terça-feira, janeiro 23, 2007

Conversas do Quotidiano Vulgar (9)

Miragem Perdida


Vivemos uma época nova. Prenhe de coisas admiráveis. Prometedoras. Parecemos finalmente libertos da dependência do meio físico, que os nossos antepassados louvavam e amaldiçoavam. Libertos da doença e com delírios de eternidade. Mas esta época de novidades pós modernas, também nos deixou cínicos e relativistas. Há coisas ameaçadoras que nos deixam ansiosos e angustiados. Respondemos de modos vários. Com hedonismo, que nos faz deleitar com excrementos, necrofilias voyeurs de podridões e dissoluções caricatas, que se podem observar em muitos programas televisivos. Com misticismo e ocultismo apressados e ignorantes, que permitem e possibilitam conexões aparentemente universais de forças misteriosas e telúricas, mas que esquecem o sentido pragmático da origem das lendas, mitos e práticas antigas. Com hiper-racionalismo, que nos faz pedir mais observatórios de coisa nenhuma e de medições e certificações de processos e de realidades imaterializadas cuja unidade de medida se torna delirante nas mãos dos novos sacerdotes ocultistas da gestão e da economia....

Mereceria antes uma reflexão sobre a origem desta aparente desorientação. E, na sua raiz existem, pelo menos três causas simples. A primeira, uma perda de referências básicas do nosso quotidiano durante milénios. Os ciclos da natureza. Que pautavam a nossa vida colectiva: económica; social e mesmo espiritual. Quando a nossa actividade económica era essencialmente agrícola e a indústria era artesanal, dependente do meio físico e dos seus caprichos, as colheitas marcavam um ponto alto da nossa vida colectiva. Uma espécie de fim teleológico sempre repetido. Que nos levava a organizar rituais de fertilidade e a adorar deuses dela encarregues. Que nos levaram a construir simbolismos, ordens e litanias. E que regularizavam a nossa vida mesmo em aspectos de transição entre a idade de criança e a idade adulta, com cerimónias iniciáticas, que regularizavam a perpetuação da espécie com as épocas de festivais pagãos de acasalamento. Com a complexificação da nossa vida económica e social, à medida que nos transferíamos para cidades, este vínculo foi-se esbatendo. Fomos ganhando autonomia da nossa dependência imediata dos ciclos das estações, da nossa relação com o meio físico como primeiro ambiente de sobrevivência. E, chegámos à sociedade industrial, às megalópolis, ao consumo intensivo de materiais e de energias, cada vez com menos mistério. Perdemos a noção de um tempo. Um tempo sempre renovado. O tempo actual, tem outro sabor e não tem rituais. Ou melhor, tem outros rituais, mais rápidos mais inclementes. Temos menos tempo.

A segunda, é a perda do significado, do papel e da função da família. Durante milénios a família, herdeira do clã, da horda, não necessitara do Estado para ver nascer os seus, para os educar, para os ver procriar, para cuidar da velhice e para enterrar os seus mortos. Num espaço por vezes demasiado exíguo, e com pouca mobilidade geográfica e social, coexistiam três quatro ou mesmo cinco gerações. O mundo corria ao sabor dos ciclos lunares, a memória era perpetuada através de histórias e saberes transmitidos com vínculo de sangue. Hoje, estamos espartilhados, sem tempo nem lugar para amar e honrar os nossos, que se encontram à incomensurável distância de dois quarteirões, ao abrigo dos quais se constroem solidões insuportáveis.

A terceira é a perda de sentido teleológico e teológico da existência. Uma certeza de espiritualidade e de deslumbramento que se perdeu. Por isso se procuram mistérios de plástico em sítios imbecis. Não sei se Deus existe ou não. Não sou muito crente em explicações transcendentais e divinas. Não acho que a revelação seja superior ao racionalismo de Descartes. Não obstante, apeámos Deus do pedestal e no seu lugar não pusemos ninguém nem nada. Um vazio. Coisa que a natureza abomina. Talvez estejamos a substituí-Lo pelo dinheiro, pelo poder e pela fama. De certeza que não pela cultura, nem pela integridade nem pela compaixão.

©

José Manuel Fonseca

1 comentário:

ci4cc disse...

Porra!... ó anarca, tu por aqui podes estar menos cáustico, mas que lhe continuas a dar com força, lá isso continuas...