correcção” da realidade, são os “assaltos” a carros nos sinais vermelhos, perpetrados por “romenos” segundo uma informação fidedigna de um “tenente” da policia de segurança pública. Raramente nos interrogamos se na PSP há patentes como tenente, capitão etc...
Neste era de franco progresso tecnológico, o mail, substituiu a mais velha técnica que era a da confidência, em absoluto e sagrado sigilo, que é solicitado pela alminha dos filhos, a uma pessoa que, sabíamos de antemão, trataria de pôr a circular a coisa em todo o escritório sede e nas filiais incluindo a da Kabardino Balkaria, em menos de cinco minutos. De facto, o advento da internet permitiu amplificar enormemente quer a rapidez de disseminação quer a amplitude geográfica dos danos provocados pelos boatos...
No segundo caso, mais benigno, e em particular para amantes de literatura policial ou de espionagem, pode deixar-se “esquecido” um dossiê crucial com o plano de actividade política de um qualquer grupo de pressão, por exemplo um grupo ambientalista. Presumivel e rapidamente o dossiê circulará até ao seu “legítimo” destino. Um infortunado estratego do governo perderá o seu tempo a antecipar acções que nunca estiveram planeadas, enquanto o grupo desencadeia acções espectaculares elsewhere. O estratego poderá, eventualmente, ter de procurar uma actividade mais proveitosa e interessante, alguns spin doctors serão chamados para o seu lugar e overall aumenta-se o emprego...
Todos já convivemos com os boatos mais ou menos sugestivos sobre a natureza e as estatísticas da sexualidade dos colegas de trabalho. Em geral, tratam-se apenas de projecções nos outros, de comportamentos que secretamente se desejariam ter... Há pessoas que vêm em todo o lado gente que subiu na “horizontal” e, fazem circular a sua versão miserável do sucesso alheio sempre atribuível à sorte ou à falta de vergonha. Enquanto, por oposição, o sucesso dos próprios se deve à excepcional perseverança e tenacidade que conduziu, claro está, a uma vida inteirinha de esmerado esforço sempre ético e ao sabor de todos os códigos deontológicos, mas, helas, sempre com um grau de reconhecimento largamente insuficiente, ou sempre marcado por aquele azar dos Távoras que nos acompanha, desde que nos conhecemos, e que nos cerceou o alcançar dos píncaros que amplamente merecemos...
Um dos erro mais comuns consiste no combate sem tréguas aos múltiplos boatos que assolam o interior de uma qualquer organização ou que partem de concorrentes. Paradoxalmente, a credibilização do boato começa pelos insistentes e por vezes exaltados desmentidos...
Se, por exemplo, corre o rumor que a empresa passa por aflições financeiras, não sendo verdadeiras, o mero esquecimento do funcionário de encomendar café para a máquina que está na copa, torna-se uma evidência “científica” que corrobora o boato. Se, por causa disso, um qualquer director decide que se vai comprar café de lote ainda melhor e mais caro, como forma de demonstrar que pelo contrário a empresa até atravessa um momento cheio de cash flow, mais uma evidência do descalabro de Sisífo das contas da empresa... ouvir-se-á, informalmente em pequenos grupos junto à bendita máquina do café - “ainda por cima querem atirar-nos poeira para os olhos”...
Au contraire, uma boa solução é a de amplificar o boato exagerando-o até ao limite do inverosímil... Não só a empresa está à beira do abismo, como já a partir de amanhã teremos de iniciar uma campanha de recolha de fundos a nível nacional, eventualmente, o património imaterial da empresa será colocado à venda na feira de Carcavelos, alguns funcionários serão deslocados para Trafalgar Square para peditórios e outros funcionários terão de trazer de suas casas objectos de valor que possam ser vendidos em quermesses dominicais no Campo das Cebolas e por aí adiante...
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Uma das trivialidades, talvez mesmo uma autêntica instituição, com que convivemos nos nossos quotidianos é o boato. Umas vezes insidioso e malévolo, outras vezes mais ligeiro e inócuo, quando não mesmo divertido. O boato, nem sempre resulta da mera expressão da cobardia e mesquinhez dos seus autores(as). Por vezes, pode ser um valioso indicador de mal estar social ou organizacional. Pode relevar de inveja mal contida mas, também, pode constituir um salutar mecanismo de escape a situações de verdadeira esquizofrenia organizacional ou social. Em geral, o boato proporciona uma forma barata de “corrigir” aspectos da realidade com que convivemos e nos desagradam. É um óptimo mecanismo de substituição: para a ineficácia e lentidão do sistema de justiça; para a “injustiça” no sistema de promoções no trabalho; para as pequenas e médias vinganças ou como alternativa para uma vida de trabalho honesto e abnegado!
Sem querer produzir uma taxonomia ou tipologia desta importante forma de comunicação humana, fiquemo-nos por dois exemplos meramente ilustrativos das situações anteriores. No primeiro caso, podemos falar de rumores sobre um determinado produto, como contendo substâncias tóxicas, de preferência com a sugestão que façam mal às crianças. Depois, espalha-se a insinuação através do mail, exemplificada com uma foto, retirada da net, de uma criança aparentemente afectada por uma qualquer doença horrível, junta-se a “certificação” que foi “um amigo” que nos avisou com base numa palestra, a que assistiu no Centro Esquimó de Cripto Genética, palestra essa, da autoria do ”conhecido e reputadíssimo Professor Immanuel Konrad”. O produto, provavelmente de qualquer concorrente nosso, contra o qual não conseguimos triunfar no mercado em termos nobres e dignos, sofrerá quase de certeza um repentino abaixamento de vendas, e o departamento de Marketing ou de Public Relations do concorrente lutará durante semanas pela recuperação da reputação, que provavelmente nunca mais será a mesma. Variantes deste instrumento de “correcção” da realidade, são os “assaltos” a carros nos sinais vermelhos, perpetrados por “romenos” segundo uma informação fidedigna de um “tenente” da policia de segurança pública. Raramente nos interrogamos se na PSP há patentes como tenente, capitão etc...
Neste era de franco progresso tecnológico, o mail, substituiu a mais velha técnica que era a da confidência, em absoluto e sagrado sigilo, que é solicitado pela alminha dos filhos, a uma pessoa que, sabíamos de antemão, trataria de pôr a circular a coisa em todo o escritório sede e nas filiais incluindo a da Kabardino Balkaria, em menos de cinco minutos. De facto, o advento da internet permitiu amplificar enormemente quer a rapidez de disseminação quer a amplitude geográfica dos danos provocados pelos boatos...
No segundo caso, mais benigno, e em particular para amantes de literatura policial ou de espionagem, pode deixar-se “esquecido” um dossiê crucial com o plano de actividade política de um qualquer grupo de pressão, por exemplo um grupo ambientalista. Presumivel e rapidamente o dossiê circulará até ao seu “legítimo” destino. Um infortunado estratego do governo perderá o seu tempo a antecipar acções que nunca estiveram planeadas, enquanto o grupo desencadeia acções espectaculares elsewhere. O estratego poderá, eventualmente, ter de procurar uma actividade mais proveitosa e interessante, alguns spin doctors serão chamados para o seu lugar e overall aumenta-se o emprego...
Todos já convivemos com os boatos mais ou menos sugestivos sobre a natureza e as estatísticas da sexualidade dos colegas de trabalho. Em geral, tratam-se apenas de projecções nos outros, de comportamentos que secretamente se desejariam ter... Há pessoas que vêm em todo o lado gente que subiu na “horizontal” e, fazem circular a sua versão miserável do sucesso alheio sempre atribuível à sorte ou à falta de vergonha. Enquanto, por oposição, o sucesso dos próprios se deve à excepcional perseverança e tenacidade que conduziu, claro está, a uma vida inteirinha de esmerado esforço sempre ético e ao sabor de todos os códigos deontológicos, mas, helas, sempre com um grau de reconhecimento largamente insuficiente, ou sempre marcado por aquele azar dos Távoras que nos acompanha, desde que nos conhecemos, e que nos cerceou o alcançar dos píncaros que amplamente merecemos...
Um dos erro mais comuns consiste no combate sem tréguas aos múltiplos boatos que assolam o interior de uma qualquer organização ou que partem de concorrentes. Paradoxalmente, a credibilização do boato começa pelos insistentes e por vezes exaltados desmentidos...
Se, por exemplo, corre o rumor que a empresa passa por aflições financeiras, não sendo verdadeiras, o mero esquecimento do funcionário de encomendar café para a máquina que está na copa, torna-se uma evidência “científica” que corrobora o boato. Se, por causa disso, um qualquer director decide que se vai comprar café de lote ainda melhor e mais caro, como forma de demonstrar que pelo contrário a empresa até atravessa um momento cheio de cash flow, mais uma evidência do descalabro de Sisífo das contas da empresa... ouvir-se-á, informalmente em pequenos grupos junto à bendita máquina do café - “ainda por cima querem atirar-nos poeira para os olhos”...
Au contraire, uma boa solução é a de amplificar o boato exagerando-o até ao limite do inverosímil... Não só a empresa está à beira do abismo, como já a partir de amanhã teremos de iniciar uma campanha de recolha de fundos a nível nacional, eventualmente, o património imaterial da empresa será colocado à venda na feira de Carcavelos, alguns funcionários serão deslocados para Trafalgar Square para peditórios e outros funcionários terão de trazer de suas casas objectos de valor que possam ser vendidos em quermesses dominicais no Campo das Cebolas e por aí adiante...
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José Manuel Fonseca
terça-feira, janeiro 09, 2007
O aquário
O aquário era uma sala com uma vidraça, em toda a sua extensão, situada ao longo de um amplo corredor. Era numa empresa e no aquário eram colocados os indesejáveis, os excedentes, os supranumerários. Ali ficavam expostos aos mirones dos "outros" dos ocupados com o expediente, dos "úteis" à organização, dos que decidiam, dos que eram cruciais e insubstituiveis. Era uma prova de resistência psicológica. Ser olhado com aberto desdém, ou de lado disfarçadamente, ou com tristeza, era uma provação inevitável. Alguns cediam e demitiam-se, poupando à empresa a indemnização. Outros, aguentavam a coisa durante anos. A saúde mental ia pagando, mas cerravam os dentes e seguravam alguma sanidade com a raiva. Muitos ficavam prisioneiros do aquário imaginando mundos exteriores adversos e mesmo ameaçadores, inventado para si próprios impossibilidades de felicidade fora daquela prisão psicótica. Raros eram os que um dia enfiaram uma cadeira nos cornos de quem os metera no aquário antes de seguir com a vida alegremente noutro qualquer sitio.
Há muiots anos ouvi da boca de um conhecido dirigente associativo a expressão prateleira, e de como nas empresas dele tinha carpinteiros que podiam fazer mais estantes... A ideia era a mesma. Esperar que os “emprateleirados” cedessem e se demitissem. Era mais barato e evitava-se a questão do tribunal de trabalho, que esses sacanas decidem sempre a favor do empregado.
Vem isto a propósito de uma estória que vi hoje na imprensa e nos blogues de um administrador ostracizado na CP.
Na altura, há décadas, não entendia o racional da coisa. Aquários, prateleiras, pareciam-me formas imbecis e cobardolas de gerir pessoas. Hoje percebo a “verdade” da coisa. Não se tratava só da vantagem financeira. Que agora já nem existe verdadeiramente. Hoje pode-se despedir uma pessoa sem grande problema. A questão é outra.
Entre nós não basta expulsar o outro. Não basta triunfar sobre o outro. É preciso conseguir humilhá-lo. Esmagá-lo. Se possível em frente à sua família.
Há muiots anos ouvi da boca de um conhecido dirigente associativo a expressão prateleira, e de como nas empresas dele tinha carpinteiros que podiam fazer mais estantes... A ideia era a mesma. Esperar que os “emprateleirados” cedessem e se demitissem. Era mais barato e evitava-se a questão do tribunal de trabalho, que esses sacanas decidem sempre a favor do empregado.
Vem isto a propósito de uma estória que vi hoje na imprensa e nos blogues de um administrador ostracizado na CP.
Na altura, há décadas, não entendia o racional da coisa. Aquários, prateleiras, pareciam-me formas imbecis e cobardolas de gerir pessoas. Hoje percebo a “verdade” da coisa. Não se tratava só da vantagem financeira. Que agora já nem existe verdadeiramente. Hoje pode-se despedir uma pessoa sem grande problema. A questão é outra.
Entre nós não basta expulsar o outro. Não basta triunfar sobre o outro. É preciso conseguir humilhá-lo. Esmagá-lo. Se possível em frente à sua família.
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