segunda-feira, janeiro 15, 2007

Conversas do Quotidiano Vulgar (4)

A Pergunta


Em geral temos uma cultura de castração e de repressão. Aparentemente, temos até, agora, erigida em doutrina do calduço uma apreciação superior, que nos remete para uma perigosa categoria de pais negligentes se evitarmos o exercício profilático da palmada correctiva. Distinguimo-nos dos judeus que louvam as crianças (pelo menos nessa fase) pela capacidade de perguntar. Incentivam a curiosidade, a descoberta e a crítica. Muitas vezes as perguntas são devolvidas com outras perguntas, mas são sempre respondidas. Por exemplo, quando um miúdo chama alguém de puta. Em lugar de levar logo um estaladão pavloviano, podemos sempre afirmar que a palavra é forte, que é desagradável, é ofensiva, é dura. Quando se diz uma coisa dessas o objectivo é ofender, magoar e fazer com que o outro não goste de nós, ou mesmo provocar o corte da comunicação e da relação. As crianças aprendem que há sempre consequências para este tipo de comportamentos e de palavras, aliás há para tudo o que dizemos. Portanto são informadas de potenciais consequências se persistirem naquele curso de acção. Podem escolher um bom ou um mau relacionamento.
Entre nós, a resposta mais comum à pergunta, à afirmação ou mesmo à provocação de uma criança é a negativa. Talvez, e felizmente, já não seja violenta. Os estalos ou sopapos, já para não mencionar as “pedagógicas” tareias de cinto, são crescentemente substituídas pela imposição de absolutos primários. Errado, mau, feio!

Uma criança pergunta, frequentemente, coisas absurdas, inacreditáveis, vocifera asneiras, frustrada com coisas tão básicas como a recusa da mãe ou do pai em fornecer mais um copo de sumo antes de começar a comer a refeição. Murmura um palavrão que aprendeu nesse dia na escola, atira com uma ordinarice recentemente adquirida. Leva de volta a ameaça, a sentença, a condenação inapelável, por vezes o "exílio" no quarto, talvez ainda no quarto escuro. E, começa a saber que há coisas (muitas) impronunciáveis, é informado de coisas aparentemente graves como que é novinho, que não tem idade, que é feio, que é mau, que é errado.

Porque ainda está desarmado para saber distinguir a pessoa da afirmação, é incapaz de diferenciar o feio aplicado à frase que pronunciou e presume que é ele que é feio, começa por se sentir sujo, inadequado. Em adição a isto, provavelmente, detecta incongruências no comportamento daqueles que lhe recomendam que nunca minta, que nunca diga asneiras nem palavrões, que seja sempre honesto. E, se calhar uma vez até se aventurou a questionar o progenitor sobre esta contradição. Talvez para apenas levar de volta "Faz o que te digo, não faças o que eu faço". Frase liminar que coloca a cereja em cima do bolo.

Mais tarde torna-se silencioso. Cala a afirmação que o rei vai nu. Não tem dúvidas nas aulas. Tem vergonha de perguntar. Não participa nas reuniões. Mede as palavras com receio de vários tabus que já interiorizou. Torna-se artificial e contido. Murmura silenciosamente ameaças inomináveis, fantasia catástrofes variadas para aqueles a quem tem de reverenciar com o seu silêncio respeitoso e falso. Torna-se um cobardolas encartado e certificado com ISO 9000. Sabe muito bem que é impensável perguntar a um tipo que se desdobra em conselhos para os outros serem empreendedores porque estudou o assunto até à exaustão, porque raio de porra é que o gajo não se tornou empreendedor. Sabe que é impossível perguntar a toda esta casta de conselheiros se já tomaram o remédio que recomendam.

Torna-se um óptimo português.

©

José Manuel Fonseca

1 comentário:

alexandra disse...

Muito bom!!!